As cidades indizíveis

As cidades indizíveis Roberto de Sousa Causo...


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Resenhas - As cidades indizíveis


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Cristiano Rosa 06/07/2012

Diário CT: As Cidades Indizíveis
Pela primeira vez, me aventuro pela ficção urbana. Nada de contos passados em reinos, castelos, e outros mundos imaginários. Com a antologia As Cidades Indizíveis é possível viagem às grandes metrópoles de gente e concreto que surpreendem, por vezes, mais do que um universo fantástico com seres mágicos. A tecnologia, a visão futurística, a cidade como protagonista de aventuras e dramas.

A obra, organizada por Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira, foi publicada no ano passado pela Llyr Editorial, e apresenta nove contos, espalhados pelas 180 páginas do livro. São os autores: Fausto Fawcett, Luiz Henrique Pellanda, Guilherme Kujawski, Ana Cristina Rodrigues, Roberto de Souza Causo, Octávio Aragão, Ronaldo Bressane, Fábio Fernandes e Luiz Bras.

O primeiro conto, chamado Galimatar, tem como personagens uma contadora de histórias e um ser imortal. A relação entre os dois começa com olhares e conversas, e vai até refeições e sexo. Explora o futuro relembrando acontecimentos do passado, usando bastante o prefixo “nano”. A segunda narrativa, Céu do Nunca, traz um escritor com bloqueio literário e portador do TOC – coleciona tudo quanto é livro, jornal e revista, em seu apartamento. Busca inspirações para seus escritos na cidade, em acontecimentos urbanos, viajando por várias situações e com diversas referências.

A história que segue, O Longo Caminho de Volta, narra uma revolta numa cidade-biblioteca, em que uma ex-moradora retorna depois de exilada para dar um grande ensinamento aos demais. O melhor conto do livro! A quarta trama, O Dia em que Vesúvia Descobriu o Amor, tem a cidade como personagem principal, com sua evolução, personalidade e encantos. Ela manifesta seus pensamentos e sentimentos ao mundo, age e reage a tudo, e no fim, é ganhar ou perder.

A narrativa seguinte, Harmonia, é a maior da obra. Talvez a mais encantadora e envolvente, contando a morte de uma prostituta e o objetivo se sua amiga em descobrir quem a matou, que tem a ajuda de seu gato e de um rapaz vindo uma cidade mágica subterrânea. O conto Primeiro de Abril: Corpus Christi é o sexto do livro, e com suas referências à literatura e à música, inicia com personagens reais e bem descritas, e depois apresenta caricaturas, misturando com outros elementos. A linguagem faz com que a leitura seja prazerosa, mas explicações ficaram subentendidas e deixaram muita coisa no ar.

O sétimo conto, Coletivo, mistura narração com descrição e dissertação. Em primeira pessoa, é um relato que questiona a individualidade, as dúvidas, os receios, e de tantas imagens que pulam aos olhos do leitor durante a leitura, chegam a deixá-lo tonto. A história seguinte, Mnemomáquina, se utiliza de vários palavrões e não diz muita coisa com sentido completo. Tem um ritmo acelerado e confunde o leitor, por muitas vezes já cansado da sequência. E a última narrativa, Cidade Vampira (entidade urbana), mostra suas personagens em uma trama policial em busca do El Diablo pela Tera Cidade. Em meio a vários lugares, o conto de longos parágrafos leva o leitor a uma viagem pela cidade que suga seus habitantes.

É o cotidiano visto por diversos ângulos, críticas sobre administração, organização, preservação e a própria urbanização. Mas preciso dizer que algumas coisas me incomodaram no livro, como a capa (pouco atraente), a diagramação – que podia ser mais elaborada e menos escura -, e o papel. Eu até gosto de uma folha mais grossa e amarelada, porém a montagem final do volume acabou grudando demais as folhas ao miolo e o folhear das páginas ficou difícil, pelo menos no meu exemplar.

O livro me surpreendeu, de maneira a mudar meu modo de pensar sobre o que seria a ficção urbana. Claro que não posso me basear só por ele para tomar a minha definição do gênero e dizer se gosto ou não, mas baseado na obra, afirmo que quero descobrir mais sobre esse mundo encantado logo debaixo de nossos narizes. É novidade para mim esse tipo de trama, por isso ainda não posso dizer uma opinião formada; isso só vou descobrir lendo mais obras do tipo.

Fonte: http://www.blogcriandotestralios.com/?p=17145
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P. M. Zancan 04/01/2012

As Cidades Indizíveis
"As Cidades Indizíveis" é um livro que li com atenção especial, não só por ter sido presente de uma pessoa muito especial , mas por englobar dois de meus assuntos preferidos: ficção-científica (Sci-Fi) e fantasia. É um livro com narrativas muito variadas, das mais simples às mais complexas, da linguagem mais trabalhada a mais coloquial, onde o único elemento em comum é a importância da cidade. Devido à sua variedade, pode ser difícil para um leitor se identificar com toda esta obra, mas, para aqueles que, como eu, gostam de Sci-Fi e/ou fantasia, é uma opção de leitura agradável.

(...)

Continua em:
http://ladyweiss.blogspot.com/2012/01/resenha-de-as-cidades-indiziveis.html

P. M. Zancan
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Josué de Olivei 26/09/2011

Labirintos urbanos, selvas fantásticas.
(Resenha originalmente postada no blog www.depositodedesatinos.blogspot.com)


Foi no Fantasticon, Simpósio de Literatura Fantástica ocorrido em meados de agosto, que “As Cidades Indizíveis” (Llyr Editorial, 180 páginas) chegou pela primeira vez as mãos do público, numa das estreias da Llyr, selo dedicado à literatura fantástica que opera como parte da editora Vermelho Marinho, aqui do Rio. O projeto da coletânea, que conta com a participação de alguns pesos pesados da ficção científica/fantasia brasileira, já rodava pelos bastidores há dois anos, até encontrar uma casa na recém-nascida editora, comandada pela carioca Ana Cristina Rodrigues. A organização dos contos ficou nas mãos de Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira.

São oito contos e uma noveleta que procuram trazer o fantástico, em maio ou menor grau, para dentro do ambiente urbano. As abordagens são muito particulares e o resultado final, bastante diversificado, flertando ora com a fantasia urbana, ora com a ficção científica cyberpunk, ora sabe-se lá o quê. Considerando como um todo, o livro me agradou, embora alguns dos contos tenham saído prejudicados pelo excesso de atenção dedicada à forma, com a história e personagens ficando em segundo plano.

Um a um:

Galimatar – Fábio Fernandes
O autor de “Os Dias da Peste” abre os trabalhos com um texto muito interessante, ambientado num futuro em que uma África utópica se ergue das ruínas de guerras e fatais erros da ciência. Em seu seio, uma nova Etiópia se estabelece como centro do mundo – uma “Etiópia Pop”, ou EtiPópia. O dinheiro foi substituído por um sistema de trocas conhecido como potlach, e nesse novo mundo é lá que as coisas acontecem.
Nesse cenário, conhecemos a Xamanesa e o Homem Azul, duas figuras enigmáticas que se encontram em meio à agitação da EtiPópia. Ninguém sabe quem é a mulher, de onde ela veio, qual é sua história; o homem está de partida para o espaço, juntar-se à procura de vida fora da Terra. A ação do conto consiste basicamente do contato entre ambos, cujo combustível é uma irresistível curiosidade mútua.
Cenário e personagens são apresentados de maneira fluida e bem construída. A narrativa se mantém interessante por toda a aura de estranheza que envolve a Xamaneza e o Homem Azul. A linguagem do autor é simples e de muito bom gosto. O conto se sairia um pouco melhor com um final menos corrido, mas não chega a comprometer. Uma boa abertura.

Céu do Nunca – Guilherme Kujawski

Um escritor solitário (de literatura fantástica, não por acaso) vai se tornando cada vez mais obcecado por uma cidade que só existe em sua mente.
E é basicamente isso.
O texto tem claras qualidades. Linguagem rica, um protagonista bem desenvolvido, reflexões interessantes acerca da criação literária. Mas a falta de conflitos deixa a coisa arrastada demais, e o desfecho para o qual a narrativa se encaminha me pareceu um tanto insatisfatório. A piração do cara em torno da cidade que vai surgindo em sua mente aos poucos é muito bem descrita, mas isso é praticamente tudo que o autor nos apresenta. Não é um texto que fique na memória.

O longo caminho de volta – Ana Cristina Rodrigues

Na trama, a exilada Clio volta para sua cidade natal, Biblos, a cidade-biblioteca. Protegida por uma magia que impede a entrada de forasteiros e preserva os livros das mudanças climáticas, a cidade vive de vender seu conhecimento para outros povos. Dez anos atrás, Clio fora banida como pena por suas intenções perigosas: libertar o conhecimento dos limites da cidade, desafiando, assim, o Conselho de Biblos e seu desejo pelo status quo. Pela Lei, a mulher tem direito a uma revisão em sua pena – mas os planos de Clio não envolvem esperar sentada por justiça.
O conto agrada pela atenção dedicada a trama e aos personagens, e a própria Biblos, essencial para que o leitor acredite no que está lendo. Os “bairros” se dividem de acordo com seções (Medicina, Feitiçaria, Astronomia), tal e qual uma verdadeira biblioteca. Outra boa sacada é o desprezo do Conselho pelo setor de Ficção, cujos moradores exercem funções menores na cidade, numa ironia interessante que demonstra bem como as coisas funcionam lá dentro.
Com bons personagens e uma boa história, a leitura flui com naturalidade, o leitor preso às páginas. O desfecho é particularmente bem pensado. Sem dúvida um dos melhores da antologia.

O dia em que Vesúvia descobriu o amor – Octávio Aragão

O menor conto do livro é também um dos mais interessantes, partindo de um plot que por si só merece atenção: uma cidade que um belo dia ganha vida, e mais, se apaixona por outra, pondo-se a se mover em sua direção, carregando tudo e todos que a compõem.
As descrições de Aragão criam um forte sense of wonder que faz com que o conto fique na cabeça ao término da leitura. Uma vez desperta, toda sorte de pensamentos passa a se desenrolar na mente de Vesúvia, e o autor traduz suas sensações de tal modo que a consagra uma das personagens mais marcantes da antologia.

Harmonia – Roberto de Souza Causo

Ao menor, segue-se o maior. A noveleta de Causo segue os passos de Sandra Matsugane, uma animadora de festas que tem a vida virada de ponta cabeça quando Mônica, amiga com quem dividia casa, é encontrada morta. A polícia rapidamente a associa com atividades de prostituição com as quais Sandra jamais sonharia que a amiga estivesse envolvida. A moça passa a investigar o caso por conta própria.
A noveleta corre completamente realista por um bom tempo, inserindo-se abertamente dentro do gênero policial, para ir aos poucos caminhado para dentro do fantástico e abraça-lo inteiramente do meio em diante. Todo o clima criado pelo autor no momento em que o real começa a ser tocado pelo maravilhoso é um dos pontos altos do texto. A parte policial poderia ter sido melhor trabalhada – a trama parece um tanto imprecisa em certos momentos, e o final corrida prejudica o todo –, mas quanto à fantasia presente na história, não há do que reclamar. O autor consegue como poucos na coletânea inserir o fantástico dentro do urbano. Juntamente com o da Ana Cristina Rodrigues, meu favorito.

Primeiro de Abril: Corpus Christi – Luiz Bras

(Quem já leu minha resenha da coletânea “Imaginários vol. 4” talvez estranhe, uma vez que há um conto com o mesmo título e do mesmo autor no livro da Draco. Sim, trata-se do mesmo texto – de certa forma. Aqui, o temos completo; lá, um trecho que faz sentido isoladamente, tendo por isso sido publicado no quarto volume da série.)
Quando a cidade de Primeiro de Abril ganha consciência e passa a agir independente da vontade dos humanos, um grupo de ciborgues precisa enfrentar a situação e tentar reestabelecer o controle. Se o fragmento publicado pela Draco já era bastante louco, aqui temos a visão completa da doideira.
Bras – pseudônimo de Nelson de Oliveira, organizador – imprime um ritmo bem peculiar à narrativa, conduzindo-a com linguagem cuidadosa, apostando na forma para seduzir o leitor. Consegue. Mas não fica só nisso, cria personagens divertidos e os coloca no meio de uma situação que gera interesse. O resultado final é satisfatório. Frustra um pouco o silêncio derradeiro do autor em relação a certos elementos da trama que vão sendo levantados só para não receberem uma explicação para sua relevância (como a questão do narrador, sua irmã e um certo roubo praticado por ela). Toda a piração habilmente narrada que vimos anteriormente compensa, mas só em parte.

O Coletivo – Luiz Henrique Pellanda

Dois narradores em paralelo, um homem e uma mulher, contam os lados de uma história que envolve cegueira, duas irmãs, um romance proibido e uma cidade que sobrevive do que morre no nosso mundo. Um conto arrastado, com personagens pouco calorosos e uma trama que parece se mover para lugar nenhum. Muitíssimo bem escrito, deve-se dizer, mas fora isso não apresenta nenhum grande atrativo ou elemento que gere interesse. Acabou não me chamando a atenção.

Mnemomáquina – Ronaldo Bressane

Um conto confuso, que acompanha alguns personagens numa São Paulo quase que inteiramente tomada pela água. Só é possível trafegar usando hovercrafts e veículos similares. Só conhecemos o narrador pouco antes da metade da história, e o pouco que sabemos sobre ele reflete o pouco que ele mesmo sabe sobre si. O tom irônico, coloquial, e a ambientação (que me pareceu flertar com o cyberpunk) decadente são as melhores coisas do texto. Fora isso, o que se tem são personagens que são inicialmente desenvolvidos para no fim das contas sumirem, sem que se esclareça sua relevância para a trama, e um desfecho artificialmente enigmático, apoiado na recusa do autor em oferecer respostas para as perguntas que desperta sabe-se lá por que razão. Frustrante.

Cidade Vampira (Entidade Urbana) – Fausto Fawcett

O conto que fecha a antologia é o que leva às últimas consequências a ideia de cidade. No universo criado por Fawcett, todo o planeta se converteu num enorme amontado urbano: a Tera Cidade Terra. Nesse contexto, uma seita de gnósticos espalha cadáveres por todos os cantos. Em sua crença, certos tipos de rituais conseguirão atrasar o juízo final, a descida do deus alucinado que criou a raça humana e nela incutiu o desejo pela urbanidade. Presos nas cidades, os homens não conseguem alcançar o conhecimento que os libertaria. Um antigo policial, El Diablo, que antes caçava gnósticos, enlouqueceu e passou para o lado deles. O tenente Amarildo e a psicóloga forense Rebeca o perseguem.
Trata-se de um texto difícil. Fawcett não tem freios: escreve numa espécie de semi-fluxo de consciência que faz surgir parágrafos que ocupam páginas inteiras. Sua linguagem é carregada de sarcasmo, e o texto é irreverente como um todo. Mas um pouco de comedimento não faria mal: a quantidade de vezes em que o autor repete a mesma informação (por vezes aquela que dera algumas poucas linhas antes, já perfeitamente entendida pelo leitor) chega a irritar, assim como sua inclinação a repetir palavras (pensei em contar quantas vezes Fawcett usa alucinado, mas desisti). O conto acaba ficando muito preso numa coisa só, e há pouca ação. Ainda assim, trata-se de um texto interessante, principalmente o final.

É isso.
Boas leituras.


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Lucas Rocha 14/09/2011

Invisíveis. Indizíveis. Inesquecíveis.
O ano de 2011 trouxe muitas novidades e, entre elas, a criação de um novo selo editorial em solo tupiniquim especializado na publicação de fantasia, ficção científica e terror. Trata-se do selo Llyr Editorial, encabeçado pela escritora – e agora editora – Ana Cristina Rodrigues, dentro da editora carioca Vermelho Marinho.

‘As Cidades Indizíveis’ (180 p.) foi o primeiro livro do selo Llyr que veio parar em minhas mãos. E a primeira impressão foi ótima. Antes de começar a resenha, quero parabenizar o trabalho gráfico da editora, que está de parabéns tanto na diagramação quanto na revisão e capa.

Mas tratemos de conteúdo, porque quem vive de forma é modelo.

O fato que mais me chamou a atenção ao comprar o livro foi o de se tratar de uma coletânea de fantasia urbana. Não é um subgênero de fantasia que tenha muitas publicações nacionais e, por ser um dos assuntos que mais me interessa dentro desse nicho, não pude perder a oportunidade de lê-lo. O prefácio já nos prepara para uma viagem pelos mais diferentes tipos de cidades que se pode imaginar: futuristas, tradicionais, bucólicas, violentas, secretas... o leque que os nove contos trazem ao leitor é imenso.

Tenho que admitir que senti um impacto ao terminar de ler o livro. A princípio, fiquei um pouco decepcionado com o fato de não ver criaturas soturnas ou seres sobrenaturais andando entre os seres humanos, assustando-os e vendo-os como seres inferiores. No entanto, ao analisar melhor a obra, vemos que os personagens principais das histórias não são aqueles que trafegam pelas cidades; os protagonistas, em grande parte dos contos, são as cidades em si: suas reentrâncias e seus becos, suas vidas, persistência e eventual morte para que se renove.

Dentre os contos que compõem o livro, destaco "Galimatar", do organizador Fábio Fernandes; “O Longo Caminho de Volta”, de Ana Cristina Rodrigues; “Harmonia”, de Roberto de Sousa Causo; “Primeiro de Abril: Corpus Christi”, de Luiz Bras; e “Céu do Nunca”, de Guilherme Kujawski.

O conto de Fábio Fernandes, "Galimatar", se passa em uma cidade futurista, onde as línguas se tornaram tantas e tão confusas que a única forma de se chegar a algum consenso é através da linguagem da culinária. Gostei do tipo inusitado de linguagem e do tom pop dado ao conto. A cidade em si é uma miríade de luzes e sons, e os personagens principais são tão estranhos quanto a própria cidade. Talvez um reflexo da loucura urbana, ou produtores da loucura que a cidade é. Uma bela forma de começar a antologia.

O conto de Ana Cristina Rodrigues é, talvez, o mais divertido e dinâmico da antologia (esse e “Harmonia”, tenho que admitir, foram os meus preferidos). Se ambienta em uma cidade-biblioteca, onde a magia distancia as chuvas e umidade e um grupo de bibliotecárias tradicionalistas não permite que o acervo seja utilizado pela sociedade (qualquer semelhança com uma biblioteca NÃO É mera coincidência). Depois de anos exilada por ideias contrárias às das bibliotecárias, Clio volta até a cidade com o intuito de tentar reconstruir os pedaços da vida que deixou para trás. A personagem é bem construída e o desenlace da história termina de forma satisfatória.

“Harmonia”, de Roberto de Sousa Causo, é o maior da antologia. Conta a história de Sandra, uma animadora de festas que se vê envolvida com a resolução do assassinato de uma amiga. É um conto com ritmo de história policial, mas que, pouco a pouco, vai tomando ares de fantástico até culminar em uma explicação sobrenatural. O que gostei desse conto foi o fato da personagem ter tempo de sentir raiva, luto e curiosidade pela vida da amiga, e vasculhar tudo o que pode com a obstinação de uma detetive. O gato Chatran dá um charme especial para a história, e serve muito bem de ponte entre o real e fantástico.

“Primeiro de Abril: Corpus Christi”, de Luis Braz, conta a história de uma cidade repleta de personagens interessantes. É um conto rápido, que fala sobre sociedades secretas, códigos binários e a cidade em si, que muda à medida que seus atores principais exercem atos que a transformam. Com alcunhas como “Gato de Botas”, “Chapeleiro Louco” e “Penny Lane”, os personagens principais talvez funcionem como coadjuvantes do exercício de modificação da cidade, esse sim o tema central da história.

“Céu do Nunca”, de Guilherme Kujawski, é escrito em fluxo de consciência. É um conto obsessivo, de um homem que está fascinado pela cidade e vê imagens fantásticas desdobrando-se aos seus olhos. É aquele tipo de conto que parece refletir a mente do indivíduo e fica no limiar entre a loucura e a sanidade; eu, particularmente, gosto quando um conto é escrito nesse ritmo, quase como se nos obrigasse a deixar de pensar para presenciar os pensamentos – às vezes incoerentes, mas sempre inteligentes – do protagonista.

Ao terminarmos de ler “As Cidades Indizíveis”, percebemos que nossa leitura passa por diversas cidades e visões em um número pequeno de contos. São metáforas de nossa própria existência dentro das cidades e a relação que passamos a estabelecer com ela. Loucura, clausura, raiva, dúvida... todos esses sentimentos estão retratados nesses nove contos. As cidades são extensões de nossa loucura e nossa visão do fantástico, provando que, mesmo construídas com pedra e cimento, elas ainda podem nos fascinar.
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