Honra Teu Pai

Honra Teu Pai Gay Talese




Resenhas - Honra teu pai


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Fabio Martins 06/08/2015

Honra teu pai
Nos meus quatro anos de faculdade ouvi diversas vezes o nome de Gay Talese. Jornalista e escritor, ele foi o principal precursor do chamado new journalism e é uma referência para os estudantes de comunicação. Foi autor de diversos livros aclamados, como O reino e o poder, A mulher do próximo e Honra teu pai – obra que abordaremos aqui.

A Máfia foi um dos principais temas do século 20, especialmente na Itália e Estados Unidos. O fascínio que esse tema – sociedade secreta do crime organizado – gerava nas pessoas, foi catalisado por obras como O poderoso chefão (livro e, posteriormente, filme), nos anos 1960 e 1970.

Honra teu pai narra a história de uma das principais famílias mafiosas ítalo-americanas de Nova Iorque: os Bonanno. O patriarca e líder da família, Joseph Bonanno, chegou aos Estados Unidos vindo da Sicília, na Itália, no início do século 20. Aos 26 anos já era um dos mais respeitados mafiosos do país.

No início dos anos 1960, após algumas desavenças com a Comissão da Máfia – sim, isso existe! – a família de Joseph foi considerada irregular e os outros clãs passaram a persegui-lo.

O submundo ficou chocado quando, em 1964, foi anunciado o desaparecimento de Joseph Bonanno, e esse é o tema da primeira parte do livro. Ninguém sabia do paradeiro do patriarca, e nesses tempos difíceis, Salvatore Bill Bonanno, seu filho, foi quem assumiu o comando da família. Isso gerou muita controvérsia no submundo do crime, pois muitos mafiosos o consideravam jovem demais ou achavam que outras pessoas mais bem preparadas devessem assumir o posto.

Esses conflitos formam a segunda parte do livro, em que a família Bonanno entra em guerra contra as famílias rivais na máfia de Nova Iorque. Uma guerra nunca é vantajosa para nenhuma das partes, mas para os criminosos é ainda pior. Eles têm que ficar confinados em apartamentos minúsculos, gastam muito dinheiro e vivem com o medo de morrer.

Com o abrandamento da guerra, o livro entra em sua parte família. Mostra a relação de Bill com seus parentes, sua atuação como pai e marido e seu desempenho como chefe de um lar. A obra termina com seu julgamento. Não pelos crimes e assassinatos cometidos, mas sim por usar um cartão de crédito de um conhecido – cuja autorização ele tinha – e assinar em nome do titular.

Honra teu pai é um livro muito bem organizado, explicado e bem escrito. Segue com um ritmo uniforme que prende a atenção do autor nos mínimos detalhes. Gay Talese sabe como poucos contar uma boa história com sabedoria e sobriedade.

site: lisobreisso.wordpress.com
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Joice (Jojo) 25/04/2011

Máfia sem Luxo
"Para o americano médio, a palavra Máfia em geral evoca cenas de ação e violência, conspirações espetaculares e projetos milionários, limusines pretas a derrapar em esquinas e balas de metralhadoras varrendo as calçadas. Essa era a versão de Hollywood. Embora grande parte dela reflitisse a realidade, também exagerava demais essa realidade, ignorando o cotidiano dos mafiosos - uma rotina de espera interminável, tédio, clandestinidade, muito cigarro, alimentação excessiva, falta de exercício físico, períodos prolongados em quartos com as persianas fechadas e um enfado mortal na tentativa de sobreviver" (Honra teu pai, pág.338).

Acredito que essas linhas definem bem o livro de Gay Talese, best seller em 1971, quando foi originalmente lançado. A obra é uma narrativa profunda, íntima, sobre a queda do império de Joseph Bonnano, considerado um dos chefes da Máfia em Nova York nas décadas de 1960 e 1970. O curioso é que toda essa narrativa é centrada na figura de Bill, filho de Bonnano e seu sucessor, com quem Talese confessa um estreito laço de amizade.

A narrativa é muito boa, mas padece de altos e baixos, talvez justamente em virtude dos períodos de "espera interminável" aos quais Talese menciona. Quem achou que a vida de mafioso é ação non stop pode ficar profundamente decepcionado.

A descrição dos personagens é maravilhosa: íntima, profunda, de tal forma que podemos deduzir, pelas entrelinhas, até aquilo que Bill pensava e não podia expor.

Gay Talese não faz uma crítica à máfia, mas tampouco sua escrita é totalmente imparcial. Afinal, Bill era seu amigo e em muitas frases é possível perceber uma emotividade narrativa maior, talvez numa tentativa de Talese de justificar certas atitudes do amigo. Se resta alguma dúvida disso, basta ver a dedicatória do livro: "Para Charles, Joseph, Tory e Felippa [filhos de Bill] na esperança de que compreendam melhor o pai, e não o amem menos..."

O livro possui pontos fortes e fracos, mas em geral é um ótimo exemplo do jornalismo literário.

Recomendo!
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Luana 09/04/2013

"Honra te pai"
Logo que peguei o livro foi inevitável vir à cabeça a música tema do filme “O poderoso chefão”. Mas este livro conta uma história real, a história da família Bonanno, uma das famílias “Cosa Nostra”, pertencente à máfia ítalo-americana. Como o título já adianta, o foco é o chefe da família, Joseph Bonanno e principalmente seu filho mais velho e “sucessor”, Bill Bonanno. Tudo começa quando o velho bonanno é aparentemente seqüestrado e Bill se vê sozinho para resolver os problemas dos “negócios” da organização (é assim que se auto-entitulam) e descobrir o que realmente aconteceu com seu pai. Um começo que dá ao livro ares de mistério policial. É assim que vamos começando a entrar neste mundo tão romanceado pelos filmes, um mundo tão estereotipado pela cultura de massa. Aos poucos nos sentimos íntimos da família. Conhecemos sua história desde o início da máfia na Itália, seus primórdios sicilianos. Ficamos por dentro de conflitos que poderiam ser de nossas famílias, brigas de casal, de irmãos, primos. As diferentes personalidades que podemos encontrar em uma só família.

A família Bonanno poderia ser uma família como qualquer outra, não fosse suas principais fontes de renda serem ilícitas: loterias, venda de segurança, agiotagem entre outros. É surpreendente ver como esse universo não é tão cheio de emoção e ação quanto pensamos, ou quanto o cinema nos faz crer. A máfia pode ser muito violenta, mas na maior parte do tempo seus integrantes viviam se escondendo pelos cantos, chegando a passar dias trancados em alguma casa vendo TV. Fica claro que Talese se tornou realmente amigo da família por causa da riqueza com que conta detalhes íntimos da relação conturbada de Bill com sua esposa Rosalie, por exemplo. Essa relação do escritor com suas fontes é polêmica até hoje, mas é mais fácil de ser compreendida quando se lê sua obra e se tem essa sensação de humanização de algo tão terrível quanto a máfia. Você se apega um pouco.

O único entrave do livro é sua extensão, que faz com que em alguns momentos a leitura seja um pouco maçante. São anos de história de uma família é um único livro. E só por este motivo não daria um 10 de nota, e me sinto muito mal por isso. No entanto, também não posso esconder que ele pode ser cansativo em algumas partes, talvez não tão cansativo quanto as horas de espera de Bill em seus esconderijos. O que não deixa a saga toda não ser cativante, ainda mais porque mostra uma época anterior ao “boom” das drogas no mercado negro. O que hoje representa a principal fonte de renda no comércio ilegal era desprezado pelos ítalo-americanos como algo menor, algo para negros e latinos. Uma época em que mafiosos faziam questão de usar ternos alinhados e colocavam suas famílias, esposas e filhos acima de tudo, como algo sagrado. Uma época com um certo charme, não podemos negar.
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Alê | @alexandrejjr 04/08/2018

O outro lado da Máfia

Lançado em 1971, este livro do jornalista Gay Talese é um olhar íntimo por dentro do funcionamento de um clã do crime organizado. Confesso que a proposta me ganhou logo de cara. Como fã da trilogia “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola, e da genial série “Família Soprano”, veiculada pela HBO, eu esperava histórias surpreendentes. Mas, como o próprio autor diz, essas obras são “a versão hollywoodiana” da verdade.

Como era de se esperar de um precursor do new journalism americano, Gay Talese entrega um relato de fôlego e, porque não dizer, emocional da Máfia. No livro, é possível ler sobre tiroteios, sobre as ligações das personagens perfiladas com a origem italiana, sobre os problemas com a justiça, sobre as contravenções, e tudo que circula em torno desse mundo. Porém, o que importa à Talese é a normalidade cotidiana quase incomum dos mafiosos, ponto esse desconhecido do grande público devido ao senso comum criado pela mídia. As brigas de casal, a preocupação da relação entre pais e filhos, os questionamentos entre certo e errado. Talese não economiza palavras para descrever a forte relação que, saberemos ao final do livro, desenvolveu com os Bonannos.

Para um trabalho detalhado com mais de 500 páginas, a leitura não foi tão prazerosa quanto eu imaginava. Me peguei perdendo atenção à história algumas vezes por achar que se tratava de outro tipo de livro. Apesar disso, é uma excelente dica para quem gosta de um bom relato de não ficção devido à elegância do texto de Talese e ao cuidado com os detalhes que só um jornalista com tamanha credibilidade poderia ter.
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Filino 17/09/2019

Verdadeira obra-prima
"Honra teu pai" é simplesmente primoroso. Trata-se de um longo e impressionante relato da família Bonanno, de modo particular de Bill Bonanno, primogênito de um dos chefes da máfia novaiorquina, o siciliano Joseph Bonanno. Gay Talese expõe, numa linguagem simples e hipnotizante (como exímio jornalista que é), o cotidiano de Bill, seu convívio familiar e "profissional", sem dourar a pílula. O leitor é exposto aos conflitos entre as famiglias, os atentados, as tensões em seu próprio círculo doméstico e os julgamentos em que Bill se vê envolvido.

O ritmo da história, exposta em cerca de quinhentas páginas, em nenhum momento cansa o leitor. Pelo contrário: a forma como Gay Talese escreve faz com que tenhamos diante dos nossos olhos, em quadros extremamente vívidos, tudo aquilo que ele busca transmitir. De atentados a problemas familiares. É verdadeiramente um gênio da narrativa.

O epílogo do autor que foi escrito numa edição posterior, em 2009, e constante nessa edição, "atualiza" os leitores acerca do que aconteceu com os membros da família Bonanno e o rumo que os filhos de Bill (e netos de Joe) deram às suas vidas. E fechando a obra, Peter Hamill expõe a sua admiração pelo autor da obra, indicando o valor da prosa de Gay Talese.

Uma lição e tanto sobre a história de um dos principais personagens da Máfia. Recomendadíssimo.
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