Distúrbio

Distúrbio Valentina Ferreira Silva



Resenhas - Distúrbio


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Vanessa Meiser 02/09/2012

http://balaiodelivros.blogspot.com/
Ai meu Deus, como vou começar esta resenha? Sinceramente não sei como falar de Distúrbio. Uma coisa é certa, ele é muito, muito, muito bom, poréeeem, ao mesmo tempo muito perturbador, de tirar o sono e lhe deixar entristecida. Você gosta de livro assim? Então vai gostar deste (eu gosto - admito ô ô ô).
A primeira coisa que quero dizer e que eu não sabia, ele é todo em português de Portugal, isto foi para mim uma grata surpresa pois acho o dialeto daquele país lindo demais, é o segundo livro 'lusitano' que leio. A autora Valentina Silva Ferreira é portuguesa e a Editora Estronho optou por manter a linguagem original da trama, sábia decisão.
A capa e todo o resto da diagramação é perfeitamente linda, ainda bem que é tão caprichada assim já que a história é tão triste...
Bom, Distúrbio nos conta a história de Rossana, a irmã mais velha dentre quatro irmãos cujos pais, Perpétua e Carlos, são dois doentes mentais que deveriam ser proibidos de ter filhos. Ela uma maníaca pela beleza da filha que, por não ter sido modelo na juventude (por não ser bonita e nem graciosa) desconta na filha toda a sua frustração. Perpétua deixa Rossana à míngua proibindo a menina de comer e a obrigando a fazer exercícios físicos exagerados todos os dias desde que era apenas uma criança de 07 anos. Hoje com 12 para 13, Rossana tem o corpo de uma mulher adulta, despertando interesse na grande maioria dos homens que a conhecem inclusive em seu próprio pai que desenvolve uma paixão doentia pela filha.
Carlos é tão lunático quanto à esposa ou até mais pois, trata Rossana (Roxie) como se fosse sua esposa e sente muito ciúme desta. Rossana é uma criança muito infeliz devido ao tratamento que sua mãe tem consigo e também quanto à violência que sofre pelas mãos do pai. Perpétua finge não ver o que acontece bem debaixo do seu nariz, sente um ódio inexplicado por Roxie pelo fato da menina possuir a beleza que ela um dia sonhou em ter, Roxie passa fome, durante os dias faz no máximo duas refeições e cerca de 100 abdominais entre outros exercícios, tudo para tornar-se uma modelo de sucesso e dar à mãe o lucro do seu trabalho.
A vida de Rossana é um inferno, por vezes a menina deseja a morte do que continuar com a vida que leva, o sofrimento é tanto que ela no auge do seu desespero recorre à válvulas de escape que tornam-se em uma viagem sem volta para a linda menina que poderia ter tido uma infância normal se não tivesse nascido como filha de seus pais.
Bem, com certeza não fui capaz de transmitir aqui o tanto que gostei deste livro, tenho certeza disto, mas quero deixar muito claro que EU ADOREI DISTÚRBIO, só fico muito sentida por saber que tudo o que li aqui não é apenas uma história num livro bem escrito, apesar de não ter sido baseado em fatos reais (penso eu), sabemos que histórias como esta acontecem com mais frequência do que podemos admitir, talvez tenha sido isto o que me deixou mais triste durante a leitura, é impossível não associar o texto aos temas que assistimos na televisão toda a semana. Este é daqueles livros que te fazem pensar na dura realidade da nossa sociedade e no fato de sabermos que existem psicopatas que se dedicam a fazer o mal às outras pessoas por puro prazer. Distúrbio é totalmente eletrizante, chocante e muito, muito angustiante. E mesmo com estes adjetivos, o livro é simplesmente MUITO BOM. Você termina a leitura (eu pelo menos) com uma vontade louca de dizer para a autora o quanto ela foi feliz pela ousadia de ter escrito algo tão absurdamente realista (na verdade eu cheguei a deixar um recado para ela em sua página no facebook, rsrs). Enfim, este é o primeiro livro da Editora Estronho que tenho o prazer de ler e fico muito feliz por ter começado com o pé direito, Distúrbio é uma história rica, bem elaborada e muito bem escrita que choca o leitor. Recomendo mesmo para quem não gosta deste tipo de leitura, vale a pena conferir!
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Gi 21/08/2012

DISTURBIO - Valentina Silva Ferreira
Olá Docinhos...
Estou tão triste...
Nem sei como lhes contar sobre a história de Rossana...
Pobre menina!!!
Tão criança, e tão sofrida...
Tudo culpa daquela bruxa disfarçada de mãe!

Perpétua (Mãe de Rossana) sempre fora uma pessoa amarga, invejosa e perturbada! Desde pequena maltratava os pais e se vestia como prostituta para chamara a tenção dos homens. Tanto que seu primeiro e único emprego foi em um bordel chamado “Casa das Coelinhas”, lugar onde conheceu seu marido (tão desprezível quanto ela!) Carlos.
Eles vivem um casamento de aparências e conveniências. Para ele, uma mulher elegante que sabe se comportar muito bem perante a sociedade. Para ela, um homem que sustentasse todos os seus luxos.
O Sonho de Perpétua sempre foi ser modelo, mas por ter a cara de quem chupou limão, e não transmitir nenhum carisma (além da total falta de talento), nunca atingiu sua meta.
Foi quando teve sua primeira filha: Rossana (Roxie para os íntimos), e depositou na menina todos os seus desejos não realizados.
Desde cedo submeteu a menina a exercícios físicos pesados e a dietas absurdas. Fora as roupas que a obrigava a usar: Decotes enormes, saias curtas, blusas transparentes e com a barriga de fora, calças apertadas e por ai vai. E por conta destas roupas inadequadas e do corpo muito desenvolvido para a idade, acabou atraindo o olhar de quem deveria protegê-la acima de tudo.

Pobre Roxie! Foi obrigada a fazer coisas horríveis devido à insanidade cruel de seus pais.
Não imagino uma criança passando por tudo o que ela passou!
Para fugir de tanta dor e sofrimento, recorreu a pior das “amigas”: A droga. Somente assim poderia deixar de lado por alguns momentos todas as atrocidades a que era submetida.

Por qual motivo agüentava tudo isso calada?
Será que as pessoas a sua volta não notavam que o cada dia estava mais “morta”?
Qual seria sua atitude ao ouvir da boca de uma criança uma história como essa?
Acho que revolta ainda não é a palavra para descrever meus sentimentos...
O pior é saber que por ai existem muitas Roxie’s caladas pelo medo, ou sabe-se lá pelo o que, vivendo o inferno dentro da própria casa e dormindo ao lado do demônio.

Que Deus proteja a todos!
Beijos

@AnnyPlata
aestranhaestantedagi.blogspot.com.br
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Priscilla 07/05/2012

Um livro sobre o qual ouvi muito falar, tanto pelo tema, quanto pelo talento da autora.

Li o livro em dois dias e acho que poderia ter lido mais rápido, se não fosse o peso que ele carrega. Algumas vezes tinha de parar de ler um pouco e durante o dia me senti triste e desanimada e só mais tarde percebia que era por causa do livro.

Em Distúrbio conhecemos Rossana. Ela é a filha mais velha de uma família rica e bem sucedida. É uma menina maravilhosamente linda. E em todos esses aspectos, tinha tudo para ser feliz.

Mas não é isso que acontece.

Perpétua, a mãe de Rossana é uma mulher egoísta que tem inveja da filha. Ela sempre quis ser modelo, mas nunca teve a beleza para tal. O máximo que conseguiu foi ser uma dançarina em uma boate na cidade, onde realizava o desejo dos homens, para desgosto de seus pais.

Foi nesse lugar que conheceu seu marido, Carlos. É um homem escroto e de baixa estima, que compensa a mesma pagando as mulheres para satisfazê-lo.

Rossana então é forçada pela mãe desde pequena a ser modelo. Ela deseja que a filha seja o que ela não conseguiu ser.

Isso é um absurdo, mas infelizmente existe muito. Quantas mães não obrigam as filhas e filhos a praticarem certos esportes que gostariam de ter praticado na infância e não puderam e/ou não conseguiram? Quantos obrigam as crianças em cursos que não as agradam porque acham bonito e chique, e que ela, a mãe ou o pai, com certeza gostariam de ter feito naquela idade.

É uma coisa para se pensar. O limite que os pais ultrapassam na tentativa de moldar o caráter, o gosto e a profissão de seus filhos.

Rossana é obrigada a fazer exercícios diários, a comer pouco e a usar roupas apertadas e sensuais desde muito pequena.

Ela tem irmãos, as gêmeas Petra e Lara e o pequeno Leonardo, mas nenhum deles tem a sua beleza então não tem as obrigações e podem brincar e comer o que quiserem. Rossana com o tempo deseja ser normal como eles, para poder ser criança.

É revoltante o fato de que ninguém faz nada. Em casa, o pai de Rossana não participa da vida dos filhos e quando participa, piora a situação. Na escola, as pessoas vêem que Rossana sofre, desconfiam dos maus tratos, mas fica só nisso. Com o passar do tempo, a própria Rossana percebe que a vida dela não é boa, as coisas a que é submetida são ruins, mas nem ela toma uma atitude. Isso me deu ódio em muitas vezes. De ninguém fazer nada, ninguém ver nada. Da própria Rossana não jogar tudo pro alto e fugir ou qualquer outra coisa. Você fica torcendo para alguém fazer uma coisa, qualquer coisa.

Às vezes aparece um personagem que é bom e tem o intuito de ajudar, mas sempre fica por isso mesmo. Infelizmente, as coisas só pioram para o lado de Rossana e o final é um exemplo disso.

Eu gostei bastante do livro por causa da emoção que ele me causou: raiva, revolta, tristeza. É desolador ver uma criança passar pelo que Rossana passa. É revoltante você ver as pessoas ao seu redor não tomarem uma atitude.

Devemos nos lembrar que existem por aí muitas Rossanas, Perpétuas e Carlos. Eles podem ser nossos amigos de trabalho, escola e até mesmo nossos vizinhos. E talvez, nós podemos ser iguais as pessoas que vêem a situação da criança e não fazem nada para mudá-la.

Um livro com uma história triste – em mim chegou a ser até deprimente – que vale a pena ser lido. Ele nos passa certas lições, ele nos abre os olhos para algo que está por aí, mas não faz muita diferença, porque já é comum.

Torço sinceramente que a história de Distúrbio seja somente uma história, mas, infelizmente, sei que isso não é verdade.

A Valentina é portuguesa, então o livro tem esse idioma, porém não atrapalha em nada a leitura. Muitas coisas são diferentes, palavras que não usamos ou não costumamos usar, mas a Estronho nos ajuda com notas no rodapé explicando o significado de cada palavra. E, não sei vocês, mas eu considero o português de Portugal mais bonito e isso dá outra cara ao texto.
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No blog temos também uma entrevista com a autora:
http://policialdabiblioteca.blogspot.com/2012/05/resenha-dusturbio-entrevista.html
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Cláudia 17/04/2012

Rossana tem 12 anos, é a filha mais velha entre quatro irmãos, as gêmeas Petra e Lara assim como o bebê Leonardo a amam incondicionalmente, ela é a melhor aluna da classe e tem uma beleza fora do comum. O pai – Carlos - é respeitado e bem sucedido. A mãe – Perpétua – dedica todo o seu tempo aos filhos, principalmente a estrela da família, Roxie (Rossana). Mas Rossana é uma menina muito infeliz.

Perpétua é uma mulher mal resolvida que entrou em um casamento por conveniência. Seu maior sonho era ser famosa, infelizmente faltam-lhe beleza, graça e talento para tal objetivo, então ela casou e viu na primeira filha a chance de realizar os seus sonhos. A menina sim é belíssima, tanto que a mãe ressente e inveja ela. Isso já é péssimo, infelizmente tudo sempre pode piorar, Perpétua pressiona Roxie desde muito cedo, a garota segue uma rotina pesada de exercícios, alimentação mínima e controlada e esta sempre vestida e maquiada como adulta, o que desperta um tipo de atenção indesejado para uma criança. Rossana se esforça para agradar a mãe, estuda muito, faz todas suas vontades, mesmo que isso a deixe exausta e com fome, ainda assim é tratada com descaso, é manipulada e intimidada diariamente. A escola é o seu refugio, a primeira coisa que faz quando chega lá é trocar as roupas mínimas que sua mãe separou por roupas normais de criança. Como eu disse, o visual sexy imposto pela mãe desperta o interesse, mais do que inapropriado, dos homens, um em especial, vai tornar a vida já difícil da garota em um verdadeiro inferno.

Apesar de ter lido a sinopse e o capítulo de degustação antes do lançamento do livro eu esperava algo bem diferente, até algum lance sobrenatural, estava enganada. Porém o terror psicológico esta presente durante toda a trama, acompanhamos alguns anos da adolescência de Rossana, nesse tempo ela sofre todo tipo de abuso físico e psicológico dentro da sua própria casa e inicia a tão aguardada carreira de modelo. Isso tudo para alguém tão jovem (e qualquer um na verdade) é uma fórmula para o desastre. A jovem é jogada em um mundo cruel, onde qualquer válvula de escape parece atraente.

Distúrbio é sem dúvida um dos livros mais tristes que eu já li, não é uma leitura fácil, por isso mesmo é tão forte e marcante. Achei bonita e intimista a escrita da autora, essa proximidade despertou muitos sentimentos durante a leitura, principalmente revolta, pena e compaixão. A vida de Rossana é uma desgraça sem fim, e é tão realista e atual, o que torna tudo mais perturbador e deprimente. Além da vida familiar sofrida, na escola e com os amigos, Roxie enfrenta os preconceitos da sociedade, afinal é bombardeada com as ideias absurdas (e comuns) de que mulheres com roupas provocantes são culpadas quando atacadas e etc., ela é obrigada a lidar sozinha com um conflito interno constante, sente culpa, ódio, nojo e medo. Portanto é um drama bem pesado, ao mesmo tempo a narração flui bem e prende o leitor, pois o desenrolar segue uma linha bem diferente, eu não sabia o que esperar a cada capítulo, o desejo é claro era de algum alívio para a protagonista, o final então, é surpreendente.

A edição do livro esta muito bonita, o papel é reciclado e de qualidade, a capa combina bem com o conteúdo. A autora Valentina Silva Ferreira é portuguesa e achei muito legal a editora ter mantido as expressões do português de Portugal e adicionando notas de rodapé quando necessário. Acho que assim como em uma tradução, é preferível sempre deixar o texto o mais próximo possível do original, para perder o mínimo possível de sua essência.

|http://www.concentrofoba.com.br|
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Carol Mancini 13/02/2012

As memórias podem morrer?
De outra leitura feita de uma obra da mesma autora na antologia “Cursed City”, também da Editora Estronho, já se podia saber que história esperar, porém, esta veio de um modo muito diferente.
De fato, eu li a sinopse e assisti ao booktrailer do livro, e daí já sabia o que esperar.
Porém, acreditei que a escrita desta autora portuguesa (que cá entre nós tem uma grande fome por escrita e está classificada em mais uma série de antologias) seria muito mais violenta do que realmente foi.
Isso quer dizer que “Distúrbio” é uma leitura leve? Não. De maneira alguma. É uma leitura incrivelmente densa, com infinitas questões que sujam nossa alma com perguntas sobre os “padrões” que nossa sociedade vem seguindo, como também, de cenas fortes, cheias de angústia.
Mas, o que desejo ressaltar nesse início de descrição, é que a escrita de Valentina Ferreira está exatamente no equilíbrio da densidade de situações e suas descrições fortes, e o estritamente necessário para se contar a história. Assim, apesar do enredo pesado não há apelações nas descrições ou no próprio modo de revelar as palavras durante seu claustrofóbico romance.
Antes de falarmos do que há no texto, quero dissecar um pouco a qualidade gráfica da obra. M. D. Amado sempre caprichoso, traz imagens de diferentes artistas para dar corpo ao texto. As internas, assim como a capa, refletem uma infância perdida, feia, torta, fora do lugar, apesar de toda a simetria dos obejtos dispóstos. A ilustração da capa em si, me trouxe além desses elementos a idéia também de uma moradia velha, decrépita, soturna, uma mistura de filme de terror com pesadelos. A escolha da coloração marrom (tendo por trás, acredito, o vermelho e o preto) foi uma grande sacada, pois saiu do costumeiro preto/vermelho. As sombras estão muito mais presentes e a ambientação de abandono – mas sabendo que alguém espreita, ou esteve ali a pouco tempo – já começa a incomodar logo pela capa. O nome do livro mais o da autora ficaram em fontes bem interessantes que deram o toque rabiscado à mensagem inicial (ou alguém dúvida que a capa é a primeira mensagem que o livro traz?). O nome “Distúrbio” em si, tem aquele estilo delicado, mas feito sem precisão, lembra-me riscos no quadro negro. Mas, as imagens internas é que são muito mais fortes e perturbadoras.
As separações dos capítulos são feitas através de uma faixa preta na vertical na lateral externa das páginas à direita, causando uma sensação de aperto que também está equivalente com a prisão que de fato é a vida da protagonista.
Agora, vamos ao texto.
Um dos primeiros comentários que fiz a respeito da leitura, é que foi fácil apegar-me à um personagem, e odiar outros. O envolvimento com os acontecimentos da família da personagem principal é inevitável. Os personagens foram muito bem construídos, mas parecem viver em grandes extremos. Há os que são sinônimos de crueldade e perversidade, e outros que vivem a vida de uma forma doce, ou pelo menos, normal.
Bom, como a autora é portuguesa e a Editora optou por não adaptar a escrita, hora ou outra tem uma expressão difícil de entender, mas para isso, as nota de rodapé, resolvem tranquilamente. Tem o fato de ser gostoso também “ler com sotaque” (não achei uma expressão melhor para essa sensação) que mesmo sendo familiar à brasileiros, não deixa de ser estrangeiro. Um diferencial à parte, realmente.
Toda a trama é traçada com envolvimento, trazendo bem a forma como Rossana, desde pequena, é envolvida em uma teia de aranha sem ter como escapar, onde moldam seu corpo, sua mente, e por fim, drenam-lhe a capacidade de pensar ou reagir. Todas as esperanças são ceifadas. Um enterro após o outro de todas as suas vontades.
Mas o que há em distúrbio? Aqui tudo se fala! Uma mãe que projeta seu sonho fracassado em sua filha mais velha. Uma garota que vive à mercê do seu corpo, não por sua própria vontade. Um refúgio nas drogas. Abuso sexual. O mundo potencialmente distorcido da moda forjando utopias. O início de uma adolescência cheia de problemas. Atitudes desesperadas para fugir da realidade insana em que vive. Um amor forte com todo o furor e cumplicidade que dois adolescentes podem sentir. E muitas, infinitas marcas pelo corpo, e na sua memória.
Não é o retrato de uma “volta por cima”, de uma esperança, é tão somente um buraco cavado bem fundo, de onde muita podridão nasce.
Se fossemos tirar algum tipo de lição ou moral, seria de fato de quantas coisas nós deixamos de ver, mas que estão ai o tempo todo, seja aqui, em Portugal, ou em qualquer lugar. Talvez, neste livro, estás infinitas lástimas tenham vindo a colidir sobre uma mesma garota amaldiçoada por ser bonita, ou pior, por ter seres desestruturados como formadores de sua família. Aqui, todo o sofrimento da garota vem em resposta à ambição de seus pais que fazem de seus desejos os verdadeiros “distúrbios” presentes no enredo.
E talvez, apenas talvez, poderíamos dizer para essas tantas “Rossanas” que gritem, gritem o mais alto que puderem, e a todos, pois o silêncio sempre será complacente com a dor e finais trágicos.
Neste enredo, você se deparará também com bons momentos, com degustação de pequenos prazeres, com risos. Aqui e ali um pouco de ação, mas muita tensão. Será dificil parar para respirar, antes que chegue o final. E no final, talvez ainda o ar lhe falte.
Terminei a leitura deste livro com muita vontade de parabenizar a autora pela ousadia do tema e pela forma de abordá-lo. Também, à incentivar (mesmo não sendo necessário) que a Editora Estronho continue a publicar romances que não são fantasia. Mais que isso, queria poder dormir sem ter a certeza que essa protagonista é só um reflexo de tantas garotas, ricas ou pobres, escravas dentro de suas casas, escolas, e até em seus pensamentos. Garotas que se mutilam, que se auto-anestesiam, que se afogam na quietude das suas lástimas sem poder se livrar das algemas lhes impostas por verdadeiras lobotomizações feitas desde antes de saberem falar, por aqueles que deveriam lhes amar e proteger.
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Leitora Viciada 21/01/2012

Mais um livro da Estronho de qualidade excelente. Ótima escolha de manuscrito, diagramação linda rica em detalhes e revisão perfeita. A capa do livro consegue transmitir sua essência como um esboço.
Ainda não tinha lido nenhum conto da portuguesa Valentina, embora tenha me interessado de imediato por seu primeiro romance. A sinopse me instigou, a capa me convidou e o trabalho da Estronho me agrada totalmente. Estava com muita vontade de ler o livro, que me parecia um terror psicológico dramático.

Quando leio um livro com uma temática forte, que me provoca uma série diferente de sentimentos, sinto dificuldade em resenhar. É complicado tentar explicar todas as reações que tive no decorrer dessa leitura, tanto psicológicas quanto físicas. Sim, reações físicas.
Quantos livros são capazes de provocar este tipo de sensação física, do início ao fim? Ter reações psicológicas, é muito mais comum, agora físicas? Raríssimo. E foi mais ou menos isso que Distúrbio provocou em mim: uma série de sentimentos e reações, uma mistura inexplicável.

Valentina escreve com naturalidade, espontaneidade. Mesmo nas partes angustiantes ela mantém uma bonita sensibilidade e de forma leve nos mostra cada cena. O português de Portugal é muito mais charmoso e enfeitado, deixando o texto mais belo e atraente. Pensei que estranharia algumas coisas, porém nem cheguei perto disso (as expressões típicas usadas lá são explicadas no rodapé, mas são poucas). Pelo contrário: fiquei admirada com cada frase.
A narrativa é contada em terceira pessoa e apesar de nos apresentar ideias e sentimentos de todas as personagens em geral, o foco está na personagem Rossana, quem acompanhamos por todo o livro.
A história é escrita de forma a nos apresentar detalhes de tudo o que a menina sofre, sente, sonho e pensa. Através desse ato esplendidamente realizado pela autora é que me transportei para a pele de Rossana e senti tantas coisas.

Senti pena, compaixão, em ver uma menina sofrer tanto. Uma criança indefesa, inocente e sonhadora sofrer por causa do desiquilíbrio dos pais. A mãe é totalmente lunática, omissa e insatisfeita. O pai é tarado, pedófilo e inescrupuloso. Ambos são falsos e maldosos. Escondem de todos a obscuridade de suas almas e fingem ser um casal que se ama. Exibem a mansão luxuosa de belo jardim e os filhos bonitos como se fossem troféus de uma vida feliz e perfeita. Isso deixa o cenário amargo e pesado. Um ambiente hostil para qualquer criança viver.


Perpétua, a mãe, é frustrada por nunca ter atingido o objetivo de ser modelo e famosa, admirada por sua beleza. Quando nasce sua primogênita, uma menina exageradamente linda, ela vê a possibilidade de realizar seu sonho através dela, mesmo que para isso a menina não tenha uma vida normal.
Carlos, o pai, está sempre ausente e vive tendo casos fora do casamento, sendo que muitos deles com menores de idade. É um pedófilo viciado que não consegue tirar a filha de suas fantasias pervertidas. Ela está crescendo e tornando-se cada vez mais bonita.
Rossana é uma menina doce, boa e obediente. Respeita os pais e ama os irmãos mais novos: as gêmeas e o bebê. Possui um bom rendimento escolar e não reclama das obrigações impostas pela mãe.
Para ela, sua mãe deseja-lhe o melhor com a carreira de modelo, e por isso, o sofrimento e dor derivados dos pesados exercícios físicos e dietas fortemente restritas são seguidos a risca. Até, porque, não existe solução.

Ela sofre muito por não poder brincar e se divertir como todas as crianças de sua idade. Não pode se sujar, nem comer coisas gostosas, muito menos se vestir como suas amigas, de forma descontraída. Veste-se como mulher e precisa estar sempre de maquiagem e cabelos feitos. ela detesta ser bonita.
Impressionante como essa menina é centrada e forte. Em como ela encara os abusos da mãe com naturalidade. Sua felicidade é ter a companhia os irmãos, a quem tanto ama.
O pior acontece e muda drasticamente a vida da menina inocente. O pai passa a estuprá-la e a abusar cada vez mais dela. A menina é forçada de forma violenta a ser mulher. Ela não pode mais ser menina, porque agora sente-se suja e nojenta. Mas não se sente mulher, porque sua feminilidade surgiu da dor e da tristeza. Ela só queria ser criança.
Mas em seu íntimo ela esconde a esperança de um dia ter uma vida feliz e normal, como suas colegas de escola. Ela deseja ser amada e respeitada pelos pais.

Esse é o ponto de partida de Distúrbio. Mergulhamos em personagens e cenas fortes, que nos fazem pensar repetidamente em quantos lares esse terror ocorre. Quantas crianças sofrem nas mãos de quem mais deveria protegê-las e amá-las. Quantas vidas são destruídas, quantos corações são maltratados, quantas mentes são traumatizadas.
O horror que Rossana enfrenta dentro do próprio lar, dentro do próprio quarto me causou pena, repulsa e ódio. Meu estômago por vezes embrulhava, meu coração pesava no peito. Como pode uma menina tão amável ser tão maltratada pelos pais? Em vários momentos eu não sabia o que era pior, se o abuso físico ou o psicológico; as ameaças ou os castigos.
O desespero que começa a se apoderar do coração da menina, fazendo-a ter pensamentos insanos e agir de forma errada.

O livro é chocante, viciante e poderoso. As últimas páginas são frenéticas. O final é imprevisível. Até a última linha, você não imagina como tudo acabará.
Leitura recomendada para quem gosta de um livro muito bem escrito, comovente e inquietante. Não há a possibilidade do leitor não ser afetado de alguma forma.
No Skoob, dei cinco estrelas, se pudesse daria mais. Um livro acima da média. Há muito tempo não lia um livro que acelerasse minha pulsação, que me deixasse com vontade de interferir na história. Eu queria a todo o momento salvar a menina e seus irmãos, de retirá-los daquele pesadelo.


Trechos:
"Perpétua pestanejou seis vezes para ter a certeza do que estava a ver. Sim, ele olhava realmente para a filha. Um olhar de desejo, pensou."

"Perpétua vestia a filha como uma mulher. E o pior, uma mulher sem classe, exibindo constantemente as pernas e o decote ainda em desenvolvimento."

"Ouviu-se a porta de cerejeira envernizada fechar e a chave rodar duas vezes como gritos de uma pessoa em perigo. Rossana tremia dos pés à cabeça."

"As lágrimas estavam trancadas nos cantos dos olhos e só não as soltava para não dar na vista, mas chorava, todo o seu interior chorava descontroladamente."

"– Se vos tenho, minhas filhas, é por algum motivo. Tu, Roxie, tinhas o dever de me satisfazer. Se achas que não é capaz, se és assim fraca, terei de pedir às suas irmãs."
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