Dom Casmurro

Dom Casmurro Machado de Assis...




Resenhas - Dom Casmurro


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kleris 23/01/2019

Um excelente livro – mas com um século de interpretações questionáveis
Pra quem ainda tá por fora desse clássico nacional, te deixo a par da trama: Bento Santiago é um cara solitário que então conta sua história de vida. O cara é tão fechado em si que um moço do bairro o apelidou de “Dom Casmurro”. Mas nem sempre ele foi assim. Ele era alegre, espevitado e tinha uma paixão desde menino que passou por muitos percalços porque a mãe fez uma promessa para que ele fosse padre. É no seminário onde se prepararia para a batina que conheceu Escobar. Ambos conseguem se safar do destino religioso.

Bento casa com Capitu, Escobar com Sancha, melhor amiga de Capitu. Aí que eles viram amigos inseparáveis. Tem seus filhos e se aproximam ainda mais. Um dia, Bento diz que percebe que Sancha deu em cima dele. Logo, traços de seu filho começam a ficar muito parecidos com de Escobar. Os ciúmes que Bento tinha entram em ebulição e paranoia. Sobram por fim só suas tormentas e dúvidas, estas que lhe afetaram sua vida e devem justificar a alcunha de “Casmurro”.

Minha primeira leitura foi há pouco mais de 5 anos, na faculdade, muito guiada pela pergunta clássica – a suposta traição de Capitu. Desta vez, preferi deixar isso de lado e só segui com as impressões. Interessante é que havia notinhas minhas da leitura anterior no meu exemplar e isso ajudou bastante na hora confrontá-las. Considerei, claro, a época de publicação de Machado. Não tem como fugir do realismo do autor. Aliás, o texto revela que tem coisinhas que até Machado deixou passar, porque sua época de vivência tinha uma compreensão bem limitada (machista e patriarcal).

Dom Casmurro é um excelente livro – mas com um século de interpretações questionáveis. A premissa que todos conhecemos (e nos foi repassada por gerações) é sobre uma dúvida quanto a uma suposta traição, e não sobre um cara amargurado falando de seu objeto de afeição que não atendeu suas expectativas (que é o que me parece ser). E, traindo ou não traindo, Capitu é crucificada – dissimulada em seus “olhos oblíquos e de ressaca”. Não há vez para a mocinha. Mas e Bentinho? Alguém alguma vez questiona Bentinho?

Bento é um exímio narrador, isso é inegável. Te enrola tão bem que é fácil cair em sua paranoia. Isso se você estiver procurando respostas pra pergunta que acompanha a reputação deste livro. Mas se você para pra “ouvir” Bentinho, pensa na sua mágoa, e como pessoas se comportam quando assim estão, isso muda o quadro geral.

Fato é que somos levados a cair no papo de um desvairado (ele vê o que quer ver), o que nos leva a mais um caso de romantização de abuso. Isso se prova pelo fato de que não haveria história se fosse o inverso.

O personagem de José Dias também contribui muito para essa percepção torpe de Bento. Quase um tutor ao garoto/homem, o agregado não era das pessoas mais recomendadas para cuidar de Bentinho. Ele mesmo tinha umas rixas com o pai de Capitu, o Pádua. Há quem diga que isso não passava das denúncias sobre os comportamentos questionáveis da sociedade e toda uma hipocrisia, mas aqui vou além. O cara era abusivo, do tipo narcisista mesmo. Plantava a discórdia e saía correndo. Era o perfeito embuste.

Capitu me parece apenas uma personagem imperfeita, que tem sua personalidade, mas sem malícias, sem interesses de intrigas. Ela merecia mais. Escobar era outro que merecia mais também. Tinha ele mais respeito pelo bromance que Bentinho nem um dia podia imaginar. Acho que as consequentes críticas do livro preferiram rotular isso como mera “ambivalência psicológica”. E acho que Bento (ou Machado) que não entendeu sobre certas investidas.

Isso tudo, no entanto, nada fere o mérito de Machado de Assis. Ele foi brilhante. O modo como conduziu e fez muitos caírem na história de Bento, como reproduziu nas linhas a revolta, a amargura, a obsessão de um sujeito comum, assim como seu apego às memórias e às idealizações... Acho que é porque é tão natural confiarmos e torcermos pelo narrador.

O fato de Machado jogar a bola pra gente, de fazer a interpretação do caso, também é impressionante. Mas às vezes não deixo de pensar que pintam o autor mais do que ele foi... Nesse caso, tenho que ler outros de seus trabalhos para averiguar melhor isso. Quem sabe?

Há ainda muitas referências universais da época. Indico que você tenha um exemplar com notas de rodapé e textos extras para te auxiliar um pouco na compreensão da época – cotidiano, hábitos, expressões. A edição da L&PM, de 2008, tem todo um aparato.

Dom Casmurro é assim um livro sobre um cara que não sabe perder, culpa tudo e todos ao redor e tampouco é humilde de assumir o que fizera. É a típica pessoa que coloca no outro uma responsabilidade absurda por tudo o que faz. Queria uma felicidade que só competia a ele ser feliz, queria um casamento que seguisse seus preceitos. É sobre alguém que não aprendeu a dar espaço, nem a respeitar a mulher, e preferiu seguir uma vida amargurada. Suas lembranças, claro, são bem seletivas em demonstrar o “pior” do outro, mas esquece (sempre) de olhar para si. Reconsiderem isso numa próxima leitura ;)

site: http://www.dear-book.net/2018/07/resenha-dom-casmurro-machado-de-assis.html
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Fernando Lafaiete 23/01/2019

Dom Casmurro: A psicologia literária Machadiana como forma de questionamento do ser que chamamos de humano.
******************************NÃO contém spoiler******************************

É com a pena na mão, a alma no passado e o corpo no presente, que o perturbado protagonista, a versão Machadiana de Otelo de William Shakespeare, começa a narrar sua história de vida. Uma narração parcial, subjetiva e, portanto, nada confiável. A intenção? Expor os fatos que o levaram ao estado em que se encontra no presente. Atar as duas versões de si e se libertar do que lhe atormenta. Com apresentações e argumentos “racionais”, Dom Casmurro tece uma teia, como uma aranha, e te envolve em um lema que mesmo após o lançamento da obra em 1899, ainda nos perturba. Afinal de contas: Capitu traiu ou não traiu Bento Santiago?

O enigma criado pelo protagonista tem a intenção de nos levar a um estado de desconfiança extrema, onde nos vemos presos em um labirinto no qual não conseguimos sair. Ou como Borboletas em estado primitivo, presos em um casulo que se nega a rachar. Somos manipulados e mergulhamos nas palavras muito bem escolhidas pelo narrador. Um mar de loucura ou de sensatez, deixo tal escolha a sua decisão. Dom Casmurro não passa de um ser doente que caminha sobre a terra, não tendo mais condições de viver. Vive e sobrevive como uma alma penada presa ao passado. Ou seria ele um homem injustiçado, traído tanto pela esposa quanto pelo melhor amigo?

“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi e nem o que fui. ”

O importante é sabermos que Dom Casmurro é uma obra-prima com foco no ciúme. O verdadeiro mote central que deixa a sombra até mesmo os tido protagonistas. Não se trata de uma narrativa com foco na traição. A traição é apenas uma suposição feita por Casmurro e sustentada pela maioria dos leitores. Podemos embarcar na verdade que nos é entregue ou podemos questionar sua veracidade. Tudo vai de analisarmos e decidirmos se os discursos articulados por aquele que Machado de Assis criou, são fortes o suficiente para nos persuadir. Podemos acreditar no que no que nos é entregue e assim nos tornarmos os verdadeiros Casmurros, ou podemos deixar esta adjetivação apenas a Bento Santiago, a quem verdadeiramente lhe serve este vocábulo.

São várias as interpretações e teorias aplicadas à obra. Seria Dom Casmurro um romance focado no homoerotismo? Não seria Bentinho apaixonado por Escobar (seu melhor amigo) e impossibilitado moralmente e socialmente de seguir com esta paixão, projetado tal imaginação em uma suposta relação clandestina entre sua esposa e seu melhor amigo? Esta teoria ganhou força com uma publicação detalhada publicada por Rosa de Nagasaki, uma usuária do Twitter no dia 9 de Novembro de 2018. Porém, já é uma teoria bastante antiga e já levantada por várias outras pessoas. Encontrei questionamentos do tipo que remontam desde 2007. Dom Casmurro seria na verdade gay e a injustiçada na verdade seria Capitu. O avesso do que a obra te faz querer acreditar.

“Os olhos de Escobar eram dulcíssimos (…) Realmente era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz fino e delgado”

“Apertei as mãos de Escobar, foi uma total ausência de palavras, assinamos o pacto. Elas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração. ”

“Ia alternando casa e seminário. Os padres gostavam de mim. Os rapazes também, e Escobar mais do que os rapazes e os padres. ”

Capitu... Ah Capitu!!. A figura emblemática que possuía olhos de cigana oblíqua e dissimulada. A personificação feminina de Casmurro, venerada por muitos e criticada ainda mais pelos Casmurros, que alimentam a certeza de sua infidelidade. Seja caçando pistas de sua suposta traição através da obra original, através de sua adaptação em minissérie ou através da quadrinização de Ivan Zaf, a certeza que temos é que não temos certeza. O quebra cabeça nunca é totalmente montado independente de onde você procure peças para completá-lo. Dom Casmurro foi concebida como uma obra dúbia e permanecerá assim até o fim dos tempos. A genialidade de Machado de Assis é tanta, que o mistério criado por ele causa uma rixa entre os mais diversos tolos intelectuais que tentam desvendá-lo.

Uma obra atemporal, onde o ciúme, o pai da loucura, domina a narrativa e nos deixa pensativos. Até que ponto temos controle de nossa consciência? Até aonde conseguimos nos manter sãos, e a partir de que momento perdemos a noção de que somos seres racionais, passando a distorcer a realidade a fim de alimentar nossas incertezas? Dom Casmurro é mais uma obra que sacramenta a importância reflexiva da literatura psicológica. O tipo de literatura que nos desafia a desvendar as camadas psíquicas que nos tornam humanos.
Thaís Damasceno 23/01/2019minha estante
Fernando, essa resenha ficou ótima. Parabéns!Faz anos que eu li Dom Casmurro e não aproveitei a leitura, pelo menos não com a experiência que eu tenho hoje, quero reler ainda esse ano e sei que vai ser uma outra experiência e dessa vez vou aproveitar a leitura dignamente Hahaha...Essa sua resenha me deu uma animada a mais para ler, não só Dom Casmurro mas as outras obras de Machado.


Fernando Lafaiete 23/01/2019minha estante
Olha Thais, gosto demais da trilogia realista de Machado de Assis. Já havia lido este livro quando ainda estava no ensino médio e tive uma experiência nula, assim como você, acredito eu. Tenho certeza que em uma releitura, você de fato terá uma experiência muito mais proveitosa e significativa, principalmente no que tange o que frisei na resenha: Reflexão psicológica e acréscimo intelectual. Se gosta de outras obras de cunho psicológico como O Morro dos Ventos Uivantes, Crime e Castigo, Lolita... acho que é praticamente impossível não gostar de Dom Casmurro. E muito obrigado pelo comentário e por ter gostado da resenha. Sempre que demoro uma eternidade para escrever uma, é um verdadeiro alívio receber feedbacks como o seu. Rsrsr


Thaís Damasceno 23/01/2019minha estante
Coloquei na minha meta desse ano, borá conferir ;)


Fernando Lafaiete 23/01/2019minha estante
Ficarei de olho no seu processo de leitura. Torcendo pra você gostar.


Mirzão 15/03/2019minha estante
Parabéns pela resenha; argumentos bem pontuados!


Fernando Lafaiete 23/03/2019minha estante
Obrigado pelo comentário Mirzão. Fico feliz de saber que gostou da resenha. :)




Vida Literária 22/01/2019

Dom Casmurro: Uma História Perene.
Escrever sobre Machado de Assis no Brasil é árduo, até angustiante, muitos foram os que tentaram de alguma forma analisá-lo. Sua importância para a literatura é percebida pelo impressionante número de críticas, ensaios e comentários que o tempo trouxe à tona. O mais interessante, ainda, é que a prospecção dos estudos machadianos se mostra vigorosa, rija e não dá indícios de perder o fôlego, ainda mais quando ao obra em voga é Dom Casmurro, pois desde a sua publicação em 1899, o romance que narra a história de Capitolina e Bento Santiago percorreu gerações de leitores vorazes praticamente incólume. Dom Casmurro é, dessa forma, uma obra perene, que acompanha o leitor durante toda a sua vida, desde os primeiros passos até a maturação literária. Clique no link e confira a resenha completa!

site: http://vidaliteraria.net/casmurro/
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iuli.moreira 22/01/2019

Um dos meus livros preferidos.
Capitu traiu ou não Bentinho? A pergunta que não foi respondida até hoje, e vamos combinar não poderá ser solucionado esse mistério até porque a história gira em torno do ponto de vista do autor, que por sinal era extremamente ciumento e possessivo. Eu recomendo esta leitura para todos, pois por mais que existam termos que não usamos mais na nossa escrita e fala o livro é muito interessante e envolvente, o personagem Bento é encantador e nos leva sempre a crer que existiu mesmo uma traição.
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Eugenia.Haensel 16/01/2019

Dom Casmurro era paranóico
?Leitura concluída? ?Dom Casmurro?

Sempre tive implicância com esse livro pelos comentários, porém eu tenho mudado minhas perspectivas, agora eu prefiro ler e tirar minhas conclusões porque a maioria dos livros que eu gosto não é ovacionado pelo mundo e aqueles que são aclamados pelo público eu acabo não curtindo muito.
Se eu gostei de Dom Casmurro?
Amei por demais.
Se eu acho que Capitú traiu Bentinho?
Eu não sei se sim por não ter a versão dela, mas teve fatos que me fez desconfiar.
Esse livro é rico em detalhes, uma escrita culta e muito inteligente, é outro tipo de comunicação que para entender precisa de muita concentração, muitas vezes tentei ler no carro e não consegui.
Mas o mundo, principalmente o Brasil devia ler esse livro como uma obrigação, ele enriquece nosso vocabulário, melhora nossa observação dos fatos aleatórios da vida, além de acrescentar muitos conhecimentos.
Leiam
Leiam
Leiam

#DomCasmurro #livrosleitura #literaturanacional #Autornacional #euleionacional #euamoler #livrosleitura #livronacional
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Romildo 14/01/2019

Dom Casmurro - Machado de Assis
"Capitu traiu ou não?" Pergunta famosa que todo leitor se faz quando termina esse livro. Então vou deixar claro a minha resposta para essa pergunta: NÃO! Capitu não traiu Bentinho (Dom Casmurro). Como eu tenho tanta certeza?? Bom são diversos fatos que se entrelaçam ao longo da história: frases, conversas, atos que apresenta um protagonista (Bentinho) ciumento, paranoico, egoísta...
Bom vou dá exemplos que fez com que eu chegasse nessa conclusão:
1-Quando Dom Casmurro falou sua acusação para sua esposa, ela se desabafou e disse:"Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes!" Uma prova de que este era só mais uma injúria de acusação que Capitu estava cansada de escutar e que nós como leitores presenciamos até alguns.
2- Quando Ezequiel volta para casa depois de longos anos afastando, ele percebe que não é mais a mesma população que ele conhecia, mais da metade de seus conhecidos já estavam descansando em paz no cemitério e os locais tem novos ares, isso fez com que Bentinho desse uma desculpa qualquer apenas para ele não conhecer sua prima Justina, que estava nas últimas. Agora Porquê?? Bom em minha opinião ele estava negando isso pelo fato de está com medo de suas paranóias não se apresentarem como cabíveis ou até se revelar como um pensamento irreal.
3-Não tem como eu colocar todos os pontos aqui, vou tá reescrevendo a história, afinal é tudo entrelaçado, do começo ao fim.

Sobre o livro: muito bem feito, bem organizado e estruturado com um extremo raciocínio. A história em se não é difícil de se compreender após um tempo, sendo uma belíssima narração do próprio personagem sobre sua história e um mistério que se apresenta ao longo da narração que encanta o leitor, muito bem feito. Podemos concluir que Bentinho é um calculista que se levou por uma ideia que acabou totalmente com sua vida, se transformando em um velho amargurado e sem ninguém. Belíssima história, eu tenho plena consciência que quando eu for reler vou extrair mais deduções e explicações sobre esse livro, vale a fama que se tem até os dias atuais.

Sobre a capa: a ilustração de Ezequiel está mal feita na capa dessa edição, afinal ele não foi fruto de um adultério, então a ilustradora errou na tonalidade do cabelo dele, um fator que nem foi destacado no livro, comprovando que ele deveria ser com cabelos escuros como o pai Bentinho e a mãe Capitu.
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Bruno.Felipe 10/01/2019

Bentinho, se foi traído mesmo, mereceu!
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tillouco 07/01/2019

Livro mais do que perfeito. O melhor livro para quem quer conhecer Machado de Assis, chega a ser um pouco denso, por conta de toda a ironia machadiana, mas para quem aprecia a arte literária do Machado de Assis, vira algo delicioso de se ler. Claro que para os que preferem mais a história do que a psicologia Machadiana também vai se surpreender e revoltar com essa história e, para mim, Capitu traiu sim Bentinho, mas para amenizar a loucura dele, já que ele estava ficando louco sem um filho.
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Carol 03/01/2019

Olhos de cigana oblíqua e dissimulada
“Tudo o que sucedera antes foi como o pintar e o vestir das pessoas que tinham de entrar em cena, o acender das luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia…Agora é que eu ia começar a minha ópera. A vida é uma ópera, dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu…”

Oie pessoas, tudo bem com vocês? Hoje, eu resolvi fazer uma resenha de um livro clássico, de um autor que eu adoro que é o Machado de Assis. Uma boa parte das pessoas deve ter ouvido falar em “Dom Casmurro”, livro bem conhecido na nossa literatura que até hoje fica a pergunta se Capitu traiu Bentinho.

Dom Casmurro é um apelido dado a Bento Santiago depois de mais velho, por ele ter hábitos solitários, mais recolhidos. No livro, ele é o narrador personagem contando a sua vida quando mais moço, destacando o romance que viveu com Capitu, a sua Capitolina, caracterizada por “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”.

“Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. “

Órfão de pai, Bentinho passou a infância sendo estimulado a ser padre, devido a uma promessa feita por sua mãe, mulher muito devota a Deus. E quando está na adolescência, ele é mandado ao seminário, mas já entra com intuito de querer sair, porque não acha que tem vocação para batina e devido à sua paixão por Capitu.

“Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e energético, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saia delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.”

Um destaque na sua entrada no seminário é a amizade feita com Escobar, um personagem importante para criar todo um enigma na história. Ele se torna um grande amigo de Bentinho e depois de algum tempo, os dois saem do seminário e essa amizade perdura, assim como o amor de Bentinho por Capitu.

“Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.”

Com o passar dos anos, Capitu casa-se com Bentinho. Porém eles enfrentam dificuldades em terem um filho que tanto desejam. No desenrolar da história, vem ao mundo Ezequiel, que no andar da sua infância, segundo Bentinho, ele fica mais parecido com Escobar, gerando a dúvida do personagem se o menino seria realmente seu filho ou teria sido fruto de uma traição da amada com o seu melhor amigo.

“Tudo arredei da vista, em poucos segundos; bastou-me pensar na outra casa, e mais na vida e na cara fresca e lépida de Capitu…Amai, rapazes! e, principalmente, amai moças lindas e graciosas; elas dão remédio ao mal, aroma ao infecto, trocam a morte pela vida… Amai, rapazes!”

Resumi bastante a história, não queria dar tantos detalhes, mas concluindo: eu gostei bastante de ter lido esse livro e sobre a pergunta principal deixada no desfecho do enredo, que era se Capitu realmente traiu Bentinho, é algo que nunca terá uma resposta certa porque existe só uma versão do enredo, a visão do Bentinho, e por isso não dá a chance do leitor ter acesso ao ponto de vista de outros personagens afetados.

Porém, na leitura, você consegue notar o quanto o narrador-personagem é inseguro e ciumento fazendo você não ter certeza se ele realmente está certo no seu pensamento, além dele focar às vezes em gerar dúvidas a respeito do caráter de Capitu para ter seu ponto de vista defendido. Lembrando que depois do seminário, Bentinho se formou em direito, então saberia muito bem como manipular o leitor. Eu terminei o livro duvidando de tudo e de todos.´

“Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores vão dormir.”

Vale a pena a leitura e a partir dela tentar tirar suas próprias conclusões, embora acredito que o objetivo de Machado não era dar respostas nas entrelinhas e sim fazer disso um enigma que atravessaria gerações, o que de fato conseguiu. Um beijo e até mais ♥

site: https://passarodetinta.wordpress.com
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Anny.Matos 02/01/2019

Traiu?
Não,Capitu não traiu Bentinho!
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Layra 31/12/2018

Um dos melhores livros da literatura mundial. Machado de Assis, simplesmente fantástico.
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JPHoppe 28/12/2018

Uma dos livros mais clássicos da literatura brasileira, ainda muito lido nas escolas. E com bons motivos, ainda que a mente em desenvolvimento dos adolescentes e a péssima reputação dos leitores brasileiros frequentemente classifique-a como uma "imposição".

O tema central do livro é o ciúme. Séculos depois, ainda evoca a pergunta se, afinal, Capitu traiu Bentinho. É impossível dizer apenas com os fatos apresentados no livro, Bentinho sendo o narrador, e um narrador extremamente não confiável. Particularmente, eu não tenho resposta no final. Para mim, "Dom Casmurro" não é uma obra sobre a possível traição de Capitu. É uma obra sobre o ciúme.

Demorei alguns anos a mais para ler, mas veio em boa hora. Recomendo.
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