Quinquilharias e recordações

Quinquilharias e recordações Anna Bikont...




Resenhas - Quinquilharias e recordações


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Bruno 16/04/2021

Uma grande autora
Juntamente com Agatha Christie, Wisława Szymborska ocupa o meu pódio de autoras favoritas. Eu a admiro muito enquanto poeta, mas também como pessoa. Ela tinha um carisma inigualável, um senso de humor perfeito, escrevia com a alma, olhava para a vida de uma forma diferente e muito interessante. Assim como os poemas dela, essa biografia me proporcionou uma experiência única: pude estar quase que ao lado de Szymborska. Quando o livro terminou, foi como se eu tivesse ido embora da casa de um amigo depois de uma longa visita.
Ela era inigualável e faz muita falta nos dias de hoje.
Na página 228, temos uma frase em que Woody Allen descreve a Wisława (pronuncia-se Vissuáva). Ele diz assim: Leio sem parar tudo o que ela escreveu. Eu sou conhecido como um homem espirituoso, mas o senso de humor dela supera o meu. Ela tem uma enorme influência no nível da minha alegria de viver. Ela corresponde perfeitamente à minha definição de artista profundo e penetrante, mas lembrando também que sua tarefa é o entretenimento do leitor. Ela faz exatamente isso.

Foi o Woody Allen quem disse isso, mas poderia muito bem ter sido eu. É exatamente isso que penso dela.

Ela é uma autora esplêndida.

A biografia em si, nem tanto. O tempo todo eles citam outros autores e momentos históricos da Polônia, e às vezes se aprofundam demais nessas citações. Temos aqui quase três páginas sobre a zeladora do prédio em que Wisława morou (Krupnicza) na época da Polônia comunista.

Esse capítulo sobre a Krupnicza parece ser sobre tudo o que estava ao redor dela, e não sobre ela, na verdade.

Mas todos os erros do livro estão completamente perdoados. É um livro engraçado, reflexivo, que retrata uma autora com essas mesmas características. Todos deveriam conhecer Szymborska.
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Valéria 11/09/2020

É uma biografia magnífica e um livro delicado, cheio de fotografias e colagens e fragmentos de versos. A mutação no desnudar da alma desta mulher discreta, que um dia sonhou e acreditou na utopia socialista, tornando-se em seguida uma crítica ferrenha do modelo. A força, a humildade e a coerência deste fragmento, me fascina:

"Não considero aqueles anos como perdidos. Eles acabaram por me proteger para sempre de todas as doutrinas que despertam as pessoas de ter a obrigação de ter pensamento independente. Sei como é isso: perceber só aquilo que se deseja perceber, ouvir apenas aquilo que se deseja ouvir e suprimir todas as dúvidas. Quando eu ainda achava que sabia e compreendia tudo, era muito mais vulnerável e instável do que hoje, quando o que sei com certeza posso contar nos dedos de uma mão."

Seus poemas como sua vida são discretos, incisivos, ásperos, irônicos e também por tudo isso, leves, carregados de imensa beleza, e uma vez lidos permanecem por muito tempo a nos assombrar. Gente na ponte sempre me provoca a reflexão da angústia de travessias, há sempre uma ponte no caminho, as vezes você está sobre ela, as vezes abaixo dela e outras tantas imaginando-a na conexão de mundos que existem apenas na sua vontade. Tão ou mais importante do que compreender o que te motiva seguir na ponte é aprender o que te faz permanecer nela, paralisado.

Gente na ponte
Estranho planeta e nele estranha gente.
Cedem ao tempo e não o querem reconhecer.
Têm maneiras de mostrar como se opõem.
Fazem desenhos como o que se segue:

Nada de especial à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma de suas margens.
Uma canoa que com dificuldade avança na corrente.
Sobre a água uma ponte e gente nessa ponte.
Gente que nitidamente acelera o passo
porque de uma nuvem negra
a chuva desatou forte a fustigar.

O que há nisto de especial é que isto é tudo.
A nuvem não muda de forma nem de cor.
A chuva não cai mais forte nem se interrompe.
A canoa navega imobilizada.
Essa gente na ponte vai correndo
no exacto lugar de há um bocado.

É difícil deixar de comentar:
Não é de modo algum um desenho inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixaram de contar com os seus direitos.
Privaram-no de influência sobre os acontecimentos.
Menosprezam-no e insultaram-no.

(...)

Há aqueles para os quais nem isto basta.
Chegam até a ouvir a chuva murmurar,
sentem-lhe o frio nas costas e pescoços,
olham a gente e a ponte
como se também se vissem nela,
no mesmo correr para o que nunca é mais que isso,
uma estrada sem fim, a vencer pelos séculos,
e crêem na sua desfaçatez
que é isso na realidade o que acontece.
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