O que faz o brasil, Brasil?

O que faz o brasil, Brasil? Roberto DaMatta




Resenhas - O que faz o brasil, Brasil?


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Bia 18/03/2016

Maravilhoso

“É que será preciso estabelecer uma distinção radical entre uma “brasil” escrito com letra minúscula , nome do tipo de uma madeira de lei ou de uma feitoria interessante em explorar uma terra como outra qualquer, e o Brasil , uma nação , um conjunto de valores , escolhas de vida” (P.1)
“Nas leis e nas nobres artes da politica e da economia, das quais temos que falar sempre um idioma oficial e dobrando a língua; mas também na comida que comemos na roupa que vestimos, na casa onde moramos e na mulher que amamos e adoramos”. (P.2 e 3)
“Tome uma lista de tudo o que você considera importante –leis, ideais, relativas a família, casamento e sexualidade: dinheiro, poder politico: religião e moralidade ; artes; comidas e prazer em geral- e com ela você poderá saber quem é quem (P.7)
“Falamos também de dados relativos ao sistema politico e educacional do país, apenas para constatar que o Brasil, não é não é aquele pais que gostaríamos que fosse (P.8)
“E cuida-se de seu bem-estar porque, a ideia, de residência, é um fato social totalizante , conforme diria Marcel Mauss, Ou seja: quando falamos da “casa” , não estamos se referindo simplesmente a um local onde dormimos, comemos ou que usamos para estar abrigados do vento, do frio, ou da chuva. Mas –isto sim- estamos nos referido a um espaço profundamente totalizado numa forte moral. (P.11)
“O Fato é que não temos a glorificação do trabalhador, nem a ideia de que a rua e o trabalho são locais onde se pode honestamente enriquecer e ganhar dignidade”. (P.18)
“Trata-se, conforme já pontou um sociólogo brasileiro, Oracy Nogueira, de um tipo de preconceito racial que considera básica as “origens” das pessoas, e não somente a marca do tipo racial, como ocorre no caso brasileiro . Deste modo o nosso preconceito seria muito mais contextualizado e sofisticado do que o norte-americano, que é direto e formal” (P.25) .
“Realmente estou convencido de que a sociedade brasileira ainda não se viu como sistema altamente hierarquizado, onde a posição dos negros, índios e brancos está inda tragicamente de acordo com a hierarquia das raças” (P.28)
“Alimento é tudo que alimenta que pode ser ingerido para manter uma pessoa viva; comida é tudo que se come por prazer, de acordo com as regras mais sagradas de comunhão e comensalidade (P.36)
“Comer arroz com feijão , então é misturar o preto e o branco e a mesa fazendo parte de um processo logico e cultural”...(P. 37)
“O fato é que as comidas se associam á sexualidade , de tal modo que o ato sexual, pode ser traduzido como o ato de “comer” abarcar, englobar, ingerir ou circunscrever totalmente aquilo que é (ou foi) comido” (P.41)
“É a memoria social (isso que vulgarmente se chama “tradição” ou “cultura”) , que é sempre feita de uma historia com H, maiúsculo, é também marcada por esses momentos, que permitem alternâncias certas entre o que foi concebido e vivido como rotineiro e habitual, e tudo aquilo que foi vivenciado como crise, acidente, festa ou milagre” (P.47)
“Penso que o carnaval é basicamente uma inversão do mundo. Uma catástrofe. Só que é uma reviravolta positiva, esperada, planificada e por tudo isso, vista como necessária em nosso mundo social” (P.53)
“Desse modo, o espaço religioso demarca uma área, onde é possível encontrar o rico e o pobre, o poderoso e o fraco, o sadio e o aleijado, o homem e a mulher, o adulto e a criança, o santo e o pecador, o crente fervoroso e o frequentador esporádico e distante” (P.61)
“Entre autoridades e povo, nessas ocasiões solenes e formais, há uma clara divisão. Seja uma cerca, seja um espaço vazio, seja um palanquim ou outra construção qualquer que permite imediatamente saber quem é quem, pois os ritos da ordem não admitem a confusão de papeis ou posições “ (P.63)
“Se os ritos da desordem promovem temporárias, desconstruções ou re-arrumaçoes sociais, os ritos da ordem marcam, de forma taxativa quem é o ator e quem é o espectador” (P.64)
“Nessas sociedades, sabe-se que não há prazer algum, em escrever normas que contraiam e, em alguns casos, aviltam o bom senso e as regras da própria sociedade, abrindo caminho para a corrupção, burocrático e ampliando a desconfiança no poder publico” (P.71)
“De fato, a lei, e o fato de ele ser o seu representante, cega-o completamente para essas razoes de uma concepção de cidadania positiva, isto é, uma cidadania no qual os indivíduos tem seus direitos assegurados e respeitados em todas as situações. (P.74)
“Na forma clássica “do jeitinho”, solicita-se precisamente isso: um jeitinho que possa conciliar todos os interesses, criando uma relação aceitável entre o solicitante, o funcionário- autoridade e a lei universal (P.75)
Quero referir-me ao espaço do outro mundo, essa área, demarcada por igrejas, capelas, ermidas, terreiros, centros espiritas, sinagogas, templos , cemitérios e tudo aquilo que faz parte e sinaliza as fronteiras entre o mundo em que vivemos e esse “outro mundo” onde, um dia também iremos habitar.(P.80)

“Assim, a religião pode explicar também por que existem ricos e pobres fortes e fracos, doentes e sãos, dando sentindo pleno as diferenciações de poder que percebemos como parte do nosso mundo social” (P.82)
“Pode-se dizer que, nessa perspectiva, que o homem é o único ser que tem consciência de sua própria morte, por isso mesmo, tem enorme e definitiva necessidade de domesticar o tempo e de problematizar a eternidade “ (P.84)

Parecer Crítico


Roberto Da Mata, nós presenteia com esse livro incrível, que fala sobre o Brasil, nossos hábitos alimentares, cultura, festas religiosas, religiosidade, carnaval da nossa forma de ser relacionar com o outro, dos preconceitos, que são velados na nossa sociedade, etc.
No primeiro capitulo, o autor apresenta a diferença entre brasil, com letra minúscula, que é um o nome de uma planta, um território qualquer e Brasil com letra maiúscula, que está se referido a uma nação, que possui valores, aspectos culturais, religiosos, festas, economia, que o povo tem uma identidade própria, com uma língua patrão, que é o português , com uma cultura diversificada, leis definidas, com uma economia planificada, mas que periodicamente estra e sai de crises.
Apresenta a diferença entre alimento, que apenas nutre o corpo humano e comida, que é o que se come por prazer, com gosto, como o feijão com arroz, canjica, aipim, que representa a miscigenação do branco e do negro, a diversidade de culinária, que o povo brasileiro tem.
Aborda o fato, que nós temos o hábito, que usar nomes de alimentos, para descrever situações ou características das pessoas, alguns exemplos disso são: fulano é “pão-duro”, quer dizer que, não gosta de gastar dinheiro, que é avarento. Comi “o pão que o diabo amassou”, quer dizer, que o individuo já sofreu muito na vida. Eu “comi”, aquela menina ali, termo chulo, que é usado para dizer, que teve relações sexuais, com a aquela menina, entre outras palavras .
Do Brasil, que possui o carnaval, uma festa democrática, que nós permite esquecer os problemas por cinco dias, que não existe hierarquia social, nem padrão, nem funcionário em que as desigualdades sociais são esquecidas, as fardas são substituídas pelas fantasias a realidade é esquecida, e os preconceitos são diminuídos.
Ele também “fala” das festas da ordem, que podem ser religiosas ou jurídicas e elas existem para mostrar, a hierarquia social, a diferença de classes, nelas exigem, que exista a separação das classes pobres e ricas, elas exigem, que se usem roupas adequadas para a situação e que exista um respeito, uma admiração perante os representantes principais, como os padres, ou bispos, o divino, em caso de festas religiosas, ou pelos políticos, ou juízes em caso de uma ocasião formal, como uma formatura, uma missa de conclusão de curso, a inauguração de alguma obra publica, o dia importante politicamente para o pais, como o caso do dia da independência, um velório entre outros eventos.
Critica a falta de ética do povo brasileiro também chamado de “jeitinho”, que tem o intuito de facilitar nossas vidas, pra nós não existe nenhum problema que não pode ser revolvido, pois sempre vamos arrumar uma maneira de lidar com a situação, podendo ser legal ou ilegal. Sempre temos a ideologia, de os problemas vão se resolver, de uma maneira mais fácil e menos trabalhosa.
Essas atitudes fazem com que nos tornamos corruptos, em alguns casos, como no famoso “Fura fila”, estacionando o carro, em uma vaga que é destinada a deficientes ou idosos, mesmo que seja por pouco tempo, pagando propinas aos policiais quando dirigimos alcoolizados ou com algum problema na carteira de habilitação, quando fingimos que estamos dormindo para não da lugar ao um idoso, quando sonegamos impostos ao governo, compramos produtos piratas, em fim quando usamos de artifícios, que prejudicam outros indivíduos, para nos beneficiar.
Mostra nossa maneira de chegar perto de Deus, um ser divino, sobrenatural, ou seja, nossa religião, nossas crenças .O povo brasileiro é extremamente religioso, tem uma fé ardente, talvez pelo fato de sermos uma população tão sofrida, que vive um enorme quadro de desigualdade social, pobreza, miséria. O ser humano, principalmente a população do Brasil, sente a necessidade de acreditar em algum ser sobrenatural, onisciente e onipresente e na existência de outra vida, além dessa, pois nos somos cientes, da nossa morte, do fim da nossa existência. No Brasil, existe uma variedade de religiões, como a católica, as evangélicas, os espiritas, os mulçumanos, os que acreditam em orixás; em fim uma variedade de crenças. E todas tem sua importância e devem ser respeitadas, pois religião é um aspecto pessoal, e não deveria existe nenhuma forma de discriminação com relação a isso. Também temos o hábito de fazer promessas, ou seja, sacrificar algum habito que nos gostamos de fazer, ou tomar alguma atitude que não fazíamos antes ,como ajudar alguém, ir ao um local religioso, como Aparecida, a igreja, ao culto, a Meca etc.
Nossa cultura é formada, pela miscigenação de varias etnias, mas existem três, principiais, elas são: A Indígena, Africana e a Europeia, dos índios, herdamos os hábitos de comer mandioca, milho, e outros alimentos de dormir em redes, de pescar, de dançar, de ser um povo alegre. No vocabulário adquirimos uma variedade de palavras, como abacaxi, amendoim, caju, jacaré, piranha, sabia, tatu e vários nomes de pessoas como Araci, Iara, Jacira, Moema e outros .
O hábito de tomar banho, todos os dias, já que os europeus não “curtiam” muito, os índios gostam de se manter limpos e se banhavam em cachoeiras ou rios, dos negros, herdamos tipos de comida como: feijoada, cocadas, vatapá, acarajé, caruru. Na religião eles trouxeram o candomblé e Umbanda, as cantigas de roda.
No vocabulário trouxeram, termos como banana, caçula, xingar, fubá, moleque, cachimbo, quitanda, cachaça e outros, trouxeram a capoeira e instrumentos como o tambor e trouxeram estilos musicas como o samba. Dos Europeus também tivemos várias influencias, como a língua falada, o português que é derivada do latim, a religião católica, a devoção a vários santos como São Jorge, Santo Antônio, São João e outros, no folclore, com lendas urbanas como mula sem cabeça, lobisomem, cuca, etc. E na alimentação, trouxeram o habito de comer carne de de porco ,a galinha, doces. Se o povo brasileiro possui uma variada miscigenação de etnias, mas porque existe preconceito? Existe devido, a fatores históricos e sociais, pois os europeus deste da época do descobrimento usam uma ideologia, que os índios e os negros eram povos inferiores e primitivos, pois não possuíam religião, nem leis, nem cultura. E por isso eles foram discriminados e perseguidos, durante muito tempo, principalmente os negros, que passaram cerca de trezentos anos, sendo trazidos da África para serem escravizados e trabalharem para os senhores donos de henguio . Por esses motivos, essas etnias sofrem preconceito, até os dias atuais, mas ele é velado, escondido, em formas de “brincadeiras” de mal gosto, ou expressões que demostram esse preconceito como “A situação tá preta” pra dizer, que a situação está ruim, desfavorável, ao individuo, “Trabalho de preto” para dizer, que o trabalho, é ruim, pouco qualificado ou que recebe pouco.” Amanhã é dia de braço” para indicar , que o individuo, vai trabalhar, muito no dia seguinte, e se for bem analisada tem a intenção de indicar que o negro, é vagabundo, que não trabalha. O preconceito ainda existe, em nosso pais, mas está diminuindo aos poucos, pois nós estamos se concretizando que todo ser humano é igual perante a lei, independe de cor de pele, religião, sexualidade. O Brasil, é a quinta economia mundial, apresenta um PIB ( Produto Interno Bruto) considerado alto, possui empresas que tem influencia internacional, como a Petrobras, a desigualdade social está diminuindo, as pessoas tem direito a uma educação, mesmo que ela não tenha chegada aos melhores níveis de qualidade, o cidadão tem a oportunidade de ter uma renda, que lhe permite comprar uma alimentação de qualidade, um meio de transporte, nosso pais mesmo com os problemas, é um local bom pra se viver.


















Darwin Oliveira | Seleção Literária 15/05/2016minha estante
Não gosto das edições da Ed. Rocco para os livros do DaMatta, são péssimas. Baixa qualidade.


Bia 24/12/2016minha estante
porque são péssimas?




Valdirfb 18/09/2014

O que faz do brasil, Brasil?
Livro muito bom, leve e de fácil leitura. Indicado pra quem quer entender um pouco mais da identidade do povo brasileiro.

No livro o antropólogo Roberto DaMatta, aborda vários aspectos da cultura brasileira, como a relação entre a casa, a rua e o trabalho, a ilusão das relações raciais, o jeitinho brasileiro, a relação entre comidas e mulheres, e outros...

Achei o livro tão bom, que usei na construção do argumento de defesa da minha monografia de conclusão de curso na graduação.
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Larissa 12/12/2012

O Que faz o brasil, Brasil?
De maneira bem compreensiva o livro trata de definir e explicar como foi formada a sociedade brasileira. Explicando em cada segmento de nosso cotidiano como - A casa, a rua, e o trabalho - como o brasileiro consegue burlar regras com - seu jeitinho - os tipos de sociedade encontradas fora do contexto casa - caxias, santo, malandro - e como é visto a formação dos nossos gostos - comidas e mulheres. Ele também explica como se deu a desigualdade social no Brasil comparando-a com a dos Estados Unidos. O livro é muito bom para qualquer cidadão principalmente para jovens estudiosos das ciências socias e politicas.
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KAPPA 23/08/2013

Brasil conheça-o ou ele te devora.
Roberto DaMatta trata de forma mestral o povo brasileiro, trás a tona toda a sua grandiosidade e também imperfeições, de modo que qualquer brasileiro que leia ira se ver nas paginas desse livro, e também ver os vizinhos, amigos de trabalho, festa etc. retrata como vive o brasileiro, que em casa tem um comportamento e na rua outro totalmente ou parcialmente diferente, retrata a diferença de poderes de um pais emergente, que seu próprio modo de superar dificuldades, um pais que ainda que multicultural tem a sua cultura de forma elegante, retratada com luxo no carnaval, aonde todos se soltam e torna-se aquilo que sempre quiseram ser, aonde negros, brancos, mulatos e índios vivem não sem preconceito, mas um preconceito mais refinado, que não distingue raças superiores e inferiores, uma religião mais intima de conversa cara a cara com Deus quando necessário, mesmo que seja uma conversa com si mesmo, de fantasias ilusões e superstições, que sabe dar um jeitinho em quase tudo que faz, sabe contornar o que não pode para chegar no que quer; festas se fazem tanto para liberta-se como no carnaval mas também para impor legitimar poder, e uma boa festa tem que ter comida boa, comidas que deixam água na boca, quem ler com certeza vai sair de “barriga cheia” satisfeito com o modo em que ele trata o assunto da identidade brasileira.
Sendo o leitor brasileiro o livro te faz se entender e se encaixar melhor em uma sociedade brasileira, sendo estrangeiro, te faz conhecer um povo bem diverso, mas um povo único que é muito bem retratado no livro, então se quer saber o que faz do brasil o Brasil, DaMatta te da uma ótima ajuda nessas paginas.
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Emanuel Xampy Fontinhas 19/03/2016

Neste ensaio, escrito de forma bastante informal e de fácil assimilação, DaMatta analisa pontos que considera chaves para se entender a identidade brasileira, dentre eles o carnaval, as festas formais (militares e religiosas), as relações familiares e com a rua e o trabalho, a malandragem e e o jeitinho brasileiro, as comidas... É um bom livro e bastante didático, para entender o ponto de vista do autor sobre a identidade brasileira sob a perspectiva da antropologia social.
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Lois 30/10/2015

Melhor sobre a sociedade brasileira
ormação étnico-social brasileira, desenvolvimento cultural e como se apresentam essas características sociais. Todos esses temas e são apresentados neste livro, escrito por DaMatta.
Ao longo do livro o autor faz questionamentos sobre identidade, sobre o comportamento, as relações étnicas, sobre as metáforas e comparações utilizadas no dia-a-dia do brasileiro. DaMatta parte da perspectiva de simples atitudes que a sociedade tem no cotidiano, dando a esses comportamentos significados, como a comparação que faz sobre a rua e a casa, onde a casa é um lugar seguro, onde há compaixão, entendimento e onde as leis agem da melhor forma, contribuindo para o desenvolvimento de todos e é o local onde todos possuem identidade, já na rua não “existe teoricamente amor, nem consideração, nem respeito, nem amizade.” Nos primeiros capítulos trabalha as questões da sociedade, da identidade, como se formou a cultura e a sociedade brasileira. Utilizando da comparação entre casa, rua e trabalho, o autor explica que casa é o local de onde vivemos com segurança, que podemos nos expressar, a rua é o local perigoso, onde podemos adquirir experiências, porém procuramos evitar e o trabalho é aquele local onde temos que por “obrigatoriedade” ir para poder sustentar-se, local que para o brasileiro é carregado de fardo – “O patrão em um sistema escravocrata além de explorador da mão de obra, é dono até da moral do mesmo. Essas relações vão do econômico ao moral, mudando completamente o modo de nossas concepções de trabalho e suas relações que até hoje misturamos uma relação puramente econômica com lações pessoais de simpatia e amizade, o que confunde o empregado e permite ao patrão exercer duplo controle da situação, como exemplo as empregadas domésticas.”
“O fato contundente de nossa história é que somos um país feito por portugueses brancos e aristocráticos, uma sociedade hierarquizada e que foi formada de dentro de um quadro rígido de valores discriminatórios”, nesta perspectiva DaMatta mostra como não há uma democracia racial, o negro e o índio são estigmatizados, “os portugueses já tinham uma legislação discriminatória contra judeus, mouros e negros, muito antes de virem para o Brasil; e quando aqui chegaram apenas ampliaram essas formas de preconceito”(Pag.47). Neste capítulo DaMatta faz uma crítica pesada sobre a democracia racial ou a mistura das raças de Freyre, onde apresenta ressalva – “A mistura das raças foi uma forma de esconder a profunda injustiça social contra negros, índios e mulatos, pois, situando no biológico uma questão profundamente social, econômica e política”, em outro ponto DaMatta fala : “É mais fácil dizer que o Brasil foi formado por um triângulo de raças do que assumir que somos uma sociedade hierarquizada, que opera por meio de gradações e que, por isso mesmo, pode admitir, entre o branco superior e o negro pobre inferior”.
Explicando o jeito brasileiro como único no mundo. Esse jeito brasileiro na opinião popular representa como uma coisa sempre ruim, porém DaMatta mostra que além das consequências ruins sobre este jeito brasileiro existem seus benefícios, pois o brasileiro tem a mania da conciliação, de atender as necessidades de todos apesar de ser muito individualista. No exemplo em que DaMatta utiliza, ele mostra que em uma briga entre a loja e um consumidor, a justiça não irá atuar de maneira sobre as penas da lei e sim, procurar antes de tudo uma conciliação, um meio de atender à vontade das duas partes de forma que as duas saiam beneficiadas.
Brasil = É país, é cultura, local geográfico, fronteira e território reconhecido internacionalmente, e também casa, pedaço de chão, calçado com o calor de nossos corpos, lar, memória e consciência de um lugar e, brasil = objeto sem vida, autoconsciência ou pulsação interior, pedaço de uma coisa que morre e não tem a menor capacidade de se reproduzir como sistema.

site: http://ideaisideologicos.blogspot.com.br/
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Cami 12/04/2019

A Cara do Brasil
Da Matta apresenta uma fiel percepção antropólogica do país. Ele faz parte dos grandes autores que sabem exatamente como retratar a Cultura Brasileira e seu jeito particular de ser, tudo de uma maneira simples e informativa. Leitura fácil e de imensa importância!
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Daniel 29/08/2016

O que faz o brasil, Brasil?
Fiz um leitura rápida deste livro, porém o reflexo foi muito positivo. Este livro trás a oportunidade, com esforço é claro, de olhar o brasileiro de forma positiva e otimista. Apesar de todos os problemas que estão cada dia mais visíveis em nossa sociedade, parece que a culpa não é do nosso "jeitinho brasileiro", mas sim de uma precária noção do que realmente somos e das "coisas" positivas que trazemos. Nunca conseguiremos ser plenos se tivermos a intenção de imitar uma sociedade que julgamos ser mais evoluída e mais estável que a nossa. O brasileiro e o Brasil carecem de uma espelho que nos faço ver o que e quem realmente somos, com nosso jeitinho brasileiro, nossa camaradagem, que por vezes nos faz "corruptos", mas acima de tudo com nosso otimismo e valor pela vida e o ser humano. Como disse Nelson Rodrigues, " Em meio a uma guerra nuclear os povos iriam se solidarizar, estariam todos fadados a morte, o mundo se uniria por esta causa, e o brasileiro seria o primeiro a fazer uma piada sobre o assunto". Fato.
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João Moreno 31/03/2019

E todos querem saber o que faz o brasil, Brasil...

"(...) O Brasil não é um país dual onde se opera somente com uma lógica do dentro ou fora; do certo ou errado; do homem ou mulher; do casado ou separado; de Deus ou Diabo; do preto ou branco. Ao contrário, no caso de nossa sociedade, a dificuldade parece ser justamente a de aplicar esse dualismo de caráter exclusivo, ou seja, uma oposição que determina a inclusão de um termo e a automática exclusão do outro" (p. 41).

Roberto DaMatta foi professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ali, trabalhou de 1959 a 1986, de início como estagiário,  saindo um "naturalista". Foi lá que, em suas próprias palavras, se tornou antropólogo e professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social e Chefe do Departamento de Antropologia. Hoje escreve em jornais, além de ter publicado artigos e livros. Entre estes, a obra O que faz o brasil, Brasil?, de 1984, texto, objeto deste resumo, que, nas palavras do autor, se configura como uma "resposta tímida, imprecisa e certamente discutível". Modéstia do autor à parte, o que fica após a leitura é uma nova forma de se pensar os diferentes Brasis.

Em seu livro, DaMatta propõe uma 'ousada' premissa: analisar as estruturas sociais e antropológicas da sociedade brasileira a partir de estruturas que nos são caras, conhecidas, mas, agora, a partir de sua obra, apresentadas de maneira singular. O que isso quer dizer, afinal?  Significa que o cientista social analisa o Brasil como duas faces de uma mesma moeda.  Nesta análise, busca também compreender o elo que une tais conceitos. A gradação, o meio termo. "Afinal de contas, como se ligam as duas faces de uma mesma moeda? O que faz o brasil, Brasil" (p. 20).

Ainda sobre as particularidades de entender a sociedade brasileira, em outras palavras, estas [particularidades] não podem ser observadas à partir de metodologias e parâmetros europeus. A procura de respostas através de conceitos dicotômicos, polarizados, excludentes quando da inclusão do outro, comuns a outras nações, por exemplo, não nos revelaria aquilo que faz o brasil, Brasil?, uma vez que somos donos de uma organização social  e de uma formação histórica particulares. Buscando clareza, para DaMatta, entender o Brasil implicaria em aceitar um meio termo à metáfora da moeda. Assim, para entendermos a dicotomia casa / rua, precisamos levar em conta a variável trabalho. O racismo? O significado do branco, do negro, mas, principalmente, do Mulato. O Carnaval? A ordem, o trabalho, e a subversão das estruturas sociais.

Caso contrário, tendemos, concluindo a partir da obra de DaMatta, a uma análise frágil.

"Nós, brasileiros, somos um povo marcado e dividido pelas ordens tradicionais: o nome de família, o título de doutor, a cor da pele, o bairro onde moramos, o nome do padrinho, as relações pessoais, o ser amigo do Rei, Chefe Político ou Presidente. Tudo isso nos classifica socialmente de modo irremediável. Jamais utilizamos o concurso público e a competição como algo normal entre nós, daí o trabalho que é fazer uma eleição honesta e disputada [fala-se, aqui, do Carnaval, exemplo de festa decidida pelo povo]. Ela implica, inclusive, algo que evitamos: dar opiniões e disputar vontades, revelando abertamente as nossas mais legítimas (e ocultas) diferenciações sociais (...) Carnaval, pois, é inversão porque é competição numa sociedade que tem horror à mobilidade, sobretudo à mobilidade que permite trocar efetivamente de posição social" (DAMATTA, 1984, p. 78).

Ao buscar caracterizar o conceito de identidade, o antropólogo nos diz que a partir de preferências musicais, esportivas, culinárias ou especificidades geográficas seria possível determinar aquilo que definimos por identidade do indivíduo. Esta definição [de identidade], contudo, só se daria a partir de uma construção social, em grupo. "Quem me garante que o que eu disse é convincente para definir um brasileiro foi a própria sociedade brasileira (...) Isso indica claramente que é a sociedade que nos dá a fórmula pela qual traçamos esses perfis e com ela fazemos desenhos mais ou menos exatos" (DAMATTA, 1984, p. 18).

A partir destas premissas, DaMatta nos revela uma das conclusões mais importantes de sua obra: a dupla possibilidade de construção da identidade brasileira e a maneira que essa dicotomia (sempre ela) nos fornece conclusões insuficientes sobre o Brasil, o brasileiro e a sociedade. Esmiuçando a fala do professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é possível 1) analisar o Brasil de forma quantitativa, por meio de índices e números, "(...) classificação [que] permite construir uma identidade social moderna, de acordo com os critérios estabelecidos pelo Ocidente europeu a partir da Revolução Francesa e da Revolução Industrial. Aqui, somos definidos por critérios "objetivos", quantitativos e claros" (DAMATTA, 1984, p. 18). PIB, IDH, Índice de Gini etc etc.

De outro modo, 2) "podemos ver a nós mesmos como algo que vale a pena" (p. 19). Aqui, Roberto DaMatta se refere à música, ao esporte, aos traquejos sociais, uma maneira um tanto quanto informal, mas qualitativa de se ver o país. Para o autor, a dificuldade das análises das estruturas sociais brasileiras residiriam no isolamento destes dois fatores, quantitativos e qualitativos, dos objetos a serem estudados. Ou pensamos no Brasil subdesenvolvido e em seus números que nos envergonham como identidade nacional e nação, ou, descolado destes, pensamos apenas nas relações sociais, nos jeitinhos, no Carnaval, no modo particular brasileiro de se enxergar o trabalho.

"Sustento que, enquanto não formos capazes discernir essas duas faces de uma mesma nação e sociedade, estaremos fadados a um jogo cujo resultado já se sabe de antemão. Pois, como ocorre com as moedas, ou teremos como jogada um "brasil" pequeno e defasado das potências mundiais, Brasil que nos leva a uma autoflagelação desanimadora; ou teremos como jogada o Brasil dos milagres e dos autoritarismos políticos e econômicos, que periodicamente entra numa crise'"(DAMATTA, 1984,  p. 20).

No segundo capítulo, o antropólogo destaca a dicotomia da casa e da rua e, entre esses dois, o trabalho. Há uma divisão clara entre estes, alerta-nos. A singularidade da casa, da família, do tratamento que os membros que ali residem ou visitam contrasta com o modo como enxergarmos a rua. Se "vivemos numa sociedade onde casa e rua são mais que meros espaços geográficos. São modos de ler, explicar e falar o mundo" (p. 28-29), a rua seria sinônimo de "luta e sangue"

"Na rua", nos diz Roberto DaMatta, "não há, teoricamente, nem amor, nem consideração, nem respeito, nem amizade" (p. 29). Local perigoso, para o brasileiro, estar 'carregado' do adjetivo "de rua" já seria motivo ou sinônimo para desvalorização, indiferença, menosprezo. Mulheres de rua [prostitutas], meninos de rua, comida de rua. Temos, segundo o antropólogo,  um local "em que ninguém nos respeita como "gente" ou "pessoa" (...) Se a mulher é da rua, ela deve ser vista e tratada de um modo (...) Até mesmo objetos e pessoas, como crianças, podem ser diferentemente interpretados caso sejam da rua ou de casa." (p. 30).

Casa e rua seriam, então, dois lados da mesma moeda.

Outro pensamento que chama a atenção neste capítulo - grita, na verdade - é a relação entre trabalho rua e casa, levantada por DaMatta.

Para o autor, a rua seria o sinônimo de batente. A expressão - batente - simbolizaria o obstáculo, aquilo que nos limita e nos impede de algo, definições que podem ser constatadas pela origem da expressão: tripaliare ,  derivação de tripaliu, do latim, objeto usado em torturas de escravos,  na Roma Antiga.

De modo genial, Roberto DaMatta traz o contexto histórico do povoamento e colonização brasileiro para caracterizar a forma como enxergamos o trabalho. Americanos e ingleses - de forte tradição protestante (calvinistas e luteranos) enxergam, no trabalho, "uma ação destinada à salvação". Nós, ao contrário, de tradições católica...

"(...) achamos que o trabalho é um horror. Não é à toa que o nosso panteão de heróis oscila entre uma imagem deificada [endeusada] do malandro (aquele que vive na rua sem trabalhar e ganha o máximo com um mínimo de esforço), o renunciador ou o santo (aquele que abandona o trabalho neste e deste mundo e vai trabalhar para o outro, como fazem os santos e líderes religiosos) e o caxias, que talvez não seja o trabalhador, mas o cumpridor de leis que devem obrigar os outros a trabalhar.... O fato é que não temos a glorificação do trabalhador, nem a ideia de que a rua e o trabalho são locais onde se pode honestamente enriquecer e ganhar dignidade

Mas poderia ser de outro jeito numa sociedade em que até outro dia havia escravos e onde as pessoas decentes não saíam à rua nem podiam trabalhar com as mãos? É claro que não... No nosso sistema, tão fortemente marcado pelo trabalho escravo, as relações entre patrões e empregados ficaram definitivamente confundidas. Não era algo apenas econômico, mas também uma relação moral onde não só um tirava o trabalho do outro, mas era seu representante e dono perante a sociedade como um todo. O patrão, num sistema escravocrata, é mais que um explorador de trabalho, sendo dono e até mesmo responsável moral pelo escravo" (p. 31-32). 

Roberto DaMatta começa o terceiro capítulo - o mais interessante, na minha opinião - discutindo uma premissa. Na verdade, uma frase do Padre André João Antonil:

"O Brasil é um inferno para os negros, um purgatório para os brancos e um paraíso para os mulatos" (ANTONIL apud DAMATTA, 1984, p. 37).

Assim, o antropólogo nos alerta para a necessidade de, caso queiramos entender o contexto das relações raciais, no Brasil,  nos atentarmos para as implicações morais e políticas que a frase de Antonil carregava.  Roberto DaMatta chama a atenção para as Teorias Raciais do final do século XIX e XIX, que caracterizaram o período pós-alforria. De acordo com o pesquisador, as teorias atentavam mais para os "horrores" da miscigenação entre negros, índios e brancos, sem, contudo, relativizar o tratamento desumano e de inferioridade recebido por negros e dos conceitos estabelecidos acerca destes.

O que Roberto da Matta nos diz é: entender esse horror da época à miscigenação é o principal ponto para o entendimento das diferenças entre o racismo norte-americano, europeu e brasileiro, que ainda perduram.

Vale lembrar que nos Estados Unidos e na Europa houve um sólido sistema jurídico que dividia internamente as respectivas sociedades. Ao contrário do Brasil, o racismo, naqueles Estados-Nações, ia além do fenótipo, da cor da pele. Era "visto" e "tratado" como negro todo aquele que possuía ascendência africana, o "sangue negro" Para estes "infelizes", restava à marginalização da sociedade por vias jurídicas, as famosas Leis de Jim Crow.

No Brasil, por sua vez, a velha dicotomia "brancos Vs pretos" não foi suficiente para explicar o racismo à brasileira. Como duas faces da mesma moeda, o elemento que ligaria esses dois conceitos opostos serio o mulato: o ponto de inflexão, o elemento que reprime e assume as características de seus extremos. O mulato é, pois, nas questões raciais, aquele que também conhecerá as consequências sofridas pelo negro; por não ser branco nem negro, se entre o negro há o mulato, o racismo brasileiro se caracterizará por ser de difícil identificação, velado. À margem - não no que diz respeito às sevícias, o mulato será explorado no labor, mas ignorado nas relações sociais. Amálgama, nas palavras dos teóricos raciais, que vai apagando, pouco a pouco, as melhores qualidades dos brasileiros...

"Gobineau, como se vê, foi o pai, ou melhor, o verdadeiro genitor de um dos valores mais caros ao preconceito racial de qualquer sociedade hierarquizada. Refiro-me ao fato de que ele não se colocou contra a hierarquia que governava, conforme supunha, a diversidade humana no que diz respeito aos seus traços biológicos, mas foi terminantemente contrário ao contato social íntimo entre elas. E é precisamente isso, conforme sabe (mas não expressa) todo racista, que implica a ideia de miscigenação, já que ela importa contato (e contato íntimo, posto que sexual) entre pessoas que, na teoria racista, são vistas e classificadas como pertencendo a espécies diferentes. Daí a palavra "mulato", que de vem de mulo, o animal ambíguo e híbrido por excelência; aquele que é incapaz de reproduzir-se enquanto tal, pois é o resultado de um cruzamento entre tipos genéticos altamente diferenciados" (DAMATTA, 1984, p. 39).

"Que qualquer um que duvida dos males dessa mistura de raças, e se inclina, por mal entendida filantropia, a botar abaixo todas as barreiras que as separam, venha ao Brasil. Não poderá negar a deterioração decorrente do amálgama de raças, mais geral aqui do que em qualquer outro país do mundo, e que vai apagando rapidamente as melhores qualidades do branco, do negro e do índio, deixando um tipo indefinido, híbrido, deficiente em energia física e mental" (AGASSIZ apud DAMATTA, 1984, p. 40).

Vale lembrar que, no Brasil, o esquecimento não  se destinou às relações de dominação escravista. O racismo, por aqui, nunca questionou as raízes da hierarquia social / racial, por sua vez, perpetuou a exclusão daqueles nascidos de uma mistura brasileira. No Brasil, o mulato seria, então, uma pária. Afinal, como diria o teórico Agassiz, miscigenar seria a "deterioração decorrente do amálgama de raças, mais geral aqui do que em qualquer país do mundo".

Ao retornar à frase do Padre André João Antonil, para o antropólogo Roberto DaMatta, o "mulato não estaria no paraíso". Pelo contrário, estaria, também, no inferno, como uma imoralidade. "Numa sociedade onde não há igualdade entre as pessoas, o preconceito velado é forma muito mais eficiente de discriminar pessoas de cor, desde que elas fiquem no seu lugar e "saibam" qual é ele". (p. 46). Ao lado desses preceitos, temos um constructo social importante, que nos molda, mais do que nunca, como sociedade: o mito da democracia racial.

"(...) é mais fácil assumir que o Brasil foi formado por um triângulo de raças, o que nos conduz ao mito da democracia racial , do que assumir que somos uma sociedade hierarquizada , que opera por meio de gradações e que, por isso mesmo, pode admitir, entre o branco superior e o negro pobre e inferior, uma série de critérios de classificações. Assim, podemos situar as pessoas pela cor da pele ou pelo dinheiro. Pelo poder que detém ou pela feiura de seus rostos. Pelos seus pais e nome de família, ou por sua conta bancária. As possibilidades são ilimitadas, e isso apenas nos diz de um sistema com enorme e até agora inabalável confiança no credo segundo o qual, dentro dele, 'cada um sabe bem o seu lugar'" (p. 47).

A fala de DaMatta se articula muito bem com o que expressa a historiadora, e também antropóloga, favorita deste portal,  Lilia Moritz Schwarcz. Talvez bebendo da fonte de Roberto - o livro O que faz o brasil, Brasil? é citado em uma obra da pesquisadora, Lilia é cristalina:

"(....) Em 1933, Gilberto Freire lança Casa Grande e Senzala. Foi um sucesso. Em Casa Grande, o mesmo modelo de democracia racial. O Brasil seria uma espécie de harmonia, teria povos em harmonia convivendo entre si: povos indígenas, povos negros, povos brancos. Foi só em 1950, provocados por Gilberto Freire, que a Unesco criou um programa para mostrar que o Brasil era um exemplo de Democracia Racial. Não deu nada nada certo. Florestan Fernandes, [sociólogo], pesquisando o racismo aqui em São Paulo, demonstrou que o brasileiro tinha um tipo muito particular de racismo. Vamos combinar que não tem racismo bom. "O brasileiro tinha preconceito de ter preconceito". O que ele quis dizer com isso? O brasileiro tinha preconceito, era racista, mas negava o tempo todo. "Você que está [lendo], você que é racista, eu não sou". Isso criou uma noção de mestiçagem muito complicada, no Brasil, na minha opinião. A gente pensa mestiçagem como mistura, mas que tal nós pensarmos a mestiçagem como mistura e separação também?". (SCHWARCZ 2019, s.p).  [1]

Ao fim, o antropólogo arrisca algumas conclusões. Em 1984, clamava por igualdade jurídica, formalizada apenas em 1988, com a Constituição Federal, mas ainda carente de materialidade. Ainda usamos, nas palavras de DaMatta, a "nossa mulataria e os nossos mestiços" como forma de esconder uma sociedade hierarquizada e desigual. Um mito - o da democracia racial - que nos imobiliza e nos impede de tomarmos atitudes concretas contra o racismo à brasileira. Assim, citando-o, um racismo silencioso, à espreita, que "torna a injustiça algo tolerável, e a diferença uma questão de tempo e amor" (p. 47). Até quando?

Ao pensarmos no racismo como algo apenas racial, como fizeram as teorias raciais e a explicação de uma suposta democracia, deixamos de lado questões sociais, políticas e econômicas importantes que envolvem este mesmo racismo.

Para entender o Carnaval é preciso, antes disso, entender a dicotomia entre rotinas e ritos, trabalhos e festas, entre o ordinário e o extraordinário. Assim, vivemos sempre entre estes dois momentos. Passageiros, segundo DaMatta, na busca pelo outro ou, então, em busca que o outro permaneça, continue. Temos, assim, de acordo com o antropólogo, a capacidade, através de nossa memória, de guardar aquilo que nos marca como indivíduo e sociedade, sejam estas coisas positivas ou negativas. Fugir das amarras cotidianas seria um dos instrumentos necessários para essa memorização.

Em sociedades capitalistas, a ordem é, via de regra, o único caminho possível e aceitável. A descontinuidade, banida ou evitada. É por isso que doença dos funcionários ou paralisações dos sistemas produtivos não são bem vindos. Greves, mal vistas. O sistema capitalista exige uma lógica de produção contínua e constante para alcançar os seus objetivos. Assim, a rotina e o trabalho -  com sua lógica contínua e repetitiva, com o estabelecimento de uma ordem imutável, por assim dizer, tornam o trabalho algo não digno da memória social.

Se aquilo que nos marca positivamente torna-se, também, memorável, a festa - o extraordinário - adquire signos positivos, bem quistos socialmente. O trabalho, ao contrário, assume tons daquilo que é bruto, duro. "Para nós, brasileiros, a festa é sinônimo de alegria, o trabalho é eufemismo de castigo, dureza e suor" (p. 69).

Para Roberto DaMatta, a compreensão do Carnaval e dessa estrutura rígida conhecida por trabalho e ordem só é possível a partir do entendimento da subversão de hierarquias sociais e morais que certos ritos trazem à sociedade. Ao entendermos a integração entre os diferentes atores sociais em sua diversidade estrutural neste contexto sem, teoricamente, leis. Fantasiados, no Carnaval, assumimos diferentes papéis que nos são negados pela ordem continua e estável do cotidiano.

Assim, "por tudo isso, o carnaval é a possibilidade utópico de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo em direção à  alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade. Pena que tudo isso só sirva para revelar o seu justo e exato oposto..." (p. 78).

Neste capítulo, o antropólogo afirma que todo o rito ou festa nos rememora algum momento, "recriam e resgatam o tempo, o espaço e as relações sociais" (p. 81). A partir dessa afirmação, distingue, entre os diferentes rituais, aqueles que estabelecem a desordem (o Carnaval e a sua subversão, por exemplo) ou os ritos que buscam a ordem, a estabilidade. É sobre este último tipo que DaMatta vai gastar as suas linhas neste capítulo.

Assim, as festas-ritos seriam, resumidamente, momentos de legitimação de ordem social. A confirmação de uma estabilidade, dos papeis sociais, através dos vestimentas, atos, separações hierárquicas. Do Estado à Igreja.  "É, justamente, esse resgate da ordem que tais rituais pretendem realizar por meio dessas dramatizações. Daí, certamente, a associação entre cerimonial e poder. É que o ritual reveste o poder, dando-lhe uma forma exterior solene e legítima" (p. 86-87).

"Num livro que escrevi - Carnavais, malandros e heróis -, lancei a tese de que o dilema brasileiro residia numa trágica oscilação entre (1) um esqueleto nacional feito de leis universais cujo sujeito era o indivíduo e (2) situações onde cada qual se salvava e se despachava como podia, utilizando para isso o seu sistema de relações pessoais. Haveria, assim, nessa colocação, um verdadeiro combate entre leis que devem valer para todos e relações que evidentemente só podem funcionar para quem as tem" (p. 96-97).

Para discutir a nossa brasilidade, aquela que salta aos olhos, o professor Roberto DaMatta estabelece dois lados de uma mesma moeda, forma encontrada para dialogar com essa questão: o brasileiro enquanto indivíduo, cidadão, sujeito às normas sociais e leis, e a pessoa enquanto ser social, que busca, assim, a vantagem. O Jeitinho estaria entre os dois, o malandro, assim como o estereótipo do "sabe com quem você está falando?"

Assim, o Jeitinho, a Malandragem, o "você sabe com quem você está falando" envolvem, via de regra, um fato impessoal, externo, e a pessoalidade das relações pessoais e sociais.

O que DaMatta nos diz é que o jeitinho brasileiro residiria entre o cidadão e o desonesto. Em um ambiente jurídico caótico, descolado da realidade, buscamos alternativas para leis que, às vezes, são proibitivas em excesso, fazemos uma aplicação pessoal. Na mesma medida, burlamos normas sociais mais básicas pois há, quase sempre, a busca por vantagens pessoais em um ambiente coletivo.

Por fim, DaMatta conclui que o jeitinho brasileiro e as diferentes gradações dele nada mais seriam que "uma ação concreta" - entre o legal e o desonesto em busca de ascensão. Em um país de leis absurdas, descoladas da realidade, usamos o jeitinho, também, tentando burlar até "normas sociais mais gerais".

Ao finalizar o ensaio, Roberto DaMatta rememora os percalços que passou para 'construir' um perfil do país. Ao tentar responder O que faz o brasil, Brasil?,  o antropólogo buscou uma visão não determinista de certos fatores, para além da leitura por meio de uma linguagem oficial, formal, das instituições, métodos de análise criticados pelo antropólogo.

DaMatta lembra que tal forma - incompleta - foi e vem sendo utilizada para construir as respostas aos possíveis Brasis. De maneira presumível, as respostas encontradas não têm sido satisfatórias.

"Como se pode corrigir o mundo público brasileiro por meio de leis impessoais, se não se faz simultaneamente uma série crítica das redes de amizade e compadrio que embebem toda a nossa vida política, institucional e jurídica?" (p. 121).

Para o pesquisador, seria necessário que a crítica partisse não apenas das Instituições e sistema, mas, também, da cultura, da linguagem, dos fatores históricos e sociais que caracterizam o brasil, Brasil.  Algo que, genialmente, Roberto DaMatta definiu por "ter um pouco mais da casa na rua e da rua na casa" (p. 122).

[1] A Ladainha da democracia racial, por Lilia Schwarcz. Disponível em: .

site: literatureseweb.wordpress.com
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Inalda 29/11/2019

O que faz o Brasil, Brasil.
O autor faz varias comparacoes de nossa identidade e que para identificar um brasileiro voce tem que gosta de futebol, candomblé, carnaval etc. Que nossa socieda e um triangulo contendo as três racas. Negros, brancos, indios . faz uma comparacao da comida com sexualidade. Na religiao mostra como ela e importante para nosso povo tao fanático que tudo justifica sendo obra divina e esse fanatismo e complicado.
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Vitor 13/07/2017

[...] Assim, ela permite que possamos ser tudo o que queríamos, mas que a "vida" não permitiu. Com ela - e jamais com o uniforme -, conseguimos uma espécie de compromisso entre o que realmente somos e o que gostaríamos de ser.

[...] A fantasia liberta, des-constroi, abre caminho e promove a passagem para outros lugares e espaços sociais. Ela permite e ajuda o livre trânsito das pessoas por dentro de um espaço social que o mundo cotidiano torna proibitivo com as repressões da hierarquia e dos preconceitos estabelecidos.
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