O Evangelho Segundo Jesus Cristo

O Evangelho Segundo Jesus Cristo José Saramago




Resenhas - O Evangelho Segundo Jesus Cristo


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Arsenio Meira 09/01/2014

O Evangelho de um grande escritor

José Saramago sempre esteve envolvido com a vida política de Portugal, principalmente após 1974,quando o romancista passou a se situar literariamente ao lado dos autores que vivenciaram a Revolução dos Cravos e que procuram imprimir às suas obras um traço combativo, crítico, experimental e reflexivo em relação à nova realidade portuguesa e aos novos caminhos abertos para a produção artística.

Não à toa, sua ficção é tocada por um empenhado trabalho de resgate, e de riscos diante da matéria histórica que escorre pelo universo ficcional; sobretudo, uma perspectiva irônica e subversiva em relação ao discurso literário, historiográfico e político. Acerca dessa ficção portuguesa atual que escreve a História, discutindo na tessitura narrativa os mecanismos e os caminhos ficcionais a serem percorridos pelo romancista no seu afã de dizer bem desse jogo que o universo narrativo estabelece com o leitor, destaca-se a produção monumental de José Saramago.

É difícil manter-se distante, impassível diante da sedução que faz parte do estilo Saramago de escrever.

“O Evangelho segundo Jesus Cristo” transporta o leitor por caminhos tão singelos e ao mesmo tempo tão polêmicos que é difícil dar conta de saber aonde essa viagem leva. A trama, bem trabalhada, além de mostrar Jesus Cristo como homem comum, também o leva à categoria de Reis dos Reis sem deixar que isso interfira, por exemplo, na sua relação conflituosa com sua mãe, no seu amor por Maria de Magdala ou no seu comportamento desafiador perante Deus.

José Saramago convida aos leitores a tirar das páginas dos livros e trazer para a vida, para o mundo tais experimentações; é a magia da verossimilhança. Para tornar a personagem o mais próximo possível do leitor, o autor força-o a uma atitude surpreendentemente nobre: lança-o ao mundo à procura do vizinho e amigo, ele não só o encontra, mas também acaba encontrando a libertação através da morte de maneira injusta. José está redimido.

Não há nada mais contemporâneo do que a morte de um inocente. Através da morte de José o texto mantém os leitores presos à realidade e sentimentalmente ligados à história e ao anunciado destino do ainda menino Jesus, já que o pai encontra seu fim tal qual ele próprio encontrará: crucificado aos 33 anos.

Além disso, a subtrama protagonizada por José faz o público-leitor viajar no tempo e o faz imaginar que papel teria hoje o pai do filho de Deus se a obra fosse contemporânea aos Evangelhos bíblicos. Em teoria, sempre se pode inventar um sistema que torne plausíveis pistas que, em outras circunstâncias não teriam ligação.

O Jesus criado por José Saramago é, afinal, um homem comum com todos os defeitos ou homem santo, acima do bem e do mal? No Evangelho do autor português, graças as suas metáforas bem criadas, ao seu gênio subversivo e estético, aos conflitos bem resolvidos e aos diálogos esclarecedores, Jesus é recriado com a dupla face dos seres humanos, sem perder sua face iluminada e messiânica.



W Nascimento 13/08/2010

Uma visão crítica do novo testamento.
Antes de mais nada tenho que dizer que qualquer crente fervoroso seguidor de Cristo vai odiar esse livro. Isso por que ele não é um trabalho voltado para ganhar fieis e sim com o objetivo e realizar uma análise crítica, detalhada e racional dos textos que compõem o novo testamento e também alguns do velho.



Também é interessate dizer que Saramago é um autor cujo estilo de escrita pode vir a incomodar alguns. Isso por uma série de motivos:

1- Ele não da espaço para os diálogos. As falas dos personagens ficam emaranhadas em conjunto com as descrições e isso pode confundir um leitor avoado.

2- Seu vocabulário é muito extenso e ele utiliza de um linguajar rebuscado. Logo, esse não é um livro para leitores iniciantes e sim para aqueles já acostumados. E também não serve para aqueles que gostam de ler um pouquinho e sim para amantes de literatura.

3- Sua narrativa é cheia de interrupções. Ele lança comentários como se fossem notas explicativas, promovendo um diálogo entre autor e leitor. Além disso, também temos as referências a acontecimentos tanto do passado quanto do futuro em sua obra, que vem a servir às notas explicativas.



"O Evangelho Segundo Jesus Cristo" é como uma mina, aonde o leitor terá de trabalhar duro para cavar as pedras, mas que, sem dúvidas, as pepitas de ouro ao fim valem o esforço.

Esse livro é sem dúvida fantástico. Saramago possui um domínio sobre a lingua exemplar, que consegue dar poesia aos assuntos mais banais. Tudo fica belo quando ele conta. Eu poderia citar passagens aonde isso possa se exemplificar, mas não quero estragar a surpresa de futuros leitores.

A crítica de Saramago é acida. Personagens como Jesus, Maria de Magdala, Deus e Diabo ganham roupagens novas, mas muito bem pensadas e coerentes com certas discussões dos textos bíblicos.



Sem dúviudas uma obra prima.

Vale a pena. Mas não se engane que vai encontrar aqui algum tipo de relato de fé. Pois não é a toa que esse livro rendeu a Saramago sua excomungação da igreja.

Willian Nascimento
Autor de “O Véu”
pordetrasdoveu.blogspot.com


Luan 09/06/2011

Épico da Humanidade
Só Saramago mesmo para fazer um ateu chorar por Jesus cristo. E isso é de uma profunda declaração que só prova a genialidade de um escritor que teve a coragem, a capacidade e a vontade de criar o que criou.

O Evangelho de Jesus cristo não é só de Jesus cristo, é de toda humanidade. É uma recriação da história, é um épico humano, que transcende e muito a compreensão de Deus e do Diabo. É o que significou esse nome que o título da obra leva, e também o que ele poderia ter sido, para todos os homens e mulheres desse mundo, de todos os tempos e variadas regiões, dos que foram cruelmente mortos, severamente torturados ou até mesmo dos que estão privilegiadamente vivos por causa dele e de seu Pai.

Saramago narra o inarrável para qualquer ser de pensamento pequeno porque prefere se fixar ao humano de um filho de Deus do que ao seu divino. Deus que mais é um homem com poderes infinitos do que algo que só é a imagem e semelhança do ser humano. E engana-se quem acha que Saramago reinventa Deus. O Deus de Saramago é o mesmo Deus bíblico, feito por homens. Sua crueldade, sua soberba, sua sede, suas contradições, estão tudo lá, na bíblia, e de lá foi tirado para se fazer o livro que deu a Saramago o prêmio Nobel.

Além de ser uma obra repleta de simbolismos, é uma incrível experiência. É cheia de sentimentos, de inteligencia e de originalidade. Sua linguagem é única. Apesar do que dizem, não há dificuldade em entendê-la, mesmo sem os pontos, travessões, interrogações e exclamações. A dificuldade está em sair do conformismo da linguagem comum, da narração comum, de escrita comum. O que cai muito bem para o tema que é abordado. Quem não consegue ir adiante e acompanhar Saramago em sua saga, é porque não está preparado, pois além da incomum escrita, ainda há a necessidade da compreensão do assunto.

Mas superando isso, e se seguir supera facilmente e até se fascina com estilo do autor, o que é mais forte em todo o livro é o que vem de dentro do coração. Embora Saramago fosse um cético, um descrente no homem, na política, na ideologia, nas religiões, ele nunca deixou de acreditar no amor, mesmo para um homem em sua idade, na qual todos pensam que apenas se vive das lembranças das antigas paixões. Maria de Madalena é uma mostra disso, que cativa com sua força de mulher e seu amor multidões, em que Jesus nada seria se não fosse tal força e tal amor, evidenciando mais uma vez a humaníssima matéria da qual ele foi feito.

Essa obra-prima por fim é um livro que se faz sentir a partir de suas reflexões. Transborda de parábolas, de pensamentos de um homem livre, que conta muito mais do que a simplória relação religiosa, saciando o leitor, que achará mais crível a narrativa de Saramago do que a do Deus que "escreveu" o evangelho original. Não porque envolve crenças, é porque ela apaixona.


Fabio Shiva 28/08/2010

Posso imaginar...
...que alguém leia esse livro e diga: Fabuloso!!!

Posso imaginar que outro leia e fale: Ultraje!!!

O que é inconcebível é que, depois de ler Saramago, se diga algo como: É, até que foi legalzinho... ou então: achei meio fraco...

Pois com Saramago é assim, ou você ama ou você odeia. Não há como considerá-lo mais ou menos. Saramago pode ser tudo, menos morno.

Mas o que eu mesmo posso dizer a respeito de O Evangelho Segundo Jesus Cristo? Terminada a leitura, fechada a última página, o que se seguiu foi um silêncio ainda cheio de assombro, onde faltam palavras.

O maior escritor da atualidade em língua portuguesa decide recontar a mais famosa de todas as histórias, a história que moldou o mundo como nós o conhecemos hoje. Qual terá sido a intenção de Saramago ao fazer isso? Qual a sua perspectiva, o seu ponto de vista? Que mensagens tencionava passar?

A pista maior para responder a essas perguntas está no próprio título do livro. Creio que Saramago quis contar a história de Jesus pelo ângulo humano, demasiado humano. Uma decisão corajosa, que foi levada a cabo com muito talento e habilidade.

Não posso dizer que concordei com o ponto de vista do autor. O Cristo que ele vê difere bastante do que eu vejo, embora os dois tenham em comum o fato de estarem bem distantes das versões oficiais e comumente aceitas. Essas minhas objeções, no entanto, são puramente espirituais ou filosóficas. Do ponto de vista estritamente literário, Saramago é um mestre irretocável.

Por aí já deu para se perceber que esse não é um livro recomendável para todos. Pessoas com uma visão religiosa muito rígida irão encontrar muitos motivos para se ofender ou se deixar influenciar. Pois esse é um livro que irá testar as suas convicções, sejam elas quais forem.

Lendo esse livro, finalmente entendi porque achei a versão cinematográfica de Ensaio Sobre a Cegueira tão mais densa e pesada que o original. É que Saramago escreve sempre com um leve sorriso irônico nos lábios, mesmo ao contar os maiores sofrimentos, e foi justamente essa relativa leveza de sua prosa que não havia como transpor para um filme.

A prosa de Saramago, aliás, merece ser louvada à parte, e também criticada, pois tanto há quem ame como quem odeie, como já foi mencionado, essa peculiar característica de engolir os pontos parágrafos e emendar tudo entre vírgulas, algo que exige habilidade não só de quem escreve, como de quem lê, para corretamente identificar e interpretar as orações coordenadas e subordinadas, alguns aqui já irão fechar a cara só de imaginar o esforço que será ler Saramago, asseguro que nem tanto, nem tanto, basta um pouco de boa vontade para apreciar o seu mistério, fica aqui essa pálida imitação como um exemplo, em se querendo, nada é impossível.

Voltando ao Evangelho, em resumo, nesse primeiro momento após a leitura minha posição é ambivalente. Esperava mais do autor. Esperava menos do livro.

(16.07.09)



Tati 08/01/2009

não importa a sua religião... você deve ler isso.
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Jumpin J. Flash 18/12/2009

Aborrecimento infinito
Eita livrinho chato da peste!

Livro chato e autor mais chato ainda. Como disse o outro, o maior desejo de Saramago é humanizar Deus e deificar Lenin e Stalin. Meu medo é que ele vai ter tempo de sobra para conseguir isso, pois como todo comunista ele é IMORTAL, a exemplo de Gabriel Garcia Marquez, Fidel Castro, Oscar Niemeyer...


sonia 05/03/2012

para além da religião
Este livro é uma sátira para a estupidez humana, que transforma tudo em mesquinharia e guerra, que se prende a detalhes tolos esquecendo a real mensagem.
Para cristãos de cabeça aberta, o livro é tão delicioso quanto para os não cristãos.
Muitas reflexões podem ser feitas pelos que tiverem a coragem de abandonar por um momento a obediência servil aos dogmas da igreja: afinal, quantas mortes estúpidas, desde queima de bruxas que nunca existirem e de cientistas que apenas faziam ciência - todos inocentes e torturados pela louca Inquisição, a facção fundamentalista da religião cristã.
O que o autor combate no livro não é a religião de amor e paz, e sim os tortuosos caminhos trilhados pela humanidade liderada por pessoas venais - lembrem-se dos Bórgias, 'papas' que usavam venenos para assassinar seus inimigos.


Etiene @antologiapessoal 08/02/2020

Um dos melhores da vida!
Acho que ler um livro é sempre uma experiência de troca, não é mesmo? Lendo algumas páginas você, por exemplo, aumenta seu vocabulário ao aprender palavras novas, exercita sua paciência enquanto espera pelo desfecho do herói, ou repensa esta ou aquela situação sob outro ângulo... Mas você nunca sai o mesmo dali. Eu não sai.

Aqui me deparei com uma obra que foi uma das melhores experiências literárias da minha vida. Aliás, me deparo com um livro que foi uma baita experiência de vida. Encontrei nos escritos do português a melhor versão de Jesus Cristo, e ele é absurdamente apaixonante. Enquanto católica, encontrei ressignificados para passagens tão conhecidas que me deixaram embasbacada. Enquanto leitora, encontrei a narrativa super bem estruturada e repleta de frases de impacto que me fizeram grifar o livro quase todo. Enquanto gente, acredito que ler Saramago é certeza de adquirir senso crítico.

Não vou adentrar a porta da religiosidade (mesmo estando a ponto de batê-la), porém eu diria que, especialmente, todo CRISTÃO tem por obrigação conhecer esta perspectiva da história que tanto acredita. Aliás, TODOS devem lê-la: é exercício de humanidade. As personas tão bem conhecidas - Deus, Diabo, Jesus, Apóstolos, Madalena - nos são apresentadas sem aquela camada rígida que foi colocada pela Instituição Igreja. A mudança de perspectiva, o subtexto em diversas frases, a sabedoria do narrador, são alguns detalhes que fazem desta uma das melhores histórias que já li.

Se eu pudesse reler apenas um livro pelo resto da vida, seria este!
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08/11/2010

Sem querer ofender nenhuma crença, esse Jesus eu era capaz de seguir...
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chaany 27/05/2013

Eu acredito que a primeira coisa que todo mundo deve sentir assim que abre O Evangelho Segundo JC é uma total estranheza e até mesmo confusão pela linguagem em que o livro é escrita. A gente fica completamente desnorteado tentando entender onde estão os pontos, as interrogações, as aspas, os travessões, e por aí vai...

Mas depois que você consegue atravessar o primeiro capítulo (o que não é nada fácil) você vai cada vez mais se acostumando com a forma peculiar de escrita de Saramago e em questão de pouco tempo você já começa a pensar que as pontuações já não servem mais para nada, pois Saramago as tornou obsoletas!

O Evangelho Segundo Jesus Cristo faz parte do gênero de Realismo Fantástico, muito popularizado após Gabriel Garcia Marquez escrever Cem Anos de Solidão. Para mim essa foi a melhor surpresa em relação ao livro, pois posso afirmar sem dúvidas que esse é o meu gênero favorito.

Se propondo a narrar a história arquiconhecida de Jesus Cristo de uma forma completamente irreverente, José Saramago criou uma obra muito polêmica. Não tem como negar que qualquer cristão ao ler essa obra e, principalmente católico, passa por alguns sérios dilemas ao ver figuras sagradas como José e Maria sendo descritas de forma tão mundana. Me oponho de forma categórica à redução dessa obra em uma simples crítica de um ateu à Igreja Católica, pois o ESJC é de longe muito mais que isso. Por esse motivo, eu recomendo fortemente que você, cristão, deixe seus dogmas de lado para entrar nessa obra maravilhosa de Saramago e tentar pensar nela como o que ela é: uma ficção, onde José, Jesus e Maria são meros personagens.

A parte que mais me emocionou no livro é quando Jesus descobre que é filho de Deus, escolhido para ser o Messias e que o seu destino é a cruz. Jesus tenta lutar contra seu próprio destino, pois ele não quer ser responsável por todas as mortes que estão por vir depois da sua crucificação. A Inquisição, as Cruzadas... Jesus não quer ser culpado pela morte de milhares de inocentes. Maria Madalena é a pessoa que vai reconfortar Jesus. Aliás, na obra, Maria Madalena é sua fortaleza, aquela que vai dar todo o consolo necessário para que ele enfrente seu destino. Ela exerce uma influência exorbitante sobre todos os atos do Messias e o orienta em todos os momentos de dúvida. No ESJC, Saramago coloca a imagem de uma mulher prostituta como a personagem mais sábia e decisiva da trama.

No trecho abaixo, as palavras decisivas de Maria Madalena que fazem com que Jesus aceite seu destino:
"Deus é quem traça os caminhos e manda os que por eles hão-de seguir, a ti escolheu-te para que abrisses, em seu serviço, uma estrada entre as estradas (...) portanto melhor seria que aceitasses com resignação o destino que Deus já ordenou e escreveu para ti, pois todos os teus gostos estão previstos, as palavras que hás-de dizer esperam-te nos sítios aonde terás de ir, aí estarão os coxos a quem darás voz, os cegos a quem darás vistas, os surdos a quem darás ouvidos, os mudos a quem darás voz, os mortos a quem poderias dar vida."

Em suma, esse livro ocuparia uma das 5 primeiras posições de qualquer lista sobre os livros que você precisa ler antes de morrer.
Nota 5/5

www.centraldaleitura.wordpress.com
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Priscilla 20/08/2014

E vamos a resenha de um livro que fala de Jesus Cristo escrito por um ateu. Só com isso já dá pra saber que é um livro que trata Jesus como completo humano e que é irônico e crítico em muitas coisas.

O livro conta a história de Jesus Cristo desde a concepção que é feita naturalmente até a sua crucificação, porém a história diverge da bíblia em vários pontos. Uma das coisas que me chamou a atenção foi a questão de costumes da época e um deles é o da mulher não ter nenhum significado ou valor naquela sociedade.

"Ao contrário de José, seu marido, Maria não é piedosa nem justa, porém não é sua a culpa dessas mazelas morais, a culpa é da língua que fala, senão dos homens que a inventaram, pois nela as palavras justo e piedoso, simplesmente, não têm feminino"

Outro ponto e esse pode revoltar os cristãos mais fanáticos é que Deus é um completo... troll. Saramago toca muito na questão do Deus do Velho Testamento ser tão diferente do Novo Testamento. O Deus "velho" era o Deus dos Exércitos, que prometia vingança, morte, matava crianças, dizimava povos, além disso pedia sacrifício de um animal branco, puro e sem marca. Já os Deus "novo" deixou tudo isso para trás, é o Deus de Amor e ainda despreza tais atos. Saramago coloca Jesus como o autor desse novo Deus.

"O cutelo subiu, tomou o ângulo do golpe, e caiu velozmente com o machado das execuções ou a guilhotina que ainda falta inventar. A ovelha não soltou um som, apenas se ouviu, Ahhh, era Deus suspirando de satisfação."

Como já citei, Saramago conta a história de um Jesus completamente humano, que tem desejos, ambições, sente raiva e amor. Não é puro ou santo e não foi escolhido por Deus, foi usado por ele. O mesmo se vê em Maria e agora isso pode revoltar também os católicos fervorosos, como na conversa abaixo com um anjo.

"— Então, o Senhor não me escolheu.
— Qual quê, o Senhor só ia a passar, quem estivesse a olhar tê-lo-ia percebido pela cor do céu, mas reparou que tu e José eram gente robusta e saudável, e então, se ainda te lembras, se como essas necessidades se manifestam, apeteceu-lhe, o resultado foi, nove meses depois, Jesus"

É um livro muito interessante que toca em bastantes, vamos dizer, feridas dos cristãos. Saramago tira e acrescenta várias passagens da história de Jesus e em várias delas há o tom irônico que coloca Deus e o diabo em patamares parecidos. Recomendo o livro, mas somente para aqueles que não são muito próximos de nenhuma religião que adora Jesus.

"— Então, servi-vos dos homens.
— Sim, meu filho, o homem é pau para toda colher, desde que nasce até que morre está sempre disposto a obedecer, mandam-no para ali, e ele vai, dizem-lhe que pare, e ele para, ordenam-lhe que volte para trás, e ele recua, o homem, tanto na paz quanto na guerra, falando em termos gerais, é a melhor coisa que podia ter sucedido aos deuses.
— E o pau de que fui feito, sendo homem, para que colher vai servir, sendo seu filho?
— Serás a colher que eu mergulharei na humanidade para a retirar cheia dos homens que acreditarão no deus novo em que vou me tornar.
— Cheia de homens, para os devorares.
— Não precisa que eu o devore, quem a si mesmo devorará."


Hildeberto 13/07/2015

Sou fã do José Saramago. Já li inúmeros livros dele, e inclusive mais de uma vez, como é o caso desta minha leitura do "Evangelho Segundo Jesus Cristo". Gosto do seu estilo crítico, meio sarcástico e irônico; suas abordagens de temas polêmicos a partir de perspectivas humanistas, além na esperança que o ser humano pode ser melhor do que realmente é.

Todos os elementos citados estão presentes neste livro. Da primeira vez que o li, não havia gostado muito, achado o desenvolvimento da estória meio pedante. Considerei que isto fora devido minha imaturidade literária na época e por isso, resolvi dar uma segunda chance ao livro.

Mas, após um intervalo de quatro anos entre a primeira e a segunda leitura, chego a mesma conclusão: provavelmente o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" é o pior livro de Saramago, dentre os que eu li do autor. Tentar descrever a vida de Jesus de forma humana é interessante; fazer uma crítica ás contradições da religião judaica e cristã, pode ser relevante; mas o conjunto da obra não me agrada.

Em outros livros, o autor demonstra possuir uma visão negativa da sociedade mesclada com aspectos de esperança. Neste não. Tudo é uma grande crítica, não há um meio termo. Saramago descreve o ser humano como bom, divino e Deus como maquiavélico e manipulador. Mas isto é uma contradição, visto que na obra do autor a condição humana é abordada com muito mais crítica do que neste Evangelho, de modo que muito dos problemas do mundo são de sua responsabilidade - os problemas do mundo não estão no céu e sim na Terra.
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Fleur de Livres 15/02/2020

"...Então, servis-vos dos homens, Sim, meu filho, o homem é pau para toda colher, desde que nasce até que morre está sempre disposto a obedecer, mandam-no para ali, e ele vai, dizem-lhe que pare, e ele pára, ordenam-lhe que volte para trás, e ele recua, o homem, tanto na paz como na guerra, falando em termos gerais, é a melhor coisa que podia ter sucedido aos deuses, E o pau de que eu fui feito, sendo homem, para colher vai servir, sendo teu filho, Serás a colher que mergulharei na humanidade para a retirar cheia de homens que acreditarão no deus novo em que vou me tornar, Cheia de homens, para os devorares, Não precisa que eu o devore, quem a si mesmo se devorará.
Jesus meteu os remos na água , disse, Adeus, vou para casa, voltareis pelo caminho por onde viestes, tu, a nado, e tu, que sem mais nem quê aparecestes, desaparece sem mais nem quê. Nem Deus nem o Diabo se mexeram donde estavam, e Jesus acrescentou irónico, Ah, preferem ir de barco, pois é melhor assim, sim senhores, levo-os até a borda para que todos possam, finalmente, ver Deus e o Diabo em figura própria, o bem que se entendem, o parecidos que são. "


Livro pra reler mil vezes na vida! Amor!
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Anica 07/04/2009

O Evangelho Segundo Jesus Cristo
Agora que eu perdi meu medo de Saramago, vamo que vamo né. Li há uns dias e acabei não comentando aqui porque foi na semana de surto-adeus-ao-hellfire, então acho que é melhor eu deixar registrada minhas impressões antes que eu esqueça o que de fato achei (o que acontece com frequencia, acredite. O pior é que minha memória tende a amar ou odiar as coisas depois de um tempo, sem muito meio termo). E para o caso de estar com pressa e não querer ler o post até o fim para saber o veredito, eu gostei muitão, mas acho que Ensaio Sobre a Cegueira ainda é superior (o que não quer dizer muita coisa fora que se alguém pedir para eu indicar algum do Saramago, eu indicarei Cegueira, hehe).

Do começo: publicado em 1991 quando eu ainda brincava de Barbie e achava que Stephen King era a coisa mais cool no mundinho dos livros (cofcof), O Evangelho Segundo Jesus Cristo relata a história de Jesus (ah, sério?), desde a gravidez de Maria até o momento da crucificação (o legal de falar sobre esse livro é que é meio difícil lançar algum spoiler há,há).

Acredito que o charme da obra fique por conta da humanização de Cristo. Por humanização quero dizer “tirar qualquer aura de perfeição que a Bíblia passa no Novo Testamento”. Aliás, uma coisa interessante nessa construção da figura humana de Jesus está no fato de que Saramago coloca a fase “milagreira” do Messias para depois da metade da obra. Boa parte é primeiro focada em Maria e só com a morte de José (gente, e eu que nunca tinha pensado no que diabos acontece com José!) Jesus passa a ser a personagem principal, digamos assim.

A relação dele com Maria Madalena (aqui Maria de Magdala) também é outro ponto que contribui para o desenvolvimento da “humanidade” de Jesus: ele sente e age como um homem qualquer. Ele ama Maria, uma prostituta, mas não consegue viver na casa dela porque a vizinhança zoa direto com ele, sendo a escolha do casal queimar a casa e se mandar. Ele não abre mão do amor como muitos homens fariam facilmente, mas mesmo assim mostra que sente… hum… orgulho? É, digamos que orgulho, como um sujeito qualquer.

Outro detalhe interessantíssimo é a questão dos milagres, e como são apresentados. Nesse caso deixarei uma citação do livro, até para vocês terem um gostinho do ótimo senso de humor do Saramago, do momento da transformação da água em vinho:

Se não fosse a voz do povo, representada, no caso, por uns servidores que no dia seguinte deram com a língua nos dentes, teria sido um milagre frustrado, pois o mordomo, se desconhecedor estava da transmutação, desconhecedor continuaria, ao noivo convinha, evidentemente, abotoar-se com o feito alheio, Jesus não era pessoa para andar dizendo por aí, Fiz uns milagres tais e tais, Maria de Magdala, que desde o princípio participara do enredo, não iria pôr-se a fazer publicidades, Ele fez um milagre, ele fez um milagre, e Maria, a mãe, ainda menos, porque a questão fundamental era entre ela e o filho, o mais que aconteceu foi por acréscimo, em todos os sentidos da palavra, digam os convidados se não é assim, eles que voltaram a ter os copos cheios.

Sério, muito bom. E não bastasse isso, ainda tem a figura do Pastor (ok, aqui eu posso revelar spoilers então não vou me prolongar muito sobre a personagem), que rende ótimos diálogos com Cristo e cuja frase “Não aprendeste nada, vai.” fica ecoando na memória mesmo após terminar a leitura. E sim, tem a conversa com deus e o diabo na barca, que na verdade foi a primeira coisa que ouvi falar sobre o livro (lembro que meu irmão estava lendo esse trecho na praia, em um ano novo qualquer).

Resumindo, é um livro fenomenal embora não seja tão bom quanto Ensaio Sobre a Cegueira. A cada livro que leio mais e mais vejo como era bobagem minha essa “Saramagofobia”, achando que não seria capaz de acompanhar uma narrativa só porque o sujeito não usa dois pontos e travessão para os diálogos, até porque no fundo é só isso que faz a obra dele parecer mais “difícil”. O Evangelho… é simplesmente imperdível.
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Andre 26/01/2010

Um Evangelho bem mais interessante e engraçado que os outros
Quando peguei este livro, pensava que fosse uma visão diferente da vida habitual de Cristo, aquela que se conta na bíblia. Isso, não há dúvida, existe na obra de Saramago. O que não esperava era ver tanta hilariedade, misturada ao drama e à ironia que o autor deu ao livro. Mistura esta que me conquistou desde as primeiras páginas, ao dizer que as loiras sempre foram causa de perdição na humanidade.

"O Evangelho Segundo Jesus Cristo", é um livro que fala sobre a vida de Jesus. Entretanto, não é aquela vida cheia de glórias e pompas a qual o livro sagrado conta; Saramago, em sua obra, nos mostra um Jesus humano, que mesmo sendo filho de Deus, é passível de erros e dúvidas. Em vários momentos, quis ele não ter de levar esse tão pesado fardo. Mas como se tratava de Deus, como discordar de sua palavra?

A parte mais hilária do livro foi o primeiro encontro entre Jesus e Deus. Este último aparece de uma forma completamente diferente da apresentada pelos religiosos. Saramago com certeza enfureceu muitos padres, bispos e pastores com o seu Deus diferente. Morri de rir com esse encontro. Para quem é religioso, isso soaria bastante como uma grave blasfêmia, mas como eu nem Saramago somos, isso não faz importância.

Mesmo que algumas partes me entediassem, a maioria do livro me chamou a atenção por ser um relato digamos "desgarrado" da narrativa bíblica. Conta sim a vida de Jesus, começando por sua crucificação, e só depois partindo para o seu nascimento. Mas a forma como Saramago mudou a história, como eu a conhecia, me chamou e muito a atenção.

Como a literatura é algo livre, e se pode escrever o que quiser, penso que as pessoas, mesmo religiosas, devem entender que essa é uma obra de ficção. Saramago não quis ofender nenhum crente na graça de Deus e na bíblia, mas teve a ideia de construir SEU evangelho. Se Mateus, Marcos, Lucas e João construíram os seus, cada um de acordo com suas vontades, por que Saramago, um homem como qualquer um, não poderia fazer o seu? Talvez a raiva venha do fato de que ele modificou a história, fazendo graça da figura de Jesus, e até da de Deus. Isso um religioso não aceita nunca. Nem mesmo sabendo que seja uma obra de ficção.

Uma parte do livro que está e minha cabeça até agora e que me fez gostar do livro de vez foram as consequências do sacrifício a que Jesus faria. Por seu nome, seriam mortas centenas de milhares de pessoas, sejam pela Inquisição ou pelas Cruzadas. Aquilo me marcou muito, e está ressoando em minha mente até agora, pois poucas vezes vi a verdade tão estampada em meus olhos como nessas páginas, mesmo que eu já a soubesse há muito tempo.

"O Evangelho Segundo Jesus Cristo" é um livro para não apaixonados por seu credo. Se você ama seu deus acima de tudo, e é um cego como muitos, por favor, não chegue perto dele. Se é um religioso, mas mesmo assim não tem preconceitos contra os livros e quer ler uma obra que faça uma sátira de seu maior ícone, pode ler. Já para quem não é religioso - como eu - será um deleite e uma leitura muito agradável.


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