O Estrangeiro

O Estrangeiro Albert Camus




Resenhas - O Estrangeiro


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Craotchky 09/04/2017

Dois gumes ou mais
Veja bem, me aterei aqui a discorrer sobre apenas um dos aspectos do livro: A suposta loucura atribuída ao narrador. A priori este é um livro simples, sem nada demais. O simples transcorrer da vida pacata, aparentemente comum de Meursault. Porém, à medida que avançamos na leitura, sua complexidade é revelada.

Nosso narrador é um indivíduo apático, nada lhe impressiona, nada lhe atinge, nada lhe comove, tudo lhe é estranho. Meursault é um cara insensível, imperturbável. Desprovido de paixões, apetites, desejos. Alguém fora do padrão, alguém que não reconhece as convenções humanas de comportamento, as regras sociais vigentes. Desajustado? Louco?

Estou, desde sempre, inscrito no mundo da vida, e portanto, sujeito a sempre considerar os critérios de definição estabelecidos pela sociedade na qual vivo. Partindo disso, diria que sim, Meursault não é normal. No entanto conheço filosofia o suficiente para saber que até as coisas mais simples podem ser problematizadas. Nada é tão simples quanto parece.

Bem, prefiro não me estender ainda mais em assuntos que começam a escapar ao meu domínio, e os quais não tenho capacidade de manifestar com clareza, então paro por aqui.

Abaixo, texto de Khalil Gibran extraído do livro O louco. Uma premissa semelhante, presente no texto, encontra-se também em O alienista do Machado de Assis.

O REI SÁBIO
Uma vez, governava a distante cidade de Wirani um Rei, que era poderoso e sábio. E era temido por seu poder e amado por sua sabedoria. Ora, no coração daquela cidade havia um poço cuja água era fria e cristalina, e dela bebiam todos os habitantes, até mesmo o Rei e seus cortesãos; porque não havia outro poço.

Uma noite, quando todos dormiam, uma feiticeira entrou na cidade e verteu no poço sete gotas de um líquido estranho e disse: "Doravante, quem beber desta água ficará louco".

Na manhã seguinte, todos os habitantes, menos o Rei e seu Lorde Camarista, beberam da água do poço e ficaram loucos, tal como a feiticeira tinha predito. E durante aquele dia, os habitantes, nas ruas estreitas e nos mercados, não faziam senão sussurrar, uns aos outros: "O Rei está louco. Nosso Rei e seu Lorde Camarista, perderam a razão. Naturalmente não podemos ser governados por um Rei louco. Precisamos destroná-lo".

Naquela noite, o Rei mandou que enchessem com água do poço uma taça dourada. E quando lha trouxeram, dela bebeu copiosamente, e deu a beber ao seu Lorde Camarista. E houve grande regozijo naquela distante cidade de Wirani, porque o Rei e o Lorde Camarista tinham recuperado a razão.


(Texto na íntegra)

Acho que há muitas variações deste texto. Recentemente li Veronika decide morrer e neste livro de Paulo Coelho encontra-se uma variação desta fábula. Veronika decide morrer será, sobretudo, uma grande reflexão sobre a loucura e nossas formas de defini-la. Se você gosta do assunto, recomendo.

"A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal." - Raul Seixas.
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Márcio_MX 09/04/2017minha estante
Excelente resenha usando vários livros que leu recentemente.
Gibran é excelente e esse conto muito bacana


Danielle 09/04/2017minha estante
Uau! Peguei até um café para ler o comentário desse livro! Poderia muito bem escrever para uma coluna semanal sobre literatura! Adorei. Parabéns!


Craotchky 09/04/2017minha estante
Obrigado Márcio, Gibran, em número de livros, é o segundo autor que mais li, são oito livros, todos bem curtos.
Danielle, li seu comentário sem café, mas fico muito feliz. Que palavras generosas essas suas, obrigado. Sobre escrever alguma coluna ou afim, acho que gostaria muito desde que tivesse total liberdade de conteúdo. Só espero o convite!




paulargm 31/03/2017

Estranho...
Livro para ler numa sentada! Mas depois deixa a gente pensando nele por um tempo...
Conta a história de Meursault, personagem um tanto apático, sem grandes objetivos de vida, daqueles vai se deixando levar pela vida. Ele é movido basicamente pelas experiências sensoriais (o calor, o sono, a fome...)
Leitura tranquila, me surpreendeu e me deixou refletindo sobre aparências e julgamentos.
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Melo 22/03/2017

A existência e a solidão
A narrativa da vida apática do argelino Meursault toma de assalto o leitor desde as primeiras páginas: saber que custa ao narrador enterrar sua mãe, que a entregou ao asilo há mais de cinco anos para o bem de ambos, e suportar o velório religioso que a mesma pediu para si, rapidamente, faz com o leitor fique desconfiado do caráter de Meursault. Mais: do que ele é.

As páginas avançam e você vai assistindo a um homem sem amigos, disposto a viver sem incômodos e sem incomodar; que usufrui da mulher como objeto tão somente de prazer, que vê no próximo nada demais, realmente indiferente.

Então como num momento ímpar, que as personagens chamaram de "acaso", Meursault arruma uma mulher para casar, tem um vizinho amigo e um amigo vizinho.

A vida tem mudanças. Cada um sabe lidar com as suas. Meursault reclama do calor intenso. O sol quente, então, é-lhe motivo para assassinar um árabe, e a derrocada da personagem leva junto consigo o leitor, a ideia humana que nos habita, a esperança.

A derrocada também aguça no leitor a ideia de si: você haverá de concordar com o narrador querendo ou não, e isto o instiga; há a probabilidade até de ter-lhe pena. E Albert Camus sabe que há humanidade em tudo o que fazemos, por pior que seja. Conhecer o outro é dar-se a chance de se reconhecer, seja num homem probo ou num vil. Você sentirá pena.


Meursault, mesmo que não queira, causa em nós tal dubiedade e não somente: faz com que percebamos que fôramos, também, felizes e ainda o somos. Talvez mais: estamos todos um cadafalso, e a guilhotina da humanidade que nos quer perdoar, que nos quer tirar do pecado, que nos quer erguer aos céus, vem tirar-nos a cabeça. Se quiser ousar: tirar-nos a razão.
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Gustota 28/02/2017

Sobre o niilismo adolescente e o de Meursault
Curioso é como tentam enquadrar o personagem Meursault em todo tipo de instabilidade mental ou emocional, personalidade esquizóide, sociopatia, psicopatia, etc, etc.

Meursault somos todos nós. Ele não representa um sujeito torto ou anormal, mas alguém à margem das instituições e convenções sociais. Alguém que não foi alienado, como se sugere, mas que paga o preço da apatia pelo exílio voluntário às convenções sociais.

Eu vejo muito o espírito evocado no personagem de Meursault nos produtos da cultura pop underground americana dos anos noventa, em especial filmes como "Slacker", "Gummo" e nas letras de bandas como o Nirvana de Kurt Cobain. Nessas obras o espírito é o de um desprezo niilista por regras e convenções sociais. Não é um ato de resistência ou desprezo proposital, mas uma clareza quase infantil do caráter falido dessas convenções. Esses são os três desprezos de Meursault que causam tanto choque: o desprezo pela família, o desprezo pelo casamento e o desprezo por Deus. Meursault assustadoramente vive o momento, não julga o homem que agride o próprio cão nem o vizinho que agride a mulher, Sente afeto pela companheira, mas não consegue chamar de amor. Matou sem remorso, ódio, medo ou prazer. Confuso por uma ilusão de ótica causada pela ardência do sol nos olhos.

Esse é o absurdo da obra de Camus: o crime cometido por Meursault, a ação assassina contra a vida de alguém é o menor dos males. Ele é julgado por não se enquadrar nas convenções sociais e por ele condenado à morte.
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Victor Hlebetz 31/01/2017

sobre a indiferença & o absurdo
eleito pelo jornal parisiense Le Monde como o melhor romance do século XX (https://pt.wikipedia.org/wiki/Os_100_livros_do_s%C3%A9culo_segundo_Le_Monde), "O Estrangeiro" proporciona uma leitura rápida, intensa, nada cansativa e aparentemente superficial, mas que deixa a todo instante a sensação de que deixamos passar algo importante em meio a simples escrita.
vejo as pessoas que amaram o livro - por conta do fascínio pelo o absurdo, pela aparente insensibilidade do protagonista - e as pessoas que detestaram - talvez pelos mesmos motivos - e sigo como o próprio Mersault: com leve indiferença.
acredito que à época em que foi escrito e publicado, respaldado ainda pela cultura européia e pelo período entre guerras, o livro tenha causado imenso impacto e levantado discussões escrupulosas e filosóficas. hoje estamos todos lamentavelmente habituados a esse tipo de situação que é necessário nos transportar mentalmente para as circunstâncias do período para buscar maior compreensão.
impressiona pela agilidade de Camus, pela fluidez dos fatos narrados e pela capacidade de se transpor para situações fictícias com maestria, nos levando a questionamentos valiosos.
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João Moreno 15/01/2017

O Estrangeiro Em Si Mesmo

“Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem” (Pág.13).

Quando um Amigo de Infância sugeriu-me à leitura de Albert Camus (pronuncia-se Camí), não imaginara uma leitura fácil: afinal, tratava-se de um romancista e filósofo agraciado com o Nobel de literatura em 1957:

“por sua importante produção literária, que, com seriedade lúcida ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos".

Camus “ ia contra o existencialismo, sendo este somente característica de sua obra literária”, que registram:

“confusão face a um mundo aparentemente sem sentido e absurdo”.

Da referência do título à obra - do personagem estranho, forasteiro: o sentimento de não pertencimento à sociedade e ao que convencionamos chamar de humano.

Da obra: alguns aspectos causaram-me certo enfado, principalmente às descrições da praia; à questão de sua amiga-namorada, Marie: “mulher perfeita”, linda e submissa, que limitar-se-ia à sorrir diante da falta de sensibilidade de Meursault.

Sobre essa mesma falta de sensibilidade: não causou-me estranhamento ou aversão sua falta de empatia (há exceções). Normalidade em que me vi caracterizado diante dos inúmeros "tanto faz":

“Perguntou-me apenas, com o mesmo ar um pouco cansado, se estava arrependido. Do meu lado. meditei e disse que, mais do que verdadeiro arrependimento, sentia um certo tédio”. (Pág.69).

A revolta foi causada pela normalidade ao espancamento da mulher:

“- Vi logo que se tratava de alguma trapalhada. Então deixei-a. Mas, primeiro, dei-lhe uma surra (…). Espancara-a até sangrar. Antes disso, não batia nela. - Ou , por outra, batia, mas ternamente, por assim dizer (…) E, a meu ver, não a castiguei o bastante”. (Pág.35).

Da influência do jornalismo na midiatização dos julgamentos - explicável por ser acadêmico de jornalismo:

“No entanto, o jornalista dirigiu-se a mim sorrindo. Disse que esperava que tudo corresse bem para mim. Agradeci e ele acrescentou:

- Sabe, tivermos de aumentar um pouco seu caso. O verão é uma é uma época morta para os jornais. As únicas histórias que valem um alguma coisa eram a sua e a do parricida”. (Pág.81).

E também da parcialidade do Judiciário.

Para meu Grande Amigo, o destaque ficara por conta da “maneira com que o Meursault não demonstrava os sentimentos mais básicos que um ser humano deveria apresentar em situações como a morte da mãe. Não me causou revolta, mas fascínio”

Ainda sobre O Estrangeiro e demais trabalhos de Camus: suas obras convergem, ou melhor, conversam entre si - a peça O mal-entendido (1944), é publicada em passagem que Meursault se vê obrigado a ler e memorar todos os dias, pelo fastio do aprisionamento.

A filosofia existencialista se faz novamente presente no “sentimento de absurdidade que o Camus quis demonstrar”: por estar sujeito às noções do Absurdo e decisões do mundo, alheios à presença de Meursault, “impotente diante à fatalidade dos acontecimentos para com ele - pagando com a vida, contra a sua vontade”.

Sentimento do absurdo marcado, entre outras coisas, pelos motivos alegados pelo personagem principal, durante a narrativa: tédio e cansaço.

E no fim, a constatação da necessidade:

“Precisamos ler os outros livros do Camus para podermos alargar o debate: O Estrangeiro é uma espécie de alegoria da Noção do Absurdo, que é melhor apresentado no Mito de Sísifo”.

Referências bibliográficas:

Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Camus
(Último acesso: 13/01/2016, às 22:32:45).

Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Existencialismo
Último acesso: 13/01/2016, às 23:57:12).

site: https://literatureseweb.wordpress.com/2017/01/14/atualizacao-x-projeto-evite-o-emburrecimento-durante-as-ferias-academicas-o-estrangeiro-em-si-mesmo/
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wesley.moreiradeandrade 11/01/2017

Mersault é um personagem incomum e icônico da literatura do século XX. Sua impassividade diante dos acontecimentos deste romance podem, de início, causar estranhamento ou, até mesmo, certa perplexidade. Adianto que me identifiquei um pouco com Mersault, sua frieza, sua incapacidade de se surpreender com as coisas, a praticidade e o raciocínio lógico, até mesmo sua ironia. Mersault é o protagonista-narrador, o tom de sua narração é exatamente protocolar, reflete o trabalho de escriturário que exerce, sem quase ou nenhum envolvimento emocional. Mersault reflete o pensamento do homem atual, sem muita perspectiva e expectativa do mundo, que desvincula-se das crenças, desencanta-se com o senso comum, não comunga de seus valores. Por isso que não se surpreende com os preparativos do enterro de sua mãe (onde não chora e não manifesta quase nenhuma tristeza), o romance com uma colega de trabalho, o assassinato do árabe que ele próprio cometeu e, também, a posterior sentença proferida no seu julgamento. Conciso e cruamente preciso (características das narrativas de Albert Camus), o protagonista destila suas impressões sobre os fatos e seu relacionamento distanciado com as outras personagens e a sua serenidade revela uma liberdade de sua consciência diversa das outras pessoas. Uma vez que não cria ou possui laços que o atenham ao mundo como um todo, Mersault circula por ele com uma fluidez impensada. Mersault é a própria negação. Uma negação do entorno e até de si mesmo. Daí o absurdo recorrente na obra de Camus, autor ainda tão moderno neste caudaloso século XXI.


site: https://escritoswesleymoreira.blogspot.com.br/2014/03/na-estante-16-o-estrangeiro-albert-camus.html
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Leandro.Henrique 10/01/2017

Filosofia da Indiferença?
Camus nos mostra que não importa o questionamento da razão de existirmos, mas sim que de fato existimos em um completo absurdo. A vida indiferente, sem emoções, leva um duro golpe quando se aproxima da morte. O que o personagem principal, Meursault, descobriu é que vivia como um morto, pois "tanto fazia" qualquer ação ou decisão em relação ao rumo de vida. Foi preciso ficar enclausurado em uma cela de prisão para ele descobrir a beleza do céu estrelado.
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Ana Paula 28/12/2016

Um julgamento distorcido
O livro começa com o velório e o enterro da mãe do protagonista. Esse acontecimento surpreende pela frieza com que o protagonista encara a morte da mãe. Tempos depois o personagem acaba cometendo um crime e será julgado por ele mas seu comportamento quando da morte de sua mãe acabar tendo consequências.
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Ana 18/11/2016

O que me impressionava nas suas fisionomias era que eu não lhes via os olhos, mas unicamente um brilho fosco no meio de um ninho de rugas. Quando se sentaram, a maioria deles olhou-me e balançou a cabeça com constrangimento, os lábios todos comidos pelas bocas desdentadas, sem que eu soubesse ao certo se me estavam cumprimentando ou se era apenas um tique. Acredito que me cumprimentavam. Foi nesse momento que me dei conta de que estavam todos sentados diante de mim, meneando as cabeças em volta do porteiro. Por um momento, tive a impressão ridícula de que estavam ali para me julgar.
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W. Pardim 12/11/2016

Personagem
Não é uma resenha, mas acredito que o personagem sofre de Transtorno de personalidade esquizoide, se você estuda psicologia, esse livro pode ser um prato cheio.
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Liliane 04/11/2016

Camus quis passar, a instabilidade de que é ser um ser, de fato humano, a indiferença de valores humanos e o peso que eles tem nas escolhas da vida, o alto julgamento, a irá diante de fatos que podemos achar "tolos" diante os olhos das outras pessoas ao redor.
No começo parece que o narrador não tem empatia a nenhuma sensação, aos poucos a percepção muda e Camus da a nós, todas sensações possíveis de um ser, chamo de "bang" cada ideia nova que alguém ou algum fato da vida vem a me dar, acho que resumindo esta obra, Casmus quis que nos questionássemos, sobre nós, sobre as escolhas, sobre as sensações... sobre tudo.
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Juliana 05/10/2016

Subversão silenciosa
Este livro nos intriga desde o começo. O personagem principal é de fato um estrangeiro em suas emoções, Às vezes, até duvidamos se ele tem alguma, pois demonstra uma apatia com as situações que num primeiro momento nos é estranha. No decorrer da leitura, passamos até a admirar a coragem dele em ser diferente. Não é por mal que é assim, aliás, existe um jeito certo de se viver? Neste livro, Albert Camus nos faz matutar sobre essa questão, deliciosamente.
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