O Estrangeiro

O Estrangeiro Albert Camus




Resenhas - O Estrangeiro


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Arsenio Meira 26/11/2013

Mersault no século XXI

Curto e acachapante, O estrangeiro é o primeiro romance de Camus. (Penso em Augusto dos Anjos, que ainda imberbe escreveu os famosos Versos Íntimos aos 17 anos!)

Conta a história de Mersault, homem de vida aparentemente previsível, funcionário mediano, de pouca conversa, sorumbático (como diria Machado), cultivador de relações esporádicas, que mora em Argel. Camus destila uma narrativa seca em primeira pessoa, e nos revela, desde o primeiro instante, o alheamento do personagem, fixado no desapego à vida, aos valores da sociedade e ao seu próprio cotidiano e destino.

Relendo-o pela terceira vez, posso assentar que a sensação de impacto permanece inalterada. Impressionante a destreza literária de Camus; a maneira como constrói o protagonista. Sua alienação e estranheza poderia desnudar um universo artificial e inverossímil, mas o Argelino o faz parecer perfeitamente natural. A espontaneidade do discurso de Mersault lhe dá vida e consistência. Mersault não sofre ou se encanta.

Começa seu relato soltando , de bate pronto, um pontapé na olhar do leitor: (Mamãe morreu hoje. Ou talvez ontem, não sei). Segue sua vida sem sobressaltos: relaciona-se com Marie com certa indiferença (se ela quiser, ele casa; senão quiser, um dar de ombros é o máximo que se traia dele); aceita as propostas do patrão sem nenhum muxoxo (vai para Paris, se ele assim o designar; se não fica tateando o invisível em seus recantos, e estamos conversados); participa da vida dos vizinhos sem maior emoção (ajuda o macho Raymond, o velho Salamano como quem conserta automóveis).

Um dia, envolvido involuntariamente nas brigas de Raymond, Mersault acaba por cometer uma atrocidade, em plena praia, com sol a pino, no desnorteio do calor, da luz do sol e de sua própria insensibilidade moral. Desse fato, desencadeia-se seu julgamento, no qual ele enfrenta uma penca de juízes, procuradores, testemunhas; parece que o mundo inteiro quer sua jugular. E no julgamento a pena máxima é a pena de morte.

A história de Mersault, durante o julgamento e a prisão, é a de uma ligeira autodescoberta, de uma gradual autoconsciência, que não chega a anular, no entanto, a sua condição de estrangeiro aos outros e aos valores sociais em geral. Porém ele acaba menos insensível à vida, afinal o homem não é um monstro; um pequeno idílio saudoso desponta dos seus olhos, como o amor por Marie, o súbito carinho por Céleste, dono do bar e velho conhecido. Mas o comportamento e os pensamentos ainda persistem, são de alguém estranho às coisas da vida. Como todos estão carecas de saber, "O Estrangeiro" é um típico romance existencialista, como A Náusea, de Sartre, onde o vazio do personagem (e a imotivação de suas ações) é o tema principal.

Além de ser uma enxuta reflexão sobre o alheamento, O Estrangeiro trata ainda, filosoficamente, do confinamento e da pena de morte. Camus nos fala da relatividade de ser um acusado: a memória ou uma fresta de luz ou de céu podem dar mais liberdade do que a aparente liberdade da vida social. Eu, cá do meu lado, não estou muito seguro disso...

Quanto à pena de morte, em poucas e certeiras linhas, ele destrincha a inexorabilidade do destino do condenado, em contraste com a imprevisibilidade de uma hipotética condenação no momento do julgamento. Duas lógicas distintas, uma a da inevitabilidade, outra a da contingência.

Não deixa de ser uma obra que exala tristeza. E seu enredo tem seus pontos alegóricos e proféticos: as pessoas do século XXI, embora conectadas e deslumbradas com isso, continuam adeptas da nefasta "ideologia" do "Vem a nós e ao vosso reino, nada"; estão cada vez mais individualistas, narcísicas, e solitárias.

Agora esporadicamente se renuem em passeatas, protesto mil (alguns vão única e exclusivamente para postar fotos suas no face, twitter e o diabo a quatro, querendo provar sei lá o que e para quem). A despeito desse mundo interligado, voltam sozinhas pra casa. Estrangeiras em seus próprios trilhos. Alguns percebem e pulam fora; outros permanecem alheios até o fim.
Renata CCS 26/11/2013minha estante
Que resenha perfeita, Arsenio! Você escreve de uma forma que é um convite à leitura!


Arsenio Meira 26/11/2013minha estante
Renata, obrigado! Te mandei uma mensagem.
Ps - onde se lê: "(se ela quiser, ele casa; senão quiser, um dar de ombros é o máximo que se traia dele);" leia-se: "(se ela quiser, ele casa; senão quiser, um dar de ombros é o máximo que se extrai dele);


Alisson 18/03/2014minha estante
Resenha magnífica!


Arsenio Meira 18/03/2014minha estante
Valeu, Alisson. Camus - em pouco mais de cem páginas - escreveu uma obra tão fundamental, que daqui a dois mil anos, se Terra ainda houver e ser humano idem, o romance continuará clássico, continuará sendo lido, debatido e admirado. Abraços!


Ulisses 15/02/2015minha estante
otima resenha arsenio!


kitsune 11/01/2016minha estante
gostei bastante da sua resenha mas, talvez por ser meio limitada ao entendimento da profundidade das obras clássicas, eu achei q o livro deveria se chamar "o psicopata". talvez fosse chamado assim se fosse escrito hj em dia, acredito q na época esse termo ainda não existia...mas foi exatamente o q me passou. mersault, pra mim, é pura e simplesmente um psicopata, lembrando q nem todo psicopata sai matando a torto e direito, normalmente eles são assim, alheios à realidade...desprovidos de sentimentos, tanto faz como tanto fez...


Maura 12/04/2017minha estante
adoreeeeeeeeeeeei




Myilena 08/01/2012

A elaboração limpa e enxuta, nua e crua, sem uso de minúncias quanto à escrita, com frases que parecem ter sido moldadas pelo silêncio de Meursault, declara a criação de Camus de um mundo absurdo, completamente alheio às preces dos homens. Desconhecendo esse absurso, a personagem principal recusa-se a aderir os jogos dados pela sociedade, sendo então, para todos os demais, um estrangeiro, assim como todos os outros eram estrangeiros para esse.
A vida conturbada do argeliano que presenciou conflitos, que teve inúmeros problemas familiares e que viveu de perto a miséria talvez nos afaste do universo individual de Albert Camus, em especial, dessa dita sua principal obra. Porém a universalização da obra é evidente. Os aspectos sentimentais fizeram pairar aqui um existencialismo (ainda que de alguém que tenha nadado contra a corrente existencialista em seu momento de ápice, não aceitando o partido comunista) junto a uma descrença na sociedade atual que é, na realidade, a esperança de uma visão com menos "estrangeiros". A sociedade fez de Meursault um peixe fora d'água.
Raul 22/11/2012minha estante
Condenado não pelo crime, mas sim por não ter chorado no enterro da mãe...


Baixando 13/04/2013minha estante
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Ronnie K. 27/03/2009

Mersault, o homem que não estava lá
Há variados motivos para gostarmos daqueles livros que mais nos envolvem e emocionam. Em geral eu gosto dos livros que me tocam pela beleza do estilo, da escrita. O tema em si, a história, quando pode (na minha opinião até deve) ser suplantada pela musicalidade e pelo ritma da escrita em si já considero um feito e tanto. Também podemos amar muito um livro por causa do personagem, independente da escrita e do tema. A qustão é complicada e muito subjetiva. Esse "O estrangeiro" é um livro misterioso para mim. Tem um estilo pobre (já me irritei seriamente com suas frases curtas!) e quase não há enredo. Entretanto, ao longo da vida já o li três vezes, em épocas diversas. Ora amando-o, ora odiando-o. Como explicar essa relação conflituosa, e esse fascínio que esse livro exerce em mim? Definitivamente é pela identificação com o protagonista. Camus tocou num ponto chave e criou um dos mais notáveis personagens de toda a literatura ocidental. O protagonista reprenta muito mais do que o fastio, o tédio e a indiferença causadas pela modernidade. Mersault, o protagonista, representa o próprio estupor e espanto diante de uma existência completamente sem sentido, imprevisível, regida pelo absurdo das relações dos indíviduos entre si, dos indivíduos perante o Estado, do indivíduo, repito, perante a própria vida. E chega a impressionar como é um livro tão fácil de ler!
Nathallia 29/04/2012minha estante
Gostei do que disse!

Tão sucinto como o livro, mas se possível e se não for indiscreto, poderia me contar mais sobre as três vezes que leu e porque amou ou odiou?

Boa noite


Baixando 13/04/2013minha estante
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spoiler visualizar
Clara K 16/07/2014minha estante
Parece ser um livro fascinante. Vou procurar esta leitura, sem dúvida.


Dirce 18/07/2014minha estante
Oi Clara,
Na verdade, é um livro precioso.




Marcos 17/07/2009

O livro "cult"
Podem me chamar de ogro, insensível, mas achei este livro uma porcaria. Um cara que mata o outro a troco de nada, não liga para ninguém, uma história banal, que nada me acrescentou nem em termos de diversão, nem de conteúdo. Li até o fim pelo simples fato de esperar que a impressão que tinha formado desde as primeiras páginas pudesse mudar.







Dramas, todos têm na vida. Não entendo como alguém pode idolatrar um livro cujo conteúdo nada tem de mais importante do que qualquer história de vida que vemos por aí. Considero que seria muito mais produtivo pegar uma pessoa ao acaso e perguntar sobre sua vida do que ler algo tão banal como esta estória. Nem mesmo o estilo de escrita do autor me impressionou, não vi nada de mais. Aliás, vi sim, mas de menos: me pareceu retratada a famosa xenofobia francesa, especialmente em relação ao povo árabe.







Que me desculpem os fãs ardorosos do livro, tive que baixar a média dele. Uma estrela foi muito.







almeidarenato91 12/05/2011minha estante
Eu ri.


caioamce 18/06/2011minha estante
Entenda que Camus quis transmitir a essência de um tempo marcado pela indiferença e o protagonista é o estereótipo exagerado dessa idéia. Ele teve muito sucesso em retratar esse panorama. O Estrangeiro é uma obra prima e um dos maiores expoentes dessa filosofia. Você não passou do sentido literal do texto nem contextualizou o livro com sua época por isso não conseguiu entender o real sentido do livro.


Marcos 18/06/2011minha estante
Oi, Caio. Bem, você foi o primeiro que fez uma crítica construtiva, resolveu tentar defender o ponto de vista do autor, em vez de simplesmente torcer o nariz, dizer que o livro é "bom" e que eu apenas "não teria entendido", ponto para você nesse sentido. Eis minha réplica.

Sim, contextualizo o livro com sua época e entendi a sua essência. E continuo achando banal. Eu digo que Camus tem toda essa pompa de "grande escritor" justamente por causa da época, é superestimado porque é francês, sofreu os horrores da guerra e porque o existencialismo estava em voga, não porque sua obra é realmente grandiosa.

Para um autor ser considerado realmente grandioso, ele precisa ir muito além do que simplesmente retratar o espírito presente na sociedade da época. Isso não é lá muito difícil de fazer, uma vez que você também é parte daquela sociedade. O autor precisa acrescentar algo ao leitor com seu texto. Camus não me acrescentou absolutamente nada. E posso mostrar bem o que é um livro que trata de assunto semelhante, escrito numa época bem próxima e que é realmente brilhante: A Montanha Mágica, de Thomas Mann. O autor reconstroi a sociedade da época dentro de um sanatório. Então não só ilustra bem o que foi a época, como seus personagens são realmente vivos. Não são 200, 300 páginas de indiferença. São quase mil de diálogos riquíssimos, teorias sobre diversos assuntos, análises e uma crítica muito boa sobre o panorama. Camus é o aluno que responde a uma pergunta na sala de aula e Mann foi o professor que deu a aula completa.

Então como estou acostumado com autores como Mann, Dostoiévski, Hesse, Huxley, aqueles que realmente dissecam as questões e não são "autores de um tema só", eu acho que Camus é medíocre. Li o livro com expectativas altíssimas e não vi nenhum diferencial. A crítica acima é ao melhor estilo de Nietzsche, é ácida, feita para chocar, para sacudir as pessoas dessa idolatria e fazê-las parar pra pensar: "será que esse livro é isso tudo mesmo ?". E assim como Nietzsche não foi compreendido por muitos e na sua época foi um debochado maluco, que parecia não entender aquilo que criticava, muita gente acha que eu não entendo. Para você, que se deu ao trabalho de comentar, eu explico.

Abraços !


caioamce 24/06/2011minha estante
Surpresa. Não imaginava que ia receber uma resposta quando fiz o primeiro comentário. Mas foi uma surpresa boa já que agora você bem mais completo e usou bons argumentos. Eu entendi agora seu ponto de vista e até concordo. Uma vez uma amiga disse coisa parecida.

Não li Mann, li apenas um livro de Dostoiévski e realmente entendo que pode haver uma disparidade em relação ao valor literário entre os dois, mas isso não diminui a obra de Camus.

Talvez você tenha lido com uma expectativa muito grande e com um grau de exigência alto e por isso se decepcionou tanto, enquanto eu tive a sorte de ler desprovido de qualquer preconceito.

Além disso um livro ganha um valor extra dependendo de quem o lê, até pela temática, que pode agradar mais ou menos, mas principalmente pela interpretação única que cada leitor dá ao livro de acordo com sua experiência de vida.

Infelizmente me identifiquei um pouco com Mersault e desde o começo o livro se revelou como parte do meu mundo. Então é claro que pra mim ele tem mais valor que pra você, independentemente do valor literário. Ainda sobre a classificação do livro, o calor da decepção pode ter atrapalhado um pouco teu julgamento, afinal, uma estrelinha solitária é um castigo muito grande, não?

Abraço.


Nathallia 30/04/2012minha estante
Olá Marcos, sou um leitora iniciante e gosto de opiniões de quem gostou e de quem não gostou. Quando todo mundo gosta de alguma coisa e ninguém grita: isso é uma merda! eu começo a acreditar na teoria da conspiração e que alguém tá querendo fazer lavagem cerebral. Não conheço Thomas Mann, e pelo jeito você deve gostar da obra dele. Qual você me indicaria para ler, que fosse bom pra começar.

Abraço Nathallia


Marcos 30/04/2012minha estante
Oi, Nathallia. Pois é, viva à diversidade de opiniões, fico satisfeito quando as pessoas entendem isso. Quanto a Thomas Mann, eu li A Montanha Mágica e comecei a ler Doutor Fausto, ainda não terminei. Você pode dar uma lida na resenha que escrevi sobre aquele livro.

Não sei se você é realmente iniciante ou está sendo modesta. Mas se ainda está se aprofundando na literatura, na minha opinião nessa fase autores como Orwell e Huxley te servirão melhor. A escrita é mais agradável sem perder em conteúdo. Livros como 1984 e Admirável Mundo Novo vão te agregar muito sem parecerem chatos. O mais importante em qualquer hábito ou aprendizado é manter a motivação em alta no início, pois é a fase em que muitos desistem. Deixe Mann pro futuro, quando você estiver com necessidade de mais complexidade. Você vai saber quando esse momento chegar.

Ainda assim, se quiser ler Mann, acho que A Montanha Mágica é o livro mais "popular" dele. Um amigo leu "Carlota em Weimar" e não gostou nada.

Abraços.


Mey 29/06/2012minha estante
Oi Marcos. Confesso que quando li sua resenha achei ácida demais. Mas lendo a réplica que vc fez ao Caio compreendo o seu ponto de vista.
Pessoalmente, achei o livro apenas interessante, terminei a leitura com aquela sensação de que falta algo à mais.


Marcos 29/06/2012minha estante
Pois é, Mey, mas a ideia de uma resenha ácida, polêmica, é justamente tirar as pessoas da zona do conforto, fugir do clichê, abordar de uma forma diferente e chamar para participação (nem que seja pela indignação). Senão, fica aquela coisa de lordes tomando chá inglês. Acho que de certa forma fui bem sucedido nisso. Se tivesse feito uma resenha escrevendo diretamente o que escrevi para o Caio, talvez a mensagem passasse despercebida. Abraços.


Baixando 13/04/2013minha estante
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RICARDO 26/06/2013minha estante
Fantástico Marcos, também achei medíocre, não vi nada de mais e fiquei com vontade de ler a montanha mágica, O Estrangeiro passa longe de ser um clássico, não entendi a fixação de Sartre nesse livro, não conheço muito de Sartre, li dele apenas Sursis e fiquei me perguntando porque teria ele gostado do Estrangeiro. Parabéns, não consegui postar aqui minha resenha mas comecei esses dias um blog meio particular pra colocar resenhas http://atormentandoautores.blogspot.pt/ é mais ou menos o que vc disse e critico também a introdução e as comparações ao Hemingway ao Kafka etc. Abraço


Chay 21/03/2014minha estante
Eu também não simpatizei pelo personagem, o cúmulo do que é ser vazio, achei ele um porre, o estilo de escrita do Camus não me ganhou também.
Mas gostei do livro por razões especiais.


punished_luke. 11/06/2018minha estante
Resenha honesta ~as fuck~. Gostei.




Tito 22/06/2010

O retrato definitivo da mais plena apatia moral, da mais sincera e cordata anemia de espírito, da mais profunda indiferença frente à vida, na breve história da queda de Meursault, um homem estranho a quaisquer sentimentos, para quem tudo, simplesmente, pouco importa ou tanto faz. Um livro necessário e impressionante, a ser relido inúmeras vezes.
Mariana. 06/08/2010minha estante
Ave, Tito! Gosto tanto tanto do seu poder de concisão. Perfeito. ;)




Sergio Carmach 12/05/2015

A sociedade toma por base o sistema de crenças e as manifestações exteriores de um indivíduo para julgar seu caráter, intenções e sentimentos.

A despeito das inúmeras e profundas análises já feitas a respeito desse livro, eu diria que O Estrangeiro basicamente afirma a frase acima.

Alguns dizem que esse livro é superestimado; outros afirmam que é uma das melhores obras já escritas. Bem, eu gostei. Bastante até! Não porque a história é aclamada, mas porque ela, de forma interessante e inteligente, leva o leitor a fazer indagações relevantes. Eu me perguntei: é um homem como o protagonista Mersault que se faz estrangeiro ou é a terra que se faz estranha a ele? Quem precisa compreender quem? Seria Mersault um ser insensível ou simplesmente sereno frente à vida? Na verdade, insensíveis não seriam as sociedades, acostumadas a esmagar os indivíduos sob seus padrões e convenções?

O livro se divide em duas partes. A primeira é essencialmente uma narrativa factual; e o leitor pode até se sentir lendo um relatório. Mas, seja como for, nada ali é dito à toa. Cada mínimo movimento de Mersault e cada situação vivida por ele serão lembrados e analisados na segunda parte, trecho do livro onde o leitor encontrará a “ação” da história e o espírito filosófico de Camus.

"Darei a prova do que afirmo, meus senhores, e dá-la-ei duplamente. Sob a crua claridade dos fatos em primeiro lugar e em seguida sob a iluminação sombria que me será fornecida pelo perfil psicológico desta alma criminosa", disse o procurador encarregado da acusação de Mersault. Em A Peste, Camus expôs precisamente, na voz do padre Paneloux, a forma (torta) de pensar dos cristãos diante das calamidades; do mesmo modo, o autor soube, em O Estrangeiro, traduzir perfeitamente a maneira de raciocinar da Justiça e da sociedade quando confrontadas por personalidades como a de Mersault. Acompanhar a lógica acusatória do procurador é uma satisfação para o leitor, mesmo que ele discorde do que diz o personagem. No julgamento fica claro que às vezes a verdade pode, sim, parecer ridícula; tão ridícula, que soa irreal, absurda.

Nas últimas páginas, surge o velho conflito entre razão e religião; no caso, entre materialismo e espiritualismo. A meu ver, outro ponto alto de um livro que, independentemente de ser ou não genial, vale muito a pena ser lido.

site: http://sergiocarmach.blogspot.com.br/2015/05/resenha-o-estrangeiro.html
Douglas 19/07/2019minha estante
muito bem observado, Sergio.
o livro é interessantíssimo. confunde, instiga e provoca.
e cabem muitos questionamentos acerca da vida de Mersault... pra tudo existe uma causa.




Marcia Cogitare 14/02/2014

Gostei do estilo de escrita, uma escrita clara e veloz. Esta narrativa revela um retrato exato da interioridade e cosmovisão do homem contemporâneo, onde os valores existem, mas sem nenhum peso em sua realidade cotidiana, então o que resta é a frase letárgica tantas vezes entoadas no percurso de todo o livro:
"Tanto faz"


Releitura

Nesta releitura o livro ganhou mais uma estrela, li acompanhado de a náusea do Sartre. O Estrangeiro é a antessala da náusea.
George Facundo 15/03/2011minha estante
Siscinto, direto e verdadeiro sua resenha! Concordo com vc!




José Ricardo 31/07/2013

A Filosofia do Absurdo...
O livro é narrado na primeira pessoa do singular pelo personagem principal, Meursault. A história inicia quando Meursault recebe um telegrama informando sobre a morte de sua mãe. Ele vai ao sepultamento, mas não expressa abalo emocional, tanto que, ao ser questionado por seu patrão sobre a idade de sua mãe, responde: "uns 60 anos". Não bastasse isso, no dia seguinte ao funeral, Meursault inicia um relacionamento com Marie, ocasião em que tomam banho de mar e vão ao cinema, assistir uma comédia.

Meursault leva uma vida comum. Trabalha em um escritório qualquer, tem amigos superficiais, hábitos banais; enfim, vive imerso num quotidiano sem questionamentos de ordem existencial. Ou, como ele mesmo diz: "perdera um pouco o hábito de interrogar a mim mesmo".

A despeito disso, em certa ocasião, de repente se vê envolvido em um crime na praia. O fato resulta em sua prisão e no curso do processo ele não sabe ao certo o que está ocorrendo. Afinal, não entende nada sobre Direito e, por conta disso, naquele ambiente hermético é como se fosse um estranho; um "estrangeiro". Está à sorte da empatia e benevolência de seus semelhantes, os quais, por sua vez, demonstram uma postura muito mais para o individualismo do que para o solidário.

Vale destacar, dentre várias, a passagem em que o juiz reconhece em Meursault o próprio anticristo apenas por ambos não seguirem as mesmas convicções religiosas...

Interessante, também, a fala do jornalista, que fazia a cobertura do caso, quando se aproxima de Meursault e diz: "sabe, tivemos que aumentar um pouco o seu caso. O verão é uma época morta para os jornais. As únicas histórias que valiam alguma coisa eram a sua e a do parricida."

Como se percebe, a obra é repleta de leituras nas entrelinhas, além de ser compatível com a chamada filosofia do absurdo, da qual Camus era adepto.

Para a filosofia do absurdo a vida não tem sentido algum. As pessoas é que buscam sentido nas coisas para aliviarem o sofrimento humano. Mas a vida é só a vida e nada mais. O ser humano, no fundo, não sabe de onde veio, para onde vai ou o quê está fazendo aqui. O ser humano é um "estrangeiro" no mundo e vaga ao acaso e a sorte dos mais variados e aleatórios acontecimentos, os quais não compreende ou detém controle. Não bastasse tudo isso, este mesmo ser humano ainda tem que conviver com seus semelhantes, o que torna a vida ainda mais difícil do que já é.

Albert Camus nasceu na Argélia - e não na França - e recebeu prêmio nobel de literatura por seu legado. "O Estrangeiro" é um livro curto em palavras, mas denso de significados. A dificuldade em compreender seu significado reside em sua própria ausência de significado, assim como ocorre em relação à vida. Este, portanto, é seu maior significado. Neste aspecto, Camus é coerente com seu pensamento: a filosofia do absurdo...
Pedro Sanches 21/09/2013minha estante
É realmente um ótimo livro, e parabéns, adorei a resenha.




Gláucia 04/07/2014

O Estrangeiro - Albert Camus
O livro é sempre citado quando se fala de inícios contundentes. Logo na primeira frase percebe-se que Marseaul não é exatamente igual a todo mundo, não se deixa abalar pelos motivos convencionais, como por exemplo a morte da própria mãe.
Lembrei-me também dos livros de Kafka, pelo absurdo das situações vividas pelo protagonista, mas principalmente, pela forma com que ele as vive e esse jeito rendeu momentos divertidos de leitura.
A narrativa é sucinta e enxuta, mas do tipo em que nenhuma palavra é desperdiçada, cada frase tem valor reflexivo.
Amei o livro e pretendo reler em alguns anos. A capa da Record é perfeita, quem leu conseguirá ver todo o sentido nessa imagem enquadrada.
Marseault, assim como Camus, era um estrangeiro. Marcado pelo calor e pelo tédio.

site: https://www.youtube.com/watch?v=EALIg7hKZqc
Dirce 08/02/2014minha estante
"Tropecei inúmeras vezes com esse livro, mas nunca pensei em lê-lo. Sua resenha e as frases que você citou no histórico da leitura despertaram meu interesse.
Abraços


Gláucia 10/02/2014minha estante
Dirce, esse livro me surpreendeu positivamente, não esperava muito dele e talvez por não ter criado muita expectativa acabei amando. E você vai descobrir muito rápido se vale ou não a pena lê-lo, a narrativa flui. E é o tipo de livro que fala mais que as palavras que contém, me senti muito tocada por ele. Obrigada por comentar.


Walaceboto 23/04/2015minha estante
O Livro muito bom, também associe a Kafka. Senti os mesmo sentimento de quando li o contos do Kafka.




Fernanda :) 31/07/2010

Apesar da leitura rápida e simples, é um livro profundo e filosófico, que analisa o comportamento humano na sua essência, em contraste com o que é esperado do ser humano perante seus semelhantes. É o sentir X agir, a obrigação de se encaixar na sociedade que critica, julga, e condena. A indiferença e frieza que caracteriza o personagem principal é tamanha que nos desperta sentimentos ambíguos, fica impossível sentir raiva ou simpatia, nos levando a refletir sobre a origem das emoções e sentimentos, e no exagero ou falta dos mesmo.
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ElisaCazorla 04/08/2015

Qual a diferença entre o cachorro e a mulher que são surrados?
Este livro me atormentou um pouco...ou muito, não tenho certeza. Ainda estou digerindo. No início do livro senti uma certa aversão pelo protagonista, depois senti vergonha por ter me sentido assim com relação à ele. Depois fiquei buscando sentir empatia ou criar algum laço e quando não consegui nada disso me atormentei e me perguntei por que não era possível. Ao final, me deparei com um espelho terrível e com um conflito: a vontade de ser como o protagonista e o pavor de ser como ele. Acho que terei que ler esse livro mais vezes para que ele não persiga meus pensamentos.

Uma obra prima que deve ser lida com cuidado.
Carol Montezuma 04/08/2015minha estante
Merecia mais uma estrela, vai... ; )


ElisaCazorla 04/08/2015minha estante
Coloquei 5 estrelas =] você tem razão =]


Catia.Rissardo 30/08/2015minha estante
Eliza, faço das suas palavras as minhas. Sem tirar nem por.


gs 03/10/2015minha estante
Eu me senti um pouco atormentada também! Parece que todos em algum momentos somos igual o protagonista só não nos damos conta.
Depois de ler este livro eu fiquei algum tempo com aquela sensação de desconforto; mas vale a pena parar pra refletir.




nanda 31/07/2009

a natureza fria se abala ao calor
a vida do ponto de vista de meursault corre limpa, livre, branca, clara.. não há contraste, nem saturação. no entanto, meursault não está adormecido, suas características são sim, latentes, mas extravasam no sensorial. tem plena impressão do que o corpo sente, o calor, a dor nas fontes, os ouvidos a latejar,('...deixei a janela aberta e era bom, sentir aquela noite de verão escorregar ao longo dos nossos corpos morenos...'). age como sente.

alheio ao sistema, a naturalidade de seus atos dão base as respostas sinceras, atitudes de reflexo, instinto. camus a todo momento descreve as sensações vividas pela personagem, esta personagem que mais é sentida à descrita.

o sentimento de claustrofobia é palpável na segunda parte do livro, principalmente no trecho da visita de maria à prisão. apesar de frases secas e diretas (porque narradas pela personagem aparentemente simples), o que esconde em suas impressões são de total percepção do que está fora de si.

a personagem vaga por entre seu destino, não indiferente, em minha opinião, mas como espectador de situações e nada mais. sua presença de plateia na própria história. presente mas distante. distante de seu destino.

a primeira noção de realidade, do poder de se dirigir a vida, foi despertado ao ser lhe dada a sentença, ('...evidentemente nem sempre nos podemos manter razoáveis.'), este controle aqui se quebra, para enfim, descobrir-se o protagonista.



camus escreve com elegância esta 'vaga' estória.
Douglas 19/07/2019minha estante
muito bom




Andre 14/06/2009

Fascinante
Este autor não me traz muitas boas lembranças, mas mesmo assim sempre quis ler um livro dele, principalmente este, talvez o mais comentado. Tinha me esquecido de o ter lido, mas esses dias acabei me lembrando e peguei com um amigo para ler.

No começo, achei que o livro iria me enrolar pelo resto das páginas com aquela história. Só que todo mundo falava muito bem desse livro, ou seja, tinha que haver algo que mudasse totalmente o rumo do livro. E houve. O assassinato inesperado mudou, deu uma reviravolta total no livro. Eu nem imaginava que isso iria acontecer. Eu pensava que ocorreria algum caso de amor proibido e que o personagem morreria por causa disso. O que aconteceu foi muito mais grandioso, mesmo que não houvessem motivos para que o protagonista matasse o árabe. Foi o sol, como ele mesmo disse.

A parte em que ele está no tribunal e a sua discussão com o padre é algo que nunca esquecerei, principalmente a segunda. E ele foi até muito paciente com o mesmo. Eu já o teria mandado ás favas há muito tempo.

Algo que achei muito interessante foi o fato de que a acusação estava não julgando o crime, mas o fato dele ser o culpado pela morte da mãe. Eles se usavam sempre dessa premissa, de que mandara a mãe para o asilo e que desde o enterro ele tinha uma mente criminosa. Simplesmente não concordei com isso. O fato dele não ter chorado no enterro da mãe ou tê-la mandado para o asilo não tem nada a ver com o crime. Penso que o condenaram apenas pela morte da mãe, não pela do árabe que ele realmente matou.

E sobre a pena, eu simplesmente fiquei um tempo de boca aberta tamanha a surpresa que eu tive ao vê-la. Não tinha a mínima noção de que seria essa.

Sobre o personagem, o que me surpreendeu nele foi sua frieza frente a tudo na vida. Tudo para ele era "tanto faz". Ele não sabia se amava a Maria, mas casaria com ela se a mesma achasse bem. Aceitava a amizade do Raimundo, mas não lhe tinha muita afeição. Matara alguém irresponsavelmente e sem causa alguma, e não sabia se se arrependia ou não. Uma figura enigmática, pela qual eu até me identifiquei, não que para mim a vida "tanto faz", mas porque ele era pragmático nas coisas. Fora que nos mostra que todos nós passamos nossas vidas tentando encontrar um sentido para ela. Teria o protagonista algum sentido na vida dele? Será que era realmente isso que ele queria?
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Israel 01/05/2016

Mersault é um homem que vive uma vida letárgica rodeado de pessoas comuns, num lugar estranho e cuja sanidade se esvai como um pulso que cada vez vai perdendo a intensidade. A morte de sua mãe não lhe causa nada além de tédio. Enfiado num abismo que consome sua alma, Mersault assume o leme de sua vida rumo à tragédia: comete um assassinato a troco de nada, com uma crueza e frieza antinatural.
A obra-prima de Albert Camus tornou-se imortal por fazer a pergunta essencial da humanidade: qual o sentido da vida? Na personagem de Mersault, Camus apresenta um mundo cada vez mais gélido, insensível e permeado de desilusão. Todos os personagens que rodeiam Mersault tem um desvio, uma imperfeição incômoda que faz olhá-los com desprezo. Seja o patrão insensível ou o velho que convive com um cachorro, seja Marie, a namorada de Mersault que permanece com ele mesmo sabendo que não a ama, mas mesmo assim pretendem casar-se. Seja Raymond, o amigo que tinha raiva de árabes, responsável pela briga que induz Mersault a cometer o assassinato de um destes. Todos causam aversão ao leitor.
Camus criou um ambiente que beira o onírico, com personagens espectrais, embriagados de volatilidade e desprezo por seus pares, por seus destinos e indiferentes às consequências dos seus atos. Um ambiente que lembra muito os pesadelos literários de Kafka.
Impossível também não comparar Mersault a Raskolnikóv de Crime e Castigo. A grande diferença é que o personagem de Dostoiévski, sofre, remói e pondera antes de cometer seu crime. E aceita as consequências após ser descoberto. Já Mersault mata fria e impiedosamente, sem se importar comas consequências e continua sua marcha letárgica rumo à guilhotina deixando para o leitor decidir se ele era louco ou demasiadamente humano.
Camus leva o pensamento filosófico para as entranhas da alma humana e só o que vemos lá é um grande e negro abismo. O perigo é se deixar tragar por ele. Clássico perturbador da literatura contemporânea.
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