Como funciona a ficção

Como funciona a ficção James Wood




Resenhas - Como funciona a ficção


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Leonardo 04/07/2011

Belo exercício sobre a estrutura do romance moderno
Disponível em: http://catalisecritica.wordpress.com

A última vez que estive em Brasília, tomava um café na Mega Store Saraiva, no Shopping Iguatemi, quando avistei um senhor bastante distinto lendo um livro cujas letras eram azuis (na verdade, vejam na capa por vocês mesmos, pois sou daltônico e diferenciar azul de roxo, violeta ou lilás não é o meu forte). Fui pagar a conta bemmmmm devagar para tentar fisgar o nome do livro. “Como funciona a ficção”. Estava fisgado o peixe. Se há uma leitura que me dá tanto prazer quanto a literatura em si é ler SOBRE literatura. Gosto de ler sobre a interpretação de obras, técnicas de criação e narração, estilos literários. Como e por que ler?, de Harold Bloom, e Oficina de Escritores, de Stephen Kosh, são livros que me ensinaram muito não como escrever, mas como ler, e com este livro que acabei ontem à noite não foi diferente.

Fui atrás do livro lá na Saraiva e acabei localizando o livro. Para meu deleite, foi publicado pela Cosac Naify (o que pesou na balança na hora de me decidir pela compra). Fui olhar alguma coisa sobre o autor e vi que ele escreveu para o The Guardian, é crítico da afamada revista The New Yorker e ensina crítica literária em Harvard. Currículo ele tem, pensei, e acabei comprando o livro.

Para quem se interessa por literatura, o livro é obrigatório. Muito bem escrito, num ritmo leve, sem enrolar, sem formalismo, mas com bastante conteúdo. O autor demonstra um conhecimento absurdo acerca da literatura, e desfilam ao longo do livro diversas obras, de Faulkner a McCarthy, passando por Austen, Pynchon, Hemingway, Greene, Mann, Joyce, Dostoiévski, Tolstoi, Nabokov, Shakespeare e muitos, muitos outros, culminando com uma reverência a Flaubert (o romance moderno nasceu com ele, afirma, em certo ponto, o autor).

A partir da análise da técnica do estilo indireto livro, James Wood analisa o dilema do pensamento do autor versus pensamento do narrador, reflete sobre as metáforas, estilo, diálogos e muitos pontos que me fizeram repensar o ofício do escritor e a própria leitura.

Logo no início do livro, o autor é enfático a respeito das maneiras como se pode escrever um livro:

“A casa da ficção tem muitas janelas, mas só duas ou três portas.”

Em um determinado ponto, ele diz que

“os jovens ainda não leram literatura suficiente para aprender com ela de que modo lê-la.

Concordo plenamente com essa ideia, me incluindo aí, obviamente, na categoria dos jovens.

Mas o que de mais “ousado” ele afirma é quanto ao uso das metáforas:

“Num certo aspecto, a prosa complexa é muito simples, devido ao caráter matematicamente definitivo segundo o qual uma frase perfeita não pode admitir um número infinito de variações; não se pode aumentá-la sem algum prejuízo estético: sua perfeição é a solução de seu próprio quebra-cabeça; não havia como fazê-la melhor.”

Uma das metáforas perfeitas, que não havia como dizer melhor, para o autor, é uma de Tolstoi, que disse que os bracinhos dos bebês são tão rechonchudos que parecem amarrados com linha. Simples e perfeito.

Um belíssimo livro para quem, como eu, é apaixonado não só pela literatura, mas pelo modo como ela é feita.
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Isa 11/03/2021

Extremamente útil
Simplesmente me encantei pelo livro do início ao final, aprendi muito com ele.
No livro, James Wood vai refletir sobre como funciona alguns elementos importantes da narrativa. Os capítulos são divididos em blocos de textos relativamente curtos e numerados e é daí que o assunto vai se desenvolvendo.
Enfim, foi uma leitura maravilhosa e com uma grande fluidez, sem contar a didática incrivel que a obra apresenta.
Super recomendado.
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Márcio 12/12/2020

Excelente livro
Tá aí um livro que eu quero voltar a ler diversas vezes. A partir dele, você vê a Literatura (e a arte de escrever, pra quem quer) com outros olhos, o nível de interpretação se expande!
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regifreitas 25/10/2020

COMO FUNCIONA A FICÇÃO (How fiction works, 2008), de James Wood; tradução Denise Bottmann.

Uma das melhores obras que já li sobre o assunto. O crítico literário James Wood analisa a estrutura da ficção e seus mecanismos de construção e funcionamento, sempre fundamentando seu pensamento com exemplos tirados de obras clássicas e contemporâneas. Também oferece uma série preciosa de reflexões sobre a importância da arte narrativa.

Leitura indispensável para todo estudante de literatura. No entanto, mesmo aqueles que desejam apenas se aprofundar um pouco mais no assunto vão encontrar aqui uma leitura acessível e agradável. O texto de Wood é simples e direto, aberto a todos, e não somente ao público acadêmico.
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Dave 15/03/2020

Objeto de estudo pra sempre
Para o leitor que se sente pronto pra evoluir.
Enchi de anotações e post-its.
Anotei muitos títulos para leituras futuras.

Este será um objeto de consulta e estudo por muito tempo.
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Israel 24/01/2018

James Wood brinda o leitor sério com um livro excelente sobre teoria literária visto pelo ponto de vista de um crítico moderno e atualizado que aparentemente fez a lição de casa e devorou a maioria dos clássicos.
O bom desse livro é que Wood consegue falar do assunto (teoria) sem cansar o leitor, adotando um método muito simples: dividiu os 10 capítulos do livro em diversos sub-tópicos totalizando 123 ao longo de todo o livro. O leitor consegue acompanhar o raciocínio do autor numa prazerosa imersão nos detalhes que passam despercebidos ao leitor comum, principalmente os que não tem formação acadêmica específica na área (meu caso).
O livro traz tópicos sobre narrativa, detalhes, personagens, consciência, linguagem, diálogo, etc.
Os grandes nomes e as grandes obras estão todas lá: Flaubert, Stendhal, Dickens, Toltstói, Tchekhov, Conrad, e uma série de escritores contemporâneos. Vale aqui frisar que para ter um bom aproveitamento do livro é interessante o leitor conhecer pelo menos os grandes nomes e já ter lido pelo menos 1 livro ou saber do que o mesmo se trata para entender com clareza a mensagem de Wood. Vale frisar também que o livro tem diversos spoilers.
Seu didatismo em expor os pormenores que complementam a leitura de um leitor comum são de grande valia para aqueles que querem mergulhar em maiores profundidades. A grande quantidade de detalhes que o autor expõe faz com que o leitor absorva de imediato seus ensinamentos e o resultado é quase instantâneo. Nas próximas obras lidas já é possível perceber sinais e características de como funciona de fato um romance, seus mecanismos internos e os truques dos autores.
Livro para quem ama os clássicos e quer amadurecer como um leitor crítico e que quer aproveitar as obras em toda a sua profundidade.
Salomão N. 24/01/2018minha estante
Ótima resenha!
Vou comprar a edição nova se eu encontrar. :)


Israel 24/01/2018minha estante
Obrigado, amigo! Esse livro é indispensável. Boa sorte na busca!


Walkí­ria Silva 24/01/2018minha estante
Tá na minha listinha de compras faz é tempo. Também irei comprar em breve a edição que ainda tem no mercado. Ótima resenha!


Israel 24/01/2018minha estante
Obrigado Walkiria. Esqueci de colocar na resenha que o livro tb está recheado de referências teóricas pra quem quiser se aprofundar :)




Vivi 13/07/2020

Estudo super recomendado aos estudantes ou interessados em literatura. Escrita leve, bons exemplos e texto didático.
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MK 15/04/2011

lúdico e certeiro
Além de ser uma edição muito bem cuidada, bom papel, fonte bacana, cores diferentes, a leitura flui maravilhosamente. Comprei o livro porque já senti isso ainda na livraria, onde tinha tentado iniciar a leitura de Barthes e travei - não questiono a competência, mas a fluidez... deixa tudo a desejar. Certamente a qualidade da tradução tem boa parte do mérito.

Quanto às análises de estilo narrativo, personagens, verossimilhança apresentadas, são bem-humoradas e consistentes, sempre baseadas em trechos de obras ótimas. Todo o livro é pontuado pelo contraponto a afirmações de outros teóricos e estilistas - especialmente Barthes e Forster, claro.

Algo que adorei foi seu comentário sobre a qualidade dos leitores e o quanto a experiência acumulada da leitura molda um tipo mais cauteloso e exigente de leitor.
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Carol 21/01/2012

Só alguém tão entendido de literatura conseguiria escrever um livro desses, falando de Henry James, Flaubert, estilo indireto livre e outros assim, tão leve e descontraído. Aí James Wood ganha muito pontos, conseguindo o que tantos críticos famosos falharam em conseguir. Desculpem o momento frase clichê, mas já dizia Eistein, se a pessoa não sabe explicar algo de maneira simples, ela não o entende suficientemente bem. E tem mais: se Milan Kundera, para dar um belo exemplo, escreve lindamente sobre a arte literária, Wood é menos romancista e mais crítico, prático e objetivo.

Como funciona a ficção é divido em capítulos que tratam da narrativa, dos detalhes, dos personagens, da linguagem, do diálogo, do realismo, além de dois capítulos dedicados a Flaubert (um sobre a narrativa moderna, que Wood considera derivada de Flaubert, e outro sobre o surgimento do flâneur, no qual o personagem vai andando pelas ruas e observando). Em cada capítulo, o crítico vai dando exemplos e destrinchando alguns trechos, partindo do particular para chegar a uma reflexão mais geral de tal ocorrência na literatura.


Ao decorrer do livro, Wood fala muito sobre o estilo indireto livre (além de uma overdose de Flaubert, é claro). Nesse estilo, a narrativa, em terceira pessoa, mescla as vozes do autor e do personagem, às vezes pendendo mais para um lado, às vezes para o outro. O autor transcreve uma passagem (maravilhosa) de What Maisie knew, de Henry James, e por cinco páginas discorre sobre as palavras muito bem escolhidas. Por exemplo, na passagem “tucked-in and kissed-for-good-night feeling”, James, modestamente, deixa seu próprio requinte literário de lado para dar voz à pequena Maisie. Ou como no conto Os Mortos, de Joyce, que começa assim: “Lily, a filha do zelador, estava literalmente com o coração na boca”. Mas é impossível ter o coração literalmente na boca, e pensa-se que Joyce era inteligente o suficiente para não falar tal bobeira. Mas Joyce escolhe por dar voz à Lily, que provavelmente usaria uma frase desse tipo para contar o caso para as amigas.

Interessante também a visão que Wood tem sobre os detalhes. O crítico Roland Barthes, em seu ensaio O Efeito de Real, argumenta que o detalhe “irrelevante” (quem colocou as aspas foi James Wood) está ali para causar um efeito de realismo descritivo, mas que na verdade nada tem a ver com o real. Barthes dá o exemplo de um trecho de Um Coração Simples, de Flaubert, onde é descrito o quarto da srta. Aubain. Vários objetos estavam no quarto, cadeiras de mogno, caixas e cartões, um piano, um barômetro. Segundo Barthes, todos os objetos citados tem seu papel na narrativa (mostrar condição social, estilo de vida, sugerir a desordem do personagem) – menos um: o barômetro. Ele está ali só por estar. É como se Flaubert dissesse “viu só como minha narrativa é real? nela encontra-se o que conta a história e também o que, como na vida, só estava ali por cima no momento”. Mas será que Barthes não peca ao chamar esse tipo de detalhe irrelevante? Não seria todo detalhe intrinsecamente ligado à narrativa, e portanto relevante? Carol Bensimon, nos Cadernos de Não Ficção 2 (http://issuu.com/naoeditora/docs/cadernos_2) da Não Editora, diz que “atendo-se ao supostamente essencial, me causa a impressão de que as coisas estão passando mais rápido do que deveriam”, e que, quando os supostos “excessos” são cortados de um texto, os personagens viram “meros executores de ações que precisam acontecer uma depois da outra rumo ao desfecho”.

Sobre personagens, Wood discorda fortemente de Forster, que em Aspectos do romance, classifica os personagens como planos ou redondos. Classificação essa amplamente utilizada em críticas e resenhas por aí. O autor sugere, brilhantemente, a classificação dos personagens em transparências (personagens relativamente simples) e opacidades (relativos graus de mistério).

Agora, devo alertar: se você for optar por ler a tradução para o português, leia antes esses comentários da tradutora Denise Bottmann (http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/03/12/tradutora-de-como-funciona-ficcao-critica-edicao-368236.asp). Como funciona a ficção é para os escritores e para os leitores, também. Não é um guia, mas seu fator direto-ao-ponto é interessante – e verdadeiro, sem firulas.

Mais em http://apesardalinguagem.wordpress.com
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Karoline 22/02/2021

Leitura maravilhosa! Com uma fluidez muito grande e uma didática incrível, considero essa obra, junto com a do Terry Eagleton, "Como ler literatura", os melhores manuais para quem quer começar a ler sobre teoria literária. Acho que ambos se complementam de uma maneira bem interessante, e são bem acessíveis, não só em suas linguagens mas pelos exemplos que trazem. Sorri para o livro quando o Wood menciona o Kramer da série de TV Seinfeld... haha Perfeito!! :)
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Newton Nitro 25/12/2014

Aguçando o olhar do leitor e do escritor!
Na literatura americana, dentro de sua tradição pragmática, a grande maioria de livros com dicas ou vendidos como guias para escritores tem sempre uma linha normativa, ou “sugestativa”, com mais prático e direto, com máximas, métodos, ferramentas, conceitos básicos e exposição de experiências pessoais dos escritores. Porém, existe uma segunda tradição narrativa de foque mais literário e acadêmico. Dessa tradição, cito o Art of Fiction, excelente guia ou ensaio sobre criação literária do John “Grendel” Gardner (e quem sabe algum dia, sai aqui no Brasil, é até mais acessível do que o How Fiction Works - Como funciona a ficção” (Cosac Naify, tradução de Denise Bottmann, 232 páginas). Nesses tipos de guias para escritores, que são na verdade mais ensaios críticos do que guias, seus autores estão mais preocupados nas perguntas que surgem no ato da leitora e da escrita do que em normas ou até mesmo sugestões. O questionamento da criação literária é o foco principal e assim, ensinam a ler melhor, ou a ler com “olhos de escritor”.

No caso de “Como a Ficção Funciona” (li no original, e sei que a tradutora brasileira enfrentou problemas em relação ao livro, que comendo no final desse texto) James Wood busca mostrar ao leitor o maquinário por trás da literatura do gênero realista (sim, eu considero um gênero, mas não vejo gênero como algo negativo, muito pelo contrário), traçando suas origens, suas técnicas, exemplificando com textos dos seus autores favoritos. De uma maneira direta, sem muito academicismo e linguagem “maionética”, ele examina as técnicas usadas por escritores baluartes como Chekov, Flaubert, Tolstoi, Virginia Wolf, entre muitos outros.

Wood aborda tópicos como o uso do “discurso indireto livre”, a consciência dos personagens, a realidade na ficção (questões bem antigas no campo acadêmico, mas trazidas de volta de maneira didática e acessível), como avaliar metáforas e símiles, os diferentes registros de tom narrativo, questionamentos sobre o realismo versus a verdade na literatura, o trabalho poético da sonoridade na prosa, a evolução das descrições, entre vários outros.

Os textos seguem uma estrutura básica, Wood seleciona uma das ferramentas usadas pelos seus escritores favoritos, dissecando-as e revelando como essas ferramentas ou convenções narrativos ficam invisíveis para a maioria dos leitores. O livro traça a evolução dessas convenções narrativas ao longo da história da literatura ocidental. Como um crítico mais conservador, Wood usa obras consagradas e consideradas cânones pela crítica contemporânea.

Wood levanta perguntas interessantes como: O que é realmente um personagem de ficção? O que constitui um descrição bem sucedida, porque o escritor seleciona alguns detalhes específicos e não outros e com que objetivo? Como saber que uma metáfora ou uma símile forma bem sucedidas? Porque os finais de muitos romances são desapontadores?

O livro também serve como um guia de como fazer “close reading”, ou a técnica acadêmica da “leitura de perto”, analisando as frases detalhadamente, vendo as interrelações das linguagens, conceitos, metáforas, sons, alusões, o ritmo das frases e o ritmo criado pelo sons das palavras, etc. São sugestões muito boas para desenvolver mais a capacidade de leitura e apreciação literária, o que leva a uma escrita mais consciente, mais madura.

O único problema é que o Como a Ficção Funciona aumentou muito a minha lista de leituras essenciais. Além dos baluartes, coloquei na minha lista o escritor favorito do Wood, o Saul Bellow, de tanto que o cara falou dele e pelas citações no texto!

Fica a recomendação, um livro inspirador tanto para escrever quanto para ler, para educar o olhar.

ANOTAÇÕES DO “COMO FUNCIONA A FICÇÃO”

Fiz algumas anotações do chega perto de ser dicas para escritores que pesquei no texto. Mas devo ler de novo em breve, é o tipo de livro para voltar sempre como referência e inspiração para escrever e ler com mais cuidado.

DESCRIÇÕES

Descrições criam uma pausa ficcional, onde a ficção diminui de velocidade para chamar a atenção do leitor para a textura, a superfície, para o ambiente, para a criação de imersão e aumento do realismo cognitivo da narrativa. Mas é um trabalho de equilíbrio, muita descrição transforma os detalhes em fetiche, um fim em si mesmo e um momento de puro exibicionismo literário.
Pausa descritiva serve para chamar a atenção do leitor para algo negligenciado pela pressão narrativa.

A pausa descritiva é usada para mergulhar e explorar as complexidades e a cacofonia do mundano, mas deve ser equilibrada com a narrativa total.

Metáforas e símiles funcionam melhor quando contextualizadas, quando criadas dentro do Ponto de Vista Narrativo, e quando evocam diversas relações dentro do próprio texto.

CARACTERIZAÇÃO

Indo contra a maioria das dicas para escritores, Wood declara que o segredo de personagens bem caracterizados não está em históricos detalhados ou pilhas e pilhas de características físicas, psicológicas, emocionais, etc. O segredo está no modo como o personagem é caracterizado na narrativa, e, o quanto o autor usa de opacidade na caracterização.

Ele cita os personagens de Shakespeare, onde os elementos ou características que explicariam racionalmente seus comportamentes são omitidos da narrativa, criando opacidade estratégica e supreendendo os expectadores com suas ações. Essa técnica os dá vivacidade, a sensação de vitalidade, de imprevisibilidade e o senso de mistério ao se ver de frente a um enigma.

Nesse ponto ele cita Virginia Wolf comentando sobre Crime e Castigo, e o Idiota de Dostoyevsky "Esses personagens não possuem nenhuma característica fixa. Nós mergulhamos neles como se descessemos em uma enorme caverna".

O segredo, de acordo com Wood, de pergonagens bem caracterizados estaria na sua capacidade de supreender o leitor. Com isso ele recusa a definição tradicional de personagens redondos ou rasos.

SOBRE CRIAÇÃO DE PERSONAGENS NA MENTE DO LEITOR

Nos romances pós-modernos (Pnin do Namokov ou O Ano da Morte de Ricardo Reis, de Saramago) o leitor se confronta com personagens que são ao mesmo tempo reais e imaginários. Nessas narrativas, os autores nos convidam a refletir sobre a ficcionalidade de seus heróis e heroínas, que dão títulos às próprias narrativas.

E paradoxalmente, é essa reflexão que faz com que o leitor deseje tornar esses personagens reais, é como se dissessem para os autores: "eu sei que eles são só ficcionais, você está repetindo isso continuamente. Mas eu só poderei conhecê-los tratando-os como se fossem reais.

Personagens bem construídos, são assim porque são bem construídos na mente dos leitores, através dos artifícios literários do autor, através da instigação e da provocação para que o leitor os tornem reais.

O DISCURSO INDIRETO LIVRE

"Quando falo sobre discurso indireto livre eu estou realmente flaando sobre ponto de vista narrativo, e quando eu falo sobre ponto de vista narrativo eu estou relamente falando sobre a percepção do detlahe, e quando eu falo sobre detalhe eu estou na verdade falando sobre personagem, e quando eu falo sobre personagem, eu estou realmente falando sobre "o real", que é a base dos questionamentos desse livro".

Existe uma tensão entre a voz narrativa do autor e a voz narrativa do personagem. Essa tensão se resolve no desenvolvimento nos romances do Discurso Indireto Livre, uma técnica que tem em Gustav "Madame Bovary" Flaubert, um dos seus principais propagandistas, um romance que influenciou (e continua influenciando) a prosa dita realista (em todas as suas variações e diversificações).

O discurso indireto livre é quando o narrador desenvolve a história através da voz de um personagem, e ocasionalmente sai desse ponto de vista limitado para um ponto de vista onisciente. Essa alternância entre o ponto de vista parcial e o onisciente é a essência da criação da ficção.

Os leitores sabem que um autor inventou o personagem que estão lendo, mas eles também tem a ilusão de que o personagem existem em algum lugar fora e além da invenção do autor. Os leitores se dividem (na boa prosa), entre o que eles sabem ser falso, e o que eles momentâneamente aceitam como sendo o real.

Personagens bem caracterizados passam para os leitores a sensação que sua liberdade inventada tem sentido, é "real" e os leitores reagem de acordo.

Quando, ao se ler, se chega em uma palavra que sai da voz do personagem (por exemplo, uma história do POV de um mendigo onde aparece um parágrafo descritivo com vocabulário que distoa da linguagem usada pelo POV do mendigo), os leitores se lembram que existe um autor, e que esse autor os permitiu a se misturar com seu personagem.

Esses momentos podem quebrar a imersão no sonho narrativo, e o desafio para o escritor é dar razões para que seus leitores continuem lendo, seja por prazer estético, literário, seja pela trama, pelos mistérios da narrativa, pelos mistérios dos personagens, ou pela capacidade dos personagens de supreender o leitor, entre outras razões.

QUALIDADE DA BOA PROSA

Deve-se ler e escrever musicalmente, testando a precisão e o rítimo da frase, escutando os ecos históricos e literários das palavras, prestando atenção aos padrões, repetições, ecos, símbolos, tropos, decidindo porque uma metáfora deu certo e porque outra fracassou, julgando como a colocação perfeita de um verbo ou de um adjetivo sela uma frase com finalidade matemática.

SOBRE A FUNÇÃO DA FICÇÃO

A ficção deve, através do poder da palavra escrita, fazer o leitor escutar, sentir, ou acima de tudo, ver. Ver a complexidade e os paradoxos da condição humana, sentir a infinita variedade de experiências, de verdades e mentiras, de detalhes e texturas que passam desapercebidas a cada momento, expandir a experiência daquilo que chamamos de vida.

A única obrigação de um romance de ficção é ser interessante, mas sem sofrer a acusação de ser arbitrário.

Diferença entre trama e história é simplesmente uma formulação de causação:

"O rei morreu e então a rainha morreu" é uma história.

"O rei morreu e então a rainha morreu de desgosto" é uma trama.

A literatura se diferencia da vida porque a vida é cheia de detalhes mas raramente nos direciona a ele, enquanto a literatura nos ensina a notar. A literatura nos transforma em melhor observadores da vida, nós podemos praticar na própria vida, nos tornando melhores leitores do detalhe na literatura. Obs: Gostei dessa parte, principalmente depois de ler o Barba Ensopada de Sangue, que me ensinou a como "ver" as cidades praianas brasileiras. :)

TEMAS NA FICÇÃO

A ficção é mais efetiva quando seus temas não são tão evidentes, uma ficção ideal teria uma espécie de temas fantasmáticos.


AS FRASES

A frase pulsa, move para dentro e para fora, em direção ao personagem e para longe do personagem. Quando se move em direção do personagem (como no caso do POV profundo, sem nada exterior à cognição do personagem POV) o autor desaparece, quando se move para longe do personagem o autor ressurge com seu estilo para se tornar evidente ao leitor.

Usar o som das palavras, a repetição, a criação de padrões e a quebra de padrões para constituir efeitos literários, técnicas poéticas que engrandecem o texto.

SOBRE O LIVRO

Quando nos movemos juntos com uma história, quando lemos uma história, essa história já está completa - nós a seguramos em nossas mãos. Nesse sentido, a ficção também mata, não porque personagens frequentemente morrem em suas páginas, mas porque, mesmo se eles não morrem, eles já aconteceram, já viveram suas vidas, suas histórias já estão completas. A forma ficcional já é um tipo de morte, todos seus personagens já "foram", já tiveram suas histórias completas.
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Nika 30/09/2011

Aprendendo como funciona a ficção
Em minha aprendizagem de escritora, terminei a lenta leitura de Como Funciona a Ficção, do crítico literário James Wood. A leitura andou vagarosamente por minha conta, não pelo livro. De fato, eu o senti como uma obra de leitura sem pressa, do tipo que se aprende absorvendo, tanto quanto lendo. Obviamente, Wood não fez uma manual de “como funciona” a ficção, falamos de literatura e não de máquinas. Provavelmente, o livro é mais sobre como funciona a cabeça do leitor ou do crítico, ou do leitor (apaixonado) e do crítico (controvertido) que Wood é. Ainda assim, senti-me levada pela mão na aprendizagem de como e porque determinados autores icônicos são reverenciados. Dos citados, li muitos, mas não em quantidade, e estou há quilômetros de ter lido todos. Alguns, eu conheci tão jovem e de forma tão pouco orientada que sequer entendi. Wood renovou-me a vontade de ler e reler clássicos e esclareceu-me o sobre o que enxergar na prosa dos grandes autores e dos grandes estilistas literários.
Os detratores do Wood o acusam de ser conservador, tanto em seus gostos, quanto no que ele preza e valoriza. Confesso que, em minha ignorância das modernas correntes e debates da área literária, o livro de Wood me soou confortável e acessível como uma xícara de café batido. E, mesmo que alguns críticos apontem isso, eu não senti empáfia no seu texto. Pelo contrário, é muito fácil somar-se ao encanto e à paixão do autor pela literatura contemporânea. Longe de pretender ensinar macetes, a obra de Wood se debruça sobre o já escrito e tenta encontrar suas partes. Tenta. Nem sempre consegue. E isto é o que há de melhor no livro: a conclusão de que falando de arte, podemos até localizar suas partes móveis, mas entender por que colocadas de uma determinada maneira elas funcionam e de outras não, fica fora de nossa alçada consciente. Nesse sentido, a metáfora do cozinheiro (que pode ser vulgar, mas não é incorreta) usada pelo autor em sua introdução foi caindo com mais força em mim ao longo da leitura. Pode-se dar a mesma receita e os mesmos ingredientes a cozinheiros diferentes, o resultado jamais será o mesmo.
Não foi uma nem duas vezes que, ao visualizar as peças móveis apontadas por Wood dentro de obras reverenciadas, percebia imediatamente já tê-las visto, de forma ruim e mal arranjada, em outros textos ficcionais. Imaginei que um escritor iniciante que muito estudasse o que ele aponta ali, conseguiria reproduzir, imitar, reconstruir, e elaborar sobre o caminho erguido pelos mestres e, ainda assim, não teria garantias de fazer uma boa ficção. Isso porque, depois que uma obra está escrita, você consegue entender de que forma aquilo funcionou, mas não antes. Claro que as diretrizes ajudam, mas o fato é que elas não determinam. Se você aplicar todas as técnicas ao texto, mesmo as melhores delas, terá um texto técnico, nada mais. Isso pode garantir um bom texto. Um texto vendável. Uma publicação. E haverá quem goste e haverá quem desfaça. No entanto, arte não é só técnica. Técnica é uma das suas armas de expressão. Uma ferramenta que a arte molda e subverte à sua conveniência. Quem vai determinar o valor do resultado? O crítico? O público?
Minha veia de historiadora aponta para o tempo. Aliás, essa é minha maior crítica ao livro de Wood, sua pouca atenção aos ritmos do tempo e da história. Ao fato de que, mesmo que obras que os transcendam, os escritores são criaturas grudadas no mata-moscas histórico que é o seu contexto, seu tempo, seu espaço.

A impressão de leitura completa está no blog http://sapatinhosvermelhosnika.blogspot.com/2011/09/aprendendo-como-funciona-ficcao.html
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Lethycia Dias 07/09/2020

Fornecendo ferramentas
Já faz algum tempo que eu estudo escrita, na tentativa de melhorar a minha produção. Mas eu sentia falta de ler livros que tratam da escrita literária de forma técnica. Há algumas semanas, encontrei este livro em promoção e aproveitei para comprar e ler imediatamente.
Em "Como funciona a ficção", James Wood reflete sobre alguns elementos importantes em narrativas, como o personagem, os detalhes, os diálogos, a linguagem utilizada e a semelhança entre o texto ficcional e a realidade. Os capítulos são divididos em blocos de texto curtos e numerados, que vão desenvolvendo os assuntos.
O autor as vezes faz uma espécie de "histórico" sobre o assunto tratado, como nos capítulos sobre a escrita de Flaubert e sua influência na literatura, e em vários momentos analisa trechos de livros, fazendo citação não apenas de frases, como também de trechos mais longos. Ele utiliza esses trechos para demonstrar alguma técnica ou recurso de escrita e também para fazer comparações entre os textos citados.
As referências de Wood para fazer isso são bem numerosas. Claro que isso é uma coisa boa, mas exige que seu leitor também tenha muitas referências de leitura. Ele cita autores clássicos bastante conhecidos mundialmente, como Flaubert, Jane Austen e Nabokov, mas também cita escritores norte-americanos e ingleses do século XX menos conhecidos, alguns até mesmo não traduzidos no Brasil, o que pode causar certo deslocamento, certa sensação de não saber bem do que o livro está falando. Eu senti um pouco isso, mas não tive dificuldades maiores para entender o que lia.
Por fim, acho importante dizer que esse livro não vai dar um passo a passo de como estruturar uma narrativa; nem dar dicas de como escrever um romance. O que ele faz nos apresentar e oferecer ferramentas que é importante escritores conheçam e compreendam e quais as formas de utilizá-las, bem ou mal. Como todo livro de escrita, não deve ser tomado como um conjunto de regras inquebráveis - é importante saber identificar o que podemos aproveitar dele.

site: https://amzn.to/3jUM9bD
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Taisa 28/01/2017

Por acaso um dia ouvi de uma menina que toda pessoa que gosta de escrever (principalmente escrever sobre livros) necessita ler "Como Funciona a Ficção" pois ele era como um manual de "como devemos avaliar uma obra". Então imaginem que iniciei esta leitura com uma ideia estabelecida do que me traria. Não foi bem isso que eu encontrei.

Logicamente o autor nos dá parâmetros, cita diversas obras e nos explica os diferentes tipos de narrativa, como a genialidade de um soube inovar e aproveitar melhor suas ideias, como o outro soube marcar tanto seus personagens sem ao menos descrevê-los com minuciosidade, prova que as vezes a falta de explicações e exposição tanto da trama quantos de seus participantes pode ser mais enriquecedora e estimulante (por criar esse ar de mistério) do que aquela em que o autor tenta justificar tudo. Há muita comparação entre diferentes pontos de vistas de autores consagradíssimos.

Outro ponto interessante é que ele deixa claro que nem os maiores escritores do mundo entravam em acordo do que era realmente bom na literatura, alguns acham desnecessários aquelas descrições sem fim do "Realismo" enquanto outros as defendem fervorosamente, uns achavam que o "fluxo de consciência" era a grande sacada enquanto outros afirmavam que ele era uma farsa, tudo isso embasado por questões na maioria das vezes filosóficas, cada qual tentando vender seu peixe.

Mais do que ajudar a avaliar acredito que a "grande lição" desse livro foi mesmo mostrar que nunca vai existir uma fórmula mágica (nem pra escrever nem para avaliar essa escrita), o que temos que fazer é tentar tirar proveito das diferenças que elas possuem, compreender qual era realmente o propósito daquele autor quando escreveu aquilo (incluindo as variáveis da época) e saber interpretar das entrelinhas o que eles querem mostrar.

Houveram muitas coisas aqui que eu já sentia mas não sabia explicar e foi TÃO bom ver tudo aquilo que eu pensava nominado nas páginas, o autor vai esmiuçando diferentes questões, transformando ideias que a principio são complexas em exemplos práticos e fáceis de entender. Sabe aquela pulguinha que fica atras da sua orelha na hora que você está lendo? Você está gostando (ou não) do livro mas na hora de explicar o porquê não consegue. Aqui ele te ajuda a responder essas perguntas.

Só abrindo um parenteses aqui, para quem não sabe James Wood é um inglês crítico de literatura, escritor, professor de literatura (crítica literária) de Harvard e colunista da revista The New Yorker. Iniciou a carreira como revisor, ganhou o prêmio "Young Journalist of the Year" (Jovem jornalista do ano) at the British Press Awards e em seguida se manteve durante anos como principal critico literário do The Guardian antes de ir para a América.

É, vale a pena escutar o que ele tem a dizer. Não pense que é todo pomposo e cheio da verdade, muito pelo contrário, o livro é quase uma bate papo descontraído, apesar do conteúdo carregado a narrativa é fácil.

Eu totalmente indico! Há DIVERSAS citações de obras maravilhosas, me via desesperada querendo anotar e ler tudo aquilo. Acho ele ainda mais válido para escritores, há tantas ideias, questões e inovações complexas analisadas de maneira tão fácil, sem dúvida muito enriquecedor e inspirador. É aquele em que você vai querer ler e reler e desejar absorver cada linha. Se tiver oportunidade leia.

site: leiturasdataisa.blogspot.com.br
Thallys.Nunes 28/01/2017minha estante
Excelente resenha, Taísa! Vai pra lista de leituras pro ano. =)


Taisa 28/01/2017minha estante
Obrigada! =)

Leia sim, é incrível!!




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