Vermelho Amargo

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Resenhas - Vermelho Amargo


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Rúbia 19/12/2014

Prosa poética
Vermelho Amargo, do autor Bartolomeu Campos de Queirós, foi uma das minhas leituras de agosto (sim, muito atrasado!).
Essa é a última obra do autor (que é brasileiro) lançada em 2011 enquanto ele ainda era vivo. Eu já tinha ouvido falar muito bem desse livro e acabei comprando na promoção de aniversário da Cosac (porque ele não é dos mais baratos). A edição é maravilhosa, em capa dura, com as laterais vermelhas, num papel com aspecto reciclado e a cor da letra também é vermelha, um projeto gráfico lindo.
A história também é linda e, como possui poucas páginas é bem rápido de ler, eu li em poucas horas. Mas ao mesmo tempo em que é rápido, exige muita atenção pelo fato de esconder muitas metáforas.
É importante ressaltar que esse é um livro autobiográfico, ou seja, vai contar uma parte da história do autor, que é o narrador da história enquanto criança, um menino que perdeu a mãe e que hoje vive com o pai, a madrasta e mais cinco irmãos.
Como eu disse anteriormente, o livro é cheio de metáforas, por exemplo, eles eram oito pessoas na casa, a madrasta preparava tomate todos os dias e ele associava o legume a coisas muito ruins (por isso o nome vermelho amargo) e ela fatiava o tomate para os oito, em pequenas fatias finas. Conforme o livro vai avançando, a família vai se desfazendo e o tomate é dividido em pedaços maiores.
O uso das metáforas também acontece para falar sobre a personalidade dos irmãos, por exemplo, uma das irmãs vivia fazendo ponto cruz, até que um dia ela se casa e aí passa a carregar a sua cruz, com o casamento e pela solidão que ela passa a viver.
E assim tem histórias parecidas com os outros irmãos, como uma que assume a personalidade de um gato. A meu ver são as várias formas que a família assume para lidar com a dor da perda da mãe.
Não consigo falar mais sem dar spoilers, pois ele é um livro muito curto, mas indico fortemente a leitura, achei um livro lindo, uma leitura realmente impressionante, em uma prosa a linguagem dele é extremamente poética e com muitas frases reflexivas.


site: http://meumundodeleituras.blogspot.com.br/
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Belle 17/12/2014

A melhor leitura do ano
“Foi preciso deitar o vermelho sobre papel branco para bem aliviar seu amargor.” (Epígrafe).

O livro possui apenas 72 páginas de uma história densa e amarga. De cunho autobiográfico, ele relata as memórias de uma infância amarga e melancólica.

A morte nos é apresentada logo nas primeiras páginas, porém de uma maneira tão delicada e sutil, que releva que só mesmo uma criança poderia expor um assunto tão devastador de uma maneira tão singela.

A presença doce da mãe é substituída por um amargor vermelho. As mudanças na família geradas pela perda e a solidão do narrador é centrada a partir da imagem do tomate. O esforço do menino ao tentar engolir o tomate amargo reflete no leitor um nó na garganta a cada página vencida.

Esse é um livro que transforma quem o lê, impossível terminá-lo sem compartilhar a angústia e a solidão do menino e refletir acerca das relações familiares.
Amanda 17/12/2014minha estante
Fiquei curiosa


Belle 17/12/2014minha estante
Com certeza vale a pena ler, Amanda.




Renata CCS 06/11/2014

O alívio do amargor

"Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu(...)"

- Como Dizia o Poeta (Vinícius de Moraes)


Em VERMELHO AMARGO, livro de cunho autobiográfico, Bartolomeu Campos de Queirós revisita passagens da própria infância, suas difíceis memórias afetivas, para criar uma história impregnada de poesia.

O livro fala da infância, de perdas, de partidas, de vazio, da verdadeira dor da existência. O autor consegue falar de sentimentos devastadores com uma suavidade e encantamento que imprime ainda mais significado a cada palavra escolhida para compor essa belíssima obra.

Ele relembra seu tempo de criança marcado pela morte da mãe, que é representada pela extrema graciosidade e paixão em que colocava em tudo o que fazia, substituída por uma madrasta indiferente, de escasso afeto e de atitudes mecanizadas.

A morte é apresentada logo nas primeiras páginas, quando conhecemos a mãe que, de certa forma, morre toda vez que é lembrada no tomate maduro, vermelho carne, que assombra o menino. A mãe, o tomate e o primeiro sentimento de amor se complementam em uma metáfora que sempre se renova cada vez que é invocada.

Como símbolo da agonia sofrida, o tomate é evocado e exposto de maneiras diversas, mas sempre possui o mesmo gosto amargo, sabor que predominou em quase toda a sua infância. Através das mãos delicadas da mãe, o tomate era cortado em cruz e se "transfigurava em pequenas embarcações ancoradas na baía da travessa." Já a gélida madrasta cortava o tomate "em fatias, assim finas, capaz de envenenar a todos."

A vida passou a ser dividida entre a imagem positiva da mãe e a figura negativa da madrasta. E é nesse vai e vem do tomate, ora amargo, ora doce, que o protagonista fala de si mesmo, de suas relações com a família e de sua visão do mundo.

Com a saudade cravada na alma, o menino observa a família lidar com a perda: o pai que bebia demais, o irmão que comia vidro, a irmã que tricotava sem parar, e outras adversidades que o levam para uma época que não tem volta, mas com uma dor e sentimento de perda que sempre o acompanharam.

Bartolomeu Campos de Queirós conseguiu conquistar de imediato a empatia do leitor com sua prosa poética refinada, sensível e carregada de simbolismo. Mergulhamos em um universo que, embora esteja longe de mostrar uma infância feliz, está carregado de paixão e beleza.

Não há exatamente uma história, uma linha reta de narrativa, é mais como sucessão de lembranças. A história não se divide em capítulos, mas em parágrafos, em gomos que vão se unindo no todo, técnica utilizada com maestria pelo escritor. O que o Bartolomeu fez foi produzir um diário de memórias, uma fábula delicada, um livro de poesias, com uma linguagem tão sublime e soluçante que, além de tradutora de estados interiores, atravessa a verdadeira dor da existência.

É um relato repleto de poesia que nos enche de sentimentos contraditórios. Um livro incrível, fantástico se você souber apreciar. Muito simples em sua ideia central, a história do amor de um filho por sua mãe, talvez um dos amores mais puros e universais.

O livro é um tesouro, um achado, um lindo presente. Um dos mais lindos que já ganhei. É uma experiência que recomendo a todos, pois não é possível vivenciá-lo através de opiniões diversas, por mais honestas que possam ser.

Leiam. Simplesmente leiam.



"Mesmo em maio com manhãs secas e frias sou tentado a mentir-me. E minto-me com demasiada convicção e sabedoria, sem duvidar das mentiras que invento para mim. Desconheço o ruído que interrompeu meu sono naquela noite. Amparado pela janela, debruçado no meio do escuro, contemplei a rua e sofri imprecisa saudade do mundo, confirmada pela crueldade do tempo. A Vida me pareceu inteiramente concluída. Inventei-me mais inverdades para vencer o dia amanhecendo sob névoa. Preencher um dia é demasiadamente penoso, se não me ocupo de mentiras." (p.7)

"A esposa de meu pai prezava o tomate sem degustar o seu sabor. Impossível conter em fatia frágil além da cor, semente, pele também o aroma. Quando invertida, a palavra aroma é amora. Aroma é uma amora se espiando no espelho. Vejo a palavra enquanto ela se nega a me ver. A mesma palavra que me desvela, me esconde. Toda palavra é espelho onde o refletido me interroga." (p.12)

"Tantos pedaços de nós dormem num canto da memória, que a memória chega a esquecer-se deles." (p.16)

"Ao amar, desvendei a serventia do corpo para além de guardar a alma importal.(...) No amor, meu corpo delatou a presença da alma, que veio morar na superfície da minha pele." (p.27)

"(...) passarinho é uma vírgula pontuando o céu. Eu ensaiava ler as perguntas que preenchiam o azul vazio e os pássaros virgulavam. Descobri ser uma língua estrangeira a voz dos pássaros, e embaraçava-me. Então, subvertia respostas para tapear meu desconsolo. Não ter resposta é confirmar-se ausente. Viver exige perguntas e eu, mudo, não sabia responder." (p.30)

"Não dar palavras ao desejo é ocultá-lo na solidão." (p.48)
Nanci 31/10/2014minha estante
Renata,

Esse livro é uma preciosidade. Não me canso de elogiá-lo. É uma alegria saber que você também gostou.


Arsenio Meira 31/10/2014minha estante
Para livro tão belo, uma resenha idem. Quando eu o li, foi como uma pancada de arrebatamento. É poesia pura.



Renata CCS 31/10/2014minha estante
Sem dúvida, amigos, este livro é uma pequena jóia preciosa. Muito querido e já entrou para a lista de favoritos.


Catharina 03/11/2014minha estante
Que resenha sedutora. Vou ler, com certeza!


Ygor Gouvêa 03/06/2016minha estante
Que resenha Renata




Flávia 12/10/2014

Foi preciso deitar o vermelho sobre papel branco para bem aliviar seu amargor. (epígrafe)


Há muito tempo tenho visto em vários blogs a indicação desse livro de poucas páginas, uma novela, mas que contém uma triste, porém belíssima história de alguns momentos mais marcantes da vida de um narrador que revisita sua infância e nos mostra a dor e a solidão provocadas pela perda da mãe, o alcoolismo do pai e a chegada de uma madrasta dura, insensível que preparava diariamente fatias finas de tomate para toda a família que com o passar do tempo vai diminuindo e consequentemente as fatias de tomate ficando mais grossas, porque tem menos um com quem dividir aquele fruto.

Durante a narrativa em prosa poética, ele vai nos contando como ele e os irmãos vão driblando a triste ausência do carinho materno, como desde cedo eles tiveram que aprender a traçar os rumos de suas vidas, pois também não tinham uma figura paterna que os abraçasse e lhes desse a segurança e os alicerces indispensáveis à sua formação.

Não me sinto à altura de escrever sobre esse livro incrível. Portanto, leia a resenha do jornal Rascunho/Gazeta do Povo, intitulada O tomate da discórdia aqui. Mais uma vez, um trabalho maravilhoso da Cosac Naify, livro de capa dura, diferente das tradicionais, papel amarelo e as letras escritas em bordô. Lindo.


Bartolomeu Campos de Queirós foi muito mais do que um escritor. Nascido em 1944, viveu a infância em Papagaio (MG). Com mais de 40 livros publicados (alguns deles traduzidos para inglês, espanhol e dinamarquês), formou-se em educação e artes, e criou-se como humanista. Estudioso da filosofia e da estética, utilizou a arte como parte integrante do processo educativo.Faleceu em 16 de janeiro de 2012.
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Julia 26/07/2014

Delicado, poético e literalmente amargo, esse é um livro que nos dá ressaca literária - e só tem 72 pagininhas - mas também um orgulho danado do nosso idioma todo lírico, bem trabalhado nas memórias afetivas de um autor que conseguiu autobiografar sua infância de modo tão belo e sucinto. Recomendo duas vezes: pela obra em si e pela encadernação de grife (Cosac Naify) que bem lembra a maior metáfora do livro, o tomate vermelho sendo fatiado conforme passamos as páginas...
um trecho:
"Sempre suspeitei o nascer como entrar num trem andando. Só que, o mundo, eu não sabia de onde vinha nem para onde ia. E, no meu vagão, não escolhi os companheiros para a viagem. Eram todos estranhos, severos, amargos, impostos. Também entrei sem comprar o bilhete de viagem. Minha bagagem, pequena, cabia debaixo do banco - da segunda classe - sem incomodar. Contrabandeava poucos pertences: uma grande dor que doía o corpo inteiro e a vontade de encontrar um remédio capaz de remediar o incômodo. Até hoje o mundo ainda não atracou. Vou sem escolher o destino."
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aline naomi :) 20/07/2014

Minhas passagens preferidas
"Há que experimentar o prazer para, só depois, bem suportar a dor. Vim ao mundo molhado pelo desenlace. A dor do parto é também de quem nasce. Todo parto decreta um pesaroso abandono. Nascer é afastar-se - em lágrimas - do paraíso, é condenar-se à liberdade." (p. 8)

"Ao erguer os olhos do livro, o olhar da mãe vinha vestido com novo luar - eu invejava. Em cada página virada ela se remoçava, afagada pelas viagens, amores, incômodos. O livro aberto era seu berço e seu barco, em suas páginas ela se transmutava." (p. 19)
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Melissa Padilha 25/05/2014

Estava eu imersa em leituras densas e longas, muito longas ... fui eu procurar um livro curto que me interessasse que tivesse boas indicações, peguei Vermelho Amargo de Bartolomeu Campos de Queirós.

Apesar do livro ter menos de 100 páginas, a minha sensação foi que ele continha muitas informações em pouquíssimas linhas, com isso a entrega foi intensa, e o livro conseguiu me absorver como se contivesse 700 páginas.

Vermelho Amargo é um relato autobiográfico, no qual Bartolomeu divide lindamente conosco suas angústias e dores decorrentes da perda de sua mãe e da entrada na sua vida de uma madrasta que lhe foi uma marca, uma marca vermelha e amarga. Então é a história de um menino que tem que lidar com a perda muito rápida de uma mãe, a entrada em sua vida de uma madrasta que despreza a ele e seus irmãos, e de um pai cuja presença nos parece sempre muito ausente.

Divide conosco suas angústias pelo lento desmembramento familiar, cuja causa principal é obviamente a madrasta, além da falta imensa que a presença de sua mãe fazia em sua vida. O mais impressionante é a capacidade narrativa de Bartolomeu, em nos fazer mergulhar no mesmo sentimento que ele demonstra sentir.

A história é escrita toda em uma prosa poética imersa nas questões duras, de sofrimento intenso já descritos, mas tratados com uma leveza impressionante. O livro é recheado de metáforas, que expressam separações, agressões e palavras que permaneceram na memória de Bartolomeu. Apesar da leveza imposta pela escrita poética do autor, o livro não deixa de ser melancólico.

Esta pareceu-me mais do que uma história contada, uma poesia que narra a vida deste garoto. É um livro dos dissabores da vida, o quanto isso nos marca para sempre, principalmente quando ocorrem na infância.

É um livro que se compromete em transmitir de forma bela, as tragédias da vida cotidiana. Há quem ache, por sinal, que tragédias são as gregas, são as grandes guerras, ou as catástrofes mundiais, quanto mais eu leio, mais eu acho que as maiores tragédias são as não narradas, as do dia a dia, as quais a gente se acostuma, se acomoda, aprende (ou não) a conviver, são as compartilhadas na sala de terapia, na conversa com um amigo, são as nossas, pessoais, porque elas são próximas, reais e passam uma veracidade que chega a assustar. A tragédia é a vida real.

site: http://decoisasporai.blogspot.com.br/2014/04/vermelho-amargo-de-bartolomeu-campos-de.html
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Leonardo 03/03/2014

Poesia e simbolismo
Aproveitando o feriadão de carnaval, tentarei colocar em dia minhas resenhas aqui no blog. Este é o primeiro de cinco textos que programei para hoje. Li Vermelho Amargo no dia 22/12/2013, e fui deixando a resenha pra depois, pra depois, depois, e os livros foram se acumulando neste período.

Quando meu irmão comprou este livro da Cosac Naify (sim, entre nós três, a Cosac Naify é como se fosse uma grife. “Comprei um Cosac Naify hoje!” ou “Vou comprar esse livro, mesmo sem conhecer o autor, pois é um Cosac Naify” são frases comuns entre nós. Aliás – estendendo um pouco este parêntese – acredito que, em breve, se a Cosac Naify continuar a lançar promoções de 50%, nós três juntos teremos todo o catálogo de ficção da editora. O que não seria nada mau.), fiquei encantado, para variar, com o projeto gráfico do livro. Ele fez parte de uma experiência que fizemos de comprar livros diferentes do que andávamos lendo. Como este meu irmão praticamente só lê russos (e quase que exclusivamente Dostoievski e Tolstoi), achou por bem comprar este livro de um autor de nome sonoro e até então desconhecido.

Vermelho Amargo é um livro de cunho autobiográfico. Narra as difíceis memórias afetivas de um menino que tem que aprender a lidar com a sua madrasta enquanto ainda sofre com a morte da mãe.

Não há exatamente uma história, mas uma sucessão de lembranças, disparadas por alguns gatilhos, o mais comum deles o modo como a madrasta cortava cuidadosamente o tomate. Trata-se, portanto, de um livro bastante sensível, carregado de simbolismo.

O livro é repleto de aforismos e são muitas as frases que nos colocam para pensar:

“Exige-se longo tempo e paciência para enterrar uma ausência. Aquele que se foi ocupa todos os vazios. Como água, também a ausência não permite o vácuo. Ela se instala mesmo entre as pausas das palavras. Na morte, a ausência ganha mais presença. É substantivo e concreto tudo aquilo que permanece. Daí, os mortos passarem entre nós. Jamais imaginei seu espírito transfigurado em fruto.”

Além da melancolia própria das lembranças do menino, chamou a minha atenção as suas constantes referências aos livros:

“Mas uma coisa me vigiava: ler era o meu único sonho viável.”

Não foi um livro que me fisgou. Gosto de símbolos, mas gosto de histórias, e este livro é quase um poema. Uma obra ainda mais abstrata e simbólica que Lavoura Arcaica (resenhado aqui)e um pouco menos que Os Verbos Auxiliares do Coração, que espero resenhar ainda hoje.

“A vizinha, do lado direito da rua, sabia ler e escrever. Estudou em escola não reconhecida pelas abelhas. Autorizava-se a distribuir dissimuladas verdades para além das frestas das janelas. Não suportava uma contestação. Tudo lhe servia para o consumo externo. Citava normas, em língua afiada, zombando da razão dos outros. Percebia-se que suas palavras eram desencarnadas e não filtradas pelo consumo interno. Também, sem raízes, as palavras nasciam e morriam em sua boca. Minha mãe afirmava que muitos passam pela escola, mas a escola não passa por eles.”

Minha Avaliação:

3 estrelas em 5.

site: http://catalisecritica.wordpress.com
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Paula 25/11/2013

Uma boniteza.
Poesia pura. Saí sublinhando o livro inteiro. Recomendo.

"Para alimentar a saudade do meu primeiro amor, comia retratos, rezava sem fé, mastigava hóstia, subtraía-me, entregava-me às amoras e seus aromas. Não havia mundo lá fora. Só amor, dentro e fora de mim. Virei dois, como a mulher de duas almas que visitava a minha rua. Faltavam-me rédeas para frear meu amor. Ele me roubava para o fundo do quintal, afogava-me nos rios, transportava-me para os pastos, subia-me nos galhos das árvores, mesmo sem fruto para colher. Eu amava, ou melhor, por inteiro, eu só era amor." [pág.22]


"Sempre suspeitei o nascer como entrar num trem andando. Só que, o mundo, eu não sabia de onde vinha nem para onde ia. E, no meu vagão, não escolhi os companheiros para a viagem. Eram todos estranhos, severos, amargos, impostos. Também entrei sem comprar o bilhete de viagem. Minha bagagem, pequena, cabia debaixo do banco - da segunda classe - sem incomodar. Contrabandeava poucos pertences : uma grande dor que doía o corpo inteiro e a vontade de encontrar um remédio capaz de remediar o incômodo. Até hoje o mundo ainda não atracou. Vou sem escolher o destino. O trem estancava na minha cidade, trocava de carga e reabastecia-se. O mundo só nos permite uma baldeação definitiva."
[pág. 38]
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Paula Napolião 07/09/2013

Ausência
Ressaca literária. É isso o que sinto agora, após a leitura breve e impactante de Vermelho Amargo. Não pretendo aqui resenhar, visto que isso já foi muito bem feito por vários usuários do skoob, especialmente a Ladyce (que resenha!). Ainda assim, e sem desmerecer ninguém, creio ser impossível fazer qualquer resumo do que é esta obra. Digo isso porque não há um trecho que a simplifique, exemplifique ou mesmo um trecho que se sobressaia perante os demais.
Daqueles livros saborosos em seu dissabor. Precisei de um tempo para refletir sobre. Reli trechos, assimilei parágrafos, digeri tantos outros. E me veio só o silêncio, com toda a sua ausência. Sim, ausência seria a palavra que mais chega perto do que senti durante sua leitura. Um vazio.
E depois o choro. Chorei copiosamente ao fim deste livro. E o mais curioso: não sei bem o motivo. O fato é um só: é um Senhor Livro. E Bartolomeu Campos de Queirós um escritor memorável.
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Nanci 04/09/2013

Um compromisso com a beleza
[resenha escrita em 5/8/2012]

Li Vermelho Amargo em 2011, quando o livro foi lançado. Não foi o primeiro texto bem escrito e comovente que li sobre a infância, mas certamente foi o que me tocou mais profundamente.

Vermelho Amargo é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2012, cuja lista de concorrentes, conheci hoje (5/8/2012). Talvez por isso: pelo fato de Bartolomeu ter nos deixado antes de receber mais esse reconhecimento, decidi registrar meus comentários sobre esse seu livro tão belamente triste.

Seu poema condensa toda estrutura dos sentimentos humanos. Ao revisitar a dor de sua infância, Bartolomeu nos empresta senso poético à nossa própria experiência de vida.

Poderia para expressar meu apreço - mais fácil e menos arriscado - reproduzir frases do próprio livro, pois Bartolomeu escolheu cuidadosamente cada palavra que escreveu; palavras belas de significado, dimensão e sonoridade. Prosa e poesia unidas por tamanha intimidade, que não se apreende uma sem a outra.

Poderia me amparar nas metáforas e imagens eleitas pelo próprio autor. Ouso, em contrapartida, me segurar em sua delicada e invisível cerca de arame farpado: essa fronteira entre realidade e fantasia. Assim, voltamos a ser menino curioso diante do lado de lá; mundos separados pelo tempo: por dois fios de arame envoltos em si, formando uma barreira reforçada, para marcar e proteger os territórios dos homens. Uma trama delicada de arame que possui, de intervalo a intervalo, farpas afiadas, que nos magoam suavemente - como a vida.
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Thaís Vitale (@LiteraturaNews) 15/07/2013

A prosa poética do autor emociona o leitor. A dor e a tristeza do narrador são expressas de modo belo por Bartolomeu Campos de Queirós. Livro lindo e tocante!
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gaglianoni 17/03/2013

CAMPOS DE QUEIRÓS, Vermelho Amargo
“Amparado pela janela, debruçado no meio do escuro, contemplei a rua e sofri imprecisa saudade do mundo, confirmada pela crueldade do tempo” (p. 7).

Há um vazio pungente, preenchido só com as vagas e evanescentes imagens da memória e da imaginação, na solidão em que se enclausuram os que vivem a dor da separação abrupta, forçada, que acompanha a morte de uma criatura querida. O paradoxo inconformado deste sofrimento é que o próprio vazio é cheio, pleno; esse vazio preenche cada uma das horas dos longos dias do “impiedoso tempo”, materializa-se, assim. A lembrança, abstrata, a falta, concreta: um amálgama que dá ao tempo um sabor lânguido e que, no livro de Bartolomeu Campos de Queirós, metaforiza-se gastronomicamente. “Não se chora pelo amanhã. Só se salga a carne morta” (p. 8). A carne descobre sua mortalidade e o menino-personagem, lembrado pelo adulto-narrador, engole a seco a proximidade, sempre precoce, desta descoberta. Como engole o vazio, instaurado pela ausência da mãe, cotidianamente presentificado nas finíssimas fatias de tomate cortadas pela madastra. “A madastra retalhava um tomate em fatias, assim finas, capaz de envenenar a todos. Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência” (p. 9). O tomate torna-se sanguíneo. Vermelho e amargo: remissão a um só tempo à morte, à falta, à sensação profunda de abandono, à ausência da figura feminina e amorosa da mãe; remissão também aos tomates. A sinestesia desdobra o sofrimento da lacuna irremediável. Sofrimento redobrado pela substituição apressada, no seio da vida doméstica, da mãe pela madastra. Sentimentos representados em metáforas amargas, a míngua do amor escancarada nas fatias de tomate. Vermelho amargo é lírico desde o título.

Trecho inicial de resenha publicada no Blog da Livraria 30porcento - http://30porcento.com.br/blog/campos-de-queiros-vermelho-amargo/
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Marco Antonio 10/01/2013

As páginas deste volume curto - apenas 72! - pedem do leitor só o espaço breve de uma tarde ou a passagem larga de manhã já bem adiantada. A satisfação que sobrevém da leitura é incômoda, como o dia depois do sonho, surge de nossas memórias, vivas na prosa esclarecedora de Bartolomeu Campos de Queirós, inspiradas por suas inquietas lembranças. Publicado em 2011 pela Cosac Naify, VERMELHO AMARGO é compêndio valioso, santuário da infância sujeito aos ares carregados da idade, construído pela experiência e afetado profundamente por ela. Neste livro, a implacável existência afirma-se decididamente e se encarrega do passado, norteia seus ingênuos pedidos. Assim tomamos consciência de como ela enxerga o tempo de menino, do que ela faz com aquele coração, mexido pelo viver enquanto come, brinca e conhece o mundo. É relato repleto de poesia, conversa de gente grande, obra que nos enche de contraditórios sentimentos. Atravessá-la é tomar ciência da dor que existir forçosamente recomenda. Afinal, é preciso "experimentar o prazer para, só depois, bem suportar a dor", ensina o autor, falecido este ano aos 67 de idade. VERMELHO AMARGO ganhou o Prêmio São Paulo de literatura de 2012.
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