Incidente em Antares

Incidente em Antares Erico Verissimo




Resenhas - Incidente Em Antares


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Zito 15/10/2019

O incidente
Publicado em 1971, Incidente em Antares de Erico Veríssimo aborda a realidade fantástica de uma cidadezinha do sul do Brasil onde passa por uma situação bastante inusitada. Dividida em duas partes, o livro primeiro aborda a história de Antares e da seus personagens, mais precisamente dos personagens do clã Vacariano e dos Campolargos que disputam o controle da cidade. Logo em seguida é narrado o incidente do dia 13 de dezembro de 1963 que durante uma greve geral é barrado o sepultamento de 7 mortos que mais tarde "voltariam" para enfernizar a vida de seus desafetos e vasculhar os segredos de seus conterrâneos na expectativa de assim serem enterrados.
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livrodebolso 14/10/2019

Na primeira parte, Erico Verissimo faz um retrato da cidadezinha do interior, Antares (fictícia), que recebeu esse nome de um astrônomo que passava por lá, sendo homônimo de uma estrela da constelação de Escorpião, e, aos olhos do patriarca da família Vacariano, parecia significar "lugar com muitas antas". Toda a história do lugarejo pode se confundir com a de qualquer outra cidade de interior da época; o coronelismo lidera o povo, as desavenças familiares (entre Vacarianos e Campolargos) ditam as regras, as disparidades políticas fazem da vida de todos um inferno.
A violência herdada pelos integrantes das duas famílias, na segunda geração, é absoluta; o derramamento de sangue em troca da vitória do nome é certa; e a necessidade de defender uma opinião irrevogável é prioridade (qualquer forasteiro tem o dever de pertencer a um grupo, defender um lado, escolher entre "biscoito ou bolacha" haha). Entretanto, os netos dos chefes de família (e portanto, filhos dos supraditos violentos), estudados, não viram necessidade de tanto ódio e acabaram por se tornar grandes amigos. .
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Entrelaçada à história de Antares está a própria história política do Brasil. Juntamente com as opiniões dos protagonistas, Veríssimo dá uma aula de História sobre Getúlio Vargas - que na narrativa tem grande importância - e os demais presidentes subsequentes, explicando e criticando as sucessões da presidência.
Ademais, Antares se torna objeto de pesquisa de professores/estatísticos que pretendem escrever um livro descritivo sobre o lugar, tornando possível ao leitor conhecer mais das figuras peculiares às margens do Rio Uruguai.
Tudo isso serve de introdução ao relato do famigerado incidente.
Uma greve geral é iniciada na cidadezinha, e a duplicidade das opiniões se torna insuportável. Existem dois médicos, dois padres, dois pontos de vista, e dois grupos irredutíveis de pessoas ávidas por defender o que acredita. E, como "tragédia pouca é bobagem", morrem em Antares sete pessoas (dentre as quais, Dona Quitéria Campolargo, figura importante da cidade). Estando os coveiros participando da greve, estes se recusam a enterrar os defuntos, que por sua vez (isso mesmo, os defuntos!) decidem também fazer greve: eles se recusam a morrer. Na sexta-feira 13 de dezembro de 1963, levantam de seus caixões reivindicando o direito de um sepultamento digno.
E, como às vezes, é melhor não contrariar o absurdo, os figurões da cidade se veem argumentando com o advogado morto (que representa os demais). Além da exigência por seus direitos, os mortos decidem dedurar tudo que sabem de ruim sobre os moradores da cidade. Desde os atos ilícitos, como contrabando, tortura, prostituição, roubo de dinheiro público, até os segredos mais íntimos das famílias mais sérias. O resultado é: "doze separações de casais seguidas de oito reconciliações; quatro casais "estranhados" porém mais tarde reconciliados; três maridos que deram sumantas nas esposas; duas esposas que agrediram fisicamente os maridos; dois duelos a bala, do qual resultaram dois feridos, mas sem gravidade; três homens fugidos da cidade; incontáveis pessoas que se haviam cortado o cumprimento umas às outras. No setor saúde: trinta e dois acessos nervosos; vinte e cinco ataques cardíacos, mas nenhum fatal; e dezenas de casos de disenteria e distúrbios gástricos". Sem mencionar todas as explicações que se seguiram entre os políticos da cidade, e que, no fim das contas, entre todas as obras proibidas realizadas comumente na prefeitura, nenhuma foi de grande surpresa para ninguém.
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Dan 11/10/2019

Um recorte
Essencialmente político, alegórico
dimensionalidade metafórica e uma boa reflexão socio política.
Dormi em alguns pontos, mas ninguém que me convença de que falar de política é sempre empolgante.
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Riri 23/09/2019

Muito bom!
Dos livros que li de Érico Veríssimo, esse desgustei de maneira diferente.
A entrada do livro, temática sobre política. Estranhei a princípio, porém passando as páginas, fui me encantando.
O prato principal: o incidente.
A narrativa me prendeu em especial na descrição minuciosa do incidente.
Que livro de encantos!
Alguns trechos me puseram a refletir sobre meu modo de ler notícias da mídia, sobre a minha maneira de encarar o real e o imaginário.
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Victor Contrera 20/09/2019

Apesar de um claro posicionamento político na obra, Érico Verissimo consegue analisar bem e criticar regimes autoritários tanto de esquerda quanto direita.
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Stefani 20/09/2019

O melhor do autor!
A premissa inicial é a mesma de O Tempo e o Vento: a história de uma cidade fictícia no interior do Rio Grande do Sul, com suas famílias importantes, ricas e inimigas. Na primeira parte de O Incidente em Antares, Érico narra justamente a formação da cidade desde que era um povoado. Passa pela geração de duas famílias: os Campolargos e os Vacarianos, que são inimigos de morte e mais tarde vêm a se acertar após um pedido do Getúlio Vargas. Tá aí outra semelhança com O Tempo e o Vento: a ficção histórica e a citação de personagens importantes da nossa história. Não só da história do Brasil como também do RS (tem Getúlio Vargas em pessoa interagindo com os personagens, muitas menções à Leonel Brizola, Pinheiro Machado, Borges de Medeiros, Júlio de Castilhos e praticamente todos os presidentes brasileiros e governadores do RS desde o fim do Império até a Ditadura).

A primeira parte é exatamente uma ficção histórica que começa pouco antes da independência e vai além do que foi O Tempo e o Vento, até pouco depois do início da ditadura, mostrando o impacto de vários momentos históricos na vida da população de Antares.

O que diferencia e dá a grande guinada na obra é o realismo fantástico que começa na segunda parte. Ocorre uma greve geral no município e 7 mortos são impedidos de ser sepultados. Esses mortos resolvem levantar de seus caixões e ir até o centro da cidade, literalmente, atormentar os vivos. Uma matriarca de uma das famílias mais abastadas da cidade, o principal advogado da cidade, uma prostituta, um bêbado, um preso político que foi morto pela política e um sapateiro anarco-sindicalista. Todos eles começam a contar os podres das pessoas que conhecem, desde casos de corrupção até orgias e traições. Dá pra imaginar que a cidade vira um caos. A eterna hipocrisia, que sobrevive até hoje na nossa sociedade dita "conservadora", é desmascarada em praça pública e na frente de mais de mil pessoas.

O livro tem um tom humorístico, tem muita informação, tem história, tem política e tem muitas semelhanças com nossa sociedade até hoje.
Antares é uma cidade fictícia do RS, mas poderia ser qualquer outra cidade real. Seus principais clubes são o Rotary e o Lions, os principais centros de eventos o Clube Comercial e o Clube Caixeiral Campestre, exatamente os mesmos quatros que existem em Passo Fundo (minha cidade) até hoje, por exemplo.

Tem trechos em que o Érico fala dele mesmo com sarcasmo e modéstia, tem outros que ele faz um crossover com o próprio Tempo e o Vento e, mais uma vez, tem um personagem que representa o próprio autor. Além de trechos que falam coisas que voltaram à moda hoje em dia, como dizer que se Jesus voltasse à Terra hoje seria preso, e crucificado de novo.

É uma obra que segundo consta no pósfacio, o Érico fez para criticar a ditadura, defender a liberdade e dar testemunho do seu tempo. É uma das últimas obras do Érico, escrita no auge da sua carreira e que portanto mostra o melhor do autor.
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Yago 30/07/2019

O Brasil nu e cru
Adorei este livro, achei-o muito bem escrito e incrivelmente didático. É possível aprender muito sobre a história do Brasil na epoca pré ditadura e pós ditadura e como isso se torna contemporâneo com a chegada deste novo velho e ultrapassado presidente eleito. Bom este vai ser um livro que guardo na memória. E será impossível de esquecer.


Bom
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Daniel 28/07/2019

Romance Histórico e Realismo Fantástico
Considero Érico Veríssimo um dos autores de clássicos brasileiros como a trilogia O Tempo e o Vento e este Incidente em Antares.

Autor de temática regional, seus livros são ambientados no Rio Grande do Sul e retratam as tradições gaúchas.

Incidente em Antares é um pouco diferente. Na primeira metade, o autor faz do livro um verdadeiro romance histórico inserindo as personagens da fictícia cidade de Antares, na fronteira da Argentina, nos principais eventos do Rio Grande do Sul e do Brasil, incluindo famílias em lados opostos na Guerra dos Farrapos e na Revolução Federalista e a repercussão das políticas trabalhista de Getúlio Vargas e seu suicídio.

Na segunda parte, o autor envereda pelo realismo fantástico, com um seleto grupo de mortos insepultos que saem de seus caixões e retornam à cidade para expor a todos as mazelas dos seus próceres. Nos dois grupos (dos mortos e dos próceres) todos os segmentos da sociedade estão representados: o caudilho local, a prostituta, o prefeito, o delegado, o bêbado, o juiz de direito, o advogado, o padre, o empresário capitalista, o sindicalista, o artesão e o cidadão comum.

Se vale à pena?? Claro!! É uma boa maneira de conhecer um pouco da história do Rio Grande e do Brasil e se deleitar com as impossíveis situações vividas pelos habitantes de Antares.




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Nivia.Oliveira 31/05/2019

Parti para a política. Não, não sou candidata. Li o livro de Erico Verissimo. "Incidente em antares" fala de política de um jeito muito simples e divertido. E não sei porque a história parece tão atual... Lava-jato, "companheiros", disputa de poder... Infelizmente vou ter que concordar com a definição para "povo" brasileiro dada por um dos personagens: "Que é o povo? Um monstro com muitas cabeças, mas sem miolos. E esse 'bicho' tem memória curta."
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André Esteves 28/05/2019

Atemporal
Esse livro é o que podemos chamar, sem exageros, de uma verdadeira obra prima atemporal. Em 2019, permanece atualíssimo. Verissimo é muito bem-sucedido na tarefa de mostrar que, mesmo com o progresso das civilizações, a humanidade segue incorrigível. Nunca esquecerei essa leitura.
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Sabryelle Torres 25/05/2019

Na pequena cidade de Antares, os funcionários públicos estão em greve, incluindo os coveiros, mas quando figuras excêntricas e importantes da cidade morrem, quem irá enterrá-las? Dessa forma, os próprios defuntos se levantam para cobrar o que lhes é de direito, além de cada um ter algo a revelar sobre a população antarense.

O que mais gostei no livro foi a primeira parte que conta a história cultural e familiar da cidade de Antares, perpassando por relatos históricos, pela divisão familiar entre Vacarianos e Camporlagos e as curiosidades dessa região. Além disso, também é muito interessante o fato do enredo ter uma ligação com história da política brasileira na Era Vargas, dessa forma os discursos dos personagens, sobre esquerdismo, comunismo são idênticos ao que ouvimos atualmente. Érico foi muito inteligente ao unir esse pano de fundo mais sério a uma história cômica em que os defuntos retornam a sociedade para revelar velhos segredos.

Incidente em Antares é a sátira perfeita sobre a nossa situação política atual.
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Rafael 03/05/2019

"Um dia os mortos despertam" Escreveu Érico.
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Sasso 23/04/2019

Curioso
Preciso dizer que salvei esse livro de uma caçamba de material de construção; não sei se algum dia teria comprado. Mas, tendo entrado assim na minha vida, decidi ler. E gostei! Erico conta a história de Antares, primeiramente sua formação histórica - como tantas outras cidadelas interioranas - e depois o andamento do "incidente" em si. Uma forte crítica à sociedade coronelista, corrupta, ditatorial, mandatária, xenófoba, dentre tantas outras, dessas cidadelas interioranas. Me ajudou bastante a ver "o outro lado", o lado popular, a pensar no social, a pensar no povo. Toques de humor existem aos montes, mas todos eles bem sutis. É uma crítica também ao "nada muda" da vida, à indiferença frente às injustiças, às mazelas dos líderes políticos e dos maus funcionários diversos. "Que é o povo? Um monstro com muitas cabeças, mas sem miolos. E esse "bicho" tem memória curta". Falas como essas fazem parte das críticas do autor. Uma frase que gostei muito é a que diz "Comunista é o pseudônimo que os conservadores, os conformistas e os saudosistas do fascismo inventaram para designar simplisticamente todo o sujeito que clama e luta por justiça social". Fantástica a fala do Padre que sugere ao Delegado que prenda Jesus, se este reencarnasse, visto que suas "ideias" são subversivas. Termino com outra fala fantástica: "Às vezes neste mundo é preciso mais coragem para continuar vivendo do que para morrer".
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Lucas 01/04/2019

O fantasmagórico disfarçado de crítica social: As muitas faces da derradeira ficção de Erico Verissimo
Incidente em Antares, lançado em 1971, foi o último trabalho relevante de Erico Verissimo (1905-1975), o gaúcho de Cruz Alta. Conhecido por relatar a realidade em suas obras, com várias menções histórias reais que atuavam sob seus personagens, aqui o autor usou de uma verve mais surreal, permeada pelo absurdo. Não que ele tenha ignorado a história real de determinado período em si, pelo contrário, mas é nítido, especialmente na segunda parte da obra um dinamismo narrativo que os críticos chamam de realismo fantástico (que não deve ser confundido com o realismo mágico de Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges, entre outros).

Antares é uma cidade fictícia, vizinha de São Borja, cidade real que é a terra natal de Getúlio Vargas e João Goulart, situada no oeste do Rio Grande do Sul, às margens do Rio Uruguai. Verissimo constrói a cidade de uma forma resumidamente semelhante à lendária Santa Fé, da saga O Tempo e O Vento, partindo do início do século XIX até o início da segunda metade do século XX (ponto que diferencia a obra da saga dos Terra-Cambará, pois a narrativa desta termina em 1945, mas se inicia por volta de 1745, com os Sete Povos das Missões Jesuítas). A primeira parte de Incidente em Antares faz, em pouco mais de 1/3 da obra um resumo acelerado de todas as ebulições sociais ocorridas entre o início do século XIX e a metade do século XX.

Tal resumo é marcado muitas vezes pelo cômico, sem se desprender da realidade histórica permanentemente em mutação na região de Antares. O povoado começou a partir do domínio e controle de Francisco Vacariano (também chamado pejorativamente de Chico Vaca). Pouco após a Revolução Farroupilha (1835-1845), Anacleto Campolargo, rico criador de gado do sul do estado, compra uma grande porção de terras na então vila de Antares e se instala por ali, comprometendo assim o domínio e influência de Vacariano. A partir daí, Verissimo constrói uma história de rivalidade em meio aos conflitos que se seguiram, como a Guerra do Paraguai (1864-1870), Revolução Federalista (1893-1895), Revolução de 1923 e a Revolução de 1930, envolvendo Vacarianos e Campolargos.

Nesta primeira parte, a narrativa é, inicialmente marcada pelo cômico e pelo trágico, muitas vezes misturados entre si. Com exceção dos momentos que marcam as guerras (simbolizados por execuções, humilhações e degolamentos), o texto corre solto e rápido, fornecendo inúmeros elementos engraçados que vão se estendendo nas gerações posteriores das famílias rivais. O clima bélico entre as duas famílias provém ao leitor uma palpável sensação de nostalgia, especialmente se ele for natural do sul do Brasil, contando de uma forma quase caricata as contendas que essa rivalidade criava. É um pouco semelhante às rixas entre a família Terra-Cambará e os Amarais que tão bem simbolizam O Continente, a obra que inicia a trilogia d'O Tempo e O Vento, mas com uma carga mais cômica e menos dramática.

A Revolução de 1930 que conduziu Getúlio Vargas à presidência foi o precursor do arrefecimento das desavenças entre Vacarianos e Campolargos. O próprio Getúlio assume ares de conciliador, numa memorável passagem que ilustra de forma fictícia a habilidade singular do são-borjense de unir inimigos em prol de seus interesses. É digno de nota, inclusive, a igualmente singular habilidade de Erico Verissimo em colocar em seus trabalhos um Getúlio "personagem", construído a partir de sua personalidade real e usando dessa personalidade para influenciar os rumos de certos personagens fictícios do autor. Tal ferramenta já tinha sido exercida com brilhantismo em O Arquipélago, a última parte da obra-prima de Verissimo, onde se percebe um Getúlio ainda engatinhando como político para depois explodir como líder populista. Incidente em Antares traz, pelo escopo temporal que abarca, certas nuances próprias, como o impacto popular que o dramático desfecho do Presidente Vargas trouxe aos cidadãos antarienses.

A partir da reconciliação dos clãs, a narrativa perde um pouco da sua comicidade e passa a enfocar mais de perto as percepções populares dos inúmeros acontecimentos que aí se seguiram. Aqui é que surgem os verdadeiros protagonistas da obra: Tibério Vacariano e Quitéria Campolargo, esta última casada com Zózimo (eles eram primos, respeitando uma tradição de ambas as famílias de não se "misturarem" com o restante da população em matéria de casamentos). Com o passar das páginas, outros personagens vão surgindo (como o prefeito Vivaldino Brazão, o delegado Inocêncio Pigarço, o padre Pedro-Paulo, o jornalista Lucas Faia, entre outros). O passar das gerações tornou Antares uma cidade mais moderna e menos conservadora: a chegada de indústrias trouxe consigo a questão operária sindical e o comunismo como um vilão destruidor de valores e princípios.

O mandato presidencial do também são-borjense João Belchior Marques Goulart (1919-1976), obtido a partir da inacreditável renúncia de Jânio Quadros (1917-1992) à presidência em 1961 funciona como uma espécie de "muro", na qual a narrativa como história não transpõe. Ao invés disso, alimenta o sindicalismo operário, grande ferramenta política de João Goulart e que explica a união proletária da cidade em busca de melhor valorização do trabalho. De fato, a chegada ao poder de "Jango", no final da primeira parte do livro e o consequente acirramento de "ideologias proletárias" são o fio condutor da mudança pela qual a narrativa passa, que culmina com a data de 11 de dezembro de 1963.

Desde o primeiro parágrafo da obra, Verissimo menciona que a história que pretende contar é marcada pelo tal acontecimento nefasto. Por isso mesmo, a segunda parte (chamada Incidente) é bem maior que a primeira, não só em termos visuais como narrativos. Ocorre que, aproveitando o fortalecimento do sindicalismo, operários de Antares resolvem promover uma greve geral para a partir do meio-dia de 11 de dezembro de 1963. O resultado disso é uma realidade cheia de pânico e aquecimento de rivalidades.

Em função desse choque, Incidente em Antares causou certo alvoroço, já que durante a sua publicação em 1971 o Brasil vivia o auge da repressão na Ditadura Militar: eram os chamados Anos de Chumbo, durante o mandato presidencial do também gaúcho Emilio Médici (1905-1985). A inserção de temas como comunismo, greves, torturas, repressão, sufocamento ideológico, etc., se não trouxe censura à obra, tornou-a um símbolo literário de sutil provocação ao regime. Talvez o que não tenha atraído a censura foi o emprego do absurdo e do sobrenatural para o que caracteriza o mencionado incidente: a "ressurreição" de sete cidadãos antarienses falecidos naqueles dias e que, por causa da greve e outros motivos cômicos, não foram sepultados. Retornados à vida, na meia-noite de 13 de dezembro de 1963 (uma sexta-feira), eles exigem seus sepultamentos antes que seus "corpos" entrem em decomposição. Com isso, Erico monta um ambiente de caos, balbúrdia, medo e anarquia diante do autoritarismo dos grandes líderes da cidade.

Seria alongar-se ainda mais ao explicar as causas de morte ou até mesmo nomear e contextualizar todos os sete insepultos. O olhar mais geral para essa situação absurda (e que, justamente, por ser absurda é que provoca atenção) é o impasse que tal acontecimento causa na greve, onde nenhum lado obviamente quer ceder. A ameaça da decomposição corpórea dos cidadãos e o medo que causam cai como uma bomba, seja nos governantes formais e informais da cidade como também nas reivindicações e intransigência dos grevistas. É, também, um elemento que traz certa isenção a Erico como autor, já que, apesar de ele defender e expor por meio de seus personagens o direito à greve e condenar práticas repressivas, ele não advoga de forma literal pela causa dos grevistas. Sua função é a de complicar narrativamente a vida de ambos os grupos, trazendo para o conflito de interesses um tema que atinge todos.

Convém mencionar que o medo que os insepultos causam não é originado apenas de aspectos fantasmagóricos, mas principalmente pelo caráter de isenção que eles possuem, como elementos já "de outro mundo", sem as amarras convenientes da sociedade. Este é, aliás, outro vértice que o autor usou para alfinetar o regime ditatorial, colocando personagens importantes de Antares em difíceis situações morais. Em uma longa cena no terço final da obra, Verissimo junta temas como justiça social, liberdade e repressão, que trazem à obra o seu caráter "subversivo".

O resultado de toda essa mistura de caos, anarquia, autoritarismo e absurdo é um bom romance de várias camadas, que foge do padrão de estilo de Erico Verissimo, marcado por narrativas sérias e históricas. Sem abandonar totalmente essa prática, Incidente em Antares é um livro abrangente, com uma complexidade narrativa que não assusta e sim informa, convida à reflexão e faz rir.
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Valério 18/02/2019

Tão incrível que perdoa-se os pecadilhos
Assim como em "O tempo e o vento", maior obra de Érico Veríssimo, "Incidente em Antares" tem a qualidade de trazer a situação política como pano de fundo. E assim aprendemos algo da história política do Brasil, especialmente em relação ao suicídio de Getúlio Vargas e o que o levou a tanto.
Como palco principal, temos duas famílias na cidade de Antares que protagonizam a história (até o aparecimento dos zumbis, é claro, fato que aparece apenas mais para o final do livro).
Até o "incidente", nem mesmo parece que o livro chegará a uma ressuscitação coletiva.
É um livro agradabilíssimo de ler, escrito com primor, com tiradas cômicas de sobra.
Desses livros que sempre me lembrarei. E que, na metade, já tinha me decidido por carimbá-lo como um dos meus favoritos. Pena que no final o autor preferiu heroicizar o movimento comunista, trazendo o mesmo lugar comum que já conhecemos: Todos os comunistas (ou apontados como tal) no livro são gente boa, inteligentes, corretos, humanos, dignos. E todos os que se opõem ao comunismo são pessoas ruins, desonestas, ladrões de casaca, contra o povo, contra o pobre. Um reducionismo lastimável para uma obra desse calibre. Que me obriga a guardar o coração de livro favorito.
É de conhecimento que o artista sábio pode e deve ter suas preferências políticas. E que pode e deve manifestá-las quando bem entender. Mas se tenta trazer para suas obras um proselitismo, ainda mais tão mal escrito, como considerar que todos de um lado são fantásticos e todos os que são do outro lado são criaturas perversas, malignas e vis, é trazer para o que seria um magnânimo livro uma pecha de mal acabado.
Um pena, de verdade.
Mas ainda assim um grande livro. Que seus pecados sejam relevados pela grandiosidade dos momentos em que o autor se preocupar em fazer o que faz melhor: contar histórias. E não pelo que fez porcamente: Proselitismo político.
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