Conversa na Catedral

Conversa na Catedral Mario Vargas Llosa




Resenhas - Conversa na Catedral


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Alê | @alexandrejjr 13/06/2020

As conversas de Vargas Llosa

Demorei alguns dias para decidir se iria falar a respeito do genial "Conversa no Catedral", romance publicado em 1969 pelo peruano Mario Vargas Llosa. E sim, tomei coragem. Vamos lá.

Percebam o seguinte: Vargas Llosa está interessado em desafiar o leitor. E não, o livro não é complicado, apesar de sua conhecida extensão. Além disso, o preparo e a força necessários ao autor para executá-lo são inimagináveis. A questão é que se faz aqui uma espécie de contrato com o leitor. A mágica colocada nesse romance não poderia ser experenciada ou reproduzida de outra maneira que não a literária.

Somos apresentados a duas personagens centrais, mas mais do que isso, iniciais: Santiago Zavala e Ambrosio. Enquanto a base da história acontece durante a conversa no Catedral, uma espécie de botequim, o leitor é convidado a desafiar o próprio conhecimento sobre o espaço e o tempo literário. O que acontece logo em seguida, quando percebemos que estamos fora do bar, é definidor para que o leitor aceite ou não entrar nessa viagem literária.

A narrativa, como muito bem classificou o professor Sergius Gonzaga em seu doutorado, é ziguezagueante. Somos transportados através dos diálogos aos pontos de vista de inúmeras personagens - em quantidade extravagante, eu diria - ao período da ditadura peruana do general Odría. Mas não é só isso. O romance é um espelho da sociedade peruana da época analisada, desde o déspota que comandou o país até simples cidadãos, como um motorista de carro ou uma doméstica. Todos ganham voz aqui. Todos contam uma história que precisa ser conhecida. Mas Llosa faz mais do que isso: ele mostra como todas elas estão interligadas.

É por isso que volto ao título. Entendam: a "conversa", meus amigos, não vai acontecer somente no Catedral, ela vai acontecer entre o leitor e o autor, entre a imaginação e a realidade, entre o poético e o prosaico. Leitura mais que recomendada.
Rony 14/06/2020minha estante
Ótima resenha. Nunca li nada desse autor, confesso que leio pouquíssimos autores latino americanos, mas parece ser bastante interessante


Alê | @alexandrejjr 14/06/2020minha estante
Tens que conhecer com urgência então! A nossa literatura é muito rica. Gabo e Llosa estão entre os necessários na vida de qualquer leitor, na minha humilde opinião.




Thiago Ernesto 01/12/2014

O Retrato da América Latina no Rabo de Um Cão
Se não fosse o cãozinho de Anita ser sequestrado pela carrocinha, Santiago Zavala não iria se dirigir ao canil municipal e não reveria seu antigo conhecido, ex-motorista de seu pai, o negro Ambrósio. Se não fosse esse cão, tão pequeno, os dois não se reuniriam na Catedral e não rememorariam todo o passado de suas vidas, do Peru, e da própria América Latina. Quantos cães são necessários para a América se encontrar?
Com um estilo de vanguarda, digno representante do "Boom Latino-Americano", Mário Vargas Llosa, reconstrói tudo que houve ou ainda há de mais podre na política peruana. Um livro para aqueles que insistem em encher a boca de merda para proclamar que os militares deviam voltar. É pura ignorância acreditar que os governantes trabalham para o povo. O que há na verdade é um jogo de interesses que ocorre por trás do pano da política.
Fora a aventura política o romance de Llosa é fantástico pela forma como o autor desconstrói o personagem principal durante todo o romance. Zavalita parece ser o único em toda obra a agir por si mesmo. Embora acabe "arruinado", é o único que parece não ter abrido mão de si próprio em prol da política ou do dinheiro.
Admito que sempre tive uma resistência com Llosa, mas CONVERSA NA CATEDRAL foi um belo acerto. Llosa, aquele liberal, anti-comunismo, distante, que parece perseguir os cachorros dessa América.
Arsenio Meira 01/12/2014minha estante
É isso, Thiago! Zavalita é um personagem eterno, inesquecível. Parabéns. Abraços
Arsenio


Leo 09/08/2018minha estante
Vale lembrar que na épocade Conversa no Catedral Llosa era comunista




EduardoCDias 24/03/2020

Confuso maravilhoso
Santiago encontra, após muitos anos, o antigo motorista do seu pai. Sentados num bar chamado Catedral, regadas a muita cerveja, a conversa se desenrola com muitas revelações, lembranças e emoções. Política, poder, sexo, traições, manipulações, tudo se mistura na revelação do passado. Misturando diálogos, às vezes no mesmo parágrafo e idas e voltas na história, no começo o desenrolar é um tanto confuso, mas começa a fazer sentido após algumas páginas. Escrito com muita sensibilidade e com personagens fascinantes, entrou para os meus favoritos.
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Deco 17/05/2013

Desiludido com a realidade atual
Duro. Duro ver o quanto a obra, este livro, retrata o que vejo quando olho a minha volta, o Brasil. Mais, a dureza vista na sociedade e a dureza vista na intimidade das pessoas. São duas personagens centrais, Santiago e Ambrosio. Santiago, nascido em berço explêndido (posição social, educação, famíla estruturada, etc.) e Ambrosio, o pária desta mesma sociedade. Formalmente, aqui a beleza estética do livro, eles se encontram e iniciam uma conversa no Catedral, um bar-restaurante, até ao final do livro. As narrativas, diálogos, as vozes narrativas se entrelaçam na conversa dos dois, a sacada formal do livro. Li em alguma entrevista recente do autor que foi o livro mais difícil que escreveu, não se quanto a natureza fatalista, do Santiago, ou do quanto esforço estético lhe foi escrever o romance. Santiago, tendo tudo diante de si, vamos dizer, se dá mal. Se dá mal aos seus olhos e aos olhos dos outros. É minha personagem escolhida. Identificação intensa. Daí, o peso. O destino dele no meu. Arre, a personagem que se prende, mesmo que momentaneamente, a você. Sei que passa, vai passar. Ambrosio, na sua ingenuidade, quase pura - não há pureza nas relações humanas no romance, quase se salva. A pergunta, quem gostaria de ter levado a sua vida? Conversa. Conversas.
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Ana Paula 02/07/2013

Leitura para inteligentes
Este livro mexeu com o modo como eu leio os livros. Interessantíssima a ordem como a tramam vai sendo revelada ao leitor. Um livro para pessoas inteligentes e sensíveis.
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Júlio 30/05/2014

Mestria na arte de contar
Há tempos não lia um livro tão extenso e, ao mesmo tempo, tão instigante. As diferentes intercalações de diálogos durante a trama fizeram com que a leitura fluísse mais até do que eu esperava, já que tenho certo "preconceito" contra os livros que são verdadeiros calhamaços. hehe
Sobre a estória, interessante observar os pontos em comum entre a realidade política prefigurada no romance e quaisquer outras ditaduras de quaisquer ideologias, principal e obviamente, com as que se viu/vê na América Latina. Além disso, o teor humano (o quase ascetismo que 'Zavalita' se propõe, os preconceitos e hipocrisias da camada burguesa, a subserviência inata de Ambrósio, simbólica do ponto de vista latinoamericano) colaboram para a culminação numa verdade que, mais do que nunca, se confirma: Llosa é mestre na arte de estoriar.
Pra finalizar, fiquei realmente estupefato com a capacidade criativa, com a riqueza de detalhes entregues por Llosa. Por diversas vezes depara-se com pausas, pensamentos e até gestos naturais das personagens, tão reais que se torna possível praticamente vislumbrar a cena, imaginá-la próxima.
Enfim, ótimo livro, ótima leitura.
Fritz 10/07/2014minha estante
Sinceramente? Odiei! Já li vários Vargas Llosa, mas esse "Conversa no Catedral", hoje, para mim é uma leitura pesada, difícil, e nada prazerosa. As mudanças e intercalações foram exageradamente usadas. Para se ler, temos que, antes, estudarmos a história do Peru nos anos 50, senão se torna incompreensível. Usou a técnica, que tanto admiro nele, abusivamente, a ponto de cansar.


Júlio 10/07/2014minha estante
Rapaz, confesso que não foi de primeira que o livro me cativou. Abandonei-o uma vez e só fui voltar a lê-lo quase um ano depois. Como você disse, a leitura é realmente pesada, mas as mudanças narrativas contínuas atenuaram esse peso, pelo menos pra mim. Mas é isso, alguns livros parecem que não são pra nós, são verdadeiros desafios e que só com muita luta pra terminar a leitura. hehe
No meu caso, o "Pedro Páramo", do Juan Rulfo, é um exemplo disso. Já fiz de tudo e não consigo terminá-lo de jeito nenhum. haha
Até mais, Fritz!




Leo 09/08/2018

Em que o momento o Brasil se fodeu?
"Em que momento o Peru tinha se fodido?"

Com essa pergunta se inicia o romance Conversa no Catedral, de Mário Vargas Llosa, uma das obras mais...uhmm...brutais que já li.

A sensação ao fim é ambígua. Se por um lado existe a satisfação da grande literatura, por outro a mensagem deixa um soco no estômago, um gosto amargo na boca.

O livro se passa no Peru e retrata a ditadura militar de Odría (48-56). É incômodo como vários aspectos daquele regime ditatorial, representados na ficção, são perceptíveis na pretendida democracia atual: manipulação dos votos, perseguição a opositores, meios de comunicação viciados, impunidade. A sensação de que tudo podem os poderosos e que se foda o resto.

Tudo piora quando se lembra que um dos líderes das pesquisas para a presidência defende orgulhoso uma ditadura nos mesmos moldes da peruana. E que muitos de seus seguidores bateriam palmas para o vilão Cayo Bermúdez.

Em que momento o Brasil tinha se fodido?
É inevitável que a mesma pergunta nos ocorra.

No âmbito individual, a obra não é mais otimista. O protagonista, Santiago Zavalita, burguês, privilegiado, representa um profundo niilismo, angústia, sensação de impotência, de não ter controle sobre coisa alguma.

A culpa de nascer rico alimenta seu desespero, motivado pela própria incapacidade de promover as mudanças que deseja, seja na sociedade, na política ou na própria vida: sempre será um branco rico vivendo em uma sociedade de mestiços pobres.

"O que seria melhor: a solidão ou a humilhação?"

A pergunta feita por Zavalita revela a desesperança na mudança real nas vidas daqueles que pouco tem em países como o Peru da década de 60...ou o Brasil do século XXI.

A dor que ele sente é a mesma que a nossa.

Conversa no Catedral é uma obra prima que explícita da maneira mais brutal as nossas feridas, as veias abertas da América Latina, latentes, dolorosas, que se observavam a cada vez que se ouve sobre a desesperança do povo nas eleições, no governo, na política, no próprio povo.

Resta saber se serão mais Cem Anos de Solidão, cem anos de humilhação, ou se o futuro nos reserva coisas melhores que as expectativas de Mário Vargas Llosa ao finalizar seu livro.
Alê | @alexandrejjr 01/11/2018minha estante
Baita resenha, cara!


Leo 05/11/2018minha estante
Valeu, mano :)




Sabrina 26/08/2019

Simplesmente genial!
Que grande livro do Mario Vargas Llosa! Aí se percebe porque o peruano mereceu o Nobel. A forma como ele conta essa história é genial, perturbardora, fragmentada, e até de difícil compreensão. Assim desafia o leitor a estar o tempo todo atento, mas depois que se pega o jeito, é impossível largar. No mesmo parágrafo, até na mesma frase, o escritor mistura o passado e o presente, mistura o que aconteceu antes, com a conversa de agora na mesa de bar. Simplesmente genial.
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Fimbrethil Call 18/09/2009

Bom
Esse livro é bom, uma leitura até certo ponto pesada, mas por causa do assunto, já que é muito realista, sem nada de fantasia ou de ficção pra amenizar um pouco. Uma história muito bem contada e escrita, então a leitura sai fácil Uma conversa entre um empregado do canil de Lima, que matava quantos cachorros encontrasse por causa da epidemia de raiva, e um cidadão que foi ao canil tentar resgatar o seu cachorro e reconheceu nele o empregado de uma família que não via há tempos. Então ficam os dois bebendo cerveja e conversando, num bar perto da catedral.
TERESA 13/04/2012minha estante
Comecei a ler.
mas vai demorar,o tempo é pouco e o sono muito!




LER ETERNO PRAZER 24/10/2018

"Conversa no Catedral" foi para mim uma leitura muito complexa e que quase desisto da leitura logo nas primeiras páginas, porque as ações não seguem uma ordem cronológica, há ?muitos saltos? no tempo (entre passado, presente e ao futuro, não sabemos bem quem são as personagens e em meia página podemos ficar completamente desnorteados e perdidos na história!
Contudo, não desisti e a minha insistência foi recompensada porque consegui encontrar-me no ritmo da leitura e, à medida que a leitura avançava, tudo ia ficando mais claro, página após página, apesar de ser só no final que tomamos conhecimento do que aconteceu a todas as personagens.
A obra tem como pano de fundo em sua trama no país natal do autor, mais propriamente no Peru dos anos 50, uma época de muita corrupção e de repressão, e nos trás uma história recheada de personagens desencantadas e , que lamentam a sua vida e que, tendo tudo para serem bem-sucedidas, não foram.
A a conversa que acontece no bar Catedral, portanto, e que marca o reencontro entre Santiago Zavala e Ambrosio ? este último ex-motorista da casa do pai de Santiago, Fermín Zavala ? após 10 anos sem que um soubesse do paradeiro do outro, é o fio condutor de toda a trama. Apenas nas últimas páginas da publicação é que o episódio do primeiro capítulo é retomado, e o rumo da conversa, e consequentemente da vida de cada um dos dois protagonistas, é revelada.
O romance é iniciaso com a apresentação de um Peru decadente, acometido por sérias crises econômicas, sociais e politica, e os personagens que abrem o enredo, Santiago, Carlitos e Norwin, jornalistas de La Crónica, vivendo como podem, em meio a uma sociedade debilitada, com problemas em suas vidas pessoais. A sensação é de que, se os três não vivem na completa infelicidade, então ao menos foram entregues à inércia daquela realidade.
Conversa no Catedral é um livro de difícil leitura, demorei bastante para concluí-lo, mas posso dizer que valeu apena!
Para aqueles que apreciam esse tipo de obra, está mais que indicado, aproveitem!!
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Lucas 21/09/2020

Os nós-cegos, os espelhos e a decadência: Um romance histórico em sua essência, mas diferente de todos os outros
"Em que momento o Peru tinha se fodido?". É este o (conhecido) mote condutor do primeiro parágrafo de Conversa no Catedral (1969), e que acaba sendo o cerne de toda a obra: uma busca em encontrar respostas temporais para quando e como a República do Peru e os personagens principais do livro tiveram suas existências desviadas de uma vida estável e adequada. E, seja no sentido literal ou por meio de ficção, é desafiador construir uma história que rememora o passado em busca de respostas plausíveis a este "desvio".

Sorte do leitor que o peruano Mario Vargas Llosa (1936-) assume esta missão, e com a categoria que o fez ser laureado com o prêmio Nobel de Literatura em 2010 (ele é um dos seis latino-americanos já vencedores do prêmio, o único ainda vivo), tem-se Conversa no Catedral, um dos seus melhores livros, fruto de cerca de três anos de trabalho.

Seja por este rótulo de escritor reconhecido mundialmente, seja pelo fato de já ter tentado ser presidente do seu país (perdeu as eleições em 1990 para Alberto Fujimori (1938-), que depois estabeleceu um regime autoritário), Llosa é o mais capacitado não só para montar uma narrativa tão peculiarmente maravilhosa, como também de olhar para o seu país de origem, o Peru.

Poucas nações no mundo, não apenas na América Latina, possuem uma diversidade cultural tão vasta quanto o país andino. Sede do Império Inca (cuja capital era a atual Cusco), quando os espanhóis ali chegaram em 1532 não encontraram índios aparentemente desamparados e que "precisavam" ser catequizados, mas sim avistaram uma sociedade organizada e monumental, com cerca de 14 milhões de habitantes, que ocupava todo o atual Peru e partes do que se entende hoje como Venezuela, Equador, Chile e Bolívia. Os incas eram excelentes agricultores, capazes de irrigar áreas agricultáveis da Cordilheira dos Andes, com mecanismos próprios muito avançados para a época.

Conversa no Catedral não se debruça necessariamente sobre estas questões de colonização, mas sim sobre as condições resultantes delas, que são em parte responsáveis pelas frequentes brigas políticas internas dos países da América Latina, que fazem parte da história da região e que se acentuaram no século XX. A ditadura do general Manuel Apolinário Odría (1896-1974), que durou de 1948 a 1956, é o pano de fundo narrativo da obra.

Se Mario Vargas Llosa é preciso em fazer esse detalhamento da ditadura de Odría (que certamente exerceu forte influência sobre o autor, então menino e posteriormente adulto), ele é criativo na mesma medida em inserir na parte ficcional da obra uma gama de personagens que reflete o povo peruano daqueles anos. Em parte preocupado com o regime ditatorial (apoiado por grandes empresários e pelos Estados Unidos) e também preocupado com movimentos de esquerda (como a Aliança Popular Revolucionária Americana – APRA), o povo peruano era "massa de manobra" para a consolidação do poder ditatorial. Llosa muito destaca este mecanismo do regime, assim como a sua reiterada corrupção (mais até do que torturas ou coações, a corrupção é o principal elemento de ligação entre inúmeros personagens).

Aliás, são dezenas de personagens, que estabelecem relações entre si, e outros que, num primeiro momento não aparentam nenhuma relação, mas que, num estalar de dedos, a narrativa trata de estabelecer uma ligação até próxima demais muitas vezes (são geniais estes momentos de "elucidação"). Mas, sucintamente, a parte ficcional de Conversa no Catedral gira em torno de três personagens: Santiago Zavala, o "Zavalita", protagonista, Ambrosio Pardo (motorista) e Amalia Cerda (empregada doméstica).

Contudo, nada é sucinto em Conversa no Catedral, nem tanto pelo tamanho (são quase 600 páginas na excelente edição da Editora Alfaguara) mas principalmente pela forma fragmentada que a narrativa é construída, que faz a obra ser monumental em termos estruturais. São vários núcleos com vários personagens e "objetivos" diferentes dentro do escopo da ficção ou da descrição da sociedade peruana. Estes núcleos não são tratados individual e simetricamente: eles se misturam, às vezes numa mesma frase, muitas vezes num mesmo parágrafo ou diálogo e assim por diante.

A chamada "narrativa fragmentada" ou termos similares que aparecem quando se busca uma opinião alheia sobre Conversa no Catedral é o grande baluarte da obra, aquilo que o leitor não conseguirá esquecer, especialmente se este for o primeiro contato com Mario Vargas Llosa. Estas análises falam em "misturas temporais", "passado e presente num mesmo parágrafo", "linguagem atropelada" e outros termos que, num primeiro momento podem deixar o leitor previamente desconfiado, especialmente se ele for excessivamente racional (como este que escreve...).

Mas poucas coisas são tão prazerosas neste universo de experiências literárias do que a quebra de um paradigma pré-concebido ou de um ceticismo que se revela infundado. Conversa no Catedral destrói estes pré-conceitos de uma forma mágica. Indo direto ao ponto, a narrativa de Llosa é realmente tudo isso que foi citado no parágrafo anterior, mas, longe de causar confusão, oferece uma experiência única de leitura. É como se a narrativa seguisse uma linha entendível, calma, de repente há alguma menção ao passado, alguma manifestação de um personagem que não estava na "cena", mas que possui sentido tanto para ela quanto para a retomada do contexto em que este personagem estava inserido. É um recurso muito usado em séries ou filmes, mas que o autor sabe trabalhar muito bem em termos literários, como aqui se constata. Passado e presente se misturam e não causam a menor confusão, mas sim encantam indelevelmente.

O próprio ponto de partida de tudo que será contado pelas linhas da obra, que é o encontro de Santiago Zavala com Ambrosio, que era motorista do seu pai, é o exemplo mais perfeito disso. Zavalita se encontra com Ambrosio aproximadamente uma década após terem se visto pela última vez. Como tinham muito o que conversar, resolvem ir para o Catedral (daí o título, no masculino), um bar de categoria discutível situado em Lima. Isto acontece no primeiro capítulo, mas o teor e a totalidade da conversa entre os dois não é revelado ali, mas sim aos poucos, durante praticamente todo o restante do livro. Quando o leitor menos esperar, haverá alguma transcrição da tal conversa que abre a narrativa, o que confere a ela uma genialidade bem peculiar.

Esta criatividade de Llosa ajuda a tecer um painel preciso da sociedade peruana dos anos 50 até o final dos anos 60. Ela se consolida na peculiar construção narrativa, que traz elementos históricos e sociais da ditadura de Odría e seus pares (como o controverso Cayo Bermúdez, baseado em Alejandro Esparza Zañartu (1901-1985), que foi ministro do interior durante o regime) e todo um emaranhado de jogos políticos e acordos obscuros entre membros do regime e alguns elementos da classe alta; o papel da repressão e suas variações no processo de dominação; o aspecto revolucionário/esquerdista, presente nas universidades; a aleatoriedade da vida, que nos joga para lá e para cá...

O painel político e social que Llosa pinta se confunde com a ficção de suas linhas, baseadas naquela sensação colorida, cheirosa e nostálgica que é a essência da literatura latino-americana da segunda metade do século XX (o estilo do autor aqui nada tem de realismo mágico, contudo). Santiago e a relação com seus pais e irmãos é o principal símbolo disso: seu pai, Don Fermín Zavala é uma das principais "pontes" entre a ficção e a realidade peruana exaltada no romance, como bem sucedido empresário com interesses obscuros (e vários mistérios); seus irmãos, o pretensioso e inicialmente responsável Chispas e a, inicialmente esnobe, Teté, ilustram a evolução dos indivíduos, o amadurecimento natural que a vida ocasiona; e Dona Zoila, sua mãe, simboliza o espírito de "matrona" superprotetora, cujo apego exagerado nem sempre é saudável.

De uma forma geral, é o núcleo familiar de Zavalita que é o "centro" do emaranhado labiríntico narrativo de Conversa no Catedral. Este círculo é o ponto de partida de outros personagens marcantes, como os já citados Amalia (a empregada cuja história é marcada por dificuldades) e Ambrosio (de origem humilde e com algumas posturas polêmicas). Acaba este círculo também sendo o grande destaque do elemento "novela mexicana" presente na obra, marcado também pelas menções a amores não resolvidos, amores lascivos, cantoras em declínio, prostitutas que já tiveram dias melhores... É uma das marcas do romance: tudo é mostrado em seu auge e em sua decadência.

É temeroso descrever todos os núcleos narrativos: eles se confundem, tem vida própria, parecem procurar outros para tornar a narrativa presa, não num sentido linear, mas com vários nós cegamente amarrados. Nenhum personagem isoladamente é o fio condutor de tudo, apesar de ser com Santiago Zavala que o leitor poderá se identificar mais, não necessariamente por ser o protagonista. E, outro ponto, Zavalita não faz rigorosamente nada para ter esse posto, mas sim o seu olhar para o que lhe rodeia, que vai se alterando com as experiências que a vida lega-lhe. Esta é uma conquista do narrador, onisciente e impessoal, mas que conversa com os personagens para reforçar ou esclarecer uma ideia.

Conversa no Catedral é, numa tentativa deficiente de rotulá-lo em poucas palavras, um romance de espelhos. Zavalita vê em Ambrosio, guardadas as devidas proporções, um espelho de si próprio, uma repetição de enredos marcados por pequenas ascensões, alguns traumas não resolvidos e decisões erradas. O contexto que é retratado do Peru faz do país um espelho dos seus vizinhos sul-americanos. A conversa dos protagonistas, fonte principal de todo o romance, traz esta impressão e acaba por revelar ao leitor algo muito maior e mais complexo, com vieses sociais e históricos: é todo um país descrito em linhas vivas, com personagens inesquecíveis retratados sem a preocupação com finais felizes.
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