Bilhete de Plataforma

Bilhete de Plataforma Derek Doyle; tradutores Marco Tullio de Assis Figueiredo...




Resenhas - Bilhete de Plataforma


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Pedro 09/03/2021

BILHETE DE PLATAFORMA: UMA RESENHA SOBRE O ATO DE VIVER
O livro inicia com uma breve apresentação de uma estação de trem, onde uma pessoa compra um bilhete e segue para o embarque, e ao mesmo tempo, um companheiro desse passageiro se despede dele antes que o trem siga viagem. Essa metáfora explica a atuação do profissional de cuidados paliativos.

Derek Doyle compara o profissional que trabalha com cuidados paliativos ao amigo que se despede do viajante na plataforma de trem. Esses profissionais acompanham os últimos dias e cuidam com amor e competência de doentes que estão morrendo, com doença avançada, ajudando-as a realizar a passagem a uma outra dimensão de vida (FIGUEIREIDO & FIGUEREIDO, 2012).

O capítulo inicial aborda as questões introdutórias sobre o cuidado paliativo, contextualizando com situações em que familiares escolhem “esconder” dos pacientes as suas patologias e o fato de possuírem pouco tempo de vida. Além disso, analisa o medo que profissionais de saúde tem de informar as famílias e clientes sobre notícias ruins. De fato, são situações comuns e que não me surpreendem, principalmente pelo fato de que a maioria dos indivíduos conhece o se quadro clínico, mesmo que os parentes façam de tudo para esconder.

Não gostamos de admitir que algumas das coisas que fazemos visam tanto à autoproteção quanto a proteção daqueles que amamos, não é mesmo? Talvez seja só quando trabalha com cuidado paliativo numa hospedaria que você possa apreciar verdadeiramente essas histórias. Talvez aí você compreenda que não é propriamente a morte que os pacientes mais temem, mas a maneira de morrer, seja com dor ou com medo, ou, como se ouve frequentemente, em meio à solidão do momento – este o mais temido fantasma (DOYLE, 2012).

Como citado pelo autor do livro, o medo, na grande maioria dos pacientes em estado terminal, está relacionado em como será a maneira de morrer. Porém, a revelação de que uma pessoa apresenta pouco tempo de vida também é responsável por causar um impacto, tendo uma relação direta com as crenças, fé e vivências dos indivíduos, atrelado, muito das vezes, com “pendências” ou “questões” que ainda precisam ser resolvidas enquanto houver tempo. Uma questão importante que o autor trata é a importância de entender o que, de fato, significa o termo “qualidade de vida”. Essa temática está relacionada com diversas características particulares de cada indivíduo, podendo ir desde você conseguir realizar uma atividade que gosta até o fato de estar feliz por determinada conquista.

Ao longo da narrativa do autor, são contadas várias histórias de seus pacientes em uma hospedaria. Naturalmente, através desses clientes, foram percebidas várias situações que permitiram uma ampla gama de aprendizados. Em um desses casos, é analisado a questão referente à “qualidade de vida” ou o ato de “ser quem você é”, sem medo de julgamentos. No livro, vários indivíduos que estavam à beira da morte afirmavam que em seus últimos dias na hospedaria haviam aprendido, de fato, o que era viver. Esses depoimentos me tocaram de uma maneira indescritível, tendo em vista que nós, seres humanos, temos a mania de ficar em busca de uma “felicidade” que nunca chega, sendo que ela está conosco, ainda que nas pequenas coisas.

Em outros momentos, o autor se concentra em abordar histórias de pacientes que cometeram ações ruins durante a sua vida, mas que em seus pequenos momentos nas hospedarias, não são julgados por isso. Esse cenário me fez analisar o julgamento que nós, profissionais de saúde, fazemos com os indivíduos (mesmo que inconscientemente), e como isso pode afetar a maneira que a assistência é destinada ao outro. Um pré-julgamento é responsável por afastar o cliente do profissional, em especial em situações críticas e de risco para a vida do indivíduo.

Outrora, em determinados capítulos do livro aparecem depoimentos sobre a maneira que a comunicação é importante na prática, ainda mais no que tange aos cuidados paliativos. É um direito do paciente saber o que está acontecendo com ele, mas isso tem que ser feito de uma maneira acolhedora, com o aporte necessário para que o cliente não se sinta só ou perdido após um diagnóstico, pois como o próprio autor diz, o medo do desconhecido é pior do que um prognóstico ruim. Afinal, as pessoas precisam da verdade não apenas no fim da vida, mas durante todo o tempo (DOYLE, 2012).

Vários trechos dessa obra me deixaram pensativo, mas sem dúvidas, a parte mais intensa foi perceber, através dos relatos abordados no livro, que o maior medo dos pacientes (em especial os que estão em cuidados paliativos) é a maneira que ficarão até chegar a hora de partir. Essa “maneira” inclui os sintomas, a piora do quadro clínico e as limitações que irão enfrentar. Ou seja, em tese, o maior medo dos indivíduos não é a sua doença em si, mas o que ela irá acarretar na maneira de viver.

Chegando perto do final da leitura, surge um capítulo sobre a eutanásia – não necessariamente sobre ela, mas com relação ao desejo, partindo do próprio paciente, que tudo termine. Eu concordei com a maior parte dos argumentos utilizados, mas discordei em um ponto específico: não creio que todos os pacientes necessariamente irão mudar de ideia após passarem por tratamentos específicos que aliviem a sua dor, por exemplo. O ponto “x” da questão é que um número significante de pessoas irá, sim, mudar os seus planos quando o ciclo da vida estiver perto de sua conclusão. Porém, é importante considerar que às vezes não é o aspecto físico que conta, mas sim o psicológico. É bem complicado passar uma vida inteira sendo independente, para que no fim, necessite de ajuda até para as atividades mais simples do cotidiano (tendo em vista o acometimento por doenças graves).

Esse livro mexeu comigo. Como o próprio autor fala, não é uma história sobre as hospedarias, mas sobre o cuidado e as recompensas advindas do mesmo. É importante reconhecer que todos os profissionais da saúde, bem como todos os indivíduos vão ter contato com a morte em algum lugar, seja de uma pessoa próxima ou de um paciente que você costuma acompanhar durante as consultas de rotina na atenção primária. O cuidado paliativo não é sobre buscar uma cura, mas diz respeito ao cuidado com o outro próximo ao fim, fazendo com que o pouco que resta seja marcante e, por muitas vezes, uma experiência significativa.
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Juliana 17/06/2017

Simples e Belo
Simples e fascinante a leveza com que o autor Derek Doyle fala-nos sobre finitude da vida. Através de estorias simples e comoventes ensinou-me a compreender a importância de escutar além de apenas ouvir e que o silêncio com presença real, traz também benefícios. Gratidão.
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