Diário de Bitita

Diário de Bitita Carolina Maria de Jesus




Resenhas - Diário de Bitita


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Fernando 20/07/2019

Quando nascemos, choramos, e o choro é o prenúncio da auréola de infelicidade que há de cingir a nossa fronte. Todos que nascem sofrem

CMJ, DdB.
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. 16/07/2019

Obra póstuma, publicada na década de 1980, segundo as informações, como uma das últimas de Carolina, que entregou a jornalistas franceses. Antes de nosso país, teve edições na França e Portugal.

É um livro muito interessante, em que Carolina resgata memórias da infância e adolescência, porém, estas vão além de sua biografia e, tal qual 'Quarto de despejo' no impacto revelador sobre a favela, constitui-se também em um relato visceral sobre a sociedade preconceituosa, machista, exploradora e injusta no cotidiano do país.

Bitita (Carolina na infância), de maneira pragmática tem a percepção e descoberta de muitas coisas de seu contexto, provocando-lhe reações que variam entre a ingenuidade da menina e a criticidade da escritora. Ilustrando o primeiro aspecto, o posicionamento da menina em desejar ser homem ou em não querer ter ninguém quando crescer (reflexos ao que via do machismo) e, no segundo aspecto, observações sobre a história da escravidão em nosso pais, com considerações sensacionais.

O racismo, a exploração do pobre e a opressão à mulher são os temas mais presentes, em exemplos práticos observados e vivenciados por Bitita.

Chama também atenção o posicionamento idealista da menina, motivado e esperançoso de transformações pelo que lia e valorizava nos livros. Por conta disso, no contexto em que vivia de desapego a eles, muitos a interpretavam erroneamente e até mesmo canalizavam para mais preconceito, quando a viam com seus livros. É o que contou quando, no entusiasmo pela obra-prima de Camões, era rotineiramente vista com o clássico e um dicionário para ajudar na leitura. O povo dizia que era coisa de feiticeira e só podia ser o livro de São Cipriano. Diante dos fatos, persistia o entusiasmo da menina pela educação, pelo saber transformador, expressos na literatura... Alicerce para o que a motivaria em "Quarto de despejo'.

As histórias são ambientadas na segunda e terceira década do século passado, iniciando em Minas Gerais (principalmente em Sacramento) até a mudança para São Paulo. Os fatores determinantes foram o que Bitita relatava: exploração, pobreza, racismo.

Finalizando, as obras de Carolina são marcadas pela simplicidade textual e este livro é diferenciado nesse sentido. Tive impressão de ser, textualmente falando, o mais elaborado.
Gostei bastante, depois de "Quarto de Despejo" é a obra que mais curti de Carolina. Instiga muitas reflexões, infelizmente, ainda por coisas recorrentes em nossa realidade.
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Renata (@renatac.arruda) 29/07/2018

Meu primeiro contato com Carolina Maria de Jesus foi através desse livro, uma leitura que foi visceral pra mim. Carolina assume a voz de criança/adolescente de forma convincente e não apenas para contar memórias de sua infância, relembrando toda a luta que travou para conseguir sair de sua cidade e embarcar para São Paulo, onde esperava encontrar oportunidades para uma vida melhor, mas também para questionar a sociedade da época, não poupando críticas também às pessoas com as quais convivia, se mostrando desde cedo uma pessoa introspectiva e mais dada à reflexão e à leitura que aos bailes tão apreciados por seus vizinhos.

Publicado postumamente nos anos 80, bem depois da escritora ter chamado atenção com Quarto de Despejo (que pretendo ler em novembro para o @leiamulheres_campogrande), o diário faz parte do projeto literário da autora, discutindo questões sobre raça, gênero e classe que são pertinentes ainda hoje. Os relatos de Carolina dão nó na garganta e mostram com crueza a realidade de pessoas humilhadas, exploradas e abandonadas algumas décadas após a abolição da escravidão.
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"Agora já estava compreendendo que, entra governo, sai governo, o pobre continua sempre pobre. Os sonhos de melhores dias não eram para nós. Nós vivíamos como São Lourenço na grelha incandescente", escreveu sobre Vargas. "Quem estava fazendo aquela revolução eram os ricos. Mas eles revoltam-se por quê? Quem deveria e deve revoltar-se somos nós os pobres, que trabalhamos sem melhorar a nossa condição de vida, ganhamos apenas as unidades que não cobrem as nossas necessidades. Temos que ficar semi-alfabetizados porque o curso superior está ao alcance dos poderosos somente".
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Em alguns momentos, quando consegue emprego ou moradia em um lugar que a trata de forma decente, ela logo se diz cansada daquela vida e volta para a miséria de Sacramento. Porque o que ela queria não era viver servindo alguém, mas que seu trabalho a permitisse ter sua própria casa de telhas e comida farta. Carolina se pinta como uma pessoa orgulhosa, rejeitada por uma sociedade que não a desejava, mas ainda assim ousando não se conformar. Recomendo forte.

Em: https://www.instagram.com/p/BlbfeYjnUoQ/

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