Três Contos

Três Contos Gustave Flaubert




Resenhas - Três contos


10 encontrados | exibindo 1 a 10


Marianne.Azevedo 20/04/2021

Três contos
Três Contos de Gustave Flaubert: Um Coração Simples, A Legenda de São Julião Hospitaleiro e Herodíade. Três curtas histórias de fácil e rápida leitura. Do mesmo autor de Madame Bovary. Clássico.
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Fábio Nogueira 11/02/2021

Meu primeiro contato
Meu primeiro contato com o Flaubert.
Amei os dois primeiros contos e o último, não é ruim, só não é do meu agrado. Recomendadissíma a leitura!
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Bruno 09/04/2020

V-A-I-L-E-R-I-S-S-O-A-Q-U-I-A-G-O-R-A.
Confesso que não é uma leitura para todo mundo, é um livro direcionado a um público específico e bastante restrito.

O primeiro conto, "Um coração simples", é o mais famoso e mais aclamado, pois realmente talvez seja a melhor história. É um conto inspirador, com uma história abençoada e regada a lições de fé. Ao conhecer a vida de Felicité, e ver toda a sua bravura e passividade ao enfrentar duros acontecimentos da vida, conseguimos desenvolver nossa perseverança.

O segundo conto, "A legenda de São Julião Hospitaleiro", é meu favorito. Trata-se de uma curta hagiografia (biografia de santos) de São Julião, que quando criança assassinava brutalmente alguns animais e acabou sendo destinado a cumprir uma tenebrosa profecia. No final das contas, ele é perdoado e santificado até, provando-nos que nunca é tarde para sermos perdoados pela vida e por todos.

O terceiro e último texto, "Herodíade", é o pior de todos. Confuso para aqueles que não conhecem a história da Bíblia sobre a decapitação de João Batista (Iokanaan). Eu estou no grupo daqueles que não conheciam direito essa parte da Bíblia... portanto foi muito difícil entender o que acontecia na história. É um texto que não se sustenta por si só. Quando pesquisamos e entendemos seu contexto (e a história original de onde este conto é derivado), é possível compreender mais facilmente as coisas. Ainda assim, continua sendo um bom conto, embora eu não tenha tido capacidade suficiente para entendê-lo na primeira leitura.

No geral, é um livro que precisa ser relido. A prosa de Flaubert é límpida, cristalina, fluida, deliciosa de ler. Suas histórias são efêmeras mas cativantes, por vezes impactantes, emocionantes, (e nesse caso) permeadas por um cunho religioso extremamente forte. Fala de fé, fala de esperança, perseverança, sobre a vida...

É lindo.
Nota mil.
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Lavi 13/03/2020

Três Contos
Meus favoritos foram "Um Coração Simples" e "A legenda de são Julião hospitaleiro". O "Herodíade" não entendi.
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leila.goncalves 12/07/2018

Trois Contes
Com apenas 160 páginas, "Trois Contes" é uma excelente oportunidade para conhecer mais de perto Flaubert. Publicado em 1877, três anos antes de sua morte, o livro levou trinta anos para ser concluído, sendo considerado um importante registro de sua carreira literária.

Apresentando três narrativas, a primeira é "Un Coeur Simple". Nela, o escritor conta a vida de Felicidade, uma humilde e devota criada que distante de qualquer pecado, ama a tudo e a todos com o mesmo virtuosismo que um spalla toca seu violino. Através de suas páginas, o escritor traça um interessante painel da França da época e uma severa crítica a devoção religiosa, apresentada como mera ilusão num desfecho em que brilha uma de suas mais conhecidas personagens: Lulu, um papagaio. A ave também serviu de inspiração para o livro "O Papagaio de Flaubert", escrito por Julian Barnes, outra boa indicação de leitura.

O segundo conto, "La Légend de Saint-Julien L'Hospitalier", foi inspirado nos vitrais da Catedral de Rouen, cidade onde o escritor nasceu, entretanto, também é produto de uma extensa pesquisa hagiográfica no qual desponta "A Legenda Áurea" obra de Jacobus de Voragine. Remontando à Idade Média, trata-se de uma história brutal sobre a remissão dos pecados a partir da vida de um sanguinário caçador. Nas últimas páginas, quem rouba a cena é um leproso, mas há outro aspecto que merece registro: um sonho de São Julião sobre a vida no Jardim do Éden e a Arca de Noé. O texto sugere que os mitos fundadores da Cristandande talvez não sejam aquilo que aparentam, abrindo margem para mais uma polêmica de Flaubert com a Igreja.

Finalmente, "Hérodias" é uma releitura da decapitação de São João Batista onde o escritor ameniza o tom religioso do episódio, a fim de revelar uma história absolutamente humana, envolvendo vingança, desejo e o valor da palavra. Abordando a vinda de um novo Messias em meio às agitações e intrigas políticas, seu protagonista é Herodes, rei da Galiléia, um homem pressionado por Roma por conta do permanente estado de guerra da região. Se não bastasse, ele ainda precisa conter o clamor dos seus súditos, indignados por ele ter desposado sua cunhada. Indubitavelmente, escrever "Hérodias" foi um desafio para o escritor, pois o caráter histórico remete ao seu maior fracasso literário, Salammbô, também passado na Antiguidade.

Para finalizar, só resta lhe desejar uma boa leitura.
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jota 25/07/2016

Flaubertianos...
Três histórias curtas de Flaubert magistralmente escritas mas que podem envolver o leitor de modo completamente diverso, fazendo-o gostar mais desta ou daquela, depende. Se todo conselho fosse útil a gente vendia, mas mesmo assim recomendo a leitura mudando-se a sequência apresentada no livro.

O terceiro conto passa-se na Antiguidade: eu o leria em primeiro lugar; o segundo, passado na Idade Média, permaneceria em seu lugar; eu leria o primeiro, passado no século XIX, em que viveu Flaubert, por último, pois é o melhor, que é o melhor jeito de terminar um livro, não? Tão bom é que agora já é uma releitura.

Os três contos têm a ver com religião, experiência religiosa, e o primeiro e o segundo têm finais magníficos; a história de Felicité e Lulu (personagens do primeiro conto) tem seu final beirando uma epifania. O terceiro conto termina de modo bem conhecido, pois um dos personagens é simplesmente João Batista. Mas acompanhar seu desenvolvimento não foi fácil.

Agora a avaliação: para "Herodíade", que é uma história bíblica extremamente erudita, difícil de ler (para Flaubert foi difícil escrever; conforme relata em cartas, com trechos reproduzidos nesta edição) minha nota é 3; para "A legenda de São Julião Hospitaleiro", história muito interessante, parecida até certo ponto com aqueles contos feitos para crianças, com reis e rainhas, príncipes e princesas etc., 4 estrelas; para "Um coração simples", um dos contos mais belos já escritos (conforme Harold Bloom e muita gente), nota 5.

Lido em 24 e 25/07/2016.
Alinne.Spagnollo 03/09/2019minha estante
Não estou entendendo nada desse último conto! Mas o primeiro sem duvidas é o melhor, de uma delicadeza ímpar


jota 03/09/2019minha estante
?, foi também o que menos apreciei dos três.




Braguinha 18/08/2014

Na verdade, uma decepção.
Bom livro, mas não consta na lista dos melhores.
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Israel 15/03/2013


Três contos é uma singela obra do escritor francês Gustave Flaubert que a meu ver alcançou a plenitude em sua arte. Composto pelos contos “Um coração simples”, “A legenda de São Julião Hospitaleiro” e “Herodíade”, o autor submete o leitor a um lirismo raro e por vezes único nessas curiosas histórias e alterna sutilmente seu estilo sem sair da linha lírica e da síntese por vezes genial.
O primeiro conto narra a história de uma devotada criada que passa por diversos abalos em sua humilde vida. Com uma devoção fanática por sua patroa e filhos, ela se dedica dia e noite ao bem estar da casa e da família até que vivencia uma tragédia de proporções gigantescas que desestabiliza o seio familiar. É um belo conto que pode levar os mais sensíveis às lágrimas.
“A legenda de São Julião Hospitaleiro” narra a história do santo homônimo. Baseado numa hagiografia presente num vitral de uma igreja de uma cidadezinha da França o autor deixa a pena fruir num estilo que lembra a narrativa das fábulas. Aqui Flaubert mostra todo seu poder de contar histórias.
E por fim, “Herodíade” é a versão para a narrativa bíblica sobre os fatos que levaram aos momentos finais de João Batista. Incrivelmente bem escrito, Flaubert conseguiu reconstruir de forma magistral o ambiente de degradação moral da ocupação romana no oriente médio. Simplesmente espetacular e altamente recomendável.
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Leonardo 01/02/2013

Três contos magistrais
Disponível em http://catalisecritica.wordpress.com/

Um coração simples, A legenda de São Julião Hospitaleiro e Herodíade são os três contos dessa edição em que, desnecessário dizer, a Cosac Naify caprichou. Além dos contos há um excelente prefácio de Samuel Titan Jr., esclarecendo bem o contexto em que os contos foram escritos após enfrentar dificuldades para escrever Bouvard e Pécuchet, fracassos de público e de imprensa com Salammbô e A educação sentimental, perder algumas pessoas queridas e ainda enfrentar o fantasma da falência, Flaubert não se julgava capaz de escrever uma só frase.
A ideia dos contos, escreveu Flaubert, mais especificamente quando iniciou o trabalho em A legenda de São Julião Hospitaleiro, era apenas para me ocupar com alguma coisa, para ver se ainda sei fazer uma frase.
Para enriquecer ainda mais a edição, o apêndice traz uma compilação das referências do escritor francês aos três contos em suas cartas, um breve resumo da história de São Julião Hospitaleiro conforme consta na Legenda Áurea, além de sugestões de leitura.
Como se pode ver, primor não falta à Cosac Naify.

Um coração simples

Este é o conto de que mais gostei. É estranho, contudo, que nada há de extraordinário. Flaubert esconde uma falsa simplicidade. Seu estilo é discreto, nada de grandes arroubos de emoção. Talvez neste conto isso esteja mais evidente, a partir, principalmente, da própria história por ele contada. Félicité, uma moça de baixo nascimento que quase foi feliz, mas acabou passando cinquenta anos na solidão, como criada, vivendo uma vida frugal, até mesmo miserável, mas sem jamais se revoltar e ocupando um legítimo papel de coadjuvante. Flaubert resolve colocá-la em evidência, e o que a princípio poderia parecer maçante, revela, no mínimo, que o autor francês é um mago, um feiticeiro, que nos encanta com suas palavras, metáforas, descrições e diálogos.
Leiam os dois primeiros parágrafos e digam-me se não concordam que este não parece eu disse não parece! o mais promissor dos inícios de um conto:

Durante meio século, as burguesas de Pont-lÉvêque invejaram à sra. Aubain sua criada Félicité.
Por cem francos ao ano, ela cuidava da casa e da cozinha, costurava, lavava, passava, sabia arrear um cavalo, engordar aves de criação, fazer manteiga e continuou fiel à patroa, que entretanto não era uma pessoa amável.

Assim Flaubert descreve Felicité:
O rosto era magro e a voz, aguda. Aos vinte e cinco a nos, davam-lhe quarenta. A partir dos cinquenta, não aparentou mais idade nenhuma; e sempre silenciosa, o porte rijo e os gestos comedidos, parecia uma mulher de madeira, funcionando de maneira automática.
Ele garante, contudo, que ela, tivera, como qualquer outra, sua história de amor. Félicité se encantara, em sua juventude, por um jovem de nascimento superior e alimentara esperanças de desposá-lo, o que, naturalmente, jamais aconteceu.
O conto não tem bem um enredo. Acompanhamos alguns anos na vida da casa em que Félicité trabalha. Vemos o amor e a dedicação da criada aos filhos da patroa, que crescem e tomam rumos que não são exatamente aqueles com os quais uma mãe sonharia. Vemos também o amor de Félicité pelo seu sobrinho, um marinheiro que embarca em perigosas aventuras. Vemos, finalmente, o papagaio Lulu, que se torna o grande amigo da criada.
O conto deixa transparecer um ar místico, especialmente na sua conclusão. Parecem interessar também a Flaubert as figuras de caráter intrinsecamente religioso, santo. Não sei dizer se este elemento contribuiu para que eu me afeiçoasse tanto ao conto. Acredito que não, até porque os outros dois contos são centrados em acontecimentos ligados a figuras religiosas e nem assim me conquistaram como este aqui.
Flaubert é um exímio narrador, e a sua capacidade para desenvolver personagens, dar-lhes vida, hálito, cheiro, é desconcertante. Sempre lembrarei com carinho da pobre Félicité.
Apenas uma informação interessantíssima que o próprio Flaubert fornece sobre o processo de criação de Um coração simples:
(...) não consigo aprumar minha História de um coração simples. Ontem, trabalhei por dezesseis horas, hoje, o dia inteiro, e esta noite, enfim, terei terminado a primeira página.

A Legenda de São Julião Hospitaleiro
Antes de iniciar a leitura deste conto, eu já fazia uma boa ideia do que esperar. A Legenda de São Julião Hospitaleiro ocupa papel de destaque no livro que mais me impressionou em 2012: Beatriz e Virgílio (que reli no início desse ano e sobre o qual escrevi aqui).
Em Beatriz e Virgílio, Henry, um taxidermista, pede ajuda a Henry, um escritor de sucesso que enfrenta uma crise criativa, para terminar uma peça de teatro que tem como personagens principais Beatriz, uma mula, e Virgílio, um macaco. Antes de pedir exatamente esse auxílio, ele envia ao escritor uma cópia do conto de Flaubert, com destaque especial para as cenas em que o santo mata com crueldade animais de praticamente todas as espécies existentes.
São Julião, o hospitaleiro (também conhecido como São Juliano), é um santo da Igreja Católica. Sua história, de acordo com a Legenda Áurea, é, resumidamente, a seguinte:
Julião era um jovem que tinha muito prazer nas caçadas. Um dia, quando estava a ponto de matar uma corça, ela falou-lhe, com ar profético, que ele acabaria matando seus próprios pais. Assustado, ele resolveu fugir de casa e desaparecer, para não ver se concretizar aquela terrível maldição. Anos se passaram e ele, depois de se destacar em várias guerras, acabou ganhando de um príncipe a mão de uma castelã-viúva. Após anos de busca, seus pais acabaram encontrando o castelo e conversaram com a esposa de Julião, que os acolheu, dando-lhes a sua própria cama para descansarem, depois de tão fatigante jornada. Julião, que passara o dia inteiro caçando numa floresta vizinha, volta no meio da noite e ao entrar no quarto, vê, na penumbra, um homem e uma mulher deitados em sua cama. Supondo que sua mulher o traía, matou ambos silenciosamente. Ao sair do quarto, encontra a sua esposa e descobre a verdade: a maldição havia se cumprido. Resolve deixar o castelo e abandonar a esposa para tentar expiar a terrível culpa. Ela permanece com ele e ambos se retiraram para as margens de um grande rio onde muitos perdiam a vida. Lá estabelecem um hospital, onde acolhem os pobres e ajudam a quem quisesse atravessar o rio.
Certa vez, muito tempo depois, um homem doente pede, no meio da noite, auxílio para atravessar o rio. Julião ajuda-o e quando o traz para a margem do hospital, percebe que se trata de um leproso e que treme de frio. Julião leva-o para dentro de sua casa e procura aquecê-lo. Só então o leproso revela ser um anjo, que veio trazer a mensagem de que Deus havia aceitado a penitência do parricida, que agora poderia descansar nos braços do Senhor.
Flaubert teria tido a ideia de escrever sobre essa curiosa história a partir de um vitral numa igreja, retratando o santo. O tratamento literário preciso é evidente, e como é de se esperar, muitas liberdades são tomadas. Há um especial cuidado do escritor francês em retratar as caçadas de Julião. A variedade de animais que ele diz terem sido assassinados por prazer pelo futuro santo encheriam a arca de Noé.
No livro Beatriz e Virgílio, Henry, o taxidermista, explica que chama a atenção no conto que Julião leva toda uma vida de penitência por causa do crime contra seus pais. Sua vida de crueldade contra os animais, todavia, sequer pesa-lhe na consciência. Apesar de a profecia ou maldição vir da boca de um animal prestes a ser morto, Julião em nenhum momento se arrepende ou pensa no que fez como algo negativo.
Preciso dizer que não consegui captar o que Flaubert pretendeu expressar com isso. Que não é gratuito, é óbvio. No livro do escritor canadense, o raciocínio do taxidermista se faz logo claro. Mas essa é a leitura dele, impossível a Flaubert tantos anos antes.
De qualquer maneira, A Legenda de São Julião Hospitaleiro é mais uma amostra do talento inegável de Flaubert.

Herodíade
A história do martírio de São João Batista é bastante conhecida, principalmente pelo seu incrível potencial literário, dada a carga dramática de toda a situação.
São João Batista, que dizia de si mesmo ser a voz daquele que clama no deserto denunciava as imoralidades e pecados de seu tempo. Não poupava sequer Herodes, que se casara com Herodíades, esposa de seu irmão. Adúlteros, pecadores, ímpios são os nomes mais doces que João Batista dirige ao casal. Herodes, apesar disso, gosta de ouvir João Batista, talvez por encará-lo como uma figura curiosa, talvez por ser supersticioso e julgá-lo um profeta. Herodíades, por sua vez, nutre um ódio fortíssimo pelo pregador, e quer vê-lo morto.
João está preso nas masmorras do castelo de Herodes e vez ou outra sua voz ainda se ouve. Alguns dos judeus pedem sua libertação, outros, sua morte. Herodes vai contornando essa situação até o dia em que promove um grande banquete, do qual participam diversas autoridades, algumas superiores a ele próprio.
Depois de já embriagado, surge em cena uma moça misteriosa, sensual, que dança como uma deusa. Herodes cobiça-a, e ela sabe como provocá-lo. Faz um espetáculo, circula todo o salão, enfeitiça a todos. Herodes, que não a conhecia, promete-lhe até metade do reino. A moça, que se chama Salomé, já estava bem instruída por sua mãe, Herodíades:
Quero a cabeça de João Batista numa bandeja!
Toda a situação havia sido armada por Herodíades com esse objetivo. Sua filha havia vindo de longe e se mantinha distante dos olhos de Herodes até o momento em que o banquete estivesse no seu ponto máximo. Sabedor da volúpia de seu marido, Herodíades não hesitou em entregar-lhe a própria filha para se livrar de seu inimigo.
Herodes, não querendo voltar atrás diante de tantas testemunhas, ordenou a morte de João Batista e pouco tempo depois sua cabeça chegava numa bandeja e era entregue à jovem Salomé.
Alguns anos depois de Flaubert, Oscar Wilde contou sua versão dessa história a partir de Salomé, em uma peça de teatro que ficou bastante famosa.
A versão de Flaubert, revela o próprio título, tem como centro Herodíades, que, de acordo com a versão original, constante na Bíblia, foi a responsável pela morte do Batista.
O escritor francês mais uma vez capricha em sua história. Indo bastante além do resumido relato bíblico, Flaubert estabelece o clima de tensão que vivia Herodes, ameaçado pelo rei dos Árabes, cuja filha ele desprezara para justamente desposar Herodíades. Herodes espera o socorro dos romanos, mas não é tão simples assim, já que ele também tem seus segredos e há todo um jogo de intrigas em ação. Herodíades, neste aspecto, revela-se exímia jogadora, e a união com Herodes foi apenas mais um movimento dentro da sua estratégia. Há mais problemas que os árabes. João Batista está preso e ainda vivo, o que Herodes faz questão de esconder. Há diversas figuras importantes entre os fariseus e saduceus reivindicando mudanças, privilégios, punições ou recompensas. Há os agitadores e pretensos profetas, dentre os quais é citado Jesus, que ainda não constitui preocupação para o tetrarca. E há Herodíades, que insiste que João tem que morrer.
Herodes organiza um banquete para mostrar seu poder e para mostrar que tem o apoio de Roma, dissipando, assim, parte das tensões reinantes. Recebe a visita de um representante de Roma e, enquanto visitam algumas partes do castelo, são surpreendidos pelos gritos de João Batista, que assim se expressa ao ver Herodíades:
- Ah! És tu, Jezabel! Conquistaste o seu coração com o estalido das tuas sandálias. Relinchavas como uma égua. Ergueste o teu leito sobre os montes, a fim de realizar teus sacrifícios! O Senhor arrancará teus brincos, teus vestidos de púrpura, teus véus de linho, os anéis dos teus pés e os pequenos crescentes de ouro que tremem em tua testa, teus espelhos de prata, teus leques de plumas de avestruz, os saltos de nacara que aumentam tua estatura, o orgulho dos teus diamantes, as essências dos teus cabelos, as pinturas das tuas unhas, todos os artifícios da tua brandura; e faltarão pedras para lapidar a adúltera! (...)
- Deita teu corpo no pó, filha de Babilônia. Faz moer a farinha! Tira o teu cinto, desata a tua sandália, arregaça a roupa, cruza os rios! Tua vergonha será descoberta, teu opróbrio será visto! Teus soluços quebrarão os dentes! O Eterno execra o fedor dos teus crimes! Maldita! Maldita! Morre como uma cadela!
Não é de surpreender o desamor de Herodíades pelo profeta...
Flaubert mais uma vez conduz com maestria a história, trabalhando os personagens, dando-lhes motivações, fazendo-os de carne e osso. Um exemplo disso é a atração de Herodes por Salomé, que ele não conhecia. Em duas cenas ele avista, de longe, uma bela moça. Não vê seu rosto, apenas relances: em um momento, ela, languidamente, estende umas roupas; noutro, passeia por um jardim. O desejo dele cresce rapidamente. Indaga a Herodíades quem é aquela moça, se seria sua criada, mas a mulher permanece em silêncio. Quando enfim Salomé chega à festa, sua dança é mais do que Herodes poderia esperar, e ele já não tem controle sobre si. A descrição da dança, por sinal, é, a meu ver, o ponto mais forte do conto, uma cena memorável.

Nesses três contos fica evidente o poder de Flaubert como narrador e torna-se mais fácil compreender por que James Wood, em seu Como Funciona a Ficção, reputa-o como pai do romance moderno.
Felipe 10/11/2014minha estante
Parabéns pela resenha, uma obra formidável!




André LDC 10/05/2010

Poderia ser só um conto...
Não sei se foi ideia do autor ou de algum editor barateiro de lançar os três contos num só volume, pois "Um Coração Simples" merecia uma edição especial, pois é muito melhor que os outros contos.
As três estrelas são só para ele.
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