A Maçã no Escuro

A Maçã no Escuro Clarice Lispector




Resenhas - A Maçã No Escuro


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Claudius 11/06/2012

A maçã na escuridão: Clarice Lispector
Pecado-redenção, morte-ressurreição e queda-ascensão são temas centrais no romance A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector. As personagens são aprendizes do mundo em uma narrativa adâmica, pois o romance em certa medida é uma parodia do mito da criação. Também neste romance, os seres estão em busca da plenitude ontológica: identidade sem fissuras. É uma narrativa de ação rarefeita e “uma literatura não do significante, mas do significado”. Clarice Lispector opõe-se às palavras estereotipadas que nada dizem e criam comportamentos alienados. E, assim, A Maçã no Escuro, é um romance da diáspora, em que o outro é o que orienta o discurso para o paradoxo e que cria a heroização e deseroização.
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Evelyn Ruani 19/01/2011

Otimo!
Não posso dizer que achei uma leitura fácil. Clarice nunca é fácil, pois como já relatei em outra resenha, a leitura de Clarice é densa porque faz pensar e traz a tona sentimentos que as vezes não queremos encarar. Por isso acho-a tão essencial.

Gostei muito de A maça no Escuro justamente por causa disso, muito embora eu confesso que tive dificuldades e achei o livro bastante cansativo em alguns momentos. Mas certos livros só mostram o seu verdadeiro valor quando você o termina de ler e pensa nele como um todo. A maça no Escuro é uma leitura muito reflexiva que trata de aprendizagem, sentimentos, transformações internas e sensações.

A obra está dividida em 3 capítulos: “Como se faz um homem”, “Nascimento do herói” e “A maça no Escuro”. Essa divisão e a forma como a história se desenrola faz com que você passe pelos estágios de transformação de Martin, o protagonista do livro, como se estivesse acontecendo com você. Você mergulha profundamente na mente da personagem e consegue sentir as transformações e sensações pelas quais vai passando ao longo dos acontecimentos.

Leitura recomendada!
Aline 22/12/2011minha estante
Clarice não é uma leitura fácil. O livro que mais achei complicado foi A paixão segundo G.H. Aquela aflição dela com a barata realmente me aflingiu e parei a leitura, mas um tempo depois retornei e fui até o fim. E então, fica aquela mensagem que vc mesma expôs "...livros só mostram o seu verdadeiro valor quando você o termina de ler e pensa nele como um todo". Considero um maravilhoso livro, pois ela conseguiu passar aquele sentimento dela com a barata. Tive ansiedade, raiva, nojo, admiração; e por um momento, desisti de enfrentar esse momento com a barata, mas algo dizia que deveria enfrentar o encontro (a passagem da barata). Há tempo que não leio mais Clarice. Retornarei.




Davisson 09/01/2009

Personagens cheios de conflitos internos e conflitando entre si.
Crimes e ações são pontos de mudança na vida de cada um.
Clarice é uma grande escritora de contos, em alguns pontos é fácil perceber como ela perde o fôlego da narrativa. O livro tem pontos alto e baixos tornando a leitura difícil em alguns treços.
Mas Clarice pra mim é a rainha da literatura é a minha fonte de inspiração e admiração.
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Francine 01/10/2010

A maça no Escuro, de Clarice Lispector
Comprei A Maça no Escuro numa dessas promoções do Submarino: foram 3 livros da Clarice Lispector por um preço ótimo. E escolhi A Maça no Escuro porque queria entender o nome: A Maça no Escuro – o que será que Clarice Lispector está querendo dizer? Essa foi a questão.

O livro é divido em 3 partes: “Como se faz um homem”, “Nascimento do herói” e “A maça no Escuro”. Na primeira parte o leitor não terá a mínima idéia do porque Clarice escolher esse nome, porém, é um ótimo início onde cada personagem é mostrado com muita mestria, onde só o fluxo de consciência é capaz de carregar essa missão. Clarice Lispector é tão espetacular quanto Virginia Woolf nesse sentido. É maravilhoso mergulhar nas mentes dos personagens e eu, particularmente, não consigo ler um livro onde isso não aconteça de alguma forma. E esse mergulho permanece na segunda e terceira parte, não poderia ser diferente tratando-se de Clarice Lispector, e é nisso que mora toda a mágica do livro: muitas vezes precisei voltar à terra, recuperar meu fôlego, reencontrar meu equilíbrio de emoções e seguir no mar profundo da leitura. Delicioso!

Os personagens principais: Martim, Vitória e Ermelinda têm algo em comum: a necessidade de compreender o que se faz em cada passo, mas esses passos são dados sem, necessariamente, ter entendido o passo anterior. Não sei se isso é claro para eles como pessoas, mas Clarice Lispector “rouba” a mente deles e apresenta ao leitor tudo organizado, preciso, bonito. E ao mesmo tempo: louco, confuso, torto, divino. E não há como se perder na história, pois é um mergulho na confusão da humanidade, um apocalipse do que pode ser e o que não é. Puta que pariu (me desculpem o palavrão), mas Clarice Lispector é foda! Ao final do livro eu vi nitidamente a maça no escuro como se eu admirasse uma tela impressionista. E o que mais posso acrescentar perante isso? Estou anestesiada por conta desse livro, pois a aproximação que Clarice permite para cada personagem a cada página do livro é algo que somente os grandes escritores conseguem, e fico aqui boba pensando “e ela se achava amadora”. Sim, Clarice se achava amadora e afirmava gostar de ser assim porque se sentia livre para criar. Amém. Mas ela não tem nada de amadora e eu só pude compreender isso lendo A Maça no Escuro, devido a complexidade, a densidade, a consciência e o derrame perfeito de palavras para tentar compreender a vida, para tentar buscar um sentido. Sentido este que pode surgir de um ato mau para um bom ou de um bom para um mau. E, ao final, o importante, mas importante mesmo, não é encontrar o sentido e sim não ter medo de colher a maça no escuro.

http://acontadora.wordpress.com/2010/10/01/a-maca-no-escuro-de-clarice-lispector/
Felipe 25/06/2016minha estante
Que bacana tua resenha! Tô na página 30 e tô naquela vibe ainda de achar a leitura pesada, vira e mexe, ela dá uma sacudida na nossa mente com esse furacão de emoções.
Lendo aqui o que vc escreveu, até animei de continuar a leitura do livro. Obrigado.




mylla 31/08/2016

Maça no escuro
O livro é divido em 3 partes: “Como se faz um homem”, “Nascimento do herói” e “A maçã no Escuro”. Na primeira parte o leitor não terá a mínima ideia do porque Clarice escolher esse nome, porém, é um ótimo início onde cada personagem é mostrado com muita mestria, onde só o fluxo de consciência é capaz de carregar essa missão. Clarice Lispector é tão espetacular quanto Virginia Woolf nesse sentido. É maravilhoso mergulhar nas mentes das personagens e eu, particularmente, não consigo ler um livro onde isso não aconteça de alguma forma. E esse mergulho permanece na segunda e terceira parte, não poderia ser diferente tratando-se de Clarice Lispector, e é nisso que mora toda a mágica do livro: muitas vezes precisei voltar à terra, recuperar meu fôlego, reencontrar meu equilíbrio de emoções e seguir no mar profundo da leitura. Delicioso!

Os personagens principais: Martim, Vitória e Ermelinda têm algo em comum: a necessidade de compreender o que se faz em cada passo, mas esses passos são dados sem, necessariamente, ter entendido o passo anterior. Não sei se isso é claro para eles como pessoas, mas Clarice Lispector “rouba” a mente deles e apresenta ao leitor tudo organizado, preciso, bonito. E ao mesmo tempo: louco, confuso, torto, divino. E não há como se perder na história, pois é um mergulho na confusão da humanidade, um apocalipse do que pode ser e o que não é. Ao final do livro eu vi nitidamente a maçã no escuro como se eu admirasse uma tela impressionista. E o que mais posso acrescentar perante isso? Estou anestesiada por conta desse livro, pois a aproximação que Clarice permite para cada personagem a cada página do livro é algo que somente os grandes escritores conseguem, e fico aqui boba pensando “e ela se achava amadora”. Sim, Clarice se achava amadora e afirmava gostar de ser assim porque se sentia livre para criar. Amém. Mas ela não tem nada de amadora e eu só pude compreender isso lendo A Maçã no Escuro, devido a complexidade, a densidade, a consciência e o derrame perfeito de palavras para tentar compreender a vida, para tentar buscar um sentido. Sentido este que pode surgir de um ato mau para um bom ou de um bom para um mau. E, ao final, o importante, mas importante mesmo, não é encontrar o sentido e sim não ter medo de colher a maçã no escuro.
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Su 28/01/2016

A maçã no escuro é o quinto livro da autora Clarice Lispector. Lançado no ano de 1961, embora tenha sido concluído no ano de 1956.
Ele é dividido em três partes. Parte I – Como se faz um Homem, Parte II – Nascimento do Herói e Parte III – A maçã no escuro.
A estória começa em uma noite de março, aonde vemos Martin fugir de um hotel e ao mesmo tempo fugir de si mesmo, de seus pensamentos, de tudo aquilo que o faz humano.
Mais tarde, somos informados de que Martin cometeu um crime, o qual não sabemos. E essa é a real razão para que ele queira começar tudo de novo.
Esse é o maior livro da Clarice, pelo menos dos que eu li, somando 336 páginas. A leitura é complexa e acredito que esse é daqueles livros que te fazem questionar a vida, a sociedade atual, entre outras coisas.
Claro, não poderia deixar de fora um trecho, para que vocês possam refletir um pouco.
“Mas como escapar à tentação de entender? sem conseguir vencer
certa sensualidade, ele entendeu. Para não se comprometer de todo, tornou-se
enigmático, a fim de poder recuar logo que se tornasse mais perigoso.
Então, cuidadoso e sonso, ele entendeu assim: “Como se impedir de
compreender, se uma pessoa sabe tão bem quando uma coisa está ali!”, e a
coisa estava ali, ele sabia, a coisa estava ali. “Sim, assim era, e havia o
futuro.” O largo futuro que tinha começado desde o começo dos séculos e
do qual é inútil fugir, pois somos parte dele, e “é inútil fugir porque alguma
coisa será”, pensou o homem bastante confuso. E quando for — oh como
poderia ele se explicar diante de uma manhã tão inocente? — “e quando for,
então será”, disse ele humilhado com o pouco que dizia. E quando for, o
homem que nascer se espantará de que antes... “Mas quem sabe se já não
é?”, ocorreu a Martim com grande argúcia. “Acho até que já é”, concluiu
com dignidade de pensamento. Então, de algum modo satisfeito, tomou
uma atitude oficial de meditação. Ele meditou, enquanto olhava a manhã
no campo. E quem há de jamais responder por que borboletas num campo
alargam em compreensão obscura a vista de um homem?”

site: http://detudoumpouquino.blogspot.com
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Rone Oliveira 25/02/2017

Obra Analisada: A MAÇÃ NO ESCURO
O objetivo desse trabalho consiste em acompanhar detalhadamente a partir da leitura pessoal da obra “A Maça no Escuro” de Clarice Lispector, e, sobretudo, ampliar o nosso entendimento quanto às questões filosóficas adjacentes na trama e, bem como elaborar uma análise contextual sobre a história vivida por Martim, personagem principal do romance.
A temática em questão se dá a partir da dimensão antropológica, tendo em vista a ênfase da autora sobre a existência humana, razão pela qual abordaremos como cerne do nosso trabalho as relações entre verdade-identidade-liberdade, conceitos que fazem parte do processo de autoconsciência de Martim, na qual o mesmo busca estabelecer a sua própria ordenação diante da ruptura com o seu passado após cometer um ato criminoso.
Percebemos em Martim um confronto psíquico onde é evidenciada uma certa limitação oriunda da condição humana pela relação que se estabelece entre o sujeito e o mundo, confeccionando por assim dizer; o desfavorecimento do fracasso humano em face da subjetividade, cumprindo a função de situá-lo na realidade objetiva a ponto de transformá-la na imagem pertencente ao indivíduo, isto é, o sujeito real da vida mediante a sua condição singular.
Surge por meio da experiência de Martim, um sentimento de culpa e impotência incapacitando-o de compreender a realidade. Ele admite também, um drama pessoal na tentativa de conciliar-se com o mundo, pois, sentia uma enorme dificuldade de conceber a linguagem. Apoiava-se na possibilidade de encontrar em algumas palavras consideradas chaves, na qual funcionariam como uma espécie de orientação. Entre estas palavras chaves; os termos: “Misericórdia”, “Valorosa e Boa”, “Salvação” e outras são tidas a princípio por Martim como uma fonte escrita capaz de guiá-lo, embora, nenhuma dessas satisfizesse a sua expectativa.
Martim viveria uma experiência antagônica em meio o seu contato físico com exterioridade do mundo e sua interioridade, pois, ele se identificava a partir de suas experiências com as coisas externas na qual parecia refletir em si mesmo. O contato com a natureza, por exemplo, lhe fizera muito bem.
Teria Martim evoluído muito com o contato direto com a natureza e os animais, sendo que ele também se reconhecia como ser humano e se moldava como pessoa através da absorção do mundo externo em si.
Há uma presença de termos dualistas na obra de Clarice, isso demonstra a existência de oposições e formas distintas, como por exemplo: as relações entre o bem e o mal, a consciência e o inconsciente, a luz e a escuridão, vida e morte, negar e afirmar, a alma e o corpo, a compreensão e incompreensão, o medo e a coragem etc., as quais não poderiam de modo algum serem reduzidas umas às outras.
O suposto crime mudaria a vida de Martim por completo, razão pela qual, ele foi obrigado seguir em busca de sua liberdade a partir de si. Começava assim, o seu “descortinar”, de modo que, ele encarava o fato dele mesmo ser seu próprio ponto de partida para se tornar um novo homem.
Desde o inicio da obra, nota-se uma variedade de aspectos que correlacionam como tantos outros temas sugeridos nesta proposta acadêmica, mas, em se tratando do desejo de delimitar melhor o nossa reflexão com base no romance de Lispector, aprofundaremos na tríade que diz respeito à verdade, identidade e liberdade pelo fato delas estarem interligadas. Além do mais, os temas escolhidos são pertinentes e já foram tratados por grandes nomes da tradição filosófica.
Pouco se sabe da vida de Martim antes de sua chegada ao hotel abandonado. Ele estava em fuga, aliás, esta fuga mais parecia uma viagem sem destino, pois, o personagem principal partia pelo menos a duas semanas, provavelmente de um lugar civilizado, onde teria convivido por longos anos.
Martim deixou a cidade, se afastando de toda a coletividade, motivo pelo qual lhe permitiu gastar mais tempo consigo mesmo. Com efeito, ele precisava esvaziar a sua mente para depois quem sabe poder pensar em se reerguer ou quem sabe reconstruir-se de um modo mais decente a partir de uma nova perspectiva de vida, uma nova vida constituída pela sua própria convivência em meio o mundo real. Martim estava repleto de dúvidas, no entanto, se dispunha ir a qualquer custo em busca da verdade, mesmo encontrando muitas dificuldades em sua caminhada.
(Coragem) Como podemos falar em dificuldade para Martim se ele mesmo já não tinha reconhecido que não havia nada perder. Inconscientemente, ele deixava a sorte lhe conduzir, tendo em vista que alguma coisa parecia lhe proteger; talvez fosse à segurança proveniente do desejo de mudança, do recomeço. De modo que, Começar do zero seria um método que lhe dispunha a negar respectivamente; o próprio passado, o pecado ou o ato impensado?
Em “A maça no escuro” é possível que se faça uma analogia com a famosa obra de Platão: O contexto de “O Mito da Caverna” tendo em vista uma ligeira semelhança explícita entre os temas libertação e descoberta com o momento em que Martim decide partir para o descampado em busca de novos horizontes. Assim, o prisioneiro que vivia restritamente em uma caverna e tinha como referência a realidade apresentada por sombras projetadas de uma fogueira, e, no instante que se depreendia dos grilhões, o prisioneiro partiria da caverna em busca da compreensão do mundo. É nesse instante que o homem descobre novas paisagens, outras possibilidades de enxergar a realidade.
O sol ilumina toda a superfície da terra ampliando as possibilidades de entendimento, o mundo anterior, o da caverna lhe trazia a incerteza quanto à realidade. As especulações reduziam as chances de compreensão humana, a verdade não era possível sem a luz do conhecimento.
A busca da verdade pessoal de Martim desencadeava na procura da liberdade a partir dele mesmo, ele seria a sua própria chance de redenção, portanto, ele procurava reunir em seu interior os elementos primordiais para evolução do próprio ser, ele precisava se tornar o que estava sendo.
Aqui, fica clara a tomada de consciência de Martim, movida pelo processo de maturação da sua personalidade reproduzida durante o percurso de seu desenvolvimento a partir das especificidades proveniente da relação indivíduo com o mundo; as atividades e experiências pessoais resultantes das relações motivos e circunstâncias e ordenação categórica entre consciência de si no mundo e a autoconsciência.
A tomada da autoconsciência de Martim advém da busca da consciência de si mesmo como indivíduo, de suas capacidades, dos limites e possibilidades de compreender-se na universalidade. Com efeito, a mudança comportamental de Martim lhe permite a efetivação de sua essência enquanto “Ser” através da sua ação e reconhecimento nos âmbitos: trabalho, consciência, social, universal e liberdade.
O livro é dividido em três partes, “Como se faz um homem”, “O nascimento do herói” e “A maçã no escuro”, sendo que o último deles intitula o nome do romance de Clarice Lispector. No primeiro deles, “Como se faz um homem”, a clássica frase estampada no oráculo de Delfos: conhece-te a ti mesmo entra em cena implicitamente. Há uma passagem de Martim que nos leva pensar na busca do ser humano a partir da própria identidade.
O conhece-te a ti mesmo presente em “A maça no escuro” denota uma exigência reflexiva. Assim, “o sujeito conhecedor” deveria se perguntar pelas causas que se entrelaçam nesta máxima, e a partir dela poderia lhe dizer mais sobre ele próprio. Em contra partida, como poderia ser também uma reflexão que iria até os limites da causalidade, sendo que a reflexão emergiria sobre as seguintes problemáticas: O real lugar do indivíduo, o lugar de si próprio perante o mundo e perante aos outros homens.
Do ponto de vista filosófico, Aristóteles em sua Ética a Nicômaco dizia que a natureza humana visa um fim último, isto quer dizer que, o fim último do homem consiste na felicidade e para ele, a felicidade seria alcançada quando o homem agisse da melhor forma possível, explorando a sua habilidade, de modo que ele passaria a ser o artificie da sua própria vida, tornando-se virtuoso.
Portanto, para Aristóteles, a felicidade é o bem supremo, o fim último do homem, e resulta da razão e inteligência. No caso de Martim, poderíamos pensar que a sua felicidade viria a partir do momento que ele se tornasse livre. Embora, a sua liberdade fosse ainda, uma consequência do seu renascimento, uma motivação capaz de torná-lo quem ele deveria ser, e, portanto, como recompensa ele se alegraria a si mesmo.
“O torna-te a si mesmo” para Martim nada mais era do que a sua metamorfose, o seu ato de heroísmo. Era preciso representar-se a si mesmo para se tornar um herói, e, no entanto, tudo isso dependeria do seu autoconhecimento, a busca da verdade que habitava em si.
Martim se distanciou de sua própria inteligência, pois, segundo ele, a inteligência não passava de uma imitação e por isso deixou de imitar os outros, se comparava com um rato por se preocupar somente com sua própria sobrevivência, pois, assim ele se encontrava no mundo, tirava toda a sua responsabilidade de ser o culpado pelo seu sofrimento.
(Citar) Martim criava a sua própria verdade para depois poder crê nela: {...} “Se reconstruía a partir de suas próprias palavras, e por isso, era preciso ter muita paciência com ele, ele era lento. Que queria ele? Reconstruir-se”. (Lispector, p.124). Pensar na verdade era algo incerto, a única verdade que Martim carregava era a certeza do amor que sentia pelo seu filho, por isso talvez, não importava se a verdade existia ou fosse criada.
A identidade em Martim é compreendida como metamorfose do “eu” e, através da sua metamorfose questionou-se na possibilidade de ser reconhecido se caso viesse a ser transformado pela descoberta da verdade. Nesse processo de reconstrução, Martim chegou a pensar em uma pista sobre a verdade, e, segundo ele, o entendimento poderia fazer parte da resignação, o sofrimento poderia então purificá-lo, de modo, a desvelar a sua identidade. Martim deveria assim, aguentar firme a sua penitencia.
Martim reflete sobre o autoconhecimento socrático: {...} “Teve a certeza intuitiva de que não somos nada do que pensamos e somos o que ele estava sendo agora, um dia depois que nascemos nós nos inventamos — mas nós somos o que ele era agora.”. (Lispector p. 212). Ele estava sendo o que era. E de certo modo, se de um lado, o “Ser” de Martim consistia na também na busca harmônica pela sua salvação, o “Ser” também lhe causava muita dor, uma vez que para ele ser deveria ter consciência de sua identidade, o que lhe obrigava a ser novamente homem, ser inteligente e deixar de parecer com os bichos, animais e plantas.
Em se tratando do fim último do homem, a felicidade para Aristóteles em minha análise é convertida em liberdade como o telos (a finalidade última) de Martim; notamos a intencionalidade do protagonista em enfatizar a liberdade como um fator essencial na realização do ser humano.
Realização esta, que necessitaria do esforço pessoal de cada um para alcançá-la através do encontro autorreflexivo, do movimento introspectivo e prático; isto é, a verdade seria a responsável pelo entendimento e firmamento da identidade de cada um, como vimos nesse trecho: {...} “Um homem sem vocação deveria ao menos ter a vantagem de ser livre”. (Lispector. p. 274).
A liberdade de Martim desencadeava em seu próprio bem-estar, e pelo fato dele se identificar com o sítio, ele passou a sentir harmonia e paz ao reconhecer-se naquela nova vida: {...} “Martim olhava para si sem sentir vergonha, era seu primeiro passo seguro para a sua própria reconstrução, pela primeira vez se amava”.
A terceira e última parte do romance; “A Maça no Escuro” poderia ser uma alusão à passagem bíblica da maçã, como a árvore do conhecimento. A figura da maçã denota uma certa simbologia na história da humanidade por se tratar de um meio de conhecimento, tanto pelas as vias do bem, como também para as do mal. Por fim, o termo escuro poderia advir da falta de entendimento, da incompreensão, da limitação humana e tec.
O entendimento Martim quanto ao real e o seu “eu interior” poderia lhe transformar em um novo homem, a ponto de descobrir por si próprio e também pela sua experiência o verdadeiro sentido da existência ou a finalidade do viver. O seu ponto de partida deveria ser ele mesmo, um fruto do silencio e da incompreensão, enquanto a liberdade radical teria sido uma necessidade de apagar o vazio da alma através da recriação do seu mundo pela descoberta da verdade pessoal. E segundo a autora quanto mais ele se aproximava da sua verdade, mais ele se encontrava: {...} ”Martim parece mais confortável com a descoberta de sua verdade, as palavras “valorosa e boa” lhe trouxeram um prazer interior”. (Lispector. p. 303).
No processo de constituição da identidade do protagonista nasce um processo de constituição do “eu” de Martim, promovendo constantes transformações decorrentes das condições sociais e de vida que o indivíduo se insere. No processo de constituição de sua identidade, Martim assume uma função de autoprodução de si ao longo da sua nova vida, partindo de uma identidade idealizada em relação ao desempenho desse novo plano. A vida torna-se o seu próprio projeto de vida. Deste modo, a identidade é construída continuamente, pois, o indivíduo vivencia ao mesmo tempo vários papéis, o que o torna um personagem da sua vida, Martim se metamorfoseia de acordo com as condições submetidas.
Diante do exposto, a nossa reflexão sobre o romance de Clarice nos propõe a pensar o ser humano mediante o seu processo de construção; o nascimento, a negação, a morte, o ressureição, a afirmação, a autoconsciência e a identidade são as fases constituintes da vida de Martim. “A Maçã no Escuro" revela em um primeiro momento uma ruptura do protagonista sob a negação da vida, e, por conseguinte, o nascimento de um novo homem em decorrência suposto crime como uma espécie de metamorfose a partir da autoconsciência. Por fim; o retorno à condição humana o torna novamente um homem comum em meio às adversidades da vida e prontamente a regressar juntamente a ao convívio social e a sua existencialidade.

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Dani Santos 02/09/2013

O homem
Sinceramente, a delicadeza de Lispector no homem-animal. Aconselho. Mesmo que, de vez em quando, a leitura se tornava tão densa, que fosse preciso respirar para continuar, é uma bela história e memorável.

É uma fuga de Clarice de si mesma, e nossa, conforme vamos passando cada página. Não há como não refletir, pós-leitura, por alguns dias a fio.
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Audrey Lispecto 30/10/2013

"- Por que você toma tanto calmante? perguntou ele sorrindo.

- Ah, disse ela com simplicidade, é assim: vamos dizer que uma pessoa estivesse gritando e então outra pessoa punha um travesseiro na boca da outra para não se ouvir o grito. Pois quando tomo calmante, eu não ouço meu grito, sei que estou gritando mas não ouço, é assim, disse ela ajeitando a saia."

Clarice Lispector em "A Maça no Escuro", Editora Rocco, p. 187
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Mara.Sousa 05/04/2017

Martin...
Me lembro que esse romance deu um nó na minha cabeça, estava descobrindo Clarice ainda. Uma leitura marcante, para ler com paciência, degustando, e percorrendo com olhos e coração bem abertos a trajetória desse intrépido personagem, que em muitos momentos será eu ou você (como em todos os livros de Clarice).
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spoiler visualizar
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Thiago 02/07/2011

Ser livre
Um homem que procura a liberdade,
mas sem saber, ele já tem.
Eu amo C. Lispector e sou suspeito pra falar.
Acho um romance ousado, uma estrutura diferente, com personagens diferentes.
Foge do ideal e do comum.
Recomendo para quem já está habituado à Clarice.
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