Auto da Compadecida

Auto da Compadecida Ariano Suassuna




Resenhas - Auto Da Compadecida


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Mariana.Vilela 25/02/2018

Auto da Compadecida
Assisti o filme na Globo várias vezes e amava aquela conexão dos personagens, além das tiradas engraçadas. Por isso, quando fui pegar o livro para ler, torci que ele fosse próximo ao filme.
O livro é dividido em três partes e, devo confessar que na primeira parte comecei a me desesperar. Não tinha quase nada do filme, tirando o fato de que tínhamos os mesmos dois personagens principais.
Mas a segunda parte foi a luz no fim do túnel: era possível ver as ideias do filme e dava para entender porque foram precisas algumas mudanças.
E a parte três foi a ápice: além de ser a melhor parte do livro, como todas as tiradas cómicas e satíricas estavam ali, essa parte foi quase toda colocada no filme. Tem até um diálogo idêntico!
O livro é de fácil leitura e super rápido de ler. Numa sentada você consegue lê-lo. Confesso, que fiquei com medo de ler um roteiro de peça de teatro, mas foi super fácil de ler. O autor é bem direto ao ponto. Não fica fazendo muitos rodeios.
Por fim, amei o livro e fico feliz que tenham feito um filme tão fiel.
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J R Corrêa 04/02/2018

Auto da Compadecida
A peça é narrada pelo palhaço e a história se inicia quando Chicó e João Grilo tentam convencer o padre a benzer o cachorro de sua patroa, a mulher do padeiro. Como o padre se nega a benzer e o cachorro morre, o padeiro e sua esposa exigem que o padre faça o enterro do animal. João Grilo diz ao padre que o cachorro tinha um testamento e que lhe deixara dez contos de réis e três para o sacristão, caso rezassem o enterro em latim. Quando o bispo descobre, Grilo inventa que, na verdade, seis contos iriam para a arquidiocese e apenas quatro para paróquia, para que o bispo não arrumasse problemas.
Depois de toda a confusão sobre o enterro do cachorro, João Grilo arma com Chicó para também tirarem vantagem da situação. Manda Chicó enfiar moedas em um gato e esconder uma bexiga de sangue por baixo da camisa, para o caso de o primeiro plano falhar.
João Grilo (Selton Mello) e Chicó (Matheus Nachtergaele) em Auto da Compadecida (Foto: Reprodução/Rede Globo)
João Grilo (Selton Mello) e Chicó (Matheus Nachtergaele) em Auto da Compadecida (Reprodução/Rede Globo)
Como havia perdido seu animal de estimação e também era interesseira, João resolve vender o gato que ?descomia? dinheiro para a mulher do padeiro, o gato no qual Chicó tinha colocado moedas. Quando o padeiro descobre, volta à igreja para brigar com João. Neste momento, estão reunidos todos na igreja, pois João estava entregando o dinheiro prometido ao padre, ao bispo e ao sacristão.
Ouvem-se tiros e uma gritaria do lado de fora, era o cangaceiro Severino. Ele entrou na igreja, roubou o dinheiro e matou o bispo, o padre, o sacristão, o padeiro e a mulher. Na hora de matar João Grilo, este lhe dá de presente uma gaita abençoada por Padrinho Padre Cícero que teria o poder de ressuscitar as pessoas.
Para o cangaceiro acreditar, João dá uma facada em Chicó e estoura a bexiga com sangue; Chicó cai e João Grilo toca a gaita enquanto o amigo levanta dançando no ritmo da música. Severino, então, ordena a seu capanga que lhe dê um tiro e depois toque a gaita para que ele possa ir encontrar com Padre Cícero e depois voltar. O capanga obedece, atira, mas quando toca a gaita nada acontece. Chicó e João Grilo se atracam com o capanga e este leva uma facada. Quando os dois estão fugindo com o dinheiro que pegam do defunto Severino, o capanga reage e mata João Grilo.
No céu, todos se encontram para o juízo final. O diabo e Jesus apresentam as acusações e defesas. João então chama Nossa Senhora para interceder por eles. É o que ela faz. O padre, o bispo, o sacristão, o padeiro e sua mulher são mandados para o purgatório. Severino e o seu capanga são absolvidos e enviados ao paraíso. João simplesmente retorna a seu corpo.
Quando retorna, vê Chicó lhe enterrando, levanta e dá um susto no amigo. Depois de conseguir fazer Chicó acreditar que está vivo, os dois se animam e fazem planos para o dinheiro do enterro. Até que Chicó se lembra da promessa que fez a Nossa Senhora, que daria todo dinheiro caso João sobrevivesse. Depois de uma discussão, decidem entregar todo o dinheiro à Igreja.
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Carol 16/01/2018

Leitura rápida e gostosa
A escrita de Ariano Suassuna nesse livro é maravilhoso. Texto voltado para teatro, já na estrutura das falas dos personagens, indicando algumas marcações de cenário, atos e personagens. Leitura fluiu; em um dia, já tinha lido tudo.

Vale muito a leitura, independente do envolvimento do leitor com o teatro.
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Daniel 15/01/2018

A peça mais importante do teatro popular ou "só sei que foi assim"
Como nordestino, paraibano e sertanejo, não posso deixar de admirar a obra de Ariano Suassuna. O homem que elevou a cultura popular nordestina ao patamar de Arte, criando em torno de si um movimento literário inteiramente novo, com linguagem e estilo próprios.
Peça encenada pela primeira vez em 1956, a obra em si é uma miscelânea de estilos, combinando regionalismo, barroco, a tradição clássica dos Autos e diversos episódios retirados de folhetos de cordel, convertendo elementos da cultura popular em Arte.

O regionalismo de Ariano é alegre, simples, despojado, bem menos ideológico do que o regionalismo áspero de Graciliano Ramos, mas nem por isso inferior em qualidade.
A mise-en-scene da peça privilegia a pantomima e o aspecto cômico, proporcionando um ar circense indispensável para a construção imagética das apresentações.
João Grilo, personagem arquétipo do malandro em sua versão nordestina, sobrevive às agruras da pobreza e da fome graças às suas artimanhas, das quais tomam parte seu amigo e companheiro Chicó.
Nota-se, além do apelo regionalista, certa crítica social sutil na forma como Ariano constrói os personagens do Padre, do Bispo e do Major, demonstrando a hipocrisia e soberba reinantes nas classes abastadas.
Uma obra prima do teatro popular e da literatura brasileira.
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Tay 14/01/2018

Compadecida
Sendo um drama do Nordeste brasileiro, mescla elementos como a tradição da literatura de cordel, a comédia, traços do barroco católico brasileiro e, ainda, cultura popular e tradições religiosas.
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Apresenta na escrita traços de linguagem oral [demonstrando, na fala do personagem, sua classe social] e apresenta também regionalismos relativos ao Nordeste. Esta peça projetou Suassuna em todo o país e foi considerada, em 1962, por Sábato Magaldi "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro".
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? Ariano é uma lenda da cultura popular brasileira, sempre dando vida e forma a personagens épicos e divertidos, vale muito a pena ler seus livros e conhecer sua tradição que trás foco na Cultura Nordestina.
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Víviann 22/12/2017

Essa é "A" peça
O clássico de Ariano Suassuna que fez parte da infância de todo nordestino raiz. Com louvor muito bem representado na sua adaptação cinematográfica de 2000 dirigida por Guel Araes, onde é possível ver elementos dessa cultura tão bela e diversificada que o povo brasileiro ama. Tudo começa com uma mentira, ou melhor, com várias mentiras de um amarelo safado, muito bem retratado por Ariano, que com sua esperteza e aquele jeito malandro de ser já conquista o coração do leitor, junto dele está Chicó, uma criatura tímida ou "abestada" que já nos deixa marcado com seu bordão "Não sei, só sei que foi assim" e suas histórias mirabolantes. Essa obra além de trazer elementos nordestinos encantadores, também é uma crítica ferrenha a igreja, onde com personagens cômicos e uma comédia "negra", traz um assunto considerado um tabu com uma certa leveza que não deixa de chocar e alertar. Agora vamos falar sobre a belíssima cena do julgamento, onde novamente ele traz elementos nordestinos para a construção do texto, em especial o termo "encourado" que eu como nordestina desconhecia, e com certa espontaneidade ele trata um momento tenso (foi o melhor que achei) com sutileza e diversão. Resumindo, é uma peça encantadora, rendendo uma boa leitura e com certeza faz parte da minha lista de favoritos.
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MariFontes 26/11/2017

É Ariano, né?
Aquele livro que você lê enxergando cada ato da peça. Ariano é(era) genial pela identidade regional evidente e simplicidade com que escreveu a obra.
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Ruanne 23/11/2017

Um livro que me trouxe a leveza das histórias que se contam e nunca se desgastam, ao contrário, se remoçam a cada novo contador. Ficou a vontade de conhecer mais e melhor o que Ariano disse e quis dizer sobre o Nordeste e a tradição.
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Gladston Mamede 12/11/2017

Uma peça de teatro que é uma declaração de amor ao Nordeste Brasileiro e o que há de maior riqueza: o povo, a sociedade, a cultura. Como é uma peça de teatro, a gente se sente tentado a ler de uma sentada. Mas como se deve fazer com uma boa cachaça, o melhor não é virar, mas degustar, prestar atenção aos detalhes e saborear a qualidade de pensamento de Suassuna.
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Rafael Bonfim 08/11/2017

Uma ode a cultura nordestina e uma crítica sutil.
Ariano Vilar Suassuna nasceu na cidade da Parayba, hoje atual cidade de João Pessoa, no estado da Paraíba em 26 de junho de 1926. Além de escritor era dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta e professor. Dentre suas obras mais conhecidas pelo público, podemos destacar: "O Romance d'A pedra do reino", "O príncipe do sangue do vai-e-volta", ambas de 1971. Sua obra mais famosa e com maior repercussão é o foco da presente resenha crítica, o "Auto da Compadecida" escrito no ano de 1955.

Nessa história João Grilo e Chicó, amigos inseparáveis se metem em diversas confusões e mau entendidos, sendo que um deles é tentar conseguir o enterro em latim do cachorro de estimação da mulher do padeiro. Se fosse apenas isso tudo bem, mas eis que entram nessa trama e bagunça uma confusão de informações entre o padre da paróquia de Taperoá, e Major Antônio Moraes, o home mais poderoso da cidade. Entre tantas artimanhas e lábias de "amenizar" a situação, João Grilo e Chicó seu fiel companheiro de "embrulhadas", se veem metidos em muitas enrascadas. Um dia o vilarejo de Taperoá é invadido por cangaceiros entre eles Severino de Aracajú, o mais temido do cangaço que com sede de vingança pelas atitudes avarentas dos moradores, resolvi dar cabo da vida e muitos, incluindo o padre, o bispo, o padeiro, a mulher do padeiro, nessa confusão Severino, seu cabra e o próprio João Grilo morrem, e todos vão parar numa espécie de julgamento, onde o Diabo faz o papel de advogado de acusação, Nossa Senhora a advogada de defesa e Jesus Cristo o Supremo Juiz.

O Auto da Compadecida é uma peça teatral concebida no formato estilístico dos "autos" que por sua vez consistem em um subgênero da literatura, com uso do teatro. Surgiu na idade média, região da Espanha por volta do século XII. Os autos possuem uma linguagem bem simples de fácil assimilação do público que o assiste. Uma grande característica dos autos, é que eles possuem uma forte temática sarcástica temperada com elementos cômicos, além de trazer uma mensagem de cunho moral ou até mesmo uma crítica em suas entrelinhas. Não podemos deixar de mencionar a grande influência do teatro espanhol do séc.XVII, assim como a commédia dell a'rte na obra de Suassuna.

A história se desenrola em 3 atos, e tem como pano de fundo a região árida do nordeste e a cidade de Taperoá. Por se tratar de um texto para o teatro, Ariano propõe que a forma apresentada seja a de pantomima, onde o narrador é um palhaço, e a cenografia seja tipicamente circense, com poucos cenários e apenas informações visuais que nos remetam a um vilarejo do nordeste. Temos aqui dois personagens principais que mais se destacam ao longo do texto: de um lado o astuto João Grilo, sempre com idéias mirabolantes para se sair bem diante das durezas que a vida lhe reserva. Do outro lado Chicó, o medroso e contador de histórias. Seja por necessidade ou por pura malandragem, João Grilo como o próprio Ariano mencionou em uma de suas entrevistas, é o retrato fiel de um grande personagem do cordel chamado Pedro Malasartes, homem cheio de intenções e idéias extraordinárias, assim como sua lábia. Enquanto Chicó é a essência do homem do campo, que tem história para tudo, mas na hora em que as coisas apertam, não obtém êxito no quesito coragem. Por meio de outros personagens fica evidente o desejo do autor de montar estereótipos e difundir uma explicação a respeito das mazelas da humanidade, sejam elas no tocante a fé, ao apego ao dinheiro, a moral ou até mesmo a politica. Temos na mulher do padeiro o adultério e cobiça, e em seu marido o apego ao dinheiro e maus tratos aos empregados. No padre, sacristão e no bispo o apego ao dinheiro e a exploração da fé ignorante dos fiéis. No Major Antônio Moraes (personificação do dono de terras rude, ignorante e poderoso). Severino de Aracaju (o justiceiro que o sistema criou). Ariano nutre seus personagens de humanidade, e pela inspiração na literatura de cordel, consegue traçar uma linha onde atravessam o sagrado e o profano. Na figura do juiz impiedoso temos o Diabo, que se opõe a imagem cálida e reverente de Jesus e Nossa Senhora Aparecida.
Um aspecto marcante nesta obra de Suassuna, é a extraordinária genialidade do autor de conseguir unir 3 gêneros tão distintos como a literatura de cordel, a comédia, e a essência da religiosidade barroca brasileira. Fica notório que Ariano vai buscar sua forma de escrita teatral nos famosos autos de Gil Vicente (Auto da barca do inferno por exemplo), e traspõe toda brasilidade nordestina com toda a majestade e nuances da literatura de cordel, com histórias já conhecidas como "O dinheiro" e "História do cavalo que defecava dinheiro". A arte do autor de recontar as histórias, por meio de novas histórias é brilhante.
Ariano sobrepõe o uso da linguagem informal e da cultura popular nordestina. Para alguns leitores algumas palavras podem soar bem estranhas, mas sabendo que a história se passa no interior do nordeste, logo vem a nossa mente a forma popular de dar nome as coisas e situações da vida.


Mas nem tudo são flores. Dependendo de quais óculos o leitor for enxergar as entrelinhas, poderá ver que surgem certos equívocos: no que se trata da área teológica não seria erro nenhum apontar profundas heresias (como o fato de Jesus sendo maior do que todos os santos, pedir conselhos para sua mãe, ou até mesmo o fato do Diabo como o pai da mentira proferir "verdades" e sentimentos justos. A crença no purgatório, sendo que o mesmo não é mencionado na Bíblia e já foi comprovado se tratar de uma forma de "amenizar" pecados e pessoas já falecidas, para assim o clero da idade média enchesse seus alforjes. Outra heresia bem clara é a personalidade do Diabo, que sendo o pai da mentira e o acusador, se torna um ser que profere verdades e demostra certa coerência no seu julgamento, fazendo o leitor concordar com as "idéias do cão". Se fomos olhar com as lentes políticas, religiosas, O Auto da compadecida, sai de seu tom e se perde em heresias. Pode agradar um leitor católico, mas não agrada um leitor que conhece verdadeiramente a Bíblia e suas reais doutrinas.


É uma obra maravilhosa, cheia de cores, sons e personalidade. Um livro marcante, e sem dúvidas o maior e mais conhecido texto brasileiro de teatro da atualidade. Por ser popular e unir gêneros ou simplesmente por ser uma crítica a religiosidade, ao poder, e uma ode à cultura nordestina.
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Ariadne.Alencar 18/10/2017

Este livro é muito bom e muito rapido de ler,li ele em 1 hora,sai mais rapido que assistir o filme.
O livro é bem divertido e faz críticas à sociedade nordestina daquela época mas,de um jeito leve e descontraído.
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Ana Letícia Brunelli 10/10/2017

É a primeira vez que considero a versão para o cinema melhor do que o livro. Mas, se o filme O Auto da Compadecida, do diretor Guel Arraes, é o sucesso que é, isso se deve, antes de mais nada, a este texto maravilhoso de Ariano Suassuna.
Preciso confessar que não gosto muito de ler texto em forma de teatro, e que fiz a leitura deste livro imaginando que fantástico teria sido, também, se o autor o tivesse escrito em forma de romance.
Mas, deixando de lado a forma do texto, o que precisa ser destacado neste caso, é a sagacidade de Ariano Suassuna ao criar personagens e histórias que, além de trazerem todo o brilho da cultura nordestina, representam de forma bem humorada os vícios e virtudes do ser humano.
Com diálogos deliciosamente engraçados e cenas divertidíssimas, é uma história quenos leva à refletir sobre o bem, o mal, a justiça e a misericórdia.

"É verdade que eles praticam atos vergonhosos, mas é preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. A carne implica todas essas coisas turvas e mesquinhas. Quase tudo o que eles faziam era por medo. Eu conheço isso, porque convivi com os homens: começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo" - a Compadecida.


Che 15/09/2017

SÍNTESE DA BRASILIDADE
Decidi ler essa peça com uma expectativa boa. Assisti a série televisiva inspirada nela (que agora vejo ser bastante fiel ao original) quando foi ao ar pela primeira vez, em idos de 1999, antes de ser convertida em filme no ano seguinte. Na época eu ainda estava no meio do ensino fundamental. Desde então, ficou a curiosidade de ler o original, que eu já esperava ser bom. Mas, sinceramente, não tanto. "Auto da Compadecida" já é uma das melhores peças que li, dentro e fora do âmbito brasileiro. Genial, complexa e simples - tudo ao mesmo tempo.

A peça do paraibano Ariano Suassuna beira a perfeição na sua simplicidade (sem nunca ser simplória) tangível a qualquer um que conheça minimamente os alicerces culturais da terra brasilis. Para os gringos será um espetáculo de curiosidade rara - mas pra nós, nativos, o sabor é invariavelmente mais acessível. Estão ali a 'mitologia' cristã que funda nossa religiosidade, a luta de classes plenamente arraigada no sertão com ricos mandando e pobres obedecendo, a 'lei de Gérson' e outras características fundamentalmente brasileiras adaptadas à realidade do centro do estado da Paraíba, mais precisamente na cidade de Taperoá, hoje com quinze mil habitantes, onde se passa a história.

Essa simplicidade é reforçada pela própria narrativa e pelas rubricas de Suassuna, que fez esse roteiro pensando que ele poderia ser encenado em teatros humildes, porventura sem troca de cenários, com pouco dinheiro, focado em poucos personagens (portanto, poucos atores) com papéis centrais e representativos tanto de camadas da sociedade - o rico, o 'clero', o padeiro medioclassista, os pobres trabalhadores, o outro também pobre que caiu na criminalidade - quanto de comportamentos que por alguma razão são caros especificamente à cultura tupiniquim (a mulher adúltera, o pobre malandro bom de lábia, o contador de causos, o cangaceiro, o 'coronel' que é quase dono da cidade, o religioso mercador de fé, a valorização do humor mesmo em situações de desgraça, etc).

A galeria de personagens é interessante de ponta a ponta - com destaque para João Grilo e o cangaceiro Severino, tratado aqui sem ares de julgamento moral ou de 'lição contra o crime' mas, pelo contrário, produzindo efeitos cômicos e diretos na cena do massacre na igreja. As passagens são umas melhores que as outras (chega a impressionar como o autor transitou por tantas delas numa extensão tão curta de páginas), indo do já célebre enterro do cachorro "rico" ao não menos famoso julgamento nas portas do Paraíso, capitaneado por um Cristo 'preto retinto'(sic), passando pelo impagável gato que "descome" dinheiro.

Me impressionou particularmente, no âmbito da primeira parte - toda voltada ao enterro do canino - o rancor plenamente justificado de João Grilo com o 'pet' dos patrões recebendo um tratamento melhor que ele quando estava doente de cama, assunto infelizmente cada vez mais atual e bastante característico das nossas classe média e alta: é o animal valendo (mito) mais que o ser humano, literalmente, sendo mais digno de pompas ritualísticas (funerais) do que pessoas que são enterradas como indigentes.

Li uma vez, em algum lugar, que se a ciência fala difícil sobre coisas simples, a arte busca fazer o caminho inverso. E é isso mesmo que "O Auto da Compadecida" me pareceu fazer em sua estrutura minimalista, mas imediatamente cativante em sua tragicomédia facilmente reconhecível e penetrável por qualquer brasileiro (mas que vai, sem dúvida, causar admiração e curiosidade nos estrangeiros). É um bom punhado de elementos da nossa cultura resumidos em três atos que passam voando na leitura, com a transição do apresentador-palhaço que participa ativamente do enredo, nos momentos de transição entre os atos, de modo discreto e bem bolado.

Como é que Suassuna conseguiu a façanha de resumir tão bem, em tão pouco tempo de leitura, tantos aspectos caros à nossa cultura, eu não faço a menor ideia. Só sei que foi assim. E que você também devia ler a peça pra se encantar com ela.


Juninho 02/09/2017

Emocão a 1000
foi legal em ler o livro pois assiste o filme primeiro pra ler o livro uns anos depois que vi o filme e a história é engraçada no filme e livro
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