O remorso de Baltazar Serapião

O remorso de Baltazar Serapião Valter Hugo Mãe




Resenhas - O Remorso de Baltazar Serapião


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Paty 28/05/2014

É um livro sobre os nossos monstros e fantasmas. É real, medonho, onde matar uma mulher é castigo quase divino. A força, a violência da escrita, a desordem emocional que provoca no leitor, o desmascarar de fantasmas que persistem na memória coletiva portuguesa, assaltam violentamente a mente de quem lê.

Saramago não andava longe da verdade quando afirmou que este livro era um verdadeiro tsunami na literatura portuguesa.
Nanci 28/05/2014minha estante
Paty:

Esse é o único do VHM que não li... Sua resenha é um convite: vou tratar de ler "O remorso" em breve.


Regente Deo 07/07/2014minha estante
A arte da concisão é para poucos.
Ótima resenha.


Paty 07/07/2014minha estante
;)




Book.ster por Pedro Pacifico 01/03/2020

O remorso de Baltazar Serapião, Valter Hugo Mãe - Nota 10/10
Mas uma leitura incrível de um dos meus autores favoritos. Dessa vez, VHM nos apresenta um romance frio e cruel, abordando a natureza humana em sua forma selvagem. Literalmente selvagem, já que as personagens chegam até mesmo a apresentar características de animais. Ambientado na Idade Média, a obra traz como protagonista Baltazar Serapião, o primogênito dos Sargas, uma família pobre, sofrida e com uma história desastrosa. Pai, mãe, vaca e irmão moram todos numa pequena e miserável cabana a uma certa distância da Casa Grande. Tamanha a “animalização” dos Sargas, que eles são conhecidos por serem “nascidos de pai e vaca”. É impressionante como VHM consegue levar os sentimentos das personagens em seu nível mais intenso. Com sua escrita genial e extremamente poética, o autor constrói uma narrativa que incomoda, abordando a violência e submissão da mulher - com passagens que chegam até mesmo a embrulhar o estômago. No entanto, até nesses momentos mais cruéis, o autor consegue manter o seu lirismo inigualável… Não é por outro motivo que Saramago qualificou esse livro como um “tsunami literário”. Deixo aqui uma dica: para quem nunca leu VHM, não sugiro começar com essa obra. Fora isso, recomendo demais!

site: https://www.instagram.com/book.ster
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Mag 19/02/2011

O remorso de Baltazar Serapião
O livro narra as desventuras de uma família subjugada a um poderoso Senhor, Dom Afonso. Embora não encontremos nenhuma referência ao local nem a época em que se passa a história, percebemos se tratar de alguma localização nos ermos da Idade Média.
A família de Baltazar Serapião, mais conhecida como "os Sargas" (alcunha que deriva do nome da vaca a quem os pertence) é encaregada por executar diversos serviços a Dom Afonso, quer sejam trabalhos do campo ou obrigações sexuais, como é o caso de Brunilde, irmã mais nova de Baltazar, que foi entregue no início da adolescência para satisfazer os desejos carnais de D. Afonso.
Pai, mãe, vaca e irmão, moram todos numa pequena e miserável cabana a uma certa distância da Casa Grande. No meio de uma dura rotina, Baltazar encanta-se pela beleza da jovem Ermesinda como quem se casa tempos depois; mais uma a ir morar no casebre dos Sargas.
Quando a pedido de D. Afonso, Ermesinda passa a visitá-lo todas as manhãs na Casa Grande, Baltazar é tomado por furiosos surtos de ciúmes, e impotente diante do seu Senhor, passa a castigar Ermesinda rotineiramente.
Este é apenas o ponto de partida para entrarmos em contato com uma série de eventos grotescos, ambientado numa sociedade onde as mulheres tem menos valor que as vacas, onde a educação através da punição extrema são naturalmente aceitas e tratadas com indiferença. Os personagens que aqui perpetram os crimes mais hediondos parecem não carregar o peso da culpa, pautando-se na ideia de que todas as mulheres são bruxas e responsáveis por todas as ruínas existentes.
O livro é todo escrito com letras minúsculas, inclusive os nomes próprios. Seu texto é carregado de elementos da literatura barroca, com figuras de linguagem em excesso, formado por uma espécie de anacoluto em toda sua estrutura; e também possui fortes traços do realismo fantástico presente na literatura de cordel.
Valter Hugo Mãe escreve de tal maneira, que às vezes eu tinha impressão de não estar lendo em português, embora isso não comprometa em nada a fluência do texto; e o mais interessante é que diante de tantos eventos perversos, onde a figura feminina é exageradamente usurpada, o autor nos faz enxergar uma certa comicidade nesses comportamentos animalescos e primitivos. Mas sem dúvida é uma obra que traz à tona um grande desconforto...
Margot 16/02/2011minha estante
Baltasar é o nome do personagem de um dos melhores livros que já li: "Memorial do Convento" - José Saramago. Embora o enredo desse livro que você resenhou nada tenha a ver com a obra de Saramago, senti imensa vontade de lê-lo, para ter contato com um personagem homônimo e daí traçar possíveis paralelos.
Gostei muito da resenha, está muito bem escrita e desperta muito a curiosidade de ler o livro. Espero lê-lo o quanto antes.


Tatiane 14/01/2019minha estante
Comecei a ler este livro hoje. É o 6o seguido de Valter Hugo Mãe que leio, de dezembro para cá. Sua resenha me deixou com mais água na boca para lê-lo vorazmente.


Mag 04/02/2019minha estante
Que bom que gostou, Tatiane. Depois me diz o que achou do livro. Um abraço!


Tatiane 06/02/2019minha estante
Gostei muito e estou destroçada até agora. Também fiz uma resenha sobre ele. Aqui no Skoob e em meu blog tatiandoavida.com ? Já comecei a ler o último que falta para mim de Hugo Mãe: "homens imprudentemente poéticos".




Joao 19/06/2020

A perfeita fusão
Realmente, o conceito de influências pode ser levado ao pé da letra com essa obra. Aqui tem muito de outros autores porém tudo condensado em um estilo único de escrever, de narrar e de criar personagens.
Esteticamente me lembrou muito Saramago (cujo prefácio dessa edição é dele e se refere justamente a isso), ou seja, tem que ser lido com atenção. Pontuação, parágrafo, travessão, tudo isso é tratado pelo autor como empecilhos ao fluxo da narrativa. Ou lê com atenção ou deixa escapar muita coisa.
A narrativa me lembrou a do Gabo. O ambiente é de um realismo fantástico, tratando problemas materiais porém usando de elementos narrativos fantásticos, místicos. Porém ao contrário de Gabo, aqui é tudo mais sombrio, carregado, pesado , cruel. É um livro pra quem tem estômago e se for uma leitora ao invés de leitor, vai com certeza se incomodar mais com essa narração. O livro narra um mundo embrutecido, machista e torpe.
E o vocabulário me lembrou as experiências que tive com Guimarães Rosa. Vocabulário peculiar, com ares de regional e uma porção de palavras estranhas aos nossos olhos.
Tudo isso salta aos olhos porém tudo é misturado em um estilo único e forte, que pode desagradar pelo teor mas nunca pela qualidade.
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ladyamnesia 22/04/2011

é como se manoel de barros acordasse possuído pelo espírito de saramago a escrever um livro de guimarães rosa.
Guilherme 24/06/2011minha estante
Que coisa alquímica, não concorda?




Alexandre Kovacs / Mundo de K 21/04/2011

valter hugo mãe - o remorso de baltazar serapião
Editora 34 - 200 páginas - Edição apoiada pela Direção Geral do Livro e das Bibliotecas/Portugal - Lançado no Brasil em 2010.

O jovem escritor angolano de 39 anos, radicado em Portugal, valter hugo mãe (assim mesmo em minúsculas como ele gosta de escrever) é um dos nomes mais elogiados da literatura portuguesa contemporânea, principalmente pelo fato de ter sido o vencedor do Prêmio Literário José Saramago em 2007, com este mesmo romance (único lançado no Brasil até o momento) e também por ter sido definido pelo próprio Saramago como um "tsunami literário". Presença confirmada na FLIP 2011, quando será lançado pela editora Cosac Naify o seu romance de 2010: "a máquina de fazer espanhóis", valter hugo mãe, além de romancista é também poeta, editor, artista plástico, vocalista da banda Governo e DJ nas horas vagas. Como se não bastassem tantas atividades, o autor mantém um blog: www.casadeosso.blogspot.com e uma página da sua banda no My Space: http://www.myspace.com/ogoverno.

Ao lermos "o remorso de baltazar serapião" percebemos imediatamente uma novidade, seja pela utilização da linguagem intuitiva e original que cria o efeito de um português arcaico ou pela pontuação não convencional que acaba inventando novos ritmos, o autor apresenta a sua fábula que, apesar de não ser ambientada em uma época ou local definidos, lembra muito o feudalismo europeu da idade média. Uma família de camponeses é explorada pelo senhor feudal que consome a vida de homens e mulheres em um cotidiano brutal de ignorância e falta de esperança. Por sinal as mulheres representam um foco central no romance, começando pela linda ermesinda que conquista o amor de baltazar, a sensual teresa diaba ou a bruxa representada pela terrível mulher queimada. Personagem fundamental é a sarga, uma vaca que é tratada como animal doméstico pela família e acompanha toda a narrativa. A família serapião passa a ser conhecida como os "sargas", sendo que a perda do nome, segundo o próprio autor explica em entrevista ao Globo, representa a anulação completa de uma pessoa.

Inconsciente, sobrenatural ou intuitivo, o estilo de valter hugo mãe revela o que existe de melhor e pior no homem. Difícil não cair na tentação de comparar o jovem autor e sua aventura experimental literária com nomes do nível de Guimarães Rosa. Talvez seja um pouco cedo para tamanha deferência, mas recomendo que leiam e tirem suas próprias conclusões. Segue o primeiro capítulo de "o remorso de baltazar serapião", com minúsculas e tudo, como uma pequena amostra.

"a voz das mulheres estava sob a terra, vinha de caldeiras fundas onde só diabo e gente a arder tinham destino. a voz das mulheres, perigosa e burra, estava abaixo de mugido e atitude da nossa vaca, a sarga, como lhe chamávamos.
mal tolerados por quantos disputavam habitação naqueles ermos, batíamos os cascos em grandes trabalhos e estávamos preparados, sem saber, para desgraças absolutas ao tamanho de bichos desumanos. tamanho de gado, aparentados de nossa vaca, reunidos em família como pecadores de uma mesma praga. maleita nossa, nós, reunidos em família, haveríamos de nos destituir lentamente de toda a pouca normalidade.
abríamos os olhos pirilampos à fraca luz da vela, porque a sarga mugia noite inteira quando havia tempestade. dava-lhe frio e aflição de barulhos. era pesado que nos preocupássemos com a sua tristeza, se havia algo na sua voz que nos referia, como se soubesse nosso nome, como se, por motivo perverso algum, nos fosse melódico o seu timbre e nos fizesse sentido a medida da sua dor. por isso, custava deixá-la sem retorno, sem aviso de que a má disposição das nuvens era fúria de passagem.
com vento a bater nos tapumes da janela mal coberta, água a inundar esterco no chão, velha, ela ficava à espera de que algo repusesse o dia e a libertasse para o campo, a fazer nada senão comer erva, vendo-nos labor ininterrupto. nós não dormíamos, ficávamos a fustigar o sono com dores de cabeça, martírios horas e horas. o aldegundes, que se levantava para a tentar acalmar, falava-lhe e prometia-lhe tudo. o meu pai dizia que, a ele, a sarga o confundia mais na ideia de família, se nascera com ela ali e, já eu um irmão muito mais velho, haveria de ser em perigo que o aldegundes se deixaria com ela em brincadeiras. que tempo de crescer o de uma criança, exclamávamos, com uma vaca pela mão em companhia, conversas a sério como se fosse entre gente, e a gostar dela como se gosta das pessoas, ou mais do que das pessoas todas, dizia ele, só algumas é que não, como a mãe, o pai, o irmão e a irmã. assim ela acalmava um pouco à voz infantil dele e nós adormecíamos instantes, mas voltávamos a acordar com a trovoada, embatendo nítida sobre a nossa casa tão pequena, e com o gemido abafado da bicha que recomeçava.
nós éramos os sargas, o aldegundes sarga, dos sargas, diziam. ele é sarga, é dos sargas cara chapada. nada éramos os serapião, nome da família, e já nos desimportávamos com isso. dizia o meu pai, o povo simplifica tudo e a nós veem-nos com a vaca e lembram-se dela, que é mais fácil para se lembrarem de nós e nos identificarem. a vaca era a nossa grande história, pensava eu, como haveria de nos apelidar a todos e servir de tema de conversa quando perguntavam pela mãe, pelo pai, perguntavam pela vaca, magra, feia, tonta da cabeça, sempre pronta a morrer sem morrer. e riam-se assim com o nosso disparate de ter um animal tão tratado como família, e não entendiam muito bem. não fazia mal, achávamos que éramos muito lúcidos, e adorávamos a sarga, mesmo nas noites de tempestade quando se amedrontava e nos obrigava a acordar. o aldegundes vinha dizer-nos que ela tinha água nas patas e que em pressas se devia varrer dali inundação que lhe dava medo, e ele não reparava que também se sujara nos pés e fedia, enquanto cheirávamos e agoniávamos de tormento sem mais sono.
o meu pai pagava ainda a ousadia de se chamar afonso. afonso segundo um rei, mas sobretudo em semelhança ao senhor da casa a que servíamos. uma ousadia disparatada, um sarga chamado afonso, um verdadeiro familiar da vaca como se viesse de rei. quem não tinha do que se honrar, que diabo honraria aludindo a tal nome, perguntavam as pessoas ocupadas com nossa vida. dom afonso, o da casa, era-o por herança e vinha mesmo das famílias de sua majestade, com um sangue bom que alastrava por toda a sua linhagem. nobres senhores do país, terras a perder de vista, vassalos poderosos, gente esperta das coisas do nosso mundo e de todos os mundos vedados. por isso, esqueciam-se quase sempre de que ele, o meu pai, se chamava afonso, e só lhe chamavam sarga, o da sarga, como ele e ela, como um casal. à minha mãe chegavam a dizer que fora à vaca que ele fizera os filhos, e ela revoltava-se. era sempre ela quem barafustava furiosa até que o meu pai viesse e impusesse o juízo e a calma. o meu pai entrava em casa muito tarde, quando estávamos recolhidos à luz da fogueira, e era feito silêncio para que aliviasse o cansaço e pedisse o que lhe aprouvesse. normalmente, tínhamos refeição da noite, jantar quente com vantagens sobre o desamparo da nossa condição social, e escutávamos as impressões do dia, as instruções para o que viria, e os votos de boa noite. por vezes, eu podia perguntar coisas. em noites de maior paz, faria perguntas sobre as mulheres e as promessas do corpo delas feitas ao desalento do nosso corpo de homens. e deixaríamos coisas ditas no ar, para continuar interminavelmente. eram coisas que se suspendiam sobre nós, como roupa a secar, e com que nos deparávamos mais tarde, como se lhes batêssemos com a cabeça numa distração qualquer, quando o trabalho era satisfeito e o tempo se permitia preciosamente ao convívio. o meu pai, o sarga, dizia-me que, se pudera pacificamente chamar-se afonso, sentiria maior felicidade. recordava os meus avós e jurava que chegaram a ter uma pequena terra só deles, escondida num muro à inveja dos trepadores e cultivada de legumes para servir uma fome só da família. era uma terra bonita de vistas, abençoada de fertilidade, calma de vento e cheia de furos de água. bebíamos e comíamos da nossa terra, lembro-me, contava o meu pai, era muito pequeno, como o aldegundes, e tudo ali nos bastava, como tínhamos galinhas e coelhos e o casal de porcos a fazer uma ninhada de leitões para cada ano, e era verdade que ninguém nos incomodava ou se acercava da nossa discrição. estávamos ali esquecidos para bem do nosso sossego. o meu pai sossegava e recolhia-se à cama, onde a minha mãe já se recolhera, a pedido de autorização, aliviada do peso do corpo em cima do pé torto, coçando longamente as pernas da comichão que lhe dava, atenta para acordar bem cedo na manhã seguinte.
quando chovia noite inteira era o pior. o aldegundes, fraco, um repolho de gente quase a querer ser homem, era descarnado e enfezado de altura e largura. que haveria de poder ele quando a sarga estava mais assustada e escutava menos as suas palavras. imaginava eu que ela assustada quisesse fugir para onde conhecesse mais seguro, soubéramos nós o que ela soubesse e talvez se acalmasse em algum lugar. mas, sem diálogo, ela ali ficava a debater-se com o coração aos saltos e o aldegundes choramingando súplicas, o meu pai infinitamente paciente, abdicado de descanso pela vaca, e eu sempre fazendo conta à atenção que lhe era dada, uma permissão desmedida no prejuízo das nossas noites. o aldegundes apossava-se do corpo da sarga pela cabeça, mas era verdade que ela era tonta, como fosse destituída da pouca inteligência que as vacas podiam ter. não tinha nem uma, o mais que fazia era reconhecer-nos e gostar de nós, isso sentíamos, e mais do que isso, nada. entornava os recipientes, perdia os caminhos, batia com o focinho nas paredes, enganada das portas. mas o aldegundes lá lhe esfregava a cabeça, olhos nos olhos, na escuridão. punha vela a arder protegida e queria muito não demorar. mas água que entrava era desordenada e cruel. e era certo que seria o que mais assustava a sarga, por isso ele se dava ao trabalho de varrer cuidadosamente tudo, porta aberta ao campo a enxotar esterco lá para fora, a vaca detida pela corda ao pescoço.
o meu pai levantou-se sem que a irritação lhe turvasse os sentidos. levou vela a juntar à do aldegundes e não se ouviu mais nada. a sarga calou-se de sossego e sono, especada na noite como uma coisa que só parecesse ser ela sem o ser. era como um objeto, sem voz nem movimento, disposto para o tempo da noite sem serventia nem mais nada. e nós adormecemos também, espantados com a obediência ao meu pai, discernido superiormente sobre todas as coisas da nossa vida."
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Paula 02/09/2012

A mulher e o reino
A cada dia passo a admirar mais esse escritor que realmente merece todo o reconhecimento que tem recebido. Foi com esse livro que Valter Hugo Mãe ganhou o Prêmio José Saramago em 2007 e é, sem dúvida, um desses livros que lemos sem parar, coração na mão.

A linguagem, sempre muito poética, requer desde as primeiras páginas toda a nossa concentração. E conseguir manter o leitor vidrado por várias páginas não é tarefa fácil, mas nem sentimos o tempo passar durante a leitura. O texto, tão bem elaborado, já fala por si. O livro, no entanto, nos surpreende também pela história, com personagens intensos que nos chocam por sua forma de amar (ou não amar). É um livro que nos faz pensar muito pela crítica tão bem feita que faz sobre a violência contra a mulher, infelizmente ainda tão comum nos dias de hoje. Provocou em mim as mais diversas emoções, e quando um livro fica sendo digerido por tantos dias depois da leitura é que lhe dou ainda mais valor. Desisnquieta, instiga, transforma. Já não somos mais os mesmos depois de viajar por suas páginas.
Seul ☯ 18/03/2013minha estante
Olá, Paula!
Então, não consigo captar por que Baltazar Serapião é enquadrado por muitos como um personagem complexo. Lendo a tua resenha, há um momento em que dizes: "por sua forma de amar (ou não amar)...". Não cabe nesta obra "o não amar". Serapião dá mostras claras do quanto ama sua Ermesinda. O fato de "educá-la" - assim como presenciou o seu pai, Afonso, educando sua mãe -, faz com que muitos questionem este amor todo. Quando o narrador tenta deixar claro, desde as primeiras linhas, ser tal tomada de atitude natural na época.
Também gostei muito do livro. O recurso utilizado pelo autor, quase "a la Saramago", é sensacional. E este é um grande livro, sem dúvidas. Só questiono sua resenha porque não consegui entender este ponto tão ressaltado pelos leitores: "Serapião é uma figura complexa, pois ama Ermesinda mas não abdica de maltratá-la", quando o termo "maltratar" não cabe à narrativa.


Paula 18/03/2013minha estante
Oi, Seul!
Obrigada pelo seu comentário em minha resenha. É interessante quando se abre uma porta para o diálogo, ainda que nossas opiniões sejam diferentes.
Entendo que cada leitura é uma leitura de mundo e respeito sua versão, ainda que não concorde com ela. Ao meu ver, esta não é uma história de amor e o maltratar perpassa o livro inteiro. Valter Hugo Mãe critica de forma brilhante a atitude dos homens machistas, do nosso tempo e do tempo do livro, de agredir as mulheres, tentar "educá-las", como você diz, como se fôssemos meros objetos, feitos unicamente para serem contemplados. O que Baltazar (e muitos dos homens que agridem suas parceiras) chama de amor, é o que eles pensam ser o amor. Mas amor não machuca, não maltrata, não desrespeita, não silencia, não tira o brilho, nem a vida.
É um personagem complexo, porque é imensamente real, mas em momento algum do livro senti ternura pelo que ele diz ser amor. Isso não é amor.
Achei a crítica do Valter incrível; sutil e ao mesmo tempo extremamente realista, chega nos dói em alguns momentos. Ele não precisa dizer abertamente que Baltazar está errado pela violência com que destrói Ermesinda. Basta contar e descrever como ele age e como ela vai definhando durante toda a história e toda a crueldade desse "amor" fica evidente. Não percebeu que as mulheres da história não tem voz? Que a Ermesinda nunca diz nada? A história é contada unicamente sob o ponto de vista de Baltazar, o ponto de vista dos homens que ainda justificam a violência contra a mulher como "amor".
Doeu demais ler essa história, mas acho que ela faz pensar muito. E se fizer os homens pensarem a respeito e parar para refletir o que fazem, achando que é amor, já valeu a pena.
um abraço,
Paula


Seul ☯ 19/03/2013minha estante
Hey, Paula!
...
Pois, o que questiono é justamente isto. A interpretação do enredo está sendo trazida para os tempos atuais, quando - mesmo tendo sido escrito no séc. XXI - não retrata o nosso tempo. Não precisa ser um historiador para saber que no medievo a mulher era tratada como sendo "terceira pessoa depois de ninguém". As mulheres não tinham valor algum. Isso não sou eu quem está dizendo; desde o momento em que a sociedade passou a ser patriarcal, aquelas não estiveram em um patamar de igualdade com os homens. Não. Elas eram tidas como seres inferiores. A meu ver, é isto o que Mãe quer passar. Porque, se ele escreve um enredo situado na época em questão, e faz com que Baltazar tenha a consciência de hoje, o romance pecaria por anacronismo.
Partindo para dom Afonso, que é um sr. feudal. Por que Serapião tinha de ceder, mesmo contra a sua vontade, as visitas de sua esposa a ele? Porque aquele era subserviente a este - dependia da sua terra para sobreviver etc. Logo, temos que Baltazar Serapião é fruto do meio em que está inserido, e este ditava que os mais "fracos" (de menor importância) tinham de ceder aos mais "fortes" (de maior importância).




ElisaCazorla 03/11/2015

Violência Desnecessária e Nauseante.
Obra escrita em português arcaico - característica muito interessante e desafiadora. Durante toda a leitura, imaginei as estratégias que o autor teve que tomar para conseguir utilizar essa ferramenta. De positivo, não tenho mais nada a acrescentar. Mas, isso foi tão bom que as 3 estrelas são por conta do estilo.
Sobre o conto em si - difícil demais engolir tudo aquilo. Violência gratuita. Nauseante. Desnecessária. Um retrato da mente de machos que agem como se o mundo, os animais, os objetos e principalmente as fêmeas (inclusive as mulheres) ou qualquer buraco existissem com a finalidade de aliviar suas tensões e vontades sexuais. Mentes tenebrosas. Livro denso demais! Um final terrível e frustrante. Um autor muito corajoso. Não recomendo como primeira leitura desse autor.
Levi 03/11/2015minha estante
rsrs. Como sempre, os comentários de "O Remorso..." são no estilo "ame-o ou deixe-o".


ElisaCazorla 03/11/2015minha estante
Oi Levi! Eu terminei o livro por causa das suas observações e as da Nanci. Fiquei esperando que algo diferente acontecesse e que...não sei...realmente foi um livro muito difícil para mim. E aquele final??!!! Por que você acha que o final é surpreendente?


Levi 03/11/2015minha estante
Na verdade, não foi o final que me surpreendeu, mas o livro como um todo. Desde a estética à narrativa. O final foi o que tinha que ser mesmo: brutal. Eu não esperava uma salvação agradável para a estória. Mas, em geral, o livro me trouxe muitas reflexões. Principalmente os devaneios de Baltazar. Fiquei pensando, inclusive, até que ponto toda aquela violência retratada foi "real", já que o narrador era o próprio Baltazar, com toda a sua loucura. Quanto daquilo é confiável? Além disso, guardo ainda, até hoje, belíssimas passagens do livro, como aquela em que Baltazar fala que "as mães transportam o céu dentro delas, e multiplicam-no, como um ofício". Às vezes penso também que VHM, ao retratar a mulher como aquela que tudo suporta, e mesmo assim continua, quis indicar que, para estas, sempre há alguma esperança. Já para os homens, não: resta conviver com suas próprias idiossincrasias masculinas (não que eu concorde com isso, mas é o que me soou).


ElisaCazorla 03/11/2015minha estante
Puxa, lendo suas palavras o livro me parece melhor. Você tem um ponto de visto que eu não consegui enxergar. Realmente, muito interessante =] Obrigada


Nanci 03/11/2015minha estante
Concordo integralmente com o Levi. Gostei do livro todo. Só um desfecho brutal caberia na história - qualquer desvio de tom, de moral, estética ou ética ficaria forçado ou ridículo.


ElisaCazorla 03/11/2015minha estante
É...agora consigo entender por que gostaram desse livro. Realmente, vocês têm perspectivas bem interessantes. Mesmo assim, não consigo apreciar tamanha perversidade em qualquer contexto. Gostei de ter conhecido essa obra, ela vai continuar em minha estante, mas não leria novamente. Sendo muito honesta, não me acrescentou nada, não me fez pensar nada, não me deu ideias para refletir sobre nada. Mas, acho que era o objetivo do autor ser tão cru, tão brutal, tão longe do que o humano pode ser e tão perto do monstro que os humanos muitas vezes são.




Tayemi.Oshiro 25/05/2020

meu relato
vhm conta história de maldição que condena todos os sargas à animalidade inspirada pela velha e doente vaca, a própria sarga. a obcessão de serapião por vingar seus cornos é coisa que enreda toda a história. corrida por letras miúdas que margeiam de perto o topo da folha faz olhos estranhar disposição e ao mesmo tempo gostar do deslocamento. a solidão de teolindo e o desespero de aldegundes à procura do rosto da mãe entre pintados me fez chorar. todo acontecimento é coisa descabida, incomoda, dá ânsia, quase vômito, tsunami das tripas.
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Gabi Guerra 15/06/2020

"um tsunami literário" Saramago avisou
Agraciado com o prêmio José Saramago, entregue pelo próprio, Valter Hugo Mãe foge à regra otimista de suas obras e arranca do peito uma selvageria literária, chamada por Saramago de "tsunami literário, um parto da língua portuguesa".

Muita gente não gosta do livro, pois ele é cru, denso, tenso e cruel. A mulher é retratada como um um objeto, uma obra do demônio etc. No entanto, quem conhece Valter Hugo sabe que a narrativa busca o debate, o escândalo, provando o quanto o grotesco jeito de tratar as mulheres é inconcebível nos dias atuais.

O livro é todo escrito em letras minúsculas e sem pontuação de interrogação, exclamação ou mesmo travessão e aspas para indicar diálogos. O que isso quer dizer? É difícil interpretar, sim. Precisamos entrar no embalo para viver a história (recomendo ler em voz alta).

O livro é duro, tem gatilhos a cada capítulo, mas é um escândalo na literatura.
Definitivamente NÃO é para qualquer um, mas, sem sombra de dúvida, foi um parto memorável para mim. A criança que saiu ficará na minha memória por tempos...

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Condor 15/08/2011

Pedra
Tsunami, Saramago? Muito mais!!!
O remorso se baltazar serapião é tudo isso: obscuro, nefasto, pesado, nebuloso, um soco no estômago! Forte e duro como fumo-de-rolo!
laura 28/07/2012minha estante
Nossa, Que discrição! Parabéns.




regifreitas 22/05/2016

Um livro forte, incômodo, com uma linguagem poética elaborada, misto de José Saramago e Guimarães Rosa, assim é 'o remorso de baltazar serapião', de valter hugo mãe. É um livro difícil, tanto pela elaboração formal da linguagem quanto pela própria temática, mas sem dúvida é uma obra com vocação para releituras. Uma primeira leitura só consegue arranhar toda a complexidade da invenção empreendida pelo autor.
ElisaCazorla 22/05/2016minha estante
Jamais seria capaz de reler este livro. Levei dias para tirar de minha mente aquelas imagens terríveis. Um livro difícil demais para mim.


regifreitas 22/05/2016minha estante
realmente é um livro pesado, Elisa. uma releitura só daqui uns anos! tenho os outros do autor ainda na fila que quero ler antes de voltar a este!


ElisaCazorla 22/05/2016minha estante
Meu favorito dele é O Filho de Mil Homens. Espero que goste =]




sonia 16/12/2012

com a palavra a posteridade
tá, o autor ganhou o premio Saramago, o livro imita o estilo medieval.
há autores medievais e outros antigos que continuam reeditados e lidos por terem um assunto impactante ou serem geniais.
não gostei do assunto, nem da maneira como foi abordado, fico no aguardo para ver se daqui a 200 anos alguém se lembra deste livro...
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May - @may.book.s 24/03/2020

Intenso e cruel
Sem palavras para descrever tamanha intensidade e crueldade que esse livro apresenta. Uma narrativa simplesmente avassaladora de VHM: poética e crua de escrita livre e suja...

Pesado mas que não se consegue largar. O melhor livro que li essa ano até agora...

Vale muito a pena!!!
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Tha 10/04/2020

Indicações imprescindíveis
Um livro sobre o ódio. Ódio à mulher. Sua diferença. Sua voz. Seu lugar. Sua maternidade. Seus saberes. Aqui reinam as adúlteras, bruxas, empregadas, chatas esposas. E a figura forte, sensata, do saber, da razão e da ordem está nas diversas figuras masculinas que passam pela narrativa.

Com toda sua violência, o livro torna-se imprescindível para o debate de violência doméstica e o debate sobre as desigualdades de gêneros imperantes em nossa sociedade que não esta apenas no lar ou no trabalho, mas principalmente no discurso cultural que nos diminui e oprime. Devemos considerar que as falas e pensamentos trazidos pelos personagens não estão longe da individualidade de muitos homens e mulheres, sendo reproduzidos muitas vezes por meio de discursos políticos nesses últimos tempos.

Indico para todos com certeza.
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