Formação do Brasil Contemporâneo

Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior




Resenhas - Formação do Brasil Contemporâneo


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Vinícius 01/12/2018

Bom, mas prolixo
Conteúdo de bastante qualidade para entender melhor os diferentes componentes da formação de nosso país. Entretanto, o autor é extremamente prolixo, com uma linguagem um tanto maçante. Para aqueles que já leram Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Celso Furtado, o conteúdo dessa obra não apresenta grandes novidades.
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Rafael Bonfim 12/07/2018

Conhecer o passado para escrever o futuro.
Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia, é uma obra autor Caio Prado Júnior, nascido em São Paulo no dia 11 de fevereiro de 1907. Caio Prado pertenceu a uma família de alto poder aquisitivo, mas precisamente uma família da aristocracia cafeeira do estado de São Paulo, da qual seu avô era o maior produtor em escala mundial da época. Por pertencer à aristocracia, seus estudos iniciaram-se em seu próprio lar com o acesso a professores particulares. Mais tarde sua formação científica em colégio jesuíta. Passou um ano na Inglaterra estudando e ao retornar ao Brasil, deu início aos seus estudos no curso de Direito, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, iniciando ali toda sua gênese de uma bagagem política, social e crítica.

A entrada para o Partido Comunista Brasileiro (PCB) no ano de 1931, fez com que Caio Prado se empenhasse em um engajamento no que se diz respeito ao homem e seu labor, o proletariado e as lutas marxistas. De certa forma, seu contato com este universo social, teve grande peso em suas idéias expressas na referente obra desta resenha. Esquerdista, vai em meados de 1930 tornar-se militante, e vindo mais adiante filiar-se movimentos de luta social. Desses movimentos, fez parte do Aliança Nacional Libertadora (ANL), que tinha como um de seus criadores Luíz Carlos Prestes. Por interessar-se por política, vai cursar Geografia e História na USP, colaborando para uma vivência ainda mais social e humana. Em decorrência de sua militância, é preso no ano de 1935, solto dois anos depois, buscando exílio na Europa. No ano de 1939, Caio Prado Júnior retorna ao Brasil.

Com o propósito de levar o leitor ao passado colonial, revisitando grandes eras de forma discursiva e firmada na retórica, Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior, vai tentar viabilizar ao leitor, respostas acerca de dados, por meio de uma jornada no passado histórico da política brasileira. Seja geograficamente ou relatando as minúcias do povo, o autor descreve que o passado tende tenazmente em interferir no presente, sendo que o presente embora fruto de fatos marcantes, não é dependente do que aconteceu, mas pode ser modificado e escrito. O sistema colonial será o tema tratado pelo autor, que alicerça suas idéias no mercantilismo, e a suposta estabilidade social que herdamos dessa doutrina econômica baseada na prática do comércio com preocupação nos lucros obtidos. Portanto, de acordo com Caio Prado, o Brasil vai se firmar como um país de múltiplas unidades culturais e sociais, devido ao sistema colonial que lhe é estabelecido. Por se tratar no início de uma colônia portuguesa, o Brasil vai ser construído pelo viés de uma nação voltada quase que exclusivamente (se não unicamente) pela exploração de suas riquezas e bens. Primeiramente de Portugal e ao longo dos anos, por outras nações.

Por possuir uma visão marxista e dialética, Caio Prado vai imprimir em sua obra os conceitos reais de um militante esquerdista do Partido Comunista. Ao olharmos por uma perspectiva mais teórica, Caio Prado Júnior vai ser um expoente nos conceitos políticos do marxismo brasileiro, pois já em 1940, o autor transcorria seus pensamentos muito antes do ano de 1960, o que o torna um “visionário” político.

Correndo o risco de traçar um caminho narrativo hermético, longo, ou ainda assincrônico, o autor vai dispor da história, geografia bem coordenada, antropologia, sociologia e entre outros. O autor divide o livro em quatro partes: 1) O sentido da colonização (apresentado em apenas um único capítulo); 2) Povoamento (quatro capítulos); 3) Vida material (nove capítulos); 4) Vida social (três capítulos):

Em o sentido da colonização, o autor nos conduz a compreender que em um grande espaço de tempo, o homem conduz a sua vivência baseada na evolução, que por meio de acontecimentos, acabam fazendo com que aconteça um desenvolvimento significativo nas ações. Destaca-se que a maioria das grandes descobertas arrojadas ao redor do mundo, se deu por princípio do desejo de descobrir novas terras, e disso haver a necessidade da criação do comércio. Os portugueses que chegaram no Brasil, terão uma consciência bem distinta com relação a mão de obra. Quando aqui chegam, vão usar de mão de obra escrava indígenas e africana. Isso tem grande valor para os rumos de nossa cultura social.
Diferente das colônias norte americanas, onde o fator principal para um desenvolvimento demográfico era o povoamento com moldes europeus, o Brasil vai ser construído em cima de uma cultura de extrativismo violento, com grande ênfase no mercado. Este é o ponto chave da obra, e por onde o autor permeia o seu pensamento.

No capítulo destinado ao povoamento colonial, o autor põe-se a explicar sobre a densidade demográfica da população brasileira, Porém não possui dados seguros da população, pois os dados coletados da época eram baseados em informações militares ou os que a igreja colocava a disposição. Em um olhar amplo, Caio Prado vai afirmar que a maior faixa populacional da nação vai ter seu início no litoral brasileiro, localização perfeita para o cultivo de um dos maiores meios de mercado que o Brasil possui por anos, a cana de açúcar. No nordeste, sul do país e em capitanias da cidade de Minas gerais, são Paulo a colonização se deu por meio da pecuária, quanto na região norte o foco tenha sido mais extrativista. Não podemos deixar de citar que a corrida por minerais e pedras preciosas, ocasionou um grande avanço na densidade brasileira, assim como consequências sociais.

No que se refere ao capítulo sobre a vida material, Caio Prado Júnior, nos mostra que o Brasil tinha por regra, fornecer para o mercado europeu, produtos de grande valor, como açúcar, ouro, café e tantos outros. A economia brasileira vai estar alicerçada exclusivamente nisso. O plantio de longa escala para venda, será então o grande trunfo, usando logo mais de mão de obra escrava para lavouras e trabalhos altamente forçados. Uma só cultura de determinado produto,unido o poder em uma só propriedade ou mão do dono com o penoso trabalho escravo, deixará mazelas sociais culturais até em nossos dias. Após uma explicação em identificar quais as bases que construíram a economia brasileira, o autor vai explanar sobre aquele que é sem dúvidas a espinha dorsal da economia no Brasil: a lavoura. Sem dúvidas a exploração da agricultura foi o que firmou a colonização e identidade da mentalidade do povo brasileiro, sendo a mineração como segundo lugar. O autor vai relatar como a pecuária unida com agricultura, vai atuar na identidade e nas formas de estrutura do povo. Salienta-se também o uso de força escrava indígena, no trabalho e pecuária, causando assim um processo de choque de culturas e exploração.

No contexto do capítulo sobre vida social, Caio Prado Júnior vai salientar como a exploração da mão de obra no Brasil. A forma como brasileiro se move, em seus aspectos morais, sociais e nas partes de um trabalho, muito tem a dizer a respeito da forma como em seu passado de exploração foi desencadeado. A figura no passado do senhor de engenho, seu poder no comando de escravos, e detentor de todo poder, vai consolidar como figura autoritária e seu formato ecoa nos anos posteriores da história, onde a administração do poder, nada mais é do que a figura de uma monarquia portuguesa que não distribui bens com verdade e não administra com maestria o que possui.

Como considerações e crítica final, é notório que Caio Prado Júnior vai abordar a história do povo brasileiro pelo viés dialético-histórico colonial e por uma óptica econômica, trazendo o assunto e argumentando com dados reais de uma nação colonizada e explorada por outro país. O fato de ter sido o Brasil colonizado e explorado por Portugal, surtiu (e surte) até nossos dias, sequelas profundas na maneira de viver, pensar e agir do povo brasileiro. Por se tratar de uma obra com desejo de esplanar uma síntese do Brasil ao longo de três séculos, se torna por hora uma obra repetitiva, e de leitura cansativa para leigos que desconhecem termos arcaicos ou possuem limitações com relação a localização geográfica e termos históricos. Do mais se consolida como um tratado sujeito-objeto, de informações dos setores da economia da colônia.

A obra de Caio Prado vai se consolidar como um ótimo estudo clássico das ciências sociais brasileiras, e se fortifica como uma obra importante para o conhecimento da construção do povo brasileiro.
Importante dispor que devido a aspectos sociais e culturais do autor, o leitor vai entrar em contato com uma linguagem por vezes estereotipada e preconceituosa. Ao se referir aos povos ameríndios encontrados em terras brasileiras, Caio Prado os esboça como “selvagens”e “preguiçosos”, ou ainda subentendido nas entrelinhas, que “índio bom é índio escravizado ou exterminado”, adiante os desenha como “boçais e apáticos”, e em determinado momento, descreve a mulher negra na casa do senhor de engenho, de maneira mais uma vez cheia de esteriótipos. . O que nos leva a se perguntar, se o autor usa esses termos por não haver conhecimento ou ironia.
Um fato importante mas que em nada muda o sentido grandioso da obra, é que Caio Prado sendo economista, não usa de fatos primários como embasamento de sua pesquisa. O que nos leva a pensar como um marxista e militante pode “sentir na pele” para poder escrever sobre o assunto. Caio é marxista e vai realizar a obra agrupando dados e fazendo uma ponte com o materialismo histórico. Embora uma leitura unilateral, permanece como uma obra que deve ser estudada sem peso cronológico dos acontecimentos.
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Marina 28/05/2018

Um clássico
Os autores deste período tentam realizar uma analise da conjuntura histórica do Brasil, Caio Prado não foge desta proposta. Quais motivos levaram o Brasil a se tornar o que é hoje, a proposta de se realizar uma síntese histórica e uma agenda para o futuro, o Brasil como dependente de uma mercado ditado pelos interesses de fora, subordinado e sua permanência deste estado nos dias atuais, com sua economia ainda dependente da exportação de produtos primários e pouco valor agregado. Prado é marxista e tenta realizar uma interligação do contexto brasileiro tendo como base o materialismo Histórico. Não é um livro fácil de ler, e ele exige uma leitura atenta e analítica. Geralmente o que se propõe é realizar uma leitura e pausas para digerir o que ele está querendo dizer. Mas a importância deste autor para a analise do Brasil contemporâneo não é nenhuma vez contestada, ele deixou um grande legados e diversos outros autores foram influenciados pela visão Pradiana.
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Fenix.Pires 27/03/2018

Conhecendo o Brasil
Ler Caio Prado Júnior é essência para se entender um pouco da complexidade do povo brasileiro. Uma visão histórica, sociológica e antropológica das instituições que formam o povo brasileiro para se entender o povo brasileiro.
Uma leitura técnica para os que caminham na expansão intelectual. Leitura indicada.
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Lista de Livros 08/01/2017

Lista de Livros: Formação do Brasil Contemporâneo – Caio Prado Jr.
“Naturalmente, o que antes de mais nada, e acima de tudo, caracteriza a sociedade brasileira de princípios do século XIX é a escravidão. Em todo lugar onde encontramos tal instituição, aqui como alhures, nenhuma outra levou-lhe a palma na influência que exerce, no papel que representa em todos os setores da vida social. Organização econômica, padrões materiais e morais, nada há que a presença do trabalho servil, quando alcança as proporções de que fomos testemunhas, deixe de atingir; e de um modo profundo, seja diretamente, seja por suas repercussões remotas. Não insistirei aqui sobre a influência material e moral da escravidão no seu caráter geral, o que a história e a sociologia já registraram tantas vezes, seja no tempo, seja no espaço. A literatura sobre o assunto é ampla, e nada lhe poderíamos acrescentar sem repisar matéria fartamente debatida e conhecida. Ficarei aqui apenas no que é mais peculiar ao nosso caso. Porque a escravidão brasileira tem característicos próprios; aliás, os mais salientes, tem-nos em comum com todas as colônias dos trópicos americanos, nossas semelhantes; e são tais característicos, talvez mais ainda que outros comuns à escravidão em geral, que modelaram a sociedade brasileira.
A escravidão americana não se filia, no sentido histórico, a nenhuma das formas de trabalho servil que vêm, na civilização ocidental, do mundo antigo ou dos séculos que o seguem; ela deriva de uma ordem de acontecimentos que se inaugura no século XV com os grandes descobrimentos ultramarinos, e pertence inteiramente a ela. O trabalho servil, tendo atingido no mundo antigo proporções consideráveis, declinara em seguida, atenuando-se neste seu derivado que foi o servo da gleba, para afinal se extinguir por completo em quase toda a civilização ocidental. Com o descobrimento da América, ele renasce das cinzas com um vigor extraordinário. Esta circunstância precisa ser particularmente notada. O fato de se tratar, no caso da escravidão americana, do renascimento de uma instituição que parecia para sempre abolida do Ocidente, tem uma importância capital. A ele se filia um conjunto de consequências que farão do instituto servil, aqui na América, um processo original e próprio, com repercussões que somente vistas de tal ângulo se poderão avaliar.
Ressalta isso da comparação que podemos fazer daqueles dois momentos históricos da escravidão: o do mundo antigo e o do moderno. No primeiro, com o papel imenso que representa, o escravo não é senão a resultante de um processo evolutivo natural cujas raízes se prendem a um passado remoto; e ele se entrosa por isso perfeitamente na estrutura material e na fisionomia moral da sociedade antiga. Figura nela de modo tão espontâneo, aparece mesmo tão necessário e justificável como qualquer outro elemento constituinte daquela sociedade. É neste sentido que se compreende a tão citada e debatida posição escravista de um filósofo como Aristóteles, que, pondo-se embora de parte a apreciação que dele se possa fazer como pensador, representa no entanto, nos seus mais elevados padrões, o modo de sentir e de pensar de uma época. A escravidão na Grécia ou em Roma seria como o salariado em nossos dias: embora discutida e seriamente contestada na sua legitimidade por alguns, aparece contudo aos olhos do conjunto como qualquer coisa de fatal, necessário e insubstituível.
Coisa muito diferente se passará com a escravidão moderna, que é a nossa. Ela nasce de chofre, não se liga a passado ou tradição alguma. Restaura apenas uma instituição justamente quando ela já perdera inteiramente sua razão de ser, e fora substituída por outras formas de trabalho mais evoluídas. Surge assim como um corpo estranho que se insinua na estrutura da civilização ocidental, em que já não cabia. E vem contrariar-lhe todos os padrões morais e materiais estabelecidos. Traz uma revolução, mas nada a prepara. Como se explica então? Nada mais particular, mesquinho, unilateral. Em vez de brotar, como a escravidão do mundo antigo, de todo o conjunto da vida social, material e moral, ela nada mais será que um recurso de oportunidade de que lançarão mão os países da Europa a fim de explorar comercialmente os vastos territórios e riquezas do Novo Mundo. É certo que a escravidão americana teve na península seu precursor imediato no cativeiro dos mouros, e logo depois, dos negros africanos, que as primeiras expedições ultramarinas dos portugueses trouxeram para a metrópole como presas de guerra ou fruto de resgates. Mas não foi isto mais que um primeiro passo, prelúdio e preparação do grande drama que se passaria na outra margem do Atlântico. É aí que verdadeiramente renascerá, em proporções que nem o mundo antigo conhecera, o instituto já condenado e praticamente abolido.
Por este recurso de que gananciosamente lançou mão, pagará a Europa um pesado tributo. Podemos repetir o conceito que exprime a propósito John Kellis Ingram (em Slavery): “Não muito depois do fim da servidão nas comunidades mais avançadas, vem à luz o moderno sistema de escravidão colonial, que, em vez de ser o resultado espontâneo de necessidades sociais, e servir a necessidades temporárias do desenvolvimento humano, era política e moralmente uma aberração monstruosa”. Não é num terreno de “moral absoluta” que precisamos ou devemos nos colocar para fazer o juízo da escravidão moderna. Já sem falar na devastação que provocará, tanto das populações indígenas da América como das do continente negro, o que de mais grave determinará, entre os povos colonizadores e sobretudo em suas colônias do Novo Mundo, é o fato de vir a nova escravidão desacompanhada, ao contrário do que se passara no mundo antigo, de qualquer elemento construtivo, a não ser num aspecto restrito, puramente material, da realização de uma empresa de comércio: um negócio apenas, embora com bons proveitos para seus empreendedores. E por isto, para objetivo tão unilateral, puseram os povos da Europa de lado todos os princípios e normas essenciais em que se fundava a sua civilização e cultura. O que isto representou para eles, no correr do tempo, de degradação e dissolução, com repercussões que se vão afinal manifestar no próprio terreno do progresso e da prosperidade material, não foi ainda bem apreciado e avaliado, nem cabe aqui abordar o assunto. Mas terá sido este um dos fatores, e dos de primeiro plano, do naufrágio da civilização ibérica, tanto de uma como de outra de suas duas nações. Foram elas que mais se engajaram naquele caminho; serão elas também suas principais vítimas (A Inglaterra também teve papel proeminente no restabelecimento da escravidão; e sabe-se que durante séculos seus comerciantes tiveram o quase monopólio do tráfico negreiro, pelo qual a nação chegou até a tomar armas. Mas não sofreu tão fundamente os efeitos danosos da escravidão, porque seu papel foi sobretudo este de intermediário. O trabalho servil nunca assentou pé na Inglaterra propriamente).
Muito mais grave, contudo, foi a escravidão para as nascentes colônias americanas. Elas se formam neste ambiente deletério que ela determina; o trabalho servil será mesmo a trave mestra de sua estrutura, o cimento com que se juntarão as peças que as constituem. Oferecerão por isso um triste espetáculo humano; e o exemplo do Brasil, que vamos retraçar aqui, se repete mais ou menos idêntico em todas elas.
Mas há outra circunstância que vem caracterizar ainda mais desfavoravelmente a escravidão moderna: é o elemento de que se teve de lançar mão para alimentá-la. Foram eles os indígenas da América e o negro africano, povos de nível cultural ínfimo comparado ao de seus dominadores (esta observação não seria tão exata com relação a certos indígenas americanos, como os do México e do altiplano andino, se os conquistadores não tivessem, de início e com ferocidade quase sem precedente, feito tábua rasa de todos seus valores culturais). Aqui ainda, a comparação com o que ocorreu no mundo antigo é ilustrativa. Neste último, a escravidão se forneceu de povos e raças que muitas vezes se equiparam a seus conquistadores, se não os superam. Contribuíram assim para estes com valores culturais de elevado teor. Roma não teria sido o que foi se não contasse com o que lhe trouxeram seus escravos, recrutados em todas as partes do mundo conhecido, e que nela concentram o que então havia de melhor e culturalmente mais elevado. Muito lhes deveu e muito deles aprendeu a civilização romana. O escravo não foi nela a simples máquina de trabalho bruto e inconsciente que é o seu sucessor americano.
Na América, pelo contrário, a que assistimos? Ao recrutamento de povos bárbaros e semibárbaros, arrancados do seu habitat natural e incluídos, sem transição, numa civilização inteiramente estranha. E aí, que os esperava? A escravidão no seu pior caráter, o homem reduzido à mais simples expressão, pouco senão nada mais que o irracional: “instrumento vivo de trabalho”, o chamará Perdigão Malheiro. Nada mais se queria dele, e nada mais se pediu e obteve que a sua força bruta, material. Esforço muscular primário, sob a direção e açoite do feitor. Da mulher, mais a passividade da fêmea na cópula. Num e noutro caso, o ato físico apenas, com exclusão de qualquer outro elemento ou concurso moral. A “animalidade” do homem, não a sua “humanidade”.
A contribuição do escravo preto ou índio para a formação brasileira é, além daquela energia motriz, quase nula. Não que deixasse de concorrer, e muito, para a nossa “cultura”, no sentido amplo em que a antropologia emprega a expressão; mas é antes uma contribuição passiva, resultante do simples fato da presença dele e da considerável difusão do seu sangue, que uma intervenção ativa e construtora. O cabedal de cultura que traz consigo da selva americana ou africana, e que não quero subestimar, é abafado, e se não aniquilado, deturpa-se pelo estatuto social, material e moral a que se vê reduzido seu portador. E aponta por isso apenas, muito timidamente, aqui e acolá. Age mais como fermento corruptor da outra cultura, a do senhor branco que se lhe sobrepõe. (Isto é, entre outros, particularmente o caso do sincretismo religioso que resultou do amálgama de catolicismo e paganismo, em doses várias, que formaria o fundo religioso de boa parte do Brasil. Religião neoafricana, mais que qualquer outra coisa, e que se perdeu à grandeza e elevação do cristianismo, também não conservou a espontaneidade e riqueza de colorido das crenças negras em seu estado nativo.)
É a esta passividade aliás das culturas negras e indígenas no Brasil que se deve o vigor com que a do branco se impôs e predominou inconteste, embora fosse muito reduzida, relativamente à das outras raças, a sua contribuição demográfica. O negro e o índio teriam tido certamente outro papel na formação brasileira, e papel amplo e fecundo, se diverso tivesse sido o rumo dado à colonização; se se tivesse procurado neles, ou aceitado uma colaboração menos unilateral e mais larga que a do simples esforço físico. Mas a colonização brasileira se processa num plano acanhado; outro objetivo não houve que utilizar os recursos naturais do seu território para a produção extensiva e precipitada de um pequeno número de gêneros altamente remunerados no mercado internacional. Nunca se desviou de tal rumo, fixado desde o primeiro momento da conquista; e parece que não havia tempo a perder, nem sobravam atenções para empresas mais assentes, estáveis, ponderadas. Só se enxergava uma perspectiva: a remuneração farta do capital que a Europa aqui empatara. A terra era inexplorada, e seus recursos, acumulados durante séculos, jaziam à flor do solo. O trabalho para tirá-los de lá não pedia grandes planos nem impunha problemas complexos: bastava o mais simples esforço material. É o que se exigiu de negro e de índio que se incumbiriam da tarefa.
Correndo parelhas com esta contribuição que se impôs às raças dominadas, ocorre outra, este subproduto da escravidão largamente aproveitado: as fáceis carícias da escrava para a satisfação das necessidades sexuais do colono privado de mulheres de sua raça e categoria. Ambas as funções se valem do ponto de vista moral e humano; e ambas excluem, pela forma com que se praticaram, tudo que o negro ou o índio poderiam ter trazido como valor positivo e construtor de cultura.
Uma última circunstância diferencia e caracteriza a escravidão americana: é a diferença profunda de raças que separa os escravos de seus senhores. Em algumas partes da América, tal diferença constituiu, como se sabe, obstáculo intransponível à aproximação das classes e dos indivíduos, e reforçou por isso consideravelmente a rigidez de uma estrutura que o sistema social, em si, já tornava tão estanque internamente. Mas não me ocuparei destas colônias, porque entre nós a aproximação se realizou e em escala apreciável. Isto contudo dentro de limites que apesar de tudo não são amplos, pelo menos até o momento histórico que nos interessa aqui. Existiu sempre um forte preconceito discriminador das raças, que se era tolerante e muitas vezes se deixava iludir, fechando os olhos a sinais embora bem sensíveis da origem racial dos indivíduos mestiços, nem por isso deixou de se manter, e de forma bem marcada, criando obstáculos muito sérios à integração da sociedade colonial num conjunto se não racial, o que seria mais demorado, pelo menos moralmente homogêneo. Não discutirei aqui o preconceito de raça e de cor, nem sua origem; se ligado a certos caracteres psicológicos inatos de ordem estética ou outra, ou se fruto apenas de situações e condições sociais particulares. O fato incontestável, aceite-se qualquer daqueles pontos de vista, é que a diferença de raça, sobretudo quando se manifesta em caracteres somáticos bem salientes, como a cor, vem, se não provocar — o que é passível de dúvidas bem fundamentadas, e a meu ver incontestáveis —, pelo menos agravar uma discriminação já realizada no terreno social. E isto porque empresta uma marca iniludível a esta diferença social. Rotula o indivíduo, e contribui assim para elevar e reforçar as barreiras que separam as classes. A aproximação e fusão se tornam mais difíceis; acentua-se o predomínio de uma sobre a outra.
Isto não exclui, e sabemos que não exclui entre nós, uma circulação intrassocial apreciável, que permitiu aqui a elevação a posições de destaque, e isto ainda na colônia, de indivíduos de indiscutível origem negra. Índia também, esta claro; mas o caso é muito menos de se destacar, porque o preconceito não foi aí excessivamente rigoroso, como no caso do africano. Mas, aceitando aquela elevação, não se eliminava o preconceito. Contornava-se com um sofisma que já lembrei acima, um “branqueamento” aceito e reconhecido. Aceitava-se uma situação criada pela excepcional capacidade de elevação de um mestiço particularmente bem-dotado; mas o preconceito era respeitado. Aliás esta elevação social de indivíduos de origem negra só se admitia nos de tez mais clara, os brancarrões, em que o sofisma do branqueamento não fosse por demais grosseiro. O negro ou mulato escuro, este não podia abrigar quaisquer esperanças, por melhores que fossem suas aptidões: inscrevia-se nele, indelevelmente, o estigma de uma raça que, à força de se manter nos ínfimos degraus da escala social, acabou confundindo-se com eles. “Negro” ou “preto” são na colônia, e sê-lo-ão ainda por muito tempo, termos pejorativos; empregam-se até como sinônimos de “escravo”. E o indivíduo daquela cor, mesmo quando não o é, trata-se como tal. A este respeito, Luccock refere um caso ilustrativo. Necessitando certa vez do auxílio de dois pretos livres que se encontravam em companhia, forçou-os, diante de sua relutância e com auxílio de outras pessoas, à ajuda pedida. Fê-lo, assim o afirma procurando justificar-se, levado por contingências extremas, porém os seus escrúpulos não foram partilhados pelos brasileiros que o ajudaram, e que agiram com a maior naturalidade, como se estivessem no uso de um direito indiscutível.
O papel da simples cor na discriminação das classes e no tratamento recíproco que elas se dispensam reflete-se até nos usos e costumes legais. Observou Perdigão Malheiro que, nos leilões de escravos, se os lances “a bem da liberdade” — que são os feitos sob promessa de alforria — excluíam em regra qualquer outro, isto era, no caso de escravos claros, uma norma absoluta. Acrescenta o mesmo autor que era notória a repugnância contra a escravidão de gente de cor clara; e chega até ao exagero de concluir que, se não fora a cor escura dos escravos, os costumes brasileiros não tolerariam mais o cativeiro. É verdade que ele escrevia isto em 1867, quando a escravidão já perdera muito de sua força moral; e que os conceitos citados partem de um escritor notoriamente simpático à causa da liberdade — seu grande livro (A escravidão no Brasil, que é clássico, e até hoje não foi igualada por outro) não é aliás senão um libelo a favor da liberdade. O seu depoimento, entretanto, conserva assim mesmo muito do seu valor, e comprova o quanto a simples cor atua no sentido de rebaixar os indivíduos da raça dominada; faz entrever também como seria mais dura e áspera a escravidão quando, como se dava entre nós, à discriminação social se acrescenta este caráter marcado e iniludível.
Em suma, verifica-se por tudo que acabamos de ver que na escravidão, tal como se estabelece na América, em particular no Brasil, de que trato aqui, concorrem circunstâncias especiais que acentuam seus caracteres negativos, agravando os fatores moralmente corruptores e deprimentes que ela, por si só, já encerra. Incorporou à colônia, ainda em seus primeiros instantes, e em proporções esmagadoras, um contingente estranho e heterogêneo de raças que beiravam ainda o estado de barbárie, e que, no contato com a cultura superior de seus dominadores, se abastardaram por completo. E o incorporaram de chofre, sem nenhum estágio preparatório. No caso do indígena, ainda houve a educação jesuítica e de outras ordens, que, com todos seus defeitos, trouxe todavia um começo de preparação de certo alcance. Mesmo depois da expulsão dos jesuítas, o que desfalcou notavelmente a obra missionária, pois as demais ordens não souberam ou não puderam suprir a falta, o estatuto dos índios, embora longe de corresponder ao que deveria ter sido em face da legislação vigente, e cujas intenções eram justamente de amparar e educar este selvagem que se queria integrar na colonização, ainda contribuiu para manter o indígena afastado das formas mais deprimentes da escravidão; e se não lhe proporcionou grandes vantagens e progressos materiais, concedeu-lhe um mínimo de proteção e de estímulo. Mas para o negro africano, nada disto ocorreu. As ordens religiosas, solícitas em defender o índio, foram as primeiras a aceitar, a promover mesmo a escravidão africana, a fim de que os colonos, necessitados de escravos, lhes deixassem livres os movimentos no setor indígena. O negro não teve no Brasil a proteção de ninguém. Verdadeiro “pária” social, nenhum gesto se esboçou em seu favor. E se é certo que os costumes e a própria legislação foram com relação a ele mais benignos na sua brutalidade escravista que em outras colônias americanas, tal não impediu contudo que o negro fosse aqui tratado com o último dos descasos no que diz respeito à sua formação moral e intelectual, e preparação para a sociedade em que à força o incluíram. Estas não iam além do batismo e algumas rudimentares noções de religião católica, mais decoradas que aprendidas, e que deram apenas para formar, com suas crenças e superstições nativas, este amálgama pitoresco, mas profundamente corrompido, incoerente e ínfimo como valor cultural, que, sob o nome de “catolicismo”, mas que dele só tem o nome, constitui a verdadeira religião de milhões de brasileiros; e que, nos seus caracteres extremos, Quirino, Nina Rodrigues e mais recentemente Artur Ramos trouxeram à luz da sombra em que um hipócrita e absurdo pudor a tinham mantido.
As raças escravizadas e assim incluídas na sociedade colonial, mal preparadas e adaptadas, vão formar nela um corpo estranho e incômodo. O processo de sua absorção se prolongará até nossos dias, e está longe de terminado. Não se trata apenas da eliminação étnica que preocupa tanto os “racistas” brasileiros, e que, se demorada, se fez e ainda se faz normal e progressivamente sem maiores obstáculos. Não é este aliás o aspecto mais grave do problema, aspecto mais de “fachada”, estético, se quiserem: em si, a mistura de raças não tem para o país importância alguma, e de certa forma até poderá ser considerada vantajosa. O que pesou muito mais na formação brasileira é o baixo nível destas massas escravizadas que constituirão a imensa maioria da população do país. No momento que nos ocupa, a situação era naturalmente muito mais grave. O tráfico africano se mantinha, ganhava até em volume, despejando ininterruptamente na colônia contingentes maciços de populações semibárbaras. O que resultará daí não poderia deixar de ser este aglomerado incoerente e desconexo, mal amalgamado e repousando em bases precárias que é a sociedade colonial brasileira. Certas consequências serão mais salientes: assim o baixo teor moral nela reinante, que se verifica entre outros sintomas na relaxação geral de costumes, assinalada e deplorada por todos os observadores contemporâneos, nacionais e estrangeiros. Bem como o baixo nível e ineficiência do trabalho e da produção, entregues como estavam a pretos boçais e índios apáticos. O ritmo retardado da economia colonial tem aí uma de suas principais causas.
Assim no campo como na cidade, no negócio como em casa, o escravo é onipresente. Torna-se muito restrito o terreno reservado ao trabalho livre, tal o poder absorvente da escravidão. E a utilização universal do escravo nos vários misteres da vida econômica e social acaba reagindo sobre o conceito do trabalho, que se torna ocupação pejorativa e desabonadora.
No campo é a mesma coisa; nenhum homem livre pegaria da enxada sem desdouro, e por isso, dirá Vilhena, “havendo embora terras abundantes, carecem de propriedade até mesmo aqueles que poderiam ser proprietários, pois não tendo 150 mil réis para comprar cada um negro que trabalhe, o mesmo é ser proprietário que o não ser”. Nessas condições, não é de admirar que tão pequena margem de ocupações dignas se destine ao homem livre. Se não é ou não pode ser proprietário ou fazendeiro, senhor de engenho ou lavrador, não lhe sobrarão senão algumas raras ocupações rurais (na indústria pastoril, em particular na dos sertões do Nordeste, vimos que o trabalho livre é mais comum; mas trata-se de um setor de poucas ocupações, em que a mão de obra é escassa. Além disto, pelas condições peculiares em que se realiza, está mais ou menos reservada exclusivamente à população nativa local) — feitor, mestre dos engenhos etc.; algum ofício mecânico que a escravidão não monopolizou e que não se torna indigno dele pela brancura excessiva de sua pele; as funções públicas, se, pelo contrário, for suficientemente branco; as armas ou o comércio, negociante propriamente ou caixeiro. Nesta última profissão, ainda esbarra com outra restrição: o comércio é privilégio dos “reinóis”, os nascidos no reino. Os naturais da colônia encontram aí as portas fechadas, não por determinações legais ou preconceitos de qualquer natureza, mas por um uso estabelecido de longa data, e ciosamente guardado pelos primeiros instalados, justamente os reinóis, que por convenção tácita, mas rigorosa, conservam para si e seus patrícios um monopólio de fato. “Os vindos do Reino”, escreverá o marquês do Lavradio, vice-rei do Rio de Janeiro, “não cuidam em nenhuma outra cousa que em se fazerem senhores do comércio que aqui há e não admitirem filho nenhum da terra a caixeiros por donde possam algum dia serem negociantes; e daí abrangerem em si tudo que é comércio.” Situação muito séria e prenhe das mais graves consequências. Sobram ainda, para os indivíduos livres da colônia, as profissões liberais — advogados, cirurgiões etc. São naturalmente ocupações por natureza de acesso restrito. Exigem aptidão especial, preparos e estudos que não se podem fazer na colônia, e portanto recursos de certa monta.
Restará a Igreja. Esta sim oferece oportunidades mais amplas. Os estudos se podiam fazer em grande parte no Brasil; e mesmo completar, sobretudo com relação aos seculares. Os seminários foram cronologicamente os primeiros institutos de ensino superior da colônia. Aliás, os candidatos ao estado eclesiástico que demonstrassem aptidões encontravam sempre amparo, e não faltava quem lhes custeasse os estudos, aqui ou na Europa. É certo que o preconceito de cor também tinha aí o seu lugar, e quem não fosse de pura origem branca necessitava dispensa especial. Mais uma questão de forma: o estudante com reais qualidades acabava sempre vencendo. Não foi este o caso de Luís Antônio da Silva e Sousa, depois poeta e historiador de algum nome, mestiço de origem humilíssima, e que, apesar de ver fechadas no Brasil as portas da Igreja, acabou obtendo dispensa necessária em Roma, e com o auxílio do próprio ministro português junto ao Vaticano. Aliás os mestiços são numerosos no clero brasileiro. A Igreja sempre honrou no Brasil sua tradição democrática, a maior força com que contou para a conquista espiritual do Ocidente. O que ocorreu na Europa medieval se repetiria na colonização do Brasil: a batina se tornaria o refúgio da inteligência e cultura; e isto porque é sobretudo em tal base que se faria a seleção para o clero. Ele foi assim, durante a nossa fase colonial, a carreira intelectual por excelência, e a única de perspectivas amplas e gerais; e quando, realizada a Independência, se teve de recorrer aos nacionais para preencher os cargos políticos do país, é sobretudo nele que se recrutarão os candidatos. A Igreja tem assim na colônia um papel importante como vazão para colocações.
Em suma, o que se verifica é que os meios de vida, para os destituídos de recursos materiais, são na colônia escassos. Abre-se assim um vácuo imenso entre os extremos da escala social: os senhores e os escravos; a pequena minoria dos primeiros e a multidão dos últimos. Aqueles dois grupos são os dos bem classificados da hierarquia e na estrutura social da colônia: os primeiros serão os dirigentes da colonização nos seus vários setores; os outros, a massa trabalhadora. Entre estas duas categorias nitidamente definidas e entrosadas na obra da colonização comprime-se o número, que vai avultando com o tempo, dos desclassificados, dos inúteis e inadaptados; indivíduos de ocupações mais ou menos incertas e aleatórias ou sem ocupação alguma. Aquele contingente vultoso em que Couty mais tarde veria o “povo brasileiro”, e que pela sua inutilidade daria como inexistente, resumindo a situação social do país com aquela sentença que ficaria famosa: “Le Brésil n’a pas de peuple” (“O Brasil não tem povo”). (...)
Finalmente, a última parte, a mais degradada, incômoda e nociva, é a dos desocupados permanentes, vagando de léu em léu à cata do que se manter e que, apresentando-se a ocasião, enveredam francamente pelo crime. É a casta numerosa dos “vadios”, que nas cidades e no campo é tão numerosa, e de tal forma caracterizada por sua ociosidade e turbulência, que se torna uma das preocupações constantes das autoridades e o leitmotiv de seus relatórios; e não se ocupam menos dela outros observadores contemporâneos da vida colonial. O vice-rei Luís de Vasconcelos se queixa deles amargamente, e urge providências ao deixar o governo em 1789. Vilhena lhes consagra longas páginas de suas cartas; o brigadeiro Cunha Matos considera-os um dos maiores flagelos da capitania de Goiás; e o presidente da Mesa de Inspeção do Rio de Janeiro, o desembargador Rocha Gameiro, dissertando sobre a agricultura da colônia, indica os vadios como um dos obstáculos ao seu desenvolvimento. Os vadios não escapam também à observação dos viajantes estrangeiros: Saint-Hilaire e Martius referem-se a eles amiúde, e sentiram muito bem que não se trata de casos esporádicos, mas de uma verdadeira endemia social.
É entre estes desclassificados que se recrutam os bandos turbulentos que infestam os sertões, e ao abrigo de uma autoridade pública distante ou fraca hostilizam e depredam as populações sedentárias e pacatas; ou pondo-se a serviço de poderosos e mandões locais, servem os seus caprichos e ambições nas lutas de campanário que eles entre si sustentam; como estes Feitosas do Ceará, que durante anos levam o interior da capitania a ferro e fogo, e só foram dominados e presos graças a um estratagema do governador Oeynhausen. Mas apesar de casos extremos como este, o arrolamento dos indivíduos sem eira nem beira nas milícias particulares dos grandes proprietários e chefes locais ainda constitui um penhor de segurança e tranquilidade, porque canaliza sua natural turbulência e lhes dá um mínimo de organização e disciplina. Entregues a si mesmos, eles manteriam o sertão despoliciado em constante polvorosa, e normalizariam o crime. E não se veria nestas vastidões desamparadas pela lei o que Saint-Hilaire com surpresa constatava: uma relativa segurança de que seu caso pessoal era exemplo flagrante. Nenhuma vez, nos longos anos em que perambulou pelo interior do Brasil, foi jamais incomodado.
Nas cidades, os vadios são mais perigosos e nocivos, pois não encontram, como no campo, a larga hospitalidade que lá se pratica, nem chefes sertanejos prontos a engajarem sua belicosidade. No Rio de Janeiro era perigoso transitar só e desarmado em lugares ermos, até em pleno dia. O primeiro intendente de polícia da cidade tomará medidas enérgicas contra tais elementos. Mas o mal se perpetuará, e só na República, ninguém o ignora, serão os famosos “capoeiras”, sucessores dos vadios da colônia, eliminados da capital.
Como se vê, além da sua massa, a subcategoria da população colonial de que nos ocupamos fazia muito bem sentir sua presença. Ainda o fará mais nas agitações que precedem a Independência e vão até meados do século, mantendo o país num estado pré-anárquico permanente. No torvelinho das paixões e reivindicações então desencadeadas, pelo rompimento do equilíbrio social e político que provoca a transição de colônia para império livre, aquela massa deslocada, indefinida, mal enquadrada na ordem social, e na realidade produto e vítima dela, se lançará na luta com toda a violência de instintos longamente refreados, e com muitas tintas da barbárie ainda tão próxima que lhe corria nas veias em grandes correntes. Não resta a menor dúvida que as agitações anteriores e posteriores à Independência, as do tormentoso período da minoridade e do primeiro decênio do Segundo Império, todas elas ainda tão mal estudadas, são fruto em grande parte daquela situação que acabamos de analisar. É naquele elemento desenraizado da população brasileira que se recrutará a maior parte da força armada para a luta das facções políticas que se formam; e ela servirá de aríete das reivindicações populares contra a estrutura maciça do Império, que apesar da força do empuxo, resistirá aos seus golpes. Tem assim um grande interesse histórico acentuar aí a nossa análise, porque é no momento que precede imediatamente aqueles acontecimentos que encontramos uma situação, embora madura, ainda não perturbada pela luta. Tanto mais fácil por isso é a tarefa do observador.
Vimos as condições gerais em que se constitui aquela massa popular — a expressão não é exagerada —, que vive mais ou menos à margem da ordem social: a carência de ocupações normais e estáveis capazes de absorver, fixar e dar uma base segura de vida à grande maioria da população livre da colônia. Esta situação tem causas profundas, de que vimos a principal, mais saliente e imediata: a escravidão, que desloca os indivíduos livres da maior parte das atividades e os força para situações em que a ociosidade e o crime se tornam imposições fatais. Mas alia-se, para o mesmo efeito, outro fator que se associa aliás intimamente a ela: o sistema econômico da produção colonial. No ambiente asfixiante da grande lavoura não sobra lugar para outras atividades de vulto. O que não é produção em larga escala de alguns gêneros de grande expressão comercial e destinados à exportação, é fatalmente relegado a um segundo plano mesquinho e miserável. Não oferece, e não pode oferecer campo para atividades remuneradoras e de nível elevado. E assim, todo aquele que se conserva fora daquele estreito círculo traçado pela grande lavoura, e são quase todos além do senhor e seu escravo, não encontra pela frente perspectiva alguma.
Um último fator, finalmente, traz a sua contribuição, e contribuição apreciável de resíduos sociais inaproveitáveis. É a instabilidade que caracteriza a economia e a produção brasileira e não lhes permite nunca assentarem-se sólida e permanentemente em bases seguras. Em capítulo anterior já assinalei esta evolução por arrancos, por ciclos em que se alternam, no tempo e no espaço, prosperidade e ruína, e que resume a história econômica do Brasil colônia. As repercussões sociais de uma tal história foram nefastas: em cada fase descendente, desfaz-se um pedaço da estrutura colonial, desagrega-se a parte da sociedade atingida pela crise. Um número mais ou menos avultado de indivíduos inutiliza-se, perde suas raízes e base vital de subsistência. Passará então a vegetar à margem da ordem social. Em nenhuma época e lugar isto se torna mais catastrófico e atinge mais profunda e extensamente a colônia que no momento preciso em que abordamos a nossa história, e nos distritos da mineração. Vamos encontrar aí um número considerável destes indivíduos desamparados, evidentemente deslocados, para quem não existe o dia de amanhã, sem ocupação normal fixa e descendente remuneradora; ou desocupados inteiramente, alternando o recurso à caridade com o crime. O vadio na sua expressão mais pura. Os distritos auríferos de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso oferecem tal espetáculo em proporções alarmantes que assustarão todos os contemporâneos. Uma boa parte da população destas capitanias estava nestas condições, e o futuro não pressagiava nada de menos sombrio.
São estas, em suma, as causas fundamentais daquelas formas inorgânicas da sociedade colonial brasileira que passei em revista.”
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Mais em:
http://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2016/12/formacao-do-brasil-contemporaneo-parte.html
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http://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2016/12/formacao-do-brasil-contemporaneo-parte_8.html
e:

site: http://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2016/12/formacao-do-brasil-contemporaneo-parte_40.html
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Wagner 05/06/2016

COMO CARANGUEIJOS

(...) O nosso cronista de princípios dos seiscentos, Frei Vicente de Salvador, acusa então ainda os colonos de se contentarem em "arranhar as terras ao longo do mar, como carangueijos (...)

In: PRADO JUNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Publifolha, 2000, pp 29
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Volnei 01/06/2015

Formação do Brasil contemporâneo
Neste livro o autor volta ao passado colonial da sociedade brasileira para entender os impasses do presente, e acaba por concluir que aquele permanecia vivo em alguns de seus traços fundamentais. A formação da nação é interpretada como parte do sistema colonial, de modo de pertencimento ao capitalismo mercantil que teria conferido a unidade, ainda que problemática, à vida social que se veio formando desde a colonia.

site: http://toninhofotografopedagogo.blogspot.com.br
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Thati 14/02/2013

Abordagem unilateral da história do Brasil. Achei ruim.
Pedro 24/10/2017minha estante
Unilateral e preconceituosa! Ainda estou na página 65 e basicamente o que eu li foi: a) índio bom é índio escravizado ou exterminado (isso é implícito na maior parte do texto, algumas vezes sai alguma "perola" que desvela preconceito de forma mais que direta e literal); b) tem que procurar vastas extensões de terras para criar gado, se não der para criar gado não presta...

O que me espanta é ver tanta gente qualificar tão positivamente esse livro. Só vejo três possibilidade: a) são tão preconceituosos quanto o autor; b) não leram o livro; c) leram e não entenderam. É uma vergonha um país ter um livro desse sendo considerado como um clássico de sua história.




Social 11/10/2012

Referência, com ressalvas
Esse livro é bastante repetitivo, mas é fundamental para começar, apenas começar a entender o Brasil de hoje.

Sua leitura é insistentemente enfadonha, visto que é pausada e retoma detalhes descritos anteriormente, evitando que o leitor volte páginas para relembrar.

Abordando a formação brasileira no período colonial, traz desde a cultura até às artes e industria, passando pelas plantações.

Porém, é necessário ressaltar que o autor foi neto do maior exportador de café do mundo. Aristocrata por sangue, marxista declarado e inevitavelmente preso ao seu tempo, acaba por refletir pensamentos da época em que a obra foi escrita, em 1942. Traz no texto uma visão um tanto pejorativa sobre os índios e negros, descrevendo-os por vezes como "boçais e apáticos". Deixo aos mais interessados que busquem saber o que o autor cita sobre a mulher negra na casa do senhor de engenho...

Este livro deve ser lido sem anacronismo.
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