A Máquina de Joseph Walser

A Máquina de Joseph Walser Gonçalo M. Tavares




Resenhas - A Máquina de Joseph Walser


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Toni 02/05/2021

Leitura 27 de 2021

A máquina de Joseph Walser [2004]
Gonçalo M. Tavares (Portugal, 1970-)
Cia. das Letras, 2010, 166 p.

Segundo volume da tetralogia “O reino” — composta por “Um homem: Klaus Klamp” (I), Jerusalém (III) e Aprender a rezar na era da técnica (IV) — “A máquina de Joseph Walser” se mantém no mesmo espaço-país-cidade onde tem lugar o primeiro livro, mas, diferente daquele, começa meses antes do início da guerra. Ainda que algumas personagens de Klaus Klump sejam mencionadas, a apreciação deste romance de maneira alguma depende da leitura da primeira obra da tetralogia. Como já foi dito no post anterior, são narrativas independentes que podem ser lidas individualmente ou em qualquer ordem.

Enquanto em Klaus Klump acompanhamos uma personagem envolvida com a resistência armada, Joseph Walser é aquilo que nós podemos chamar de típico isentão. Contanto que seu trabalho mecânico possa ser feito da mesma forma todos os dias e sua curiosa coleção mantida, Walser pouco se importa se o país está em guerra ou o quê reivindicam qualquer um dos lados do conflito. Casado e sem filhos, traído pela mulher e, por sua vez, também infiel, trata-se de uma criatura absolutamente cooptada pela lógica da produção, do desempenho e da alienação, até o momento crucial em que um acidente com sua máquina introduz um corte em sua “ingenuidade absolutamente sensacional”.

Da maneira como é descrita no livro, a relação de Walser com sua máquina é espantosa de tão doentia (me lembrou a Keiko de Querida Kombini). Com o distanciamento necessário, no entanto, não é nada diferente do que vemos hoje entre algumas pessoas e seus trabalhos ou ferramentas de produção. O acidente revela que sua indiferença ao mundo, antes caracterizada como “uma melancolia infiltrada nos sentimentos da eficácia” nasce, na verdade, de “um ódio dirigido a todos e a cada um dos indivíduos com quem a sua existência se cruzava”. Walser deseja ser deixado em paz com sua coleção “inútil, absurda, secreta”, triste retrato de uma classe de pessoas para as quais o mundo não passa de um estorvo à ilusória alegria de suas pequenas engrenagens desumanizadoras.

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Biblioteca Álvaro Guerra 18/04/2019

O romance integra a tetralogia O Reino, dedicada ao mal, e é escrito numa prosa cuja habilidade narrativa é apenas superada pela desenvoltura com que Tavares combina ficção e investigação filosófica. O pacato funcionário Joseph Walser leva uma vida previsível, enquadrada pelos movimentos repetitivos da máquina industrial que opera. Nem mesmo a guerra é capaz de afetar a estabilidade de seu cotidiano. Entretanto, Walser tem uma paixão secreta: a enorme coleção que mantém fechada à chave, protegida até mesmo dos olhares de Margha, sua calada mulher.

Livro disponível para empréstimo nas Bibliotecas Municipais de São Paulo. De graça!

site: http://bibliotecacircula.prefeitura.sp.gov.br/pesquisa/isbn/9788535917048
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Paula 22/02/2015

O segundo livro da tetralogia O Reino, de Gonçalo M. Tavares, narra a história de Joseph Walser, um homem introvertido, calado e apático. Joseph é casado com Margha e trabalha em uma fábrica operando uma máquina perigosa, pois ao mesmo tempo que lhe fornece o trabalho que o sustenta, também pode, com um único descuido, tirar a sua vida. Apesar do baixo salário que recebe, Joseph se reúne aos sábados com outros colegas de trabalho para jogar dados fazendo apostas. Tendo uma vida bastante regrada, onde cada ação precisa ser executada de forma controlada, o jogo de dados é um dos poucos momentos em que sente ter controle sobre seu destino, já que só há dois caminhos possíveis ao jogar os dados: a sorte ou o azar.

[...]
Para ler a resenha completa, acesse:

site: http://pipanaosabevoar.blogspot.com.br/2015/02/a-maquina-de-joseph-walser.html
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Arsenio Meira 21/02/2015

Joseph Walser: Meursault em tempos recentes, condenado por...
Consideremos que se trata de um livro curto, que não alcança 200 páginas, mas sem dúvida os discursos filosóficos e as reflexões, tanto do narrador quanto de Klober Muller, seu superior verborrágico e fanfarrão, apresentam desenvolvimento e profundidade maiores que as das próprias personagens. A riqueza do livro aponta-se do lado de fora dos indivíduos. Dentro das ideias, mas fora dos seres humanos. O ápice deste fato revela-se na ideia principal formulado por Klober Muller, e que, implausível de nascença, não pode ser alcançada/atingida por homem algum.

Portanto, se a complexidade da vida está presente com todos os seus elementos, sua essência encontra-se fora do animus do "elenco" diminuto mas marcante dos personagens deste inusitado romance. Tais seres encontram suas vidas(cada uma em sua particularidade) de maneiras estranhamente entravadas. Não há desenvolvimento possível, exceto pela morte ou isolamento (que é outro tipo de morte). Vidas retalhadas assim como os capítulos dos livros, e enfileiradas assim como os capítulos que não têm nome.

O próprio significado das vidas de Walser, sua esposa Margha, Klober, seu companheiro de ofício e jogos de dados Fluzst M, e Claire, ou até mesmo a busca por um significado da parte deles apresenta mais uma faceta deste mundo desiludido que passou a vigorar com mais contumácia com o surgimento de Samuel Beckett. Até as duas mulheres com quem Walser se envolve parecem apaticamente perdidas não na trama, mas em si mesmas, dentro do mundo que as cerca.

Os homens, Fluzst M. e Klober Muller assumem posturas antagônicas. O primeiro, mesmo apesar da tentativa, não consegue superar a realidade que lhe oprime. O segundo, como frisei, compreende friamente o jogo de interesses que desenvolve as relações humanas e parece completamente adaptado ao status quo, ainda que de forma histriônica. Mas se todos os indivíduos se comportassem como Klober Muller, ou até seguissem o que ele discursa, o cenário se tornaria ainda mais sombrio e devastador.

Como Walser é o protagonista, recebe o maior quinhão do que é narrado; ele é o Meursault mais novo: nada mais natural que se afigure mais nítido nele o efeito destas relações e revelações da trama tecida pelas mãos ariscas do Gonçalo M. Tavares. Um indivíduo que se relaciona com as máquinas de maneira infinitamente mais íntima que com seres humanos, que encontra nelas lugares seguros de afeto, mas que talvez, no fundo, esteja simplesmente a relacionar-se consigo mesmo, uma vez que são objetos inanimados, lembra - o menos - o olhar inicialmente opaco e alheio de Meursault.

A iniquidade do mundo se impõe a Walser com maior veemência quando ocorre sua tragédia, meio que anunciada no início do livro ou um pouco mais adiante. Este dado, inclusive, é o primeiro divisor de águas do livro, que é dividido em três partes. Um certo fato determina a existência de Walser. Tal qual ocorrera com Meursault. A partir de tais momentos, ambos fiéis ao desenrolar da trama, os personagens já pareciam talhados para transpor tais obstáculos tormentosos. Parecer não dá certeza de um centavo a seu ninguém, como dizia o outro... Num espaço que se apresenta ditatotral, injusto, sacana, nada diferente de tantos lugares que sempre despontam por aí, onde as possibilidades de avanço que se apresentam são voltados para o avanço da violência e de um belicismo ainda maiores, não há muito espaço para "o amor, o sorriso e a flor." Zero de futebol. Carnaval, nem notícia de boatos. É sufocante, na mais caridosa das hipóteses.

Mas no meio do caminho, mais um problema: este estado de coisas foi criado pelo próprio homem; e Gonçalo parece-me defender a tese de que o homem agora já não possui mais controle, nem consegue elaborar uma solução para os problemas que se apresentam. É o se correr o bicho pega... Isso no Brasil já virou ditado popular desde que D. João chegou com suas coxinhas de frango nas algibeiras... Mesmo com a Carlota vendendo caro os desconfortos...

A gravidade dos problemas aumenta proporcionalmente às suas complexidades. E estes não podem ser analisados completamente a olho nu, pois têm raízes muito profundas. De que nos serviria aprofundar na arte, tanto criando quanto a criticando, sem a visão de um retorno ao local de onde se partira inicialmente? Ao indivíduo simples, mas consciente, a desilusão se reflete em uma mente que percebe que não lhe restam muitas expectativas. Em Walser isso se apresenta na simples coleção e em sua relação com a máquina.

Desta vez, por fim, com o indivíduo modificado pelo processo no qual passou ao longo do caminho.Joseph Walser não deixa de ser, com seus sapatos "absolutamente irresponsáveis", sua própria guerra: silenciosa, sem máquinas, ou bombas, granadas; apenas o vazio fatal de um corte em seu corpo. Vazio porque o sangue derramado, às vezes, traz alguma redenção. No mais, de nada adianta. A não ser o esquecimento.
Lais Dias Ramos 21/02/2015minha estante
Que linda essa resenha!
Você é um ótimo marqueteiro pra livros..rs


Arsenio Meira 21/02/2015minha estante
kkkkk, valeu Lais! E saiu à fórceps, eu não escrevia desde outubro, acho. Meio por protesto, em face deste novo skoob, cujo formato eu não gostei. bjos e obrigado.


Renata CCS 24/02/2015minha estante
Você voltou! E já começou o ano altamente inspirado! Saudades de suas palavras.


Arsenio Meira 24/02/2015minha estante
Minha amiga, Renata! Obrigado.
Não fui eu que voltei: e sim sua ternura e generosidade que continuam intactas.
Sempre repletas de um sincero apoio e estímulo e do desejo de compartilhar.
Bjos do amigo
Arsenio




Ocelo 02/02/2013

“A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER”
Desde quando li em agosto de 2011 pela primeira vez um de seus livros cujo título é: “Aprender a Rezar na Era da Técnica” que faz parte da tetralogia O REINO que eu me tornei fã e admirador do autor lusitano Gonçalo M. Tavares. Refiro-me aqui a mais um de seus magníficos livros que já li neste ano e por sinal também gostei bastante, é o segundo da tetralogia e chama-se “A Máquina de Joseph Walser”. Cujo livro narra a história de um funcionário especialista na operação de uma máquina industrial, tal especialista é o próprio Joseph Walser. O livro narra a realidade de muitos trabalhadores como a de Joseph Walser, que insiste calçar sapatos antiquados, que só se sente verdadeiramente útil quando está operando sua amada e companheira máquina industrial. Costuma gastar suas horas de folga jogando dados com alguns amigos também operários, é claro. Mas na verdade sua existência interior é preenchida por uma excêntrica coleção que não se sabe ao certo de quê, que a mantém fechada à chave e organizada por ele com infinita minúcia! Enfim, é um livro que retrata da vida e rotina de um trabalhador já cansado da mulher, da rotina, por não ter filhos e resignado em seu único mundo que faz real sentido, o local de trabalho!
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Claire Scorzi 27/03/2011

Tecnologia e seus deuses
A maldade é uma categoria do raciocínio. Não é uma invenção sobrenatural, nem cresce a partir de substâncias inseridas nos vegetais comestíveis. A maldade é uma categoria do instinto, sim, mas também do raciocínio, da inteligência. Como se fosse uma etapa do percurso que o cérebro matemático faz quando pretende resolver problemas numéricos. Dedução, indução e maldade." (p. 36).
A primeira frase - "A maldade..." - já denuncia o escritor como pós-modernista. É o pós-modernismo quem desconfia do racionalismo (que prioriza a razão em tudo); o pós-modernismo anuncia a derrocada do reino da razão (que passa a levar letra minúscula). Sua crítica procede; onde só a razão impera, pode-se desembocar na perversidade, por que não? é preciso raciocinar para exercer a perversidade. A perversidade é o mal raciocinado, o mal "mais bem feito" porque se fez uso da inteligência.
Nota-se também o uso de um vocabulário de outras áreas que não a literária - termos da química, da ciência experimental, e da filosofia. A escrita de Tavares inclui narrativas na 1ª e 3ª pessoas do presente do indicativo e do pretérito imperfeito e mais que perfeito.
Quando, devido ao acidente com a máquina, Walser não pode mais operá-la e é assim transferido para trabalho burocrático, sua 'conexão' - no sentido quase de 'identificação' - com a máquina vai se esvaindo. Walser começa a perceber-se como indivíduo. Também se descobre como uma pessoa ausente, anódina, incapaz de amor (o que o alegra: não poderá ser vulnerável) e de ambições.
Como denúncia da idolatria da tecnologia, o romance é forte; como linguagem, pede uma intensa concentração dos poderes do leitor. Não sei se é sempre possível escrever sempre assim; mas sei que acabei de ler "A Máquina de Joseph Walser" pensando numa futura releitura.
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Adriana 01/11/2010

O romance integra a tetralogia O Reino, dedicada ao mal, e é escrito numa prosa cuja habilidade narrativa é apenas superada pela desenvoltura com que Tavares combina ficção e investigação filosófica.

A personagem central deste romance, o pacato funcionário Joseph Walser leva uma vida previsível, enquadrada pelos movimentos repetitivos da máquina industrial que opera. Um homem fraco, que se afasta do centro dos conflitos, que aceita tudo, passivamente. Nem mesmo a guerra é capaz de afetar a estabilidade de seu cotidiano.

Entretanto, Walser tem uma paixão secreta: a enorme coleção que mantém fechada à chave, protegida até mesmo dos olhares de Margha, sua calada mulher.

Gonçalo M. Tavares é uma das figuras-chave da literatura portuguesa atual. Entusiasticamente elogiado por José Saramago por seu impressionante domínio da língua - "não tem o direito de escrever tão bem aos 35 anos: dá vontade de lhe bater", afirmou o prêmio Nobel em 2005 -, Tavares possui uma extensa obra, incluindo romances, teatro e poesia.

Indicado para leitores que gostam de temas nefastos e altamente filosóficos. Editora Cia das Letras. Preço: R$ 39,00.

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Alebarros 09/01/2011minha estante
Poxa, Adriana, só duas estrelinhas pro Gonçalo?...rs. Acabei de comprar o livro e tô aqui empolgado. :)




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