O Duplo

O Duplo Fiódor Dostoiévski




Resenhas - O Duplo


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Lais Isabelle 01/12/2020

Dostoiévski trabalha com personagens miseráveis, humilhados, pobres, com poucas perspectivas de uma vida melhor. Golyádkin é um personagem que, talvez, poderia ascender na vida, não fosse sua loucura e mediocridade como pessoa. Seu duplo nada mais é do que uma projeção do que ele gostaria de ser: desenvolto, bonito, falante, persuasivo. E é justamente esse desejo de ser diferente ? retratado pelo seu duplo ? que o leva para mais fundo nesse poço e o afoga em paranóias.
Manoel Rodrigo 10/12/2020minha estante
Sua resenha .e
Sua resenha despertou em mim a vontade de ler esse livro, apesar de já ter ouvido falar dele.




Felipe 05/10/2012

"Assim é a coisa!"
Durante a narração de O Duplo, Dostoiévski constantemente chama o seu protagonista de herói: O nosso herói, O herói dessa história. Tudo isso não passa de um efeito satírico, pois ao longo do romance enfrentamos uma completa desestruturação do conceito clássico de herói dentro de uma narrativa. O que temos é um personagem hediondo assombrado por uma monstruosidade: o seu próprio duplo. Aqui Dostoiévski antecipa em alguns anos aquilo que ficou conhecido como uma narrativa kafkiana: um enredo fantástico encharcado até a tampa de realismo. Não temos uma discussão pormenorizada sobre o duplo e os personagens trabalham em prol dessa naturalização do inaudito, pois ninguém reflete sobre ou fica perplexo com o duplo que vaga por todos os cantos enquanto o nosso herói duplicado cai em um estado de catatonia diante desse evento horrendo.

Dostoiévski, além de criar uma das histórias mais nefastas, nos brinda com uma aula de elegância. Como construir uma história fantástica sem cair em questionamentos insípidos diante do próprio evento narrado? Eis uma receita simples: tirar o evento da categoria surreal e lança-lo, de forma veloz, no campo das coisas possíveis, criando assim um efeito singular, dos mais atrozes.

Fugindo de uma patologização medíocre, correndo longe de um cientificismo barato sobre o cérebro humano, o que existe aqui é a arte, arte como sonda, arte que penetra os meandros humanos para investigar não a doença individual, mas a doença coletiva de uma sociedade extremamente perversa, movimentada por engrenagens sombrias que levam um indivíduo a loucura em caso de não adaptação a esses ideais obscuros de convivência.

Uma obra-prima!
Tuzin 07/07/2014minha estante
um outro pensamento para a constante utilização do termo "herói" seria assumi-la literalmente. ora, um homem nas condições da personagem principal que, mesmo assim, mantém sempre uma fagulha de esperança consigo é digníssimo de tal caracterização, sem ironias. ainda há o ponto de vista mitológico, como se o recorrente uso das expressões fosse um alerta para o fim trágico que, no fundo, nosso herói já estaria destinado a cumprir (e, por diversas vezes na narrativa, externou tal pressentimento).




LidoLendo 27/03/2018

Comeu 1 ou 11 pasteis?
Simplesmente AMEI O Duplo! Comparando com Gente Pobre, ambos abordam , no fundo, a mesma coisa: o homem pressionado pelas amarras sociais.

E aqui n'O Duplo, essa pressão é tão grande que Golyadkin literalmente surta!

Não quero dar spoiler... mas posso dizer que Dostô coloca a gente numa sinuca de bico o tempo todo!

Leitura para ser fazer sem pressa, com atenção! E depois de ler, procure alguém pra conversar sobre o livro. CERTEZA que vc vai precisar!

Lendo Dostoievski em ordem Cronológica
#dostôesselindo
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Erika 24/07/2020

"Nunca dei uma contribuição mais séria para a literatura do que essa."
Golyádkin é um cara solitário que passa a conviver com seu duplo, idêntico em quase todos os aspectos, com apenas uma exceção: a personalidade.

Segundo livro publicado por Dostoiévski, O Duplo, ao contrário de Gente Pobre, não foi bem aceito pela crítica. Porém, é o marco inicial dos personagens que tanto caracterizam a escrita do autor: os "homens do subsolo", de personalidade distorcida, tomados por conflitos interiores e socialmente excluídos.

No caso de Golyádkin, senti muita pena do seu sofrimento com o isolamento social e da necessidade que ele sentia em ser aceito pelas pessoas ao seu redor. Rolou uma reflexão aqui sobre essas pessoas (não são poucas, viu?) que precisam se sentir populares, estar sempre no centro de tudo e o quão frustrante deve ser não atingir esse objetivo.
Douglas 15/09/2020minha estante
Mais uma ótima resenha, Erika. Pretendo ler após terminar Gente Pobre.


Erika 15/09/2020minha estante
Está lendo em ordem cronológica?




Erudito Principiante 30/10/2020

Primeiro contato
Esta foi minha primeira leitura de Dostoiévski e confesso que não foi de ?fácil digestão?. A obra é complexa, a forma como o personagem principal, Yákov Pietróvitch Golyádkin, se expressa chega a ser por vezes cansativa pois ele é confuso, relutante, indeciso e seu pensamento é expresso exatamente assim pelo autor. Em vários momentos nos pegamos em dúvida se o duplo de Golyádkin é mesmo real ou se é um delírio do personagem, que apresenta certo desequilíbrio emocional/mental. Dostoiévski nos apresenta um pouco do serviço burocrático público da Rússia tzarista e a sociedade em torno desse serviço, que é o ambiente no qual o pobre Golyádkin, funcionário de baixo escalão, vive. Seu duplo é aquilo que ele deseja ser, sociável e amado por todos, mas ao mesmo tempo apresenta um comportamento que lhe parece reprovável. Mas depois de ?digerido?, confesso que gostei do livro e estou curioso (e porque não dizer ansioso) para ler outras obras de Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski.
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Stefanie Oliveira 23/04/2014

Como é difícil falar de Dostoiévski.
Sinceramente? Não por conta do autor em si, mas sim por causa de um bando de chatos que se acham cultos por pensar que se você está falando sobre o escritor em questão, automaticamente você tem de falar bem. Automaticamente você precisa fechar os olhos para o que te desagrada e aceitar tudo como se estivesse perante uma perfeita genialidade. Será?
Não pra mim.
“Você tem cacife pra falar de Dostoiévski?” já cansei de ouvir. Quem sou eu? Uma garota de 22 anos de idade que já leu incontáveis títulos ao ponto de gostar de analisá-los, criticá-los. Sou uma leitora. Mas, aos olhos de alguns, alguém que ainda não pode abrir a boca para falar de Dostoiévski se não for falar somente bem. Sinceramente? O mundo vai ser bem melhor quando pessoas pararem de se ser totalmente cegas por determinado autor. Não é porque fulano escreveu um livro bom que todos os outros automaticamente são indiscutivelmente bons também.
Mas voltemos à resenha e continuo com o assunto mais adiante.
Em “O Duplo” nos é apresentado Golyádkin, um funcionário público russo como outro qualquer. Isso, claro, se não fosse a maneira com que, certo dia, passasse a conviver com seu próprio duplo. Ou seja, uma espécie de segunda personalidade materializada em uma segunda pessoa que, ao menos fisicamente, é idêntica ao homem, de modo a até confundir aqueles que vivem ao seu redor.
Golyádkin primeiro é o que chamamos de um fracassado. Sim, tem emprego, um lar, mas não é algum tipo de exemplo de vida social. As pessoas a todo o tempo o desprezam, caçoam de sua condição e, como se não bastasse, ainda fazem piada de sua personalidade. Golyádkin é a chacota do meio, e mesmo assim, a todo tempo, tenta agradar as mesmas pessoas que o apedrejam. Por quê? É então que surge a parte genial de Dostoiévski.
Sinceramente, para mim, a genialidade do autor não está na literatura propriamente dita; mas, sim, na psicologia. O modo com que o escritor, em suas obras, aborda a mente humana é onde se pode encontrar sua maestria. Honestamente? Como escritor, vejo Dostoiévski sentado em uma mesa e escrevendo... Escrevendo sem parar. Até que, ao chegar à última página, vira para a pessoa que vai publicar seus livros e diz: “Pronto, acabei. Pode publicar”.
“Ah, mas isso é estilo russo de escrever, mimimi”, sim, eu sei que russos escrevem de um modo mais robusto, mas ainda é demais para mim.
Sobretudo porque, qualquer um que lê, vai notar que há certo atropelamento de palavras. Como se a afobação em escrever fosse tanta que ele mal pudesse respirar. Isso é um defeito? Jamais. Acho brilhante uma pessoa que tem uma espécie de surto literário e escreve obras magníficas... Como a exemplo do grandioso Kafka e seus livros de sentada, como é o caso de “A Metamorfose”. Mas, ainda assim, acredito que o livro seria bem melhor caso Dostoiévski, ao terminar a obra, a relesse e revisasse não o enredo... Não a história, não suas ideias. Mas sim a maneira com que ele colocou as palavras. Como formou as frases. Como desenvolveu certos pensamentos.
Vejo Dostoiévski também como um gênio. Mas lá para a área de Freud. Justamente porque seus personagens parecem terem sido totalmente pensados como exemplificações de onde a mente humana pode chegar. Justamente porque, após a leitura e certa reflexão, vejo o Senhor Golyádkin segundo como se realmente fosse aquela atitude que todos nós tomamos, ao menos uma vez na vida, quando queremos ser agráveis. Sabe quando você não diz algo que sente vontade... Quando toma certo cuidado para agir por saber que vai atingir e machucar uma terceira pessoa?
Eis o duplo.
Através dessa obra, Dostoiévski tenta mostrar a nós, leitores, até que ponto podemos ir na tentativa de sermos agráveis, aceitos. Justamente porque, com o decorrer do livro (isso não é spoiler!) a segunda personalidade do funcionário público passa a tomar conta de sua vida. Por quê? Porque está sendo vantajoso. Porque agora as pessoas gostam “dele”. De modo a fazer com que se sinta pena desse personagem que era para ser o protagonista, o qual abaixa a cabeça tão facilmente a qualquer tipo de afronta que, na minha opinião, beira à humilhação. É humilhação.
Quanto ao desfecho da obra... Sinceramente é como um tapa. O enredo todo em si é muito inteligente, mas o clímax... Ah sim, esse soa como um murro na cara da sociedade que quer tanto caminhar ao encontro do outro... Que acaba se distanciando de si mesmo. De modo a ainda mais nos deixar impressionados com como um homem em 1846 já compreendia a mente humana em seus cantos mais obscuros. Devidamente naqueles lugares mais imersos que tantos tentam ignorar. Seja por medo, por covardia, ou simplesmente por não terem certeza se conseguem encontrar o caminho de volta.
A história é boa. Os personagens são brilhantemente criados, mas a escrita do autor poderia, e muito, ser melhor. Sinceramente foi o que prejudicou o livro, aos meus olhos. Foi o que o deixou cansativo e arrastado. Principalmente com uma série de repetições de palavras desnecessárias, como o uso de “segundo” incontáveis vezes no mesmo parágrafo sendo que já sabíamos que estava sendo descrito os atos do duplo de Golyádkin e não dele mesmo. Nós já sabíamos, tio Dostoiévski! Viu? Não precisa repetir dez mil vezes no mesmo parágrafo! Nós conseguimos entender de quem o senhor estava falando!
Ah tá duvidando? Me achando louca? Então vou colocar aqui um trechinho para você de outro momento:




“ – o que foi mais ofensivo para o senhor Golyádkin –, alguns dos funcionários jovens, ainda sem qualificação funcional, rapazes que, segundo justa referência do senhor Golyádkin, só sabem jogar eventualmente cara ou coroa e bater pernas por aí – pouco a pouco cercaram o senhor Golyádkin, agruparam-se para ele com uma curiosidade um tanto ofensiva. Era um mau sinal. O senhor Golyádkin o percebia e de sua parte se dispunha a ignorar tudo. Súbito uma circunstância totalmente inesperada liquidou e, como se diz, deu cabo do senhor Golyádkin.”



Viu? Ufa!
Sem contar que, só nessa página, a expressão “Senhor Golyádkin” aparece nada menos, nada mais do que: Dez vezes! É isso mesmo.
Vai dizer que não é desnecessário?
Essa leitora então “sem cacife” para falar do autor russo finaliza a resenha. Mas não sem antes admitir que, se eu tivesse vivido na mesma época de Dostoiévski, faria alguma espécie de convite: “Hey, por que não largar a literatura e esperar alguns anos? O Freud está crescendo e jaja você vai poder trabalhar com ele na psicologia! O que acha? Porque você é muito bom!”.
Nilton 13/08/2014minha estante
Helli! Gostei muito do seu comentário, afinal não é porque se trata do "Grande Dostoiévski" que devemos fechar os olhos e assentir tudo cegamente. A única parte que não apoio é a questão de Dostoiévski largar a literatura, isso realmente foi... como eu poderia dizer... realmente faltam-me palavras! Acredito que você deveria ler obras como Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov (que foram escritas depois de O duplo), largando a literatura, esse livros não existiriam. Se você realmente concorda com isso, chegamos num impasse. É bom lembrar que O Duplo foi escrito no início da carreira de Dostoiévski, contém sim suas falhas, mas o escritor amadureceu muito na evolução de sua carreira.
Por favor, não me interprete mal, não estou querendo ser arrogante, nem defender Dostoiévski cegamente, mas temos que dar a César o que é de César.
Abraços


Stefanie Oliveira 13/08/2014minha estante
Entendo seu comentário, Nilton, e gostaria de explicar melhor esse ponto, acho que não fui muito feliz na escolha das palavras. Não que eu ache que ele devesse largar a Literatura de lado, já que reconheço a importância tremenda dele para a área, mas me referia à maneira como ele me soa bem mais talentoso em entender a mente humana do que propriamente escrever. Afinal, acredito que, quanto à narrativa, existem muitos pontos que ele deveria ter sido mais atento, mas reconheço que nas seguintes obras houve uma melhora. Li "Crime e Castigo", mas ainda pretendo ler "Os Irmãos Karamózov" até com certa curiosidade, provavelmente ele tenha crescido bastante como autor.
Obrigada por comentar.


Nilton 03/09/2014minha estante
Sabe Helli, gosto muito da comunidade Skoob! É tão bom poder compartilhar ideias e pensamentos... Acredito que esse dom que ele tinha de, através da literatura, desvendar a mente humana com tamanha precisão é o que diferencia ele da grande maioria... Eu estou com outros livros dele para ler, como o Idiota, mas tenho que quebrar um pouco a linha para não ficar maluco com Dostoiévski, estou lendo agora O clã dos magos, e depois volto para ele novamente...rsrsr.... abraços e boas leituras :)


Rubio 30/07/2015minha estante
O próprio Dostoievski dizia não ser um bom escritor ... rss


Carlos Patricio 15/08/2016minha estante
Sinceramente, para mim, a genialidade do autor não está na literatura propriamente dita; mas, sim, na psicologia. O modo com que o escritor, em suas obras, aborda a mente humana é onde se pode encontrar sua maestria. Honestamente? Como escritor, vejo Dostoiévski sentado em uma mesa e escrevendo... Escrevendo sem parar. Até que, ao chegar à última página, vira para a pessoa que vai publicar seus livros e diz: ?Pronto, acabei. Pode publicar?.

perfeito


@willian.gram 30/03/2018minha estante
Gostei da sua resenha a princípio, mas depois de de ler O Duplo, passei a discordar completamente dela. Sugiro assistir o vídeo " #Comentando: O duplo (Fiódor Dostoievski)" (https://www.youtube.com/watch?v=c4IzN1vEKW8). Pode ajudar a compreender e rebater suas críticas. ;)


Casa da mãe Joana 15/06/2018minha estante
A melhor resenha que eu já li sobre esse livro!


Stefanie Oliveira 04/07/2018minha estante
Muito obrigada!




G.L. 25/02/2020

Um livro sobre autoconhecimento
Sem dúvida, foi uma das leituras mais impactantes que já fiz, não é à toa que Dostoiévski considera que essa tenha sido sua obra prima.
O romance conta a história de Golyádkin, um funcionário público que, em um dia comum, depara-se com um homem fisicamente igual a ele mesmo, um clone. Esse clone, Golyádkin II, passa a espoliar o primeiro de todas as suas posições sociais: seu trabalho, seus amigos, seu ambiente familiar, até que não sobre nada. Golyádkin I assiste a tudo isso perplexo, pois considera que o II consiga tais feitos por ser, internamente, tudo o que ele sempre quis ser, mas nunca conseguiu.
Não é uma leitura agradável, é maçante e repetitiva, não dá pra ler por pura diversão, porque não rola. Isso não a faz menos válida, pelo contrário, a forma é muito importante e ajuda a representar as tensões psicológicas e sociais de um indivíduo que se vê perdido em meio aos padrões de conduta da classe média/alta russa.
É lindo, é perturbador, me fez refletir sobre muitas das minhas ansiedades sociais.
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Luíza | ig: @odisseiadelivros 07/02/2020

Eu odeio o senhor Golyádkin
Após passar raiva atrás de raiva acompanhando a (confesso agora) interessante história de Golyádkin, descobri que “O duplo” é uma das primeiras publicações de Dostoiévski. O próprio escritor, no entanto, a classifica como a contribuição mais séria que deu à literatura. E foi então que eu pude perceber que a origem da raiva que sentia não estava relacionada unicamente ao personagem, à sua linguagem esdrúxula e ao absurdo de sua história, mas a todos esses fatores reunidos, que teceram habilmente uma crítica social à época – talvez até hoje, não sei – do autor. Devido a recepção que esse livro tem até hoje, é compreensível o fato de que na época também não foi bem recebido. Era um livro muito à frente de seu tempo ou muito comprometedor para a sociedade russa?
A história se inicia com um dia aparentemente típico para o nosso herói (como menciona o narrador) senhor Golyádkin e percebemos, ao decorrer de suas ações, como ele é desconfiado, possui vícios de linguagem extremamente irritantes, submisso aos seus chefes e é apenas corajoso dentro de sua cabeça, pois na vida real não reage para coisa alguma! A vida do protagonista se transforma quando, no dia seguinte, um novo funcionário chega à repartição em que ele trabalha. Para sua surpresa, o novato é ele mesmo. O seu duplo. A partir disso, somos jogados em uma narrativa que nos faz duvidar não só da sanidade do herói, mas da nossa. Muitas vezes eu tinha que voltar alguns parágrafos para saber se eu estava lendo certo, se eu havia entendido o que realmente estava acontecendo. Há, em inúmeros pontos, a manifestação da consciência de Golyádkin, confusa assim como ele, além de covarde. Golyádkin se mostra incapaz de confrontar a si próprio e a seu duplo.
Para quem, por acaso, está lendo esta resenha não sabendo se lê ou continua a história: continue. Não é apenas uma narrativa absurda, é uma narrativa altamente crítica. Foi minha primeira experiência com Dostoiévski e, apesar de ter demorado a entender a que ponto ele queria chegar com a história, posso dizer que fiquei curiosa para me adentrar mais em sua obra. Se esse é considerado, por ele mesmo, o ponto alto de sua carreira literária, imagino o que devem ser os outros livros, muito bem elogiados pela crítica.
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Lucas 21/11/2020

Angústia e desnudamento psicológico: Dostoiévski em seu primeiro ato caótico-narrativo
Impulsionado pelo sucesso do seu primeiro livro (Gente Pobre, de 1846), Fiódor Dostoiévski (1821-1881) lançou no mesmo ano O Duplo, seu segundo trabalho narrativo. Dada a impressão excelente que a crítica geral dispensou à sua primeira obra, O Duplo veio com grandes expectativas; os críticos literários, contudo, não reconheceram na obra a mesma qualidade da primeira. E isso afetou o jovem Dostoiévski.

Fundamentalmente, é esta não-aceitação por parte da crítica que torna O Duplo uma obra importante dentro da carreira do escritor russo. É a partir dele que Dostoiévski acaba travando uma "batalha psicológica" contra a crítica especializada, gerando uma relação conturbada ao longo dos anos. Especialmente até 1849, quando o escritor é preso sobe alegações de agitação popular, os críticos deixavam de valorizar seus trabalhos, deixando Dostoiévski num papel de relativo ostracismo junto a literatura russa (papel este sensivelmente alterado quando o escritor volta ao cenário literário na década de 1860, após dez anos de reclusão e serviços militares de caráter punitivo).

Hoje sabe-se, contudo, que O Duplo trouxe uma exacerbação do ainda jovem realismo em voga na literatura da época. O que tinha se visto até então, especialmente com Nikolai Gógol (1809-1852), era um realismo raso, terreno e material, não no sentido de qualidade das obras, mas apenas em termos de enfoque. Talvez o primeiro passo rumo ao aprofundamento desse movimento tenha sido com Gente Pobre, mas no texto desse livro ainda se percebe um pé do autor dentro do realismo tradicional, ocupado por descrever a realidade em seu sentido mais amplo (neste caso de Gente Pobre, a descrição de um casal de vizinhos, Makar Diévuchkin e Varvara Alieksiêievna, em condições sociais paupérrimas. Dostoiévski é aqui reticente, especialmente em comparação às suas grandes obras: alguns traços da regeneração por meio do sofrimento são expostos de forma apenas pontual, sem a contundência que acabou definindo-o como escritor). O Duplo rompeu essa barreira: o realismo é também direcionado para aspectos psicológicos, para a mente dos personagens, utilizando-se de nuances surrealistas.

O que confere a O Duplo essa carga de surrealismo e até mesmo de absurdo é o seu enredo, simplista e restrito a alguns poucos personagens. Basicamente, a história gira em torno de um deles, Yákov Pietróvitch Golyádkin, funcionário público que não vive em condições de miséria (isso afasta as comparações com Gente Pobre; não que a miséria inexista, mas ela está longe de assumir o protagonismo do primeiro livro). Aqui, o leitor terá diante de si um personagem com inúmeras perturbações: o primeiro capítulo da obra simboliza isso. Golyádkin sente um desejo latente por aceitação social, mas ele é claramente antissocial. Detesta as falsidades, as "conversas moles" dos círculos sociais, mas luta para estar nelas. O quadro resultante destas contradições é aquela técnica que viria a ficar batida por Dostoiévski: a exposição da luta do homem, com seus medos, angústias e incompreensões contra um mundo frio, que segmenta e ridiculariza outros indivíduos.

Entretanto, O Duplo não é sobre a luta do protagonista contra o seu mundo, mas contra outro homem, idêntico fisicamente e com personalidade distinta. Inesperada e inexplicavelmente, Golyádkin se vê diante de um sujeito fisicamente igual, homônimo, mas com uma personalidade maquiavélica que vai se revelando aos poucos. O que Dostoiévski vai chamar de "Golyádkin segundo" é uma espécie de parasita, que aumenta em "Golyádkin primeiro" a sensação de incompreensão, de não-pertencimento ao mundo que o rodeia. Este absurdo por si só é renegado a um papel secundário; em primeiro plano, o que fica é a descrição do psicológico de Golyádkin.

Todo esse processo de tentativa de compreensão por parte do protagonista e as consequências nefastas dos atos do seu duploo no meio em que eles viviam correspondem ao cerne do livro, a veia mestra que faz a narrativa circular pelos obscuros meandros da consciência de um indivíduo (muito) perturbado. Dostoiévski, se forem tomadas em conjunto todas as suas obras, tinha uma apego considerável pelo caos. O Duplo traz o primeiro símbolo deste apreço: este cerne mencionado arrasta o protagonista a um cataclismo narrativo, que adquire ares de inevitabilidade desde o fim do primeiro dos treze capítulos da obra. Golyádkin, assim, pode ser visto como um irmão mais velho de muitos outros personagens históricos do autor, tais como Rodion Raskólnikov (Crime e Castigo, 1867), princípe Míchkin (O Idiota, 1869) e Ivan Karamázov (Os Irmãos Karamázov, 1881).

Mas a regeneração, tema também recorrente nas obras posteriores de Dostoiévski, em O Duplo adquire um papel bem diminuto. Não podem ser revelados certos aspectos, mas as obras citadas acima oferecem uma possibilidade mais substancial de regeneração, por meio de filosofias próprias ou, principalmente, através de contemplações religiosas e/ou místicas. Golyádkin em determinados momentos bem isolados até demonstra esta capacidade de contemplação mais pluralizada, mas o que acaba prevalecendo são suas angústias. Não que isso signifique que O Duplo seja ruim ou que destoa negativamente das outras obras do autor, mas por diminuir o papel da regeneração dentro da narrativa acaba fazendo dela um relato bem mais psicológico (sem ser confuso) do que reflexivo ou edificante. Mas a influência da trajetória de Golyádkin nos outros escritos dostoievskianos é relevante, já que, especialmente nas obras citadas, há a presença de "duplos" específicos, personagens que se contradizem entre si, só que de uma forma menos explícita.

O Duplo é um livro curioso, para dizer o mínimo. Gera no leitor emoções contraditórias, fazendo dele um passageiro numa viagem rumo a uma mente perturbada. Nesta viagem, não dá para ignorar o sentimento de identificação com algumas ideias de Golyádkin, não no sentido da perca da razão, mas em suas análises das hipocrisias inerentes às convenções sociais, que ainda hoje perduram. Estas e algumas outras nuances menores podem ajudar a definir Dostoiévski como um visionário, muito a frente do seu tempo: o passar das décadas o legou à perpetuidade literária, fazendo a crítica literária da época ser engolida pelo seu talento inigualável de descrição psicológica dos seus personagens.
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Diego 12/09/2020

Estranho
Bem estranho. Lembrou-me bastante Kafka.
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Toni 07/02/2012

Ambiguidade e desintegração
Mikhail Bakhtin identifica as raízes do romance dostoievskiano na tradição sério-cômica do diálogo socrático, da sátira menipeia e do romance de aventuras. Esses gêneros se diferenciam dos gêneros estritamente sérios – como a epopéia e a tragédia – na medida em que, ao contrário da seriedade retórica unilateral, da racionalidade, da univocidade e do dogmatismo destes, aqueles apresentam uma “alegre relatividade”, “dotada de uma poderosa força vivificante e transformadora e de uma vitalidade indestrutível” (BAKHTIN, 2010, p.122). A dualidade, a natureza profundamente dialógica e a relatividade na busca da verdade, dados geralmente no limiar entre a vida e a morte, a loucura e a sanidade, levam as personagens de Dostoiévski, à maneira das personagens dos gêneros sério-cômicos, a se libertarem das determinações histórico-biográficas, comuns aos gêneros sérios, e se tornarem homens de ideias, na acepção mais profunda do termo.

É no limiar entre loucura e sanidade que são narradas as malogradas aventuras do amanuense Yákov Pietróvitch Golyádkin, protagonista de O Duplo. Levada ao prelo no início de 1846, logo após seu aclamado romance de estreia, Gente pobre, trata-se de uma novela sobre o desdobramento da personalidade e o contraste entre as ambições de um conselheiro titular e a impossibilidade de ascensão social na corrupta hierarquia burocrática petersburguense. Contrariando a seriedade do tema, todavia, a novela possui uma composição essencialmente carnavalizada, construída como estilização parodística em dois níveis diferentes, um externo e outro interno à obra: o primeiro diz respeito ao diálogo do texto de Dostoiévski com o estilo elevado de Almas mortas e das narrativas breves de Gógol, como O nariz e Diário de um louco; internamente, a paródia é estabelecida na relação entre o protagonista e o narrador, quando a expressão deste último parece se identificar com a consciência de Golyádkin, para em seguida manter-se a distância com o intuito de parodiar o mesmo Goliádkin de quem parecia compadecer-se.

A oscilação entre paródia e simpatia determina o tom tragicômico da novela, engendrando a ambiguidade característica das obras iniciais de Dostoiévski, nas quais, segundo Frank, “um personagem é apresentado simultaneamente como oprimido pela sociedade e condenável e desprezível do ponto de vista moral” (FRANK, 1999, p.393). Nesta novela, Golyádkin é carente de convívio social e se esforça por ascender socialmente sem, contudo, entregar-se às exigências de “fazer rapapés” e “embelezar o estilo” que a sociedade almejada por ele demanda. Nas palavras de Bakhtin, “a novela conta como Golyádkin queria passar sem a consciência do outro, sem ser reconhecido pelo outro, queria evitar o outro e afirmar a si mesmo, e conta no que isso deu.” (BAKHTIN, 2010, p.247). A discrepância entre a consciência que tem de si mesmo e as ações que desempenha no mundo real, incompatíveis com as relações burocráticas, leva Golyádkin à mania de perseguição que culminará com o aparecimento do duplo – idêntico ao primeiro, mas seu contraponto social: seguro, autossuficiente e zombeteiro – que surge para provocar o protagonista e ser bem sucedido nos espaços onde Golyádkin fracassara.

A alta concentração de ambiguidade e desintegração em O Duplo impediu que a recepção da novela em 1846 correspondesse às expectativas de Dostoiévski. Frente a um público que procurava obras bem acabadas e com uma mensagem claramente definida, as atrapalhadas aventuras do senhor Golyádkin só poderiam malograr. É interessante notar que aqueles mesmos elementos que garantiram sua repulsa quando de seu lançamento são, para a modernidade, fatores determinantes à sua apreciação, que se baseia no grau de ambiguidade e irredutibilidade da obra. Até hoje O Duplo permanece uma leitura perturbadora, que nos faz lembrar a assertiva de James Wood acerca do escritor russo: “nada na literatura (...) prepara o leitor para os personagens de Dostoiévski” (WOOD, 2011, p.140).
Toni 08/09/2012minha estante
Olá Daniel, concordo com você em todos os detalhes de seu comentário. O Goliádkin é mesmo uma versão patologicamente piorada do Makar. Nos estudos que li sobre a obra do Dostoiévski marca-se bastante essa "repetição" (que não é bem repetição mas vá-lá) de "tipos" emprestados a outros autores e de obras anteriores dele. O próprio Gente Pobre (que também admiro muito; quis fazer uma resenha mas a época não deixou) tem muito do personagem Akaki d'O capote, de Gógol (referenciado no romance numa passagem que considero brilhante!).

Tive que ler bastante Dostoiévski devido a uma disciplina optativa do mestrado e, coincidentemente, li esse artigo que você citou para escrever meu trabalho final da disciplina que tinha tudo a ver com o que é dito ali. Dei a minha análise o título "'Ah se eu fosse poeta!': A carnavalização na descrição do baile de Clara Olsufievna em 'O Duplo'". Trata do capítulo IV que considero dos mais brilhantes dentro da obra de Dostoievski. Alguns trechos desta resenha foram tirados de lá. Se algum dia eu publicá-la, passo-te o link acto contínuo.

Enfim! Valeu pelo comentário, é excelente ter com quem discutir por aqui. =}




Paulinho 31/05/2013

"A única pessoa no seu caminho é você mesma." Cisne Negro
O Outro

O Duplo, título original; Dvoinik, do consagrado escrito Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, foi publicado em 1846. Eu fiquei sabendo desta obra após assisti o bônus do DVD Cisne Negro, chamado A Metamorfose do Cisne Negro, onde Darren Aronofsky, diz ter tido a idéia do filme em O Duplo e após ter assistido a uma apresentação de O Lago dos Cisnes ele decidiu trabalhar com essa temática. Uma boa obra sempre puxa outra, amei tanto esse filme, que decidir ler o livro que o inspirou e não podia estar mais satisfeito. O Duplo é um trabalho de excelente escrita. Centrado principalmente nos diálogos, Dostoiévski cria uma atmosfera dúbia e angustiante. São nos diálogos que estão muitas pistas sobre a real condição do nosso herói, nas narrativas de seus encontros com O Duplo e no comportamento de alguns personagens como o criado Pietruchka.

O livro narra a desventura do senhor Golyádkin, que devido a um benfeitor consegue um emprego, e isso o induz a pensar que ele foi convidado a um jantar da aristocracia russa. O seu nome já expressa sua condição:

O sobrenome Golyádkin deriva de golyadá, que significa pobre, indigente, mendigo, miserável etc.

[O Duplo. Fiódor Dostoiévski. 256 páginas - Editora 34. Capítulo IV. Página 53.]

Golyádkin é um homem introspectivo, que não consegue expressar-se com fluidez, é tímido e solitário como fica claro nesses trechos:

[...] seu tratamento deve consistir na mudança de hábitos... Bem, em divertimento; fazer visitas a amigos e conhecidos e ao mesmo tempo não ser inimigo da garrafa; conviver em grupos divertidos.

[O Duplo. Fiódor Dostoiévski. 256 páginas - Editora 34. Capítulo II. Página 21.]

- Estou dizendo que me desculpe, Crestian Ivánovitch, porque, pelo que me parece, não sou mestre em falar bonito.

[O Duplo. Fiódor Dostoiévski. 256 páginas - Editora 34. Capítulo II. Página 23.]

A novela que narra a saga do senhor Golyádkin é constituída de treze capítulos e tem ilustrações fantásticas de Alfred Kubin. O livro é fácil de ler e é interessante, o estimulo é perceber as dicas que o autor nos dá durante todo o livro. O inicio de Cisne Negro é bem parecido com o do livro, ou seja, começa com um despertar, isso é importante, pois não temos nenhuma informação anterior do senhor Golyádkin a não ser as sugeridas em diálogos, fica claro, portanto que embora o narrador seja em terceira pessoa, a história é contada do ponto de vista de Golyádkin, assim como no filme Cisne Negro os movimentos de câmera sugerem que o ponto de vista é o de Nina.

Aliás, ficou uns dois minutos deitado em sua cama, imóvel, como alguém que ainda não sabe direito se acordou ou continua dormindo, se tudo o que está acontecendo a seu redor é de fato real ou uma continuação dos seus desordenados devaneios.

[O Duplo. Fiódor Dostoiévski. 256 páginas - Editora 34. Capítulo I. Página 09.]

Golyádkin não gosta da alta sociedade russa, não aceita participar suas falsidades e hipocrisias e por isso está só, mas deseja inserir-se nela devido a sua paixão Clara Olsúfievna.

- Eu Crestian Ivánovitch continuou o senhor Golyádkin no mesmo tom anterior, um pouco irritado e preocupado com a extrema insistência de Crestian Ivánovitch -, eu, Crestian Ivánovitch, gosto da tranquilidade e não do burburinho da alta sociedade.

[O Duplo. Fiódor Dostoiévski. 256 páginas - Editora 34. Capítulo II. Página 23.]

"- Senhores, até hoje não me conheceram. Dar explicações aqui e agora não seria de todo oportuno. Vou lhes dizer apenas uma coisa breve, de passagem. Há pessoas, senhores, que não gostam de rodeios e que só usam máscaras nos bailes de máscara. Há pessoas para quem o objetivo imediato do homem não está em sua habilidade para fazer rapapés. Também há pessoas, senhores, que não dizem que são felizes e levam uma vida plena, mas, por exemplo, usam calças que lhes caem bem. Há, por fim, pessoas que não gostam de andar por aí saltitando e saracoteando à toa, procurando cair nas graças de alguém, bajulando e principalmente, senhores, metendo o nariz onde não são chamadas... Senhores, eu disse quase tudo; agora permitam que me retire..."

[O Duplo. Fiódor Dostoiévski. 256 páginas - Editora 34. Capítulo III. Página 38.]

Ele sugere também que há um lado seu desconhecido:

- Os senhores todos me conhecem, mas até agora só conheceram um lado meu. Neste caso não cabe censurar ninguém, e confesso que eu mesmo tenho uma parte da culpa.

[ O Duplo. Fiódor Dostoiévski. 256 páginas - Editora 34. Capítulo III. Página 37.]

Todos esses trechos servem para expor que a solidão é o maior mal de um ser humano. Tanto no filme Cisne Nego quanto no livro os protagonistas parecem viver dentro de si, sem sair, sem se divertir e sem amigos outro ponto interessante é a ideia de perseguição:

- Eu tenho inimigos, Crestian Ivánovitch, tenho inimigos; tenho inimigos cruéis, que juraram me arruinar...

[O Duplo. Fiódor Dostoiévski. 256 páginas - Editora 34. Capítulo II. Página 26.]

E para percebermos como o estado de Golyádkin é grave o trecho que faz referência a remédios:

-Vou continuar tomando os medicamentos como o senhor diz, Crestian Ivánovitch, vou continuar tomando-os e também comprando-os na mesma farmácia... Hoje em dia, Crestian Ivánovitch, até ser farmacêutico já é uma coisa importante...

[O Duplo. Fiódor Dostoiévski. 256 páginas - Editora 34. Capítulo II. Página 28.]

Montado esse o quadro psicológico do personagem começa-se a narrativa das conturbações do nosso herói, quando Golyádkin ver seu Duplo é bem parecido com a ideia de Cisne Negro, um homem passa por ele e ele percebe que o transeunte é igual a ele.

Súbito ele parou como se estivesse plantado, como se um raio o tivesse atingido, virou-se rápido para trás, seguindo o transeunte que acabava de ultrapassá-lo voltou-se de um jeito como se algo o tivesse puxado por trás, como se o vento o tivesse feito girar como um cata-vento.

[O Duplo. Fiódor Dostoiévski. 256 páginas - Editora 34. Capítulo V. Página 68-69.]

Não irei estender demais esta análise, queria apenas traçar alguns paralelos entre o filme, Cisne Negro e a novela O Duplo. Por isso ressalto aqui outra semelhança importante, os espelhos.
À porta, que até então ele tomara por um espelho, como outrora já lhe acontecera, apareceu sabe-se quem: ele, o conhecido bem íntimo e amigo do senhor Golyádkin.

[O Duplo. Fiódor Dostoiévski. 256 páginas - Editora 34. Capítulo XII. Página 208-209.]

O Duplo é uma verdadeira viagem a o inconsciente humano, aos seus desdobramentos, a sua importância. Um livro para se ler, ver, olhar e reparar como diria José Saramago. A obra que com certeza influenciou muitas outras tais como: a duplicidade de Golum de O Senhor dos Anéis, as histórias de irmãos gêmeos, clones, e tantos outros personagens nos quais a ambiguidade e a duplicidade são fundamentais.

A sanidade humana depende da companhia de outras sanidades.

Procura um homem bom, meu amigo. Hoje em dia um homem bom é coisa rara, meu querido; ele toma um trago contigo, te dá de comer, de beber, minha cara e boa alma... Porque às vezes percebes que até através do ouro lágrimas escorrem, meu amigo... [...].

[O Duplo. Fiódor Dostoiévski. 256 páginas - Editora 34. Capítulo XIII. Página 221.]

E lembrem-se:



Porque, como diz o ditado, guarda-te do homem que não fala e do cão que não ladra.


[O Duplo. Fiódor Dostoiévski. 256 páginas - Editora 34. Capítulo VI. Página 91.]
Adriano Barreto 24/07/2017minha estante
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Thales 11/12/2020

E pensar que Dostô escreveu esse treco com minha idade
O cara é: a musa inspiradora da psicanálise, o pai do niilismo nietzschiano, estudado em criminologia e direito penal, vertente de estudo teológico. Por isso "O duplo", que em Dostoiévski é uma obra menor, poderia ser a obra-prima de qualquer literato importante tamanha a sua envergadura. E esse é só o SEGUNDO livro do russo, que o escreveu quando tinha minha idade. Que afronta.

Quando o livro foi lançado, a crítica não o recebeu muito bem por conta do estilo de narrativa empregado. Óbvio, hoje a gente lê sabendo quem é o monstro sagrado Dostoiévski, entendendo a obtusidade de seus personagens, o modelo experimental de trânsito entre realidade e paranoia. Mas quando "O duplo" saiu ele era só um moleque razoavelmente desconhecido. Essas inovações, portanto, foram confundidas com falta de qualidade mesmo - o que é até justificável. E é bem fácil a gente entender o porquê da confusão.

A história é propositalmente contada de uma forma caótica. Golyádkin tem, entre vários problemas, uma dificuldade crônica de comunicação: repete nomes próprios, encerra frases no meio, confunde sentidos, não apresenta uma métrica usual no discurso. O narrador, ao assumir o lado do protagonista, embarca nesse mesmo caos. Narrador esse que é irônico o tempo todo, se refere sempre ao "nosso herói", confere um caráter épico às questões mais absurdamente triviais da história. E o pior de tudo: toda a narrativa transita num limiar muito tênue entre realidade objetiva e construção imagética do Golyádkin.

Logo no início nós somos alertados para isso no diálogo entre o "herói" e seu médico. Portanto, nós sempre temos que ter um pé atrás com os acontecimentos, ou, mais particularmente, com o que gera os acontecimentos. Tudo o que parte do Golyádkin é duvidoso, tudo o que ele ou o narrador nos contam pode ser ou não real. É uma LOUCURA.

Isso, de certo, só piora com a chegada do "duplo", tanto no âmbito da narrativa como nos acontecimentos. Na mesma noite em que Golyádkin visita seu médico e acontece a vergonha da festa o doppelganger surge, e isso dá bem o tom do que viria pela frente. Os diálogos entre os dois são extremamente caóticos, já que possuem o mesmo nome (!!) e o narrador é obrigado a usar "primeiro"/"segundo", adjetivos vários e diferentes pronomes para designar um e outro. A por vezes grande dificuldade de entender quem fala o quê é um dos esforços que Dostoiévski empreende.

E sobre a relação dos dois em si, não é difícil entender porque a psicologia se debruça tanto sobre isso. Golyádkin é uma pessoa diagnosticada com solidão, sem amigos, com dificuldade para entender a realidade concreta e que projeta suas inseguranças nas pessoas ao seu redor. Do nada surge um exato "ele" que é confiante, afável, persuasivo e extremamente amigável, que paulatinamente vai tomando seu lugar na repartição e na vida em sociedade. O "eu" real x projeção metafísica do "eu" ideal é um tema maravilhoso que é soberbamente abordado aqui. A cena dos pastéis no restaurante fica passando a todo momento pela minha cabeça - muito novela mexicana mesmo.

Como eu já disse, é muito difícil saber o que é um fato concreto e o que é uma projeção do Golyádkin. Por isso é até difícil fazer um juízo sobre os acontecimentos narrados, sobretudo os que envolvem "o duplo". O final é um banho de água fria e um convite a você revisitar tudo o que tinha entendido até ali, colocando em perspectiva sua compreensão do todo da história.

Confuso? Genial? Inovador? Caótico? Dostoiévski.
Rafaela 11/12/2020minha estante
Esse está na minha lista também :)


Thales 11/12/2020minha estante
Depois de "Crime e castigo" e "O idiota" tu vai tirar esse de letra kkk


Rafaela 11/12/2020minha estante
rsrsrs pois é, thales! Queria ter começado por esses ..


Thales 11/12/2020minha estante
Eu respeito muito quem começa pelos calhamaços. Eu não tenho essa capacidade não rsss


Rafaela 12/12/2020minha estante
Obrigada. rsrs Mas olha, minha dificuldade nem foi tanta com esses dois calhamaços, e sim com ?Memórias do Subsolo?. Que é bem fino. Terei que reler futuramente.


Thales 12/12/2020minha estante
É, tenho que admitir que "Memórias do Subsolo" me dá mais medo que as tretas do Raskólnikov... Agora com o que tu disse só melhorou haha


Rafaela 12/12/2020minha estante
sim, as tretas de Raskólnikov chega a ser fácil perto do monólogo do homem do subsolo, viu?! Mas gosto muito dos dois e ainda irei relê-los.


Aryana Torquato 15/12/2020minha estante
Ahh, vou ler!!


Thales 15/12/2020minha estante
Se entregue de vez aos russos, Aryana! ??


Aryana Torquato 15/12/2020minha estante
De cabeça ? Em janeiro vou ler O Idiota do Dostô, já leu?


Thales 15/12/2020minha estante
Putsss eu ainda me sinto um neném literário pra ler "O Idiota". Tô primeiro me acostumando com os menores dele pra depois ler os calhamaços ?? Mas aposto que tu vai amarr


Aryana Torquato 15/12/2020minha estante
Espero ???




Ginete Negro 08/07/2020

Espelho?
Podemos imaginar o motivo pelo qual os críticos da época execraram este romance, sobretudo depois do sucesso do primeiro romance do autor, "Gente Pobre", o "primeiro romance social da Rússia". Dostoiévski, aqui, lida com a parte psicológica de seu protagonista, que de repente se vê diante do seu "duplo". Com seus defeitos e qualidades, é uma obra de mérito.

Resenha em breve no blog: umaloucadoslivros.blogspot.com (colaboração).
Virginia 13/07/2020minha estante
Cadê a minha resenha


Ginete Negro 13/07/2020minha estante
??




Rafael 12/01/2019

O Cisne Negro de Dostoiévski
À primeira vista a obra o Duplo parece um mergulho na loucura. De ponto de vista unilateral, à todo momento você se pergunta o que está acontecendo, se é real ou ficção.
O protagonista, pobre que se acha rico e tenta almejar estatus na sociedade tentando se infiltrar no meio dos ricos, sofre com sua timidez, introspectividade, gageira, e constante necessidade de agradar aos seus superiores.
Logo no começo ele conversa com um doutor que faz piada sobre bebida levantando-se a suposição que o protagonista é alcoólatra. Num dos inúmeros detalhes que nos confundem. E este é o objetivo.
A história se torna ainda mais incrível quando o protagonista conhece o duplo: um homem fisicamente igual a ele mas que é o contrário psicológicamente (muito bem desenvolvido, super social, divertido, canastrão, sem limites) e que lhe deixa mais doido ainda.
Esse é o ponto máximo da obra. Precisei de dias para entender o que eu tinha lido.
Muitas vezes você acha que ele sofre de esquizofrenia ou bipolaridade. Mas na verdade ele sofre de Transtorno Dissociativo de Personalidade.
Nunca existiu um duplo. O duplo é a sua segunda personalidade. Não tem ligação nenhuma com esquizofrenia (que é a perca da realidade) ou com bipolaridade (que é a troca súbita de humor).
No Transtorno Dissociativonde Personalidade a pessoa pode simplesmente habitar mais de uma personalidade dentro dela, pode ser uma pessoa de sexo diferente, faixa etária diferente, cor, qualquer forma. Ou em alguns casos mais de duas personalidades no mesmo corpo. Sendo que às vezes a segunda personalidade assume e o transtornado não se lembra do que a personalidade excedente fez, nem que tenha sido por alguns minutos. Dando esta sensação de loucura. Um dos pontos característicos é o senso de perseguição e de conluio contra ele.
O transtorno é um mecanismo de defesa da mente. Geralmente a pessoa tem uma personalidade quase nula e a que assume, ou as que assumem, são o extremo da prima.
A obra foi injustiçada pela crítica no seu lançamente e ainda hoje é incompreendida porque o objetivo dela é você se colocar no lugar do protagonista e sofrer junto com ele sem entender o que está acontecendo, como se você sofresse do transtorno.
É genial. E um dos livros mais brilhantes que eu já li. Além do transtorno, o personagem nos leva a questionar se este transtorno não é um reflexo da nossa sociedade captalista onde se exalta e estimula aos pobres agirem e almejarem a classe alta se submetendo a qualquer regra social e se abdicando de si mesmo. E como consequência vendo em outras pessoas, pobres e semelhantes, inimigos naturais. (O protagonista que é pobre tem algumas coisas a mais que outros pobres, como um empregado, e mesmo estando mais perto da miséria do que do luxo, ele se trata como classe média)
É brilhante! O protagonista segue todos os pontos do transtorno dissociativo de personalidade (antigamente chamado de transtorno de dupla personalidade): solitário, depressivo, introspectivo, dedicado aos seus objetivos pessoais, tímido não por natureza.
Um detalhe interessante é o quanto ele firma o nomes das pessoas repetindo-os desnecessariamente como uma reafirmação social dos seus estatus e a falta de noção do que realmente está acontecendo devido a essa preocupação intensiva em cuidar da imagem. Ele acredita que o doutor com quem se consulta é doido (no sentido de não entendê-lo) e nenhum outro personagem o entende. Aos olhos dos outros ele é um doido desvairado, motivo de piadas internas e deboche.
Diversas vezes o protagonista diz não usar máscaras. Mas a impressão é de que ele nem sabe mais quem é por ter tanto se moldado conforme a sociedade.
É um livro genial. A maioria das pessoas não vai entendê-lo porque ele não é uma obra clara. (Este é o objetivo da obra). Mas para aqueles que querem entendê-lo melhor, indico o filme Cisne Negro do Darren Aronofoski, que é uma releitura desta obra com o balé do Lago dos Cisnes, em que você mergulha com tanta intensidade quanto tanto à este livro na cabeça do protagonista. (A protagonista interpretada pela Natalie Portman tem todos pontos do transtorno, como por exemplo: quando ela olha para o espelho e o reflexo se meche indicando que ela não reconhece quem ela é e tem medo dela mesma. Ou quando ela ganha o papel e encontra a palavra puta no espelho que foi o duplo dela que escreveu e no final quando as personalidades se misturam e a loucura leva ao delírio)
Este livro inspirou tantas outras obras da ficção. Mas nenhuma com a perspectiva do transtornado. Como por exemplo: o protagonista de Psicose, o filme Ilha do Medo do Scorcese com Leonardo DiCaprio e o livro O Duplicado do Saramago.
Livro maravilhoso! Favoritei! Leiam! Leiam! LEIAM! (Não é por acaso que Dostoiévski é o pai de Freud)
Tati 12/01/2019minha estante
Que legal! Já tenho faz algum tempo, mas fiquei com mais vontade de ler agora.


Camila 13/01/2019minha estante
Li ano passado! Adorei!




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