A Paixão Segundo G.H.

A Paixão Segundo G.H. Clarice Lispector




Resenhas - A Paixão Segundo G.H.


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Evelyn Ruani 20/01/2011

Esse livro sou eu!
"Em uma outra vida que tive, aos 15 anos, entrei numa livraria, que me pareceu o mundo que gostaria de morar. De repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu!".

Clarice estava se referindo a Katherine Mansfield, nascida na Nova Zelândia, filha de pais ingleses e que abandonou o clima agradável, a vida abastada na bela ilha para entregar-se com paixão a seu intuito de tornar-se escritora. Mas eu, ao postar essa citação, me refiro a própria Clarice Lispector. Quando abri A Paixão Segundo G.H. e comecei a ler, aconteceu-me o mesmo. "Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu!".

A Paixão Segundo G.H. é um mergulho no interior do narrador-personagem, e um mergulho no nosso interior porque é impossível não ir se questionando junto com os questionamentos da personagem, é impossível não participar da viagem reflexiva que a personagem faz. Não há propriamente uma história neste livro. G.H. busca, pela introspecção, descobrir sua identidade e as razões de viver, sentir e amar e leva involuntarimante você junto:

"Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio"

Tudo começa quando a personagem G.H. se flagra tomando café da manhã automaticamente e isso a assusta. Faz com que ela questione o porque desse alienamento robotizado e decide visitar o quarto da empregada que se demitira, local onde fazia seis meses não entrava. Ao entrar neste quarto, é como se ela mergulhasse pra dentro de si e é quando vê a barata (tenho que confessar que pelo meu pavor em relação a esse inseto asqueroso, eu quase desisti da leitura, mas fico feliz de ter persistido, pois barata à parte, é um livro maravilhoso) e o nojo que sente do inseto a desafia assustadoramente para que se aproxime do ser primitivo.

É um mergulho, literalmente. No fundo, escuro e desconhecido e dá medo.

"Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação".

Leitura super recomendada!
Maila Yasmin 20/12/2009minha estante
Tivemos a mesma conclusão:

O livro é a gente!

Até parece loucura, mas é a mágica da literatura.

Li aos 13 anos e me sinto da mesma forma sempre que releio.


Reh 10/03/2012minha estante
Nossa , tive a mesma sensação , belo comentario.


Lorrana 02/07/2012minha estante
realmente é apreensivo.


Lenilson Matos 19/02/2013minha estante
muito bom!!!


Vanessa 03/04/2015minha estante
Descreveu perfeitamente! :) Foi a mesma sensação que eu tive!


Mafê 31/12/2016minha estante
Melhor comentário!


Michel 21/01/2017minha estante
Lispector é minha autora de cabeceira...


Milena 22/08/2018minha estante
Gente, é um livro que leio não entendo nada logicamente e entendo tudo intuitivamente. Coisa de gênio!




Serena 29/05/2009

Na última entrevista que clarice deu a cultura no ano de sua morte, ela diz que um professor não conseguiu absorver a mensagem de seu livro, e que ironica e contraditoriamente uma garota de 17 anos o tinha como livro de cabeceira!
Clarice não é uma questão de ser intelígivel, é sensorial!
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Concy 24/08/2009minha estante
"Clarice não é uma questão de ser intelígivel, é sensorial!"



Bravo!







*Carina* 03/07/2010

Uma mulher mata uma barata. Dito assim, fica difícil acreditar que esse livro possa ser bom. Realmente, bom não é o adjetivo que usaria para "A paixão segundo G.H.". Eu diria - estou dizendo, aliás - que é um livro intenso, cortante, angustiante, demasiadamente lindo e absolutamente aterrador. Tenho sempre muita dificuldade em falar sobre leituras como essa, leituras que me tomam e me transformam, das quais não consigo apreender nenhum conceito ou saber, mas apenas vivo-as como se fossem parte de mim. E sobre "A paixão segundo G.H." o que tenho a dizer é que foi uma leitura mortificante. Morri com a barata que G.H. esmagou, e voltei à vida com as palavras da mesma G.H. - mas minha vida nunca mais foi a mesma.
Citando Clarice (que diz de mim melhor do que eu jamais poderei fazer): "Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável."
Leiam. Deixem partes de si pelo caminho. É preciso morrer um pouco para, então, viver.
Pris 10/11/2010minha estante
É preciso morrer um pouco para, então, viver.


Jacy 31/07/2012minha estante
"...assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável." depois de ler essa frase fiquei louca para ler o livro. Parabéns pela sua ótima resenha!


Juh 14/12/2012minha estante
Mesmo ele sendo confuso demais ele te faz refletir sobre tudo, mas se ele não fosse confuso ele não seria escrito por Clarice




Jeison 22/07/2011

A Paixão Segundo G.H
Existem dois livros que eu escolhi nunca fazer uma resenha. Um deles é A Paixão Segundo G.H. Eu não tenho absolutamente nada para falar do livro, ou tenho tantas coisas que jamais conseguiria falar tudo. O momento foi o mais inoportuno para lê-lo, o livro foi o livro mais inoportuno para o momento. E as inoportunidades arrancaram-me brutalmente a terceira perna. E o que escrevi aqui não é resenha, é não-resenha. Que fique registrado.
Lamyla 24/05/2013minha estante
Tentei ler este livro numa fase não muito boa da minha vida, ainda era uma menina com 14 anos. Não lembro o motivo, mas abandonei a leitura, agora lendo sua 'não-resenha' me peguei com desejo de ler novamente, quem sabe dessa vez até a última página do livro.


Jeison 24/05/2013minha estante
Oi, Lamyla!
Acho que todos os leitores de Clarice concordam que você precisa estar no momento certo, no estado de espirito certo para ler os livros dela.
Confesso que lendo alguns trechos do livro depois, eu não entendi por que ele tinha me arrebatado tanto. Mas algum tempo depois eu entendi tudo de novo! hehehe




Vanessa bibliotecária 10/09/2009

Seria "Metamorfose" versão brasileira?
Qual seria o objetivo de ficar 180 páginas, uma perturbada sem nome, apenas conhecida como GH falando, falando, falando, até que ela decide beijar uma barata e aí, fim?

Será que a CL queria parodiar Kafka?

Só faltou o sexo das baratas... :D

Devo ser muito ignorante, pq até hj, nunca entendi o fundamento desse livro, aliás, acho que nunca vou conseguir entender CL. Por isso, decidi: NÃO LEIO MAIS CL!!!

Desculpe, mas não dá para dar uma nota para esse livro que, para mim, foi pura perda de tempo... E não venham me dizer que isso aí é "clássico", argh!!! (aliás, odeio essas denominações que o povo coloca nos livros para defini-los como "clássicos"...)
Samantha 19/09/2009minha estante
concordo absolutamente com vc, e ainda digo q não só não vi fundamento no q ela escreveu como cehguei a sentir náuseas (literalmente) com esse com esse livro.



tbm sou adepta da corrente: não leio mais, um outro começava com um maldito monólogo sobre um ovo.... , vá..... desculpe.... me empolguei.. rs


Luciana 23/01/2010minha estante
mas a propria Clarice disse que não era um livro fácil. Em uma entrevista ela disse que um professor universitário leu diversas vezes e nao entendia o livro, mas uma fa adolescente o amava e era seu livro de cabeceira.



As vezes, para ser honesta, acredito que todo livro tem seu momento certo em nossa vida. Se eu fosse ler machado de assis ou alvares de azevedo na adolescencia acredito que nao teria gostado e entendido ele, mas ao ler mais madura, anos depois, consegui entender melhor. Tem coisas que so quando temos a maturidade certa pra aceitarmos. Acho que esse livro se encaixa aqui tbm


Nanda 20/12/2012minha estante
Concordo plenamente com vc!
Abandonei o livro e não leio mais Clarice.
Acho os seus textos muito piegas...


Nádia C. 02/09/2015minha estante
que pena de ti... leia as outras resenhas que talvez entenderá que clarice ultrapassa qualquer entendimento. e como se a vida fosse em total compreensível e por isso você deixará de viver?


MrLimaSan 12/07/2019minha estante
"A POSSÍVEIS LEITORES Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente ? atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. C. L."




Francine 24/04/2009

Absorvendo Clarice
Foi difícil continuar a leitura quando a G.H. encontrou a barata no guarda-roupa. Fiquei com nojo, não conseguia mais abrir o livro. Assim passou meses e meses. Eu olhava pro livro e não conseguia ler, eu não queria saber o que seria feito com a barata.
E num dia, como um dia qualquer, peguei o livro e não o soltei mais. Digeri a parte da barata, como deveria ser feito. E, ao final, compreendi que a barata é o medo de encarar o que é preciso ser encarado, é o medo de aceitar as dificuldades, os erros, os anseios, as nossas próprias falhas. É um lindo livro, um mergulho profundo as nossas peculiaridades. Apaixonante! E agora, toda vez que tenho um problema, não finjo que não é comigo, engulo!
Ma 18/08/2010minha estante
mesmo vc ter contado oq ela fez com a barata ainda continuo sem a coragem de ler esse livro.


Cris 04/02/2018minha estante
Também tive essa mesma sensação! Mas decidi dar outra chance e gostei muito! Apesar de achar umas partes meio confusas, outras me tocaram bastante.




Izabela 29/09/2010

A não ser que você seja obrigado(a) pela escola a ler esse livro, aconselho a escolher outro melhor para passar o tempo.
Achei PÉSSIMO, horrível, entediante.
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Bell 16/01/2010

A Paixão de G.H nada mais é do que a Paixão de todo o Gênero Humano. Acompanhamos o processo de uma mulher se despindo das suas limitações humanas. Limitações que estamos tão acostumados a ver como provas de superioridade da nossa espécie, tal como a linguagem, a racionalidade, a individualidade, a civilização, mas que no fundo nos afastam da vida pura e simples, da matéria que somos feitos.


G.H (a personagem, todos nós) tão impregnada de "civilização" que não reconhece outra mulher como sua igual por causa de preconceitos de cor e classe social (tudo isso inventado por nós), indo mais além ela não reconhece a barata como seu igual (mas não somos todos animais?). A barata é feia? Mas feia por si só ou porque não condiz com o conceito de beleza que o homem criou? A barata é nojenta? Nojenta por si só ou porque vive nos lixos e esgotos que o homem criou? A barata que existia muito antes de nós vivia no lixo? Ela era, então, nojenta? Despida do nosso conceito ela nada difere de nós em sua composição, em sua ânsia por sobreviver, em sua primitividade.


Clarice a coloca até como acima de nós em sua integração com a natureza, com o divino, enquanto nós nos afastamos com a ilusão de superioridade. Inversão assim dos nosso valores culturais já vistos como "naturais" me fez lembrar um dos trechos mais lindos que já li da Insustentável Leveza do Ser quando acompanhamos Tereza e Karenin (http://www.svbpoa.org/index.php?Itemid=28&id=332&option=com_content&task=view)


Se no começo a narradora faz o possível para nos incutir o nojo à barata, no final procura fazer com que aceitamos a integração, que percamos o nojo. Mas será que alguém consegue chegar ao fim do livro sem ainda sentir esse nojo? Quem dera nos despir de preconceito fosse fácil, o drama de GH por páginas e páginas é doloroso, cruel, místico, confuso e inumano, e mesmo assim, nem ela consegue cruzar a linha da humanidade com total desapego, com total abandono.


As palavras que abrem o livro já diz tudo, há uma época certa pra ler Clarice, não desista se ainda não for a sua, retome-a depois, entregue-se ao livro como G.H. se entregou à barata, você só tem a ganhar.

"A POSSÍVEIS LEITORES

Este livro é como um livro qualquer.
Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada.
Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente - atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém.
A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria."

C.L.
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Dinhö 23/06/2010

livro de cabeceira
Minha "bíblia" por quase 5 vezes. Quando li pela 1ª vez, não entendi quase nada, mas sentia que tinha ali algo de que precisava. Algo que falava de algo que eu não percebia racionalmente, mas que sentia intuitivamente.

Uma obra prima que fala da total desconstrução do ser humano frente ao mundo. Versa sobre as miudezas insignificantes que formam o ser insignificantes de somos. Leva-nos pela mão a habitar o nosso lado selvagem e, propositalmente, desconhecido.

Não é leitura fácil, mas que vale cada uma das batalhas travadas página a página.

have a good fight!



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Andressa 11/06/2014minha estante
Resenha mal escrita, feita às pressas sem estrutura nenhuma, só para registrar meus pensamentos antes que eles me fugissem. Não reparem, galera! Juro que eu escrevo muito melhor que isso quando tenho tempo. Hahaha! ^^'




Lúcia Ramos 07/09/2009

Transformação.
Que livro é este? Que livro é este que vai transformando a gente, revirando a gente pelo avesso e reconstruindo a gente na medida em que a própria G.H. se transforma, se revira do avesso e se refaz? Maravilhoso!
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Léia Viana 17/02/2011minha estante
Clarice é a minha paixão literária!

Adoro descobrir o mundo através de suas palavras, adoro desvendar os mistérios de seus textos.
Ela é hermética, perturbadora e filosófica, uma verdadeira bruxa literária, que consegue nos agitar sentimentalmente através de seus escritos.

É impossível ser a mesma pessoa sempre ao ler Clarice.

Neste livro mesmo, em que ela narra a descoberta da paixão através de seus personagens, de uma maneira tão intensa e quase que selvagem, é de tirar o fôlego e de nos deixar com a boca cheia d'água!

São muitos, os conflitos existenciais propostos por Clarice neste livro, o que dá uma oportunidade imensa ao leitor se identificar com o texto e com as sensações experimentadas através dos personagens.

Creio que seja por isso que Clarice não seja fácil de se ler, porque ela nos perturba, nos deixa despido de nós mesmos, de nossos sentimentos.

Adoro ler suas resenhas, mesmo que nossas leituras não sejam assim, tão compatíveis, adoro ler a maneira que você descreve a sensação que um livro exerce em você.


Fabio Shiva 19/02/2011minha estante
Oi meu bem!!!
O seu comentário é uma linda e maravilhosa resenha! Aprendo muito com você, gosto muito de seu jeito de se expressar!!


Léia Viana 20/02/2011minha estante
Por isso que repito sempre: É impossível ser a mesma pessoa ao ler Clarice.
Descobrir quem sê é, proposto o tempo todo por Lispector nesta obra é um desafio e tanto!
Ela faz com que vasculhemos a nossa alma, que nos viremos ao avesso de nós mesmos!
Impossível não se perturbar! Sair imune disso tudo!

Fiz algumas referências a outro grande livro dela: "Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres", creio que você vai adorar a maneira filosófica em que Lispector narra, através de seus personagens, a descoberta do amor. É lindo demais este livro, vale e muito a pena ler.


Tarsila 11/05/2011minha estante
Fantásticos seus comentários sobre o livro! Clarice é magnífica! Minha escritora preferida, quero ler toda a obra dela...


Fabio Shiva 11/05/2011minha estante
Oi Tarsila querida!
Valeu pelas palavras e boas energias!
E olha que sincronicidade: vi seu comentário justamente quando ia iniciar a resenha de "Água Viva"! Clarice é irresistível!!!


Juliana 21/10/2016minha estante
Fábio Shiva, só tenho a agradecer. Suas resenhas muitas vezes me norteiam a escolher qual será minha próxima viagem, no momento estou entre Clarice e Hesse, lendo G.H e Sidarta...belas coincidências, ou não.




Gláucia 21/11/2012

A Paixão Segundo G.H. - Clarice Lispector
Meu segundo romance da autora, o primeiro foi A Hora da Estrela que considero um título mais fácil por ser mais linear e menos intimista. Não considero um livro ruim mas é o tipo de leitura que não aprecio por não me causar prazer ou deleite e sim angústia e melancolia. Clarice...
Marcia Cogitare 01/12/2012minha estante
Compreendo sua impressão desse livro. Clarice realmente tem seus efeitos colaterais, como você mesmo citou - Angústia e Melancolia em doses cavalares.




Matt 29/06/2011

G.H. sou eu?
G.H. sou eu?
É assim que começo, é complicado de falar sobre esse livro, ele é o tipo de livro que para mim tem que ser lido sem pausa, como um tiro.
Começa e não para, até mesmo pelo poder que o livro possuí em te prender,acredito que muitas partes são incompreensíveis a primeira leitura,
mas dessa primeira visão sobre o livro, eu me senti em uma conversa com G.H., uma conversa na qual ela exponha suas indagações muitas delas compactuadas por mim, e tal como Clarice fala no inicio do livro: "Este livro nada tira de ninguém, a mim por exemplo,
a personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil, mas chama-se alegria". Eu concordo plenamente, a personagem te pertuba mas aos poucos você consegue entrar em contato com G.H. transmutando-se á ela mesma, sendo G.H. sentindo o que G.H. sente, e isso é o pertubador do livro, porque pode ser que muita coisa não esteja em sincronia ao pensamento de G.H. mas é inevitavél você não ser G.H. e sentir buscando também a paixão que ela procura entender...
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Sarah 11/07/2017

É difícil perder-se
"É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo". (p.10)

Esse trecho aparece em uma das primeiras páginas do livro. De maneira um tanto quanto intensa G.H. começa a nos contar que está perdida e meio confusa sobre quem ela é, sobre o que já não faz sentido, se é que algum dia fez. Ela simplesmente vai soltando muitos pensamentos sobre a experiência recente que teve. Nós, leitores, ainda não sabemos qual é essa experiência, então o início da leitura é bastante confuso para nós também. É como se estivéssemos dentro da cabeça de G.H., em meio a todos aqueles pensamentos, sem saber do que se trata. Até que, de repente, ela se volta para nós e diz: “me dá sua mão, vou te contar tudo”. G.H. diz que precisa imaginar que está segurando a mão de alguém, para seguir em frente e entender o que aconteceu, para talvez se encontrar. Num primeiro momento, essa mão que ela segura é a mão do leitor, mas ao longo do livro isso muda, fica meio indefinido, na verdade. Às vezes parece que ela está segurando a mão de um (ex) companheiro e até mesmo de sua mãe e logo volta a ser a mão do leitor. É um pouco confuso, mas imagine que você está dentro da mente de G.H. e ela está falando, na verdade, consigo mesma. Você fala sozinho? Quando falamos sozinhos, direcionamos nosso discurso a um monte de gente e a ninguém, ao mesmo tempo. Essa é G.H segurando essas mãos invisíveis.

Mas quem é G.H.? A história se passa dentro de um quarto e o que conhecemos de G.H é o que ela nos conta dessa experiência nesse cômodo da casa. Mas algumas informações oferecidas no livro podem nos dar uma ideia do perfil dessa personagem. Ela mora em um apartamento de cobertura, isso já é um sinal de que é uma mulher rica. Ela nos diz que é escultora, não uma grande artista, talvez uma “meia boca”, mas aparentemente é reconhecida. Ela tem maletas com suas iniciais gravadas, G.H,, o que é mais um indício da sua boa situação financeira. Provavelmente viaja bastante e quem tem maletas com iniciais gravadas? Não chegamos a conhecer seu nome. Talvez porque ele não fosse realmente importante, não importa tanto a pessoa em si, mas sim todo esse processo, descrito pela narradora.

Resumidamente, o que acontece é: G.H demite a empregada que trabalhava em sua casa. Ao fazer isso, resolve que vai organizar o quarto onde esse empregada vivia, um quartinho nos fundos do apartamento. G.H. imagina que irá encontrar o quarto bastante bagunçado, cheio de poeira e com objetos inúteis acumulados. Ela nos diz que gosta de organizar coisas e que é muito boa nessa tarefa, então vai ao cômodo com a intenção de colocar em prática uma de suas melhores habilidades. Mas, para sua surpresa, ao entrar ali encontra um lugar completamente limpo, sem bagunça nenhuma, um lugar arejado, que com a luz do sol entrando pela janela ficava insuportavelmente claro. Não era nada daquilo que G.H. esperava e isso a deixa bastante desconcertada. Além disso, em uma das paredes do quarto ela encontra um desenho feito com carvão, que acredita ter sido feito pela empregada. O desenho era um contorno de um homem, uma mulher e um cachorro. Encontrar esse mural também a deixou incomodada, entendeu aquele desenho como um julgamento da empregada, de quem ela não conseguia sequer lembrar o rosto. Enfim, G.H. se perdeu em todo esse contexto. Encontrar o quarto completamente diferente do que ela esperava foi uma quebra na normalidade da sua casa, da sua rotina, da sua mente. Ela estava chocada, não sabia o que fazer. Para piorar, quando abre a porta do guarda-roupa se depara com uma barata.

Acredito que não seja agradável para ninguém se deparar com uma barata, mas G.H. deixa muito claro o quanto ela odeia esse pequeno animal. Então esse encontro causa nela um terror e um nojo gigantesco. Encontrar a barata aumentou aquele sentimento de confusão que ela teve ao entrar no quarto. Ela começa a pensar naquele animal e o descreve com detalhes (é uma passagem meio tensa do livro, se você também odeia baratas). Nesse momento G.H. começa a se identificar um pouco com a barata. Vendo outras interperetações do livro após minha leitura, encontrei alguns comentários que diziam que o encontro de G.H. com esse animal representava o encontro com o Outro, o encontro com o diferente, com quem ela teria que lidar. Mas quando li esse livro pensei muito mais em um encontro consigo mesma, um encontro com um lado seu totalmente detestável, asquereso, primitivo. Em diversos momentos, G.H. se compara com a barata, não se distanciando, mas se aproximando, encontrando coisas em comum, por mais que essas características não fossem desejáveis. É justamente isso que aumenta o seu nojo, seu terror, sua confusão mental. Imagine que essa mulher rica, bem sucedida, com mania de organização, de repente, se veja em uma barata. É chocante.

Nesse ponto eu me lembrei um pouquinho do livro A Metamorfose, do Kafka. Embora sejam livros bem diferentes e apesar de que não sabemos em qual inseto asqueroso se transforma o personagem de Kafka (não fica claro que é uma barata), a identificação com um animal repugnante me parece aproximar um pouco essas duas histórias. Mas enquanto Gregor Samsa se transforma de fato nesse animal, G.H. observa a barata de fora, tentando sem sucesso um afastamento dela. Bem, chega um momento em que nossa personagem mata a barata, ou pelo menos ela acredita que mata. Com a porta do guarda-roupa ela esmaga o animal, que fica com o corpo partido no meio, soltando uma massa branca de dentro de si. A barata ainda mexe as antenas e as patas, mostrando para G.H. que sair dessa situação não vai ser tão simples quanto parece.

"E na minha grande dilatação, eu estava no deserto. Como te explicar? eu estava no deserto como nunca estive. Era um deserto que me chamava como um cântico monótono e remoto chama. Eu estava sendo seduzida. E ia para essa loucura promissora. Mas meu medo não era o de quem estivesse indo para a loucura, e sim para uma verdade – meu medo era o de ter uma verdade que eu viesse a não querer, uma verdade infamante que me fizesse rastejar e ser do nível da barata. Meus primeiros contatos com as verdades sempre me difamaram." (p.59)

A analogia com o deserto é aprofundada por G.H. e a sensação causada é de estarmos cada vez mais perdidos junto com a persongem. Muitos comentários que encontrei após minha leitura diziam que esse, como a maioria dos escritos de Clarice Lispector, não era um livro racional, para entender, e sim para sentir. E é verdade. Se você tenta achar alguma lógica enquanto lê esse livro talvez realmente dificulte a experiência de leitura, mas se você se entrega aos sentimentos compartilhados pela personagem, então você realmente percebe sobre o que é o livro. Você passa a se identificar, afinal de contas, quem de nós nunca se sentiu perdido?

Enfim, chega o ápice da história. Em meio a tudo isso, G.H. começa a se dar conta que para sair dessa confusão ela precisa comer a barata. Sim, isso mesmo que vocês leram. Não, isso não é um spoiler, qualquer resumo que você encontre do livro por aí vai te contar que, de fato, G.H. come essa barata morta por ela, com toda sua massa branca nojenta. Mais uma passagem tensa do livro, se você odeia baratas. Para que comer a barata? Acredito que esse momento é como uma libertação para G.H. Ela incorpora – literalmente – esse seu lado primitivo e asqueroso. Finalmente ela se encontra, ou pelo menos consegue sair desse estado de confusão. Lembram da frase no início desse texto, sobre ela se achar, “mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo”? Não consigo identificar se no final G.H. realmente se encontra com seu lado primitivo, dessa neutralidade viva, como ela diz, e se transforma, ou se ela simplesmente vira a página, ou seja, consegue sair daquela confusão e não quer voltar a pensar nisso. Você que já leu o livro, o que acha? Eu acho que fico com a primeira opção.

Nas minhas pesquisas posteriores, encontrei um vídeo muito interessante sobre esse livro, que você pode assistir aqui. Nesse vídeo, a Carmem fala algo interessante sobre o nome do livro, que eu não havia parado para pensar. Ela chama a atenção para a referência bíblica que existe no título “A paixão segundo G.H.”. “A paixão de Cristo”, “o evangelho segundo…”. Se pensarmos por esse lado, a paixão que seria a trajetória de dor e humilhação, a morte e a ressureição é vivida por G.H. naquele momento do quarto, em sua perda e encontro de si. Na ressurreição ela retorna como ela mesma, mas, ao mesmo tempo, diferente, renovada. Essa ideia só confirma meu achismo de que comer a barata foi o momento em que ela, finalmente, se encontrou.

No início do livro Clarice Lispector diz que gostaria que A paixão segundo G.H. fosse lido apenas por “pessoas de alma já formada”, “aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar”. Fiquei pensando o que a autora quis dizer com “pessoa de alma já formada”. Será que ela espera que essa pessoa se dê conta de que, na verdade, nunca está completamente formada? Que sempre pode perder-se e encontrar-se e nesse processo conhecer a si mesma? É difícil saber, mas eu gosto de pensar que seja isso.

site: https://sarices.wordpress.com/


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