O Peregrino

O Peregrino Tibor Moricz




Resenhas - O Peregrino


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paulofodra 17/07/2011

Não se pode ignorar a correnteza.
Confesso que aguardei ansioso o lançamento deste livro, pois conhecia o Tibor Moricz apenas pelo seu ótimo blog de resenhas e discussões sobre o mercado editorial. Estava mais do que curioso para conferir o seu trabalho, e com a expectativa nas alturas, porque um autor que faz leituras críticas tão rigorosas e fundamentadas – não raro polêmicas – quanto o Tibor seria simplesmente maluco de publicar um texto com as mesmas falhas de estrutura e narrativa que ele aponta. Pois é, a velha história do telhado de vidro. Assim, tratei de buscar o meu exemplar do livro logo no lançamento.

Já com o livro em mãos, fui surpreendido pela qualidade editorial da Draco. Coroado por uma bela capa, de autoria de Erick Sama, o caprichado projeto gráfico está muito acima do que eu esperava para uma editora jovem. E o conteúdo não me decepcionou nem um pouco. Muito pelo contrário. A prosa de Tibor é tão fluida que chega a não ter arestas. Construída de maneira simples e direta, não trava a leitura e deixa o espaço necessário para o desenvolvimento da intrincada trama.

Ambientada em um cenário típico de faroeste, a história narra a saga de um homem que desperta sem memória e chega a uma cidade decadente chamada Downtown, onde não há crianças. Os eventos que se sucedem levam os habitantes a acreditarem que ele é o Peregrino, o escolhido que trará de volta as crianças há muito raptadas. Dizer algo além disso seria estragar a supresa do livro, então vou parar por aqui. De fato, esse é o ponto forte de “O Peregrino”. A surpreendente narrativa me levou com avidez ao final e me deixou boquiaberto.

Esse ponto forte, por outro lado, transforma-se em uma fraqueza na hora de divulgar o livro. A sinopse e a capa levam-nos a visualizar uma história de gênero, um faroeste à la Tex. Eu mesmo, se não estivesse doido para ler algo do autor, não me sentiria atraído, por mera falta de afinidade com esse tipo de literatura e todos os seus clichês característicos. Teria deixado passar batido um delicioso texto.

O Peregrino, de Tibor Moricz, em suma, é sui generis. É uma aula de como contar uma história remando contra as expectativas e pré-conceitos do leitor, navegando com segurança por entre clichês, sem cair em tentação. Reflete fielmente a crença do autor de que uma boa história não é nada sem um texto caprichado, e vice-versa. Recomendo. E muito.
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Alvaro 08/06/2011

Um Western New Weird
Sinopse: Um homem acorda numa caverna desmemoriado, com cabelos e unhas muito grandes, praticamente nu, com apenas uma arma. Decidido a descobrir quem era, sai da caverna. No seu caminho, em busca de um lugar para se abrigar, mata um homem, rouba seu cavalo e suas roupas e encontra uma cidade chamada de Downton. Nesta cidade, por suas atitudes destemidas, é confundido com um messias há muito esperado: o Peregrino.

Pela ambientação inicial sabemos que estamos no Oeste americano e percebemos de cara alguns elemento do gênero Western. Um pistoleiro solitário chega a uma cidadezinha. É recebido com indiferença ou desprezo, mas logo se tornará o pivô da libertação ou vingança que esta cidade precisa.

Estaríamos diante de um enredo padrão? Logo percebemos que não. O pistoleiro não erra tiro e sua pistola não descarrega nunca. Isso seria clichê dos werstern, mas logo somos confrontados com a possibilidade da arma ser extraordinária, pois o pistoleiro percebe que a arma realmente não se descarrega ou se carrega sozinha. Algumas das vítimas são meio máquinas revelando além de sangue, óleo e engrenagens, ao serem atingidas. Um romance steampunk?

Ainda não acertamos o gênero. Um dos lugares por onde passa chama-se A Garganta do Enlouquecido, um lugar onde por mais que você caminhe, por qualquer caminho que escolha, volta sempre ao mesmo ponto.

A partir daí podemos esperar qualquer coisa. A busca do Peregrino caminha de braços dados com o absurdo, num clima bastante surreal, lembrando O Terceiro Tira.

Essa mistura de gêneros é o que se convencionou chamar de New Weird, cuja proposta é realmente romper com os limites claustrofóbicos entre os gêneros Ficção Científica, Horror e Fantasia e outros, como western, erótico e policial. A busca é apresentar algo novo a partir justamente desta mistura de gêneros.

Todavia o gênero dominante em O Peregrino é o werstern, com duelos, xerifes bem ou mal intencionados, jogos de cartas, saloons e tiroteios.

O clima lembra os filmes de Sérgio Leone: solar, lento e causticante, mas que, de repente, explode em violência, centrado num personagem de quem desconhecemos as reais motivações, mas que é a única esperança de um vilarejo.

Porém o absurdo vai se insinuando a cada passo do personagem, começando pela ausência de jovens e crianças em Downtown, com exceção de John Doe, um menino de cerca de 12 anos, o único que duvida das intenções do Peregrino.

Os feitos do forasteiro levam a cidade a aderir a ele em busca justamente das crianças e jovens desaparecidos, montando um grupo que o acompanhará em sua jornada para o resgate das crianças, primeiro a Middletown, cidade progressista e gananciosa, depois a Uptown, suspeita de ser a origem da opressão. Nesta busca, as reais motivações do Peregrino pouco a pouco vão sendo mostradas.

O desfecho, embora lentamente preparado ao longo da narrativa, é inesperado para maioria dos leitores, o que dá um sabor maior à leitura.
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Eduardo Kasse 17/08/2011

A jornada introspectiva
A história começa cheia de mistérios e dúvidas insolucionáveis, pois o homem que desperta é um vazio, como se criado no exato momento do abrir dos olhos.

E em sua jornada - deveras despreocupada - ele busca ouro e respostas. Mas, pouco consegue, mesmo depois de derramar muito sangue e "óleo" a cada tiro certeiro, preciso, apesar de sua própria existência imprecisa, relativa, ou até mesmo reativa.

E assim, O Peregrino traz esperança por onde passa - para velhos e novos, ricos ou pobres, mesmo sem trazer qualquer uma para si. E trilha os caminhos poeirentos rumo ao incerto, guiado pelo destino e pela correnteza.

Um livro cativante, de leitura leve e instigante. E, em determinados pontos, rápido como as balas disparadas pelo Colt.

Todos temos nossa jornada, desde quando saímos da caverna dos nossos próprios pensamentos e devaneios, até encontrar as engrenagens misteriosas e, ao mesmo tempo perfeitas que movem a nossa existência.
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pontas 12/11/2012

O Peregrino
O livro se passa em meados de 1870, onde, além do Posto de Trocas de Finnegan, existem três cidades: Middletown, Downtown e Uptown. Nas duas primeiras, os cidadãos vivem massacrados pelo totalitarismo imposto por Uptown. E de lá, vem abutres horrendos, delegados simbiontes – meio humanos, meio máquinas – e mecanismos cujas funções extrapolam a mais fértil imaginação.

Os cidadãos de Middletown e Downtown, acreditam em uma lenda antiga que diz que um homem chamado de Peregrino, virá para resgatar as crianças que Uptown roubou das duas cidades, e restabelecer a paz e o sossego. Então, quando um forasteiro vindo de uma caverna distante e que foi capaz de matar Finnegan – temido por muitos e um dos simbiontes de Uptown – chega a Middletown, uma chama de esperança de que enfim o verdadeiro Peregrino chegou.

O homem desmemoriado, que só se lembra de ter acordado na caverna ao lado de sua Colt 45 que parece mágica, aceita o fardo de procurar as crianças, porém o que realmente ele quer, é a riqueza que pensa que terá na sua volta. Só que muitas descobertas estão pela frente, e o Peregrino irá descobrir quem realmente é e se confrontar com os fantasmas do seu passado.

O livro tem uma narrativa em terceira pessoa e bem rápida, podemos perceber isso vendo que ele possui pouco menos de 200 páginas e narra a trajetória de um homem que passa em três cidades importantes para a história. Cada chegada e partida são cheias de ação, o que não falta no livro. A cada página conhecemos uma nova história de algum personagem, isso, tirando o fato de que fiquei curioso para saber quem era na verdade o homem que todos chamavam de O Peregrino. Isso foi um modo interessante de prender a atenção do leitor.

Temos personagens dos mais variados estilos. Só que todos corrompidos pelos tempos difíceis em que vivem. E muito provavelmente isso me fez gostar da história. Nada de personagens bobinhos, que não sabem o que fazem, ou que não lutam por medo de machucar alguém. Os personagens são sérios, maduros e não se acanham em empunhar uma arma e atirar. Uma boa mistura com a narrativa.

A capa é bem simples, não posso dizer que me agradou totalmente, mais transmite muito bem a essência do livro. A diagramação é bem legal. Como o livro é dividido em ciclos, essas páginas introdutórias dos ciclos são pretas. E durante os capítulos, separando algumas senas, temos o desenho da arma usada pelo Peregrino. A revisão está de parabéns, não encontrei nenhum erro, e isso me deixou bem feliz.

Para mim, os pontos negativos foram três. O primeiro deles e o que para muitos pode não ser, é a presença de palavras difíceis durante a narrativa. Sim tive que recorrer ao dicionário muitas vezes, porque essa: 0.0 era a minha cara sem saber minimamente o que poderia significar algumas palavras. Tudo bem, conhecer novas palavras é sempre bom, mas isso me incomodou e eu, sinceramente não me vejo usando essas palavras. Segundo, o livro é narrado no ponto de vista de muitos personagens, e isso pode confundir o leitor, e chegou a me confundir. Tinha que voltar várias vezes para saber de qual ponto de vista era a narrativa, e olha que eu sou um leitor atento. E por ultimo o final. Ficou bastante confuso, não vou dizer nada aqui porque seria spoiler, só posso dizer que eu fiquei confuso.

Mesmo assim eu gostei do livro. O autor inovou, usou características diferentes em uma história cheia de ação, mistério e que não posso negar, me prendeu e excedeu minhas expectativas. Com isso, o livro leva três estrelas.


Quote:
Nada mais era que um pobre coitado, vindo de uma caverna, acompanhado por um grupo de velhotes mais mortos que vivos e com uma missão bizarra e fadada ao insucesso.
Capítulo 21; Página 134.
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Tibor Moricz 12/07/2013

Resenha 01 de Larry Nolen e Resenha 02 de Júnior Cazeri
01)
OfBlog – Tibor Moricz, O Peregrino (The Pilgrim)

Uma escuridão imensa. Silêncio. Um nada absoluto. Foi assim por um tempo desconhecido. Até que se iniciou um rumorejar. Como água correndo pelo leito de um rio. De começo uma correnteza leve. Depois uma enxurrada que sai arrastando tudo o que encontra pelo caminho. Estava mergulhado nela, sendo arrastado. Ora submergindo, indo até as profundezas mais densas, ora explodindo na superficie, procurando por ar. A água corria por leitos impenetráveis. Embora estivesse sendo conduzido violentamente para algum lugar, era-lhe impossível determinar o seu destino. Era-lhe impossível determinar qualquer coisa, porquanto a escuridão ainda imperasse. (p. 9)

A passagem de abertura do romance do escritor brasileiro Tibor Moricz, O Peregrino: Em Busca das Crianças Perdidas (2011) chama a atenção pela rigidez. Ao longo do primeiro terço desse romance curto (196 páginas), a narrativa de Moricz está repleta de frases curtas e afiadas que ilustram a dureza da terra pela qual perambula o peregrino do título. Esta terra é uma visão do Velho Oeste americano no século 19, através dos olhos de um estrangeiro. A leitura foi interessante pelo tanto de estranheza que causou em alguns momentos.

A história que Moricz escreveu sobre o peregrino (seu nome, embora revelado na narrativa, vai permanecer em segredo para os poucos que desejem ler o livro em português) captura essa sensação de brutalidade e estranheza no mundo que tantas vezes inspira outros a vaguearem em direção a seu abraço implacável. Não é uma história simples; há alguns apartes e passos em falso que encontrei enquanto lia. Mas foi uma história que prendeu minha atenção ao longo da narrativa.

O que mais gostei em O Peregrino foi a prosa de Moricz. Ele usa passagens curtas e descritivas para expor a sua versão do oeste americano de uma maneira que, às vezes, me fez lembrar de Cormac McCarthy. Isso não quer dizer que suas histórias sejam parecidas, mas sim que suas narrativas compartilham uma brutalidade que chega a ser semelhante. A escuridão está presente o tempo todo neste romance, desde as primeiras linhas até o final. Em alguns pontos, há um pouco de luz, mas são momentos que servem apenas para enfatizar a desolação que encontrei em várias cenas.

Um problema que tive foi com os nomes. Talvez devido a ser um escritor estrangeiro (ao menos para mim), os nomes utilizados por Moricz para várias pessoas soaram um pouco fora — às vezes inadequados — de lugar. Mas, novamente, essa sensação de “fora de lugar” não prejudicou a narrativa, mas deu-lhe uma espécie de sensação estranha ou transposta, como se o Oeste americano não fosse aquele lugar onde mitos são criados, com o qual já estou acostumado, mas tivesse sido transformado em algo menos familiar e ligeiramente mais ameaçador. Esta qualidade fez de O Peregrino um trabalho imaginativo agradável, apesar de pequenas falhas, que chamará a atenção de quem quiser ler uma história ambientada no Oeste americano, com alguns elementos de steampunk acrescentados em boa dose.

02)
O Peregrino – Em Busca das Crianças Perdidas (Editora Draco, 2012), romance do publicitário Tibor Moricz, é uma aventura no gênero weird western, com doses moderadas de filosofia e reflexões quanto ao ciclo da vida, culpa e identidade. Faço, então, duas leituras. Começando pela aventura.

Em uma caverna, em total amnésia, um homem desperta. Ao seu lado, um colt 45. Saindo do que pode ser seu berço ou túmulo, não sabemos, o estranho procura pela civilização. Após alguns tiroteios ele descobre a cidade de Downtown, habitada exclusivamente por pessoas idosas. Uma lenda local diz que um peregrino chegaria à cidade e resgataria as crianças sequestradas pelas criaturas de Uptown. Assim começa a jornada do peregrino em busca do bem mais valioso da poeirenta Downtown.

Contudo, o peregrino não é um herói. Egoísta e violento, fazendo uso de sua arma fantástica, capaz de derrubar adversários superiores, como os temíveis delegados simbiontes e abutres de Uptown, seu interesse é no ouro da cidade. Ímpetos de chacinar todos os que estão à sua volta são contidos com certa dificuldade. A paciência do peregrino é curta, sua mira certeira.

A jornada desenvolvida por Moricz para seu anti-herói leva a confrontos diversos, muitas mortes, inimigos perturbadores e locais fantásticos. A Garganta do Enlouquecido e Mogul, exemplificando dois locais que chamam a atenção pela criatividade. Claro que, durante suas andanças, o peregrino vai se descobrindo, algumas memórias voltando para atormentá-lo e mais mistérios entram na trama.

Um fator de destaque do livro é a capacidade de Tibor de manter o suspense e tensão por grande parte da narrativa, a curiosidade só faz crescer durante a leitura. As frases curtas e diretas, diálogos secos e descrições econômicas só acentuam a sensação de urgência.

Agora, uma perspectiva das entrelinhas.

Nos três ciclos do livro, indo de Downtown para Uptown, com uma passagem por Middletown, fica clara a intenção do autor de brincar com os ciclos da vida e passear por passado, presente e futuro. A falta de identidade do herói é um fator importante para o leitor, que pode construir sobre ele a visão que bem entender, já que se apresenta como uma tela em branco, pintada apenas ao fim da obra.

Quando o livro se fecha, as referências do autor ficam claras, sendo que citá-las aqui é arriscado, mas vá lá, talvez Matrix e as obras de Philip K. Dick sejam as mais facilmente identificáveis. Trabalhar com realidades e irrealidades, ciclos e maniqueísmos não é novidade, mas a abordagem do autor é relevante.

Finalizando, O Peregrino é um bom livro, prende e entretém o leitor de forma convincente, é escrito com precisão e o autor não esconde seu bom vocabulário, sem parecer pedante. A aventura, ainda que alongada, captura e arrasta o leitor para um cenário inusitado, levanta mistério sobre mistério, na melhor tradição pulp, e não deixa largar a obra até o seu fim.

Acima da média, recomendo.
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