A Revolução Nicaraguense

A Revolução Nicaraguense Matilde Zimmermann




Resenhas - A Revolução Nicaraguense


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Che 13/11/2018

FINDADA POR MIRAGEM ELEITORAL
Décimo primeiro livro da coleção "revoluções do século 20" que leio. Dada a atualidade da guerra civil nicaraguense, achei que era o momento certo pra fazer a leitura.

A autora Matilde Zimmermann é uma estadunidense ligada ao SWP (Socialist Workers Party). Percebe-se em vários momentos no livro que ela dá grande atenção à questão feminina, tanto nos elogios quanto sobretudo nas (pertinentes) críticas aos limites da revolução realizada pela Frente Sandinista de Libertação Nacional em 1979, como a influência 'igrejeira' que impediu por lá a legalização do aborto nos moldes do que existia em Cuba. Convém aqui lembrar que a revolução cubana, acontecida exatos vinte anos antes, foi enorme influência para a guerrilha de Carlos Fonseca Amador, Daniel Ortega (hoje presidente e enfrentando tentativa de golpe de Estado) e quejandos.

Há lacunas narrativas no livro sobre justamente o período pós-revolução, tanto os primeiros anos quanto sobretudo o que aconteceu com a economia do país nos anos 90 - o que não é abordado nem de relance e deixa o livro com final abrupto, diferente dos outros livros da coleção que corretamente fazem essa contextualização do 'after', nos casos em que a revolução foi derrotada e o país retrocede para o capitalismo. Mas de todo modo, a narração do que acontece até chegarmos na vitória dos sandinistas em 79 é muito boa e bastante rica em dados, alguns curiosos como a discrepância entre as costas do Pacífico (mais urbanizada) e do Atlântico (menos demograficamente densas e povoadas por indígenas).

A família Somoza e seu longuíssimo governo conseguem a proeza de fazer a ditadura de Fulgencio Batista parecer um governo 'bonzinho' na comparação. Qualquer um que levantasse a voz - ou até que nada fizesse - contra os Somoza era trucidada, frequentemente com assassinatos na casa dos milhares, transcendendo em muito as torturas e mortes apenas dos quadros da FSLN. Os campesinos sofriam barbaridades. Até espanta que a reação a esses facínoras tenha sido relativamente leve após a revolução, que ainda conseguiu vencer a briga com os 'contras', mercenários treinados por Washington para acabar com a revolução.

É por todas essas louváveis vitórias que acaba decepcionando constatar a ingenuidade do então cabeça da FSLN, Daniel Ortega (o mesmo que voltou a presidir o país agora), abrindo a Nicarágua para eleições nos moldes representativos burgueses (diferente das eleições cubanas, por exemplo) por dar como certo que ia ganhar, mas na prática permitindo que os EUA enchessem a campanha da oposição de grana e acabassem liquidando a fatura por meio das urnas. Todo o empenho dos revolucionários da primeira fase se esvaiu por conta dessa ilusão eleitoral - tema que acaba sendo atual também para a esquerda brasileira, muito 'bitolada' em eleições (mesmo escancaradamente fraudadas, como a presidencial de 2018) ao invés de apostar na mobilização das bases trabalhadoras populares.
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