A Visita Cruel do Tempo

A Visita Cruel do Tempo Jennifer Egan




Resenhas - A Visita Cruel do Tempo


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Daniel 02/03/2012

"O tempo que antecipa o fim / também desata os nós"
Extasiado. Há muito tempo não lia um livro tão bom. Mereceu mesmo levar o Pulitzer, é melhor que Liberdade do Jonathan Franzen. Dá mesmo vontade de ler tudo de novo quando chegamos na última página.

Um dos trunfos da narrativa são os capítulos fora da ordem cronológica. Os personagens às vezes dão a impressão que sumiram, e surgem outros, em épocas e lugares diferentes. Parece que você está lendo um livro de contos, mas no final há uma unidade surpreendente. Mas mais do que os recursos criativos da autora (como um capítulo narrado em powerpoint, ou outro narrado em segunda pessoa!) são as ideias e reflexões que o texto de Egan provocam: Qual é a importância que temos no mundo? O que nos tornamos são frutos de nossas escolhas ou de nossas oportunidades? ou de ambas? O tempo é circular? Tudo é temporário, tudo passa, tudo é substituível? Reflexões, é claro, que uma leitura rasa e apressada não vai gerar.

Alguns leitores podem se sentir intimidados ou confusos com tantos nomes, lugares e datas (ou a AUSÊNCIA aparente das datas!). Os personagens principais aparecem com idades diferentes em determinados capítulos. Por exemplo: Sasha é uma adolescente no capitulo Adeus, meu amor (começo dos anos 90); uma jovem universitária no capítulo Fora do Corpo; uma mulher adulta em Ouro que cura e em Achados e Perdidos; e uma mulher madura no capítulo Grandes Pausas do Rock.

Os personagens principais - SEM SPAM ! - são:

- SASHA: uma das personagens centrais do romance. Foi uma adolescente rebelde, chegou a fugir de casa. Foi secretária e assistente de Bennie nos anos 90. Cleptomaníaca.
Amigos de Sasha na Universidade de Nova York nos anos 90:
- ROB: gay, melhor amigo de Sasha
- DREW: namorado de Sasha
- LIZZIE: melhor amiga de Sasha
- BIX: negro, namorado de Lizzie
- BENNIE SALAZAR: outro personagem central, foi músico nos anos 70 e posteriormente um produtor musical de sucesso
Amigos de juventude de Bennie nos anos 70:
- SCOTTY: fazia parte da banda chamada "Flaming Dildos", com Bennie e Bosco
- ALICE: a beldade do grupo, disputada por Scotty e Bennie
- JOCELYN: teve um caso com o produtor Lou, um homem mais maduro
- RHEA: melhor amiga de Jocelyn
- BOSCO: guitarrista do "Flaming Dildos"
- STEPHANIE: casou-se com Bennie e teve dois filhos: CHRIS e Colin
- KATHY: amiga de Stephanie, com quem jogava tênis num clube esnobe
- LOU: produtor de discos nos anos 70, pai de CHARLENE e ROLF
- MINDY: namorada de Lou, fez um safári com ele e os filhos no começo dos anos 70
- ALBERT: guia do safári
- DOLLY: publicitária, foi chefe de Stephanie. Esteve presa por causar um desastre numa festa
- LULU: filha de Dolly. Irá trabalhar com Bennie no futuro, substituindo Sasha
- JULES JONES: repórter de celebridades, irmão de Stephanie
- KITTY JACKSON: jovem atriz entrevistada por Jules. Posteriormente contratada por Dolly
- TED HOLLANDER: tio de Sasha, foi procurá-la quando ela fugiu para a Itália na adolescência
- COS: terapeuta de Sasha
- ALEX: conhece Sasha quando chega em NY. No futuro vai trabalhar com Bennie e Lulu
- REBECCA: esposa de Alex
- ALISON e LINCOLN: filhos de Sasha


Segue um roteiro – SEM SPAM! – com os capítulos em ordem cronológica, localizando o ano em que a ação se passa e o narrador (quando for o caso).

1. Safari - África, 1973 - Capítulo 4

2. Não estou nem aí - São Francisco, 1979 (narradora: Rhea) – Capitulo 3

3. Adeus, meu amor - Nápoles, 1993 – Capítulo 11

4. Fora do corpo - NY, 1994 (narrador: Rob) – Capítulo 10

5. Xis-zero - NY, 1997 (narrador: Scotty) – Capítulo 6

6. Um almoço em 40 minutos - NY, 1999 – Capítulo 9

7. De A a B - NY, 2003 – Capítulo 7

8. Vocês - São Francisco, 2006 (narradora: Jocelyn) – Capítulo 5

9. Ouro que cura - NY, 2006 – Capítulo 2

10. Como vender um general - NY, 2008 – Capítulo 8

11. Achados e perdidos - NY, 2009 – Capítulo 1

12. Linguagem pura - NY, 2022 – Capítulo 13

13. Grandes pausas do rock - Deserto da Califórnia, 202_ (narradora: Alison) - Capítulo 12

Dá para arriscar uma releitura em ordem cronológica...
Eu reli desta forma (quatro anos depois da primeira vez) e achei que funcionou muito bem!

O jornalista João Paulo Cunha definiu muito bem as sensações que o livro desperta: “A romancista nos coloca em meio a um caleidoscópio que, com o desenrolar da história, passamos a girar para ver brilhar imagens encantadoras ou assustadoras. O nome do brinquedo é Tempo.”


Carol 16/11/2012

Puta que pariu. Que livro!


Renata CCS 28/10/2014

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela. (Fernando Pessoa)


"In the days of my youth / I was told what it means to be a man / Now I've reached that age / I've tried to do all those things the best I can / No matter how I try / I find my way into the same old Jam." - Good Times, Bad Times (Led Zeppelin)


Quando o tempo bate à nossa porta, não tem jeito. Ele chega e detalhe: ele avisa! Todos os minutos, dias, meses, anos vão passando e a gente, claro, percebendo. Basta olhar no relógio e no espelho, que lá estarão as provas e as marcas dessa visita. E apenas nós podemos fazer com que essa visita não seja muito cruel.

Em A VISITA CRUEL DO TEMPO, Jennifer Egan trata da passagem do tempo e de como somos afetados por ele, de como sonhos e desejos começam, acabam e se renovam com o passar do tempo. E isso tudo baseado nas escolhas que fazemos e com a ajuda ou oposição - das pessoas que convivemos.

Sob a perspectiva de vários personagens e com um esquema que, em algum momento de suas vidas, suas histórias fazem com que se conectem uns aos outros, cada capítulo compreende um momento dentro do intervalo de cinco décadas que nos apresenta as mais diversas pessoas, onde o protagonista de um torna-se o coadjuvante do seguinte, como se cada um dos capítulos fosse um conto.

Nessa obra encontramos uma mistura do tempo presente, passado e futuro. Não há uma ordem cronológica: é tarefa do leitor adivinhar em que época se passa cada capítulo. Vamos nos orientando no tempo e no espaço através dos fatos que a escritora lança no texto.

E o tempo, implacável, é quase um personagem adicional que vai tocando a vida dos personagens, provocando efeitos que podem ser tanto avassalador como recompensador. E esse passar do tempo traz um que de pessimismo à narrativa: a constante busca de realização, a ausência de objetivos, a juventude que se dissipa, o isolamento e manipulação por meio da tecnologia, o talento musical em vias de extinção... realmente uma visita muito cruel, mas que vai de acordo com as escolhas de cada um.


"It's the time of the season / When love runs high / In this time, give it to me easy / And let me try / With pleasured hands / To take you in the sun to / Promised lands / To show you every one / It's the time of the season for loving..." - Time of the Season (Zombies)


O livro tem a música como pano de fundo - embora seja uma presença insconstante - e mais precisamente o rock. Direta ou indiretamente, todos os personagens parecem se ligar a este estilo musical. Mas os acontecimentos não são voltados única e exclusivamente para a música. Acho que a autora escolheu a indústria fonográfica porque ajuda na idéia de transição temporal, já que está sempre em movimento: é transitória, momentânea, mortal. Talvez seja a música o que mais nos faz refletir sobre a passagem do tempo, pois a banda ou cantor que foram sucesso ontem provavelmente não mais serão amanhã.

Mas vamos agora à criação de Jenifer Egan: escrever um livro onde possamos vislumbrar a passagem do tempo através do ponto de vista de várias pessoas pode ser uma tarefa difícil de realizar, mas Egan conseguiu isso com uma perfeita narrativa, além de ser muito perspicaz em adotar uma pluraridade de vozes para ilustrar a passagem do tempo. Sem dúvida, um livro muito bem escrito, mas a história dos personagens não me cativou. Embora a idéia do livro e sua forma de escrever sejam atraentes, seus personagens não são.

O livro dá a impressão de ser um experimento de Egan para elaborar suas histórias e testar diversas formas de narrá-las. Como foge ao típico torna-se uma leitura agradável, porém, mais adiante, nota-se que pouco sai do lugar.

São gigantes as qualidades técnicas. Sim! O domínio técnico é o que mais chama a atenção. Egan é extremamente hábil em espaços pequenos e entre tantos fios - mesmo emaranhados - a sua estrutura perfeita e completamente fora dos padrões é o grande atrativo do livro. É mesmo a questão da linguagem que chega ao fim do livro em posição de destaque.

Mas é difícil dizer se toda essa ânsia e fome do novo têm charme. Talvez as minhas expectativas estivessem muito elevadas ou talvez me falte uma sensibilidade necessária para compreender esses personagens. Não sei. Mas falta alguma coisa.

Se por um lado sua qualidade de escrita é assombrosa, acho que Egan não conseguiu traduzir com o mesmo arrebatamento o quanto é difícil o processo de amadurecimento de uma pessoa, seus sonhos e anseios, sua decadência e resignação, e as constantes mudanças causadas pelo decorrer do tempo.

Um livro de qualidade inegável, mas difícil de manter na memória. É bom. E só.


"Closing time, open all the doors / And let you out into the world / Closing time, turn all of the lights on Over every boy and every girl / Closing time, one last call for alcohol / So finish your whiskey or beer / Closing time, you don't have to go home / But you can't stay here." Closing Time (Semisonic)




Jow 12/07/2012

Para tornar a realidade suportável
"Às vezes, sem o sabermos, o futuro está em nós, e as nossas palavras supostamente mentirosas descrevem uma realidade que está próxima." Proust

De tanto tentar entender o que é o Tempo, acho que a primeira coisa que eu entendi é que deveríamos sempre começar alguma coisa sem saber que forma ela terá ou que tipo de estrutura se seguirá. Com o Tempo é assim, sempre existe uma espécie de sentimento misterioso no começo.

Ao ler “A Visita Cruel do Tempo” fiquei com a impressão de que um livro e uma série tiveram influências especificas e que podem ser contraditórias ao mesmo tempo. Uma é Proust e sua obra prima “Em Busca do Tempo Perdido” que eu li de forma fragmentada e quando era muito mais jovem e inexperiente, e por não entender muita coisa que ali se encontrava, deixei para ler em ocasiões futuras. Mas, depois de folhear algumas páginas eu me peguei pensando em como o tempo não é apenas um ótimo tema para um livro, mas, na verdade, me parecia como o único tema para um livro. E, de certa forma, o Tempo é o tema de todos os livros, porque todo romance é baseado na passagem de tempo para acontecer.

Pra quem já leu Proust, sabe que a leitura do francês é muito complexa e pouco contemporânea, algo que dificulta, e muito, o processo de entendimento do livro. Já a obra de Jennifer Egan corre pelo lado contrário, e que finalmente temos um livro contemporâneo sobre tempo. Em “A Visita Cruel do Tempo” o leitor sente, instintivamente, que o tempo real é uma característica muito bruta do romance e mesmo assim Egan consegue criar uma abordagem complexa, singular e angular do tempo.

Outra influência perceptível neste livro é a série “The Sopranos”. Assim como no seriado um dos principais traços marcantes da narrativa é que as histórias são contadas de uma forma descentralizada. Não existe uma história central, e assim é possível deslanchar a narrativa através da ótica de personagens principais e periféricos. Sendo assim, de repente, um personagem periférico se torna importante, o que torna a experiência da leitura muito mais excitante; Com isso os capítulos pareciam muito bidimensionais. Frequentemente é possível não saber qual era a história principal do capítulo, até que finalmente ele chegasse ao final, mas isso não importava. A cada capítulo a pergunta que fica é: “Como foi à mudança, o processo”.

Depois de terminada a leitura, me peguei pensando se esse, livro faz as pessoas refletirem de um jeito melancólico sobre a vida?! E, pra falar a verdade, eu detestaria que as pessoas pensassem assim. Penso que Egan não escreveu essa obra para que ela fosse lida como uma advertência sobre a vida selvagem. A impressão que eu tenho é de que ela estava “apenas” interessada em observar como são as pessoas ao longo do tempo. Na verdade, a maioria das pessoas se sai melhor, na vida com as suas escolhas, e algumas outras não. É assim que acontece na vida. É muito difícil saber, e eu acho tão surpreendente conforme fico vivido nesse mundo, ao ver o que acontece com as pessoas e como elas se parecem. E essa é a melhor experiência do Facebook, por exemplo: você pode olhar para alguém que não via desde os 15 anos, pensar: “Uau!!”

Por fim, acredito que o real objetivo de “A Visita Cruel do Tempo” é criar esses choques e as mais espantosas realizações sobre a passagem do tempo. “Porque ficaríamos surpresos?” Nós sabemos que o tempo passa, mas não sabemos de verdade. E essa é uma das coisas divertidas sobre isso. Nós sabemos que isso está acontecendo. Nós dizemos “estou atrasado” ou “eu tenho um prazo final”. Nós experimentamos o tempo e suas maneiras pró-funcionais. Mas a grande questão nós ignoramos por razões óbvias, porque parte da ilusão da vida é achar que a gente vai durar para sempre. E nós precisamos disso! Então, tentar deixar isso desdobrado no livro é o grande mérito de Jennifer Egan.



jota 30/04/2013

Sexo de menos, muita droga e rock 'n roll
Na capa deste livro da Intrínseca o Los Angeles Times informa: O melhor livro que você terá nas mãos. Exagerados! Prefiro ficar com a Newsweek que também elogiou o livro mas ressalvou: Em meio a todos os floreios pós-modernos A Visita Cruel do Tempo é tão tradicional quanto um romance de Dickens. O objetivo [de Egan] não é explodir a narrativa convencional, mas explorar como essa narrativa responde às pressões e às oportunidades da época digital.

Daí que temos todo o capítulo 12 em Power Point, o diário em slides de uma jovem personagem certamente um dos tais floreios de que fala a revista; outro poderia ser a narrativa fatiada, como se Egan estivesse escrevendo vários contos interligados -, que vai me fazer mais ainda continuar preferindo a narrativa tradicional do Dickens de Grandes Esperanças, por exemplo.

Espero que nos anos 2020, nem tão distantes assim, os autores não inventem de escrever seus livros (no todo ou parcialmente) no formato de fluxogramas, organogramas, árvores genealógicas ou afins. Esse capítulo 12 é um dos mais interessantes do livro (não exatamente por conta das pausas nas canções), mas a forma como é apresentado o torna um tanto aborrecido.

Mas é certo que não é nada complicado acompanhar o desenvolvimento do livro com seus muitos personagens vivendo em diferentes épocas, embora eu pense que ele continuaria sendo tão interessante quanto é se tivesse seguido a ordem cronológica banal. Mas então certamente não ganharia o Pulitzer: críticos e julgadores de prêmios literários têm uma enorme queda por autores que fogem da escrita convencional, não?

Mais do que a forma é o conteúdo o que importa para quem está em busca apenas de uma boa história para companhia e nesse sentido a autora se sai bem melhor, pois apresenta várias histórias interessantes dentro dessa história maior sobre o tempo, sua passagem e os efeitos sobre as pessoas. Somos levados a conhecer personagens marcantes, com qualidades e defeitos, como todos os seres humanos. E, sem dúvida, a personagem Sasha é a que mais se destaca aqui (ela abre o primeiro capítulo e é mencionada na última linha do final), embora o personagem principal deste livro seja mesmo o tempo.

Naquele sentido que Nietzsche dá a ele. O tempo não passa devagar ou depressa, o tempo simplesmente é e está; ele é infinito e está aí o tempo todo. Nós e todas as coisas é que passamos por ele. Eu diria mais, uma obviedade, claro: tempo e espaço são personagens constantes em todos os livros e a nossa absoluta falta de controle sobre o primeiro (o espaço a gente também não domina muito bem, vai destruindo tudo o que pode em nome de muitas coisas) torna a vida uma caixa de surpresas nem sempre agradável de ser aberta, às vezes cruel mesmo...

Lido entre 25 e 30/04/2013.
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Ive Brunelli 05/08/2012

Tempo, tempo, mano velho...
A ficção contemporânea norte-americana está repleta de “ingredientes de sucesso” que, num mesmo caldeirão de sensações, mistura brigas terríveis, paixões arrebatadoras, crises existenciais insossas, crimes brutais, personagens sem estofo, fatos históricos tratados com superficialidade e conceitos filosóficos manjados. É uma receita com poucas variações, mas sempre envolta em muito marketing para causar emoções imediatas nos leitores e, acima de tudo, vender, vender, vender. Nada radicalmente contra essa lógica da literatura de mercado norte-americana. Simplesmente não quero isso para mim. Uma questão de gosto, sem querer ofender ninguém. Eu prefiro os clássicos e, contemporâneos por contemporâneos, fico com os brasileiros mesmo.

Temi que esta Cruel Visita do Tempo se encaixasse nesse esquema mercadológico. Já na capa, senti o cheiro da marketice barata com aquela inscrição "o melhor livro que você terá em mãos". Santa pretensão.

Pois bem. Vamos à trama. Mal iniciada a leitura, percebi que um argumento central seria esse sentimento tão em moda atualmente, que diz "é-importante-viver-o-presente-porque-o-passado-já-se-foi-e-o-futuro-ninguém-pode-prever-portanto-aproveite-enquanto-pode-porque-a-vida-é-bela-e-digna-de-ser-vivida". Ou outro conceito, esse mais antiguinho, expresso pelo bordão “É, o mundo dá muitas voltas.” Esse argumento poderia ser apenas mais um clichê para compor o caldeirão de sensações da literatura de mercado norte-americana.

Mas, definitivamente, esse NÃO é o caso desta obra vencedora do Pulitzer. Jennifer Egan não é um best-seller edulcorado com conceitos moderninhos de uma pseudocultura literária. A autora inovou, em primeiro lugar, na distribuição caleidoscópica dos apítulos por lugares e datas diversas. Em segundo lugar, por diferentes focos narrativos: narradores em primeira pessoa, em terceira, até em segunda (!), cada um narrando de um jeito particular. Inovou na forma: até uma apresentação em slides constitui um capítulo interessantíssimo. E tudo isso com inúmeras personagens, todas densas, expressivas, com repertórios e identidades muito bem marcadas. Sem falar que, mesmo distintas, distantes umas das outras pelo tempo e pelo espaço, estão unidas para contar a história.

E, por fim, a crueldade do tempo sugerida pelo título é capaz de dar sacudidas doloridas no mais durão dos leitores. Muito além da ideia de sugerir que devemos aproveitar o momento presente enquanto ele existe, o livro nos leva a reflexões muito mais profundas. No meu caso, a sensação de que nossos sonhos mudam com o tempo, assim como nossos amigos, nossos anseios, nossas necessidades, nossas expectativas, nossa saúde, nossa situação financeira e, principalmente, nossas prioridades. De repente, aquilo que era tão importante há tempos, hoje não significa mais nada. Ou o contrário. Mais que tudo, esse livro nos leva a refletir profundamente sobre nosso lugar no mundo e sobre o quanto estamos à mercê do inefável, do inesperado e até do bizarro que há entre nós, nossas opções ao longo da vida, e as armadilhas do acaso. Mais que um livro pra se vender, vender, vender, este serve para se pensar, pensar, pensar...

Está de parabéns a tradução de Fernanda Abreu. Nossa cultura brasileira privilegia a crítica às traduções, que só merecem atenção quando são malfeitas. Ou, mesmo quando são boas, basta um pequeno deslize, uma só palavra mal empregada, e lá vamos nós destruindo todo o trabalho insano por que passam nossos tradutores. Fernanda Abreu mandou muitíssimo bem. Basta mencionar o que fez no título. A Visit from the Goon Squad virou A Visita Cruel do Tempo. O que tem Goon Squad a ver com o tempo? Em princípio, nada. Aqui, nesse caso, tudo. Para descobrir o motivo, leia o livro.

Para ajudar na compreensão da cronologia dos capítulos, sugiro ler a resenha de Daniel Boratto sobre o livro, aqui mesmo, no Skoob. Ele teve a manha de anotar datas e locais, o que me ajudou a me situar melhor na compreensão de cada capítulo.


Mateus Bandeira 16/02/2012

Uma metáfora perfeita das mudanças que sofremos com o tempo!
De início, Egan nos apresenta histórias simples de pessoas comuns. Aparentemente, nada de mais. Nas primeiras páginas, somos apresentados aos primeiros personagens da história: Bennie Salazar e Sasha. E, assim, inicia-se a teia de eventos que dá continuidade ao livro. Alternando de momentos de 1970 à um futuro próximo, somos apresentados a uma variedade de personagens com histórias distintas, mas que se interligam de formas extraordinárias. E isso é o que dá tanto destaque para A Visita Cruel do Tempo, a forma como é contada e a maneira com a qual a autora lida com a gama de personagens fazem com que esta obra distinta tenha gerado tanta repercussão em todo o mundo, além de ter sido tão premiada.

A obra lida com conflitos do nosso cotidiano de uma forma assustadoramente real, alternando entre o passado, o presente e o futuro. O detalhismo que a autora usa em partes do livro, junto dos cenários, do mais simples ao mais impactante, dão um complemento a história sem igual. Poderia até dizer que o livro é uma antologia, até parece no começo, mas apesar de cada capítulo ser como uma história distinta, os personagens se interligam em certo ponto, de uma forma sensacional. Neste ponto, ressalto ainda que devo dar os parabéns a autora, pois o livro tinha tudo para ter um resultado terrível e um desenvolvimento mal-elaborado. Mas o que ocorre é justamente o oposto: é tudo tão bem estruturado e elaborado que nenhum buraco é deixado durante a narrativa.

Leia a resenha completa em: http://our-vices.com/?p=10747


Igor Gabriel 20/06/2012

"O melhor livro que você terá em mãos. " Los Angeles Times
Nunca tinha ouvido falar em Jennifer Egan e nunca tinha ouvido falar neste livro até começarem com a enxurrada de propaganda. Logo pesquisei sobre a opinião dos leitores, a sinopse e gostei muito do que li.

Ao ler o livro, porém, descobri que tudo foi uma jogada de marketing e que eu fui vítima da forte propaganda da editora.
O livro começa com uma narrativa interessante sobre uma das personagens, o que me fez ficar mais empolgado com o livro no início, mas nos outros capítulos aquilo tudo foi se desfazendo aos poucos.
Em cada capítulo a narrativa vai mudando: No primeiro é a personagem quem narra o que aconteceu com ela, no segundo, com uma narrativa diferente, um personagem que tem a ver com a primeira mas numa linha de tempo diferente, no terceiro muda de novo, personagem e narrativa.
Isso se dá o livro inteiro, mudando narrativa, personagem e tempo, ora no passado, ora no futuro... Chega um momento em que você começa a se perguntar em que linha do tempo você está e em que momento as estórias dos personagens vão se cruzar para criar uma trama complexa e misteriosa! Isso não acontece e é quando você chega na metade do livro e é bombardeado com mais de cem páginas do que parecem ser slides feitos por um dos personagens, sendo que isso entra sem explicação, de um personagem que você nunca ouviu falar e que é chato e não influencia em nada na trama (se é que tem uma), os personagens são pouco cativantes e a maioria fortemente estereotipados.

Se você está procurando um bom livro, com uma trama misteriosa, com uma mensagem diferente, um livro que faz você sonhar com ele, que torna os personagens palpáveis nas nossas mentes... Esse certamente não é o livro que você procura.

Notas 0 a 5

Arte da capa: 2
Narrativa: 0
Trama: 1
Personagens: 1
Idéia: 1


danilo_livros 24/02/2012

Quem somos nós diante do Tempo?
Veja mais resenhas minhas no Literatura de Cabeça:
http://literaturadecabeca.com.br

Durante o decorrer do nosso amadurecimento literário, nos deparamos com os mais diversos textos. Alguns nos cativam de cara, outros esquecemos ou deixamos logo de lado e alguns entram eternamente no nosso hall como um item de respeito.

Porque? Porque eles sabem dar o seu recado com maestria. Em suas páginas adquirimos de forma contundente embasamentos para divagar sobre a vida e aquilo que verdadeiramente somos. Nos identificamos com seus personagens nos medos, anseios e dúvidas e, nessa atividade solitária que é a leitura, arrumamos parceiros de jornada verdadeiramente inusitados.

Assim foi com A visita cruel do tempo (Editora Intrínseca, 335 páginas) de Jennifer Egan. Ao folhear estas páginas, desvencilhei-me dos pensamentos e me vi testemunha do passar do tempo. Bom e cruel, ás vezes bondoso, outrora indiferente. Mas sempre presente...

Bennie Salazar é o que podemos chamar de personagem central dessa trama. Produtor de rock outrora consagrado,ex-integrante de uma banda de rock na juventude, ele vê o passar dos anos surgirem inexoráveis diante do seu dia a dia. A perda do desejo, da fama e do sucesso trazem frustração em vez de serenidade.
E, durante a sua trajetória de vida, vão desfilando pelo seu rol interminável de dias uma variedade de personagens tão diversos, que transformam a cabeça do leitor em uma ciranda incrível.

Jennifer Egan, como escritora, é um fenômeno literário, na minha opinião. Não foi à toa que ela ganhou o Pulitzer por essa obra. Mais que um livro, ler este romance é como soltar ao vento as peças de um enorme quebra cabeças. De um capítulo para outro, não existe uma narrativa linear de tempo ou sentido. Cada hora um personagem dá voz a trama, se afastando ou ultrapassando completamente o ano em que a obra começa, como em um mosaico que pode parecer completamente indistinto, mas uma hora se encaixa.

O mais interessante no texto da autora é que ela parecia incorporada, tomada por uma legião de espíritos ao escrever esta trama, pois cada um dos personagens tem seu próprio estilo de texto e narrativa. Nos sentimos, em certos momentos, mais em uma antologia de contos do que em uma obra única.
Exatamente por isso que nem todos os momentos podem agradar o leitor. Tinha cenas que fiquei extremamente apaixonado pela narrativa, outras me entediei enormemente. Mas, acima de tudo, me interessei pela maneira que ela alfineta as convenções e expõe a sua opinião de que o tempo irá levar a todos, sem exceção.

- Eu estou acabado - disse ele - Estou velho, estou triste... e isso em um dia bom. Eu quero sair fora de tudo isso. Mas não quero me encolher em um canto, quero ir embora em grande estilo: quero que a minha morte seja uma atração, um espetáculo, um mistério. Uma obra de arte. O suicídio é uma arma, todo mundo sabe. Mas e se for também uma arte?


Este é o meu querido Bosco, um músico esquecido dos grandes tempos do rock. Sentiu o clima do livro?

O capítulo final, na minha opinião, é um espetáculo a parte. Fiquei fascinado por certos momentos da sua prosa rica e cheia de detalhes. Gostaria apenas de fechar os olhos e não parar de vivenciar aquilo tudo.

Não dá para eu falar mais nada. Só convidar você a embarcar nessa viagem.
Ou tem medo do que o tempo possa lhe mostrar?


Higor 23/01/2020

'20 melhores livros do século 21': Livro 07
Embora ainda não seja cultuado como um clássico, embora tenha nascido para tal, “A visita cruel do tempo” é um dos livros mais premiados da famigerada lista de melhores livros do século 21: das nove nomeações mais importantes, saiu vencedor 4 – mais até que o número 1 da lista, o que faz questionar ainda mais os méritos de uma lista.

Tido como perfeito, brilhante e adjetivos pomposos, eu caminhei, curiosamente, para o inverso de todos, procurando ler todos os livros anteriores da autora, que vieram para cá graças ao hype com o premiado, talvez temendo que não fosse isso tudo, afinal, embora proveitosos, os outros livros de Jennifer Egan se mostraram irregulares.

E eu fiz muito bem em esperar 10 anos para lê-lo, totalmente às cegas e sem saber nada da história, além de que seria algo pós-moderno e caleidoscópico, para poder apreciar toda a sua inteligência e frescor, que me fizeram engolir o livro para encaixar as peças desse temível quebra-cabeça.

Concentrando-se em um grupo de pessoas que giram direta ou indiretamente em torno de Bennie Salazar, este, por sua vez, um executivo da indústria musical, “A visita cruel do tempo” embarca de cabeça em um tema que é muito do meu interesse, o do tempo e suas relatividades, com anseios, planos e concretizações que acontecem ao longo dos anos.

A quebra da cronologia, que traz a sensação caleidoscópica, é justamente o grande trunfo da história, pois em um capitulo que alguém é apenas mencionado, no outro é um protagonista, para em um capítulo mais a frente, voltar do esquecimento para ser um personagem secundário.

E é justamente essa questão do que é, de onde está, do que poderia ser se..., ou de onde poderia estar se..., que me é caro, e que leva o leitor a reflexão, tanto durante a leitura, como após o final do livro, onde todas as cenas, montadas em uma só, demonstram como a vida, o destino, a força da natureza, Deus ou o próprio tempo age. Personagens que idealizaram um futuro, mas que se tornou catastrófico, enquanto outros até conquistaram o que almejaram, em um âmbito da vida, mas ainda permeia o vazio em outras questões.

Sem floreios, sentimentalismos ou detalhes que apenas engordariam o livro, mas com uma escrita acertada e necessária, “A visita cruel do tempo” não hesita em apresentar a crua transitoriedade da vida, onde o tempo rouba a cena de qualquer personagem e se apresenta como o verdadeiro protagonista.

’20 melhores livros do século 21’ é uma lista encomendada pelo site de cultura da BBC, em que diferentes especialistas foram responsáveis por eleger os melhores livros do mais recente século. Este livro também faz parte do projeto "Lendo Pulitzer". Para saber mais sobre a lista e conhecer os demais livros, assim como o Prêmio Pulitzer, acesse:

site: leiturasedesafios.blogspot.com
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LISANDRA 13/02/2012

Por onde andará Sasha?
O que ela terá feito da sua vida? Onde estará morando, por onde andará no dia do show?
Essa foi a pergunta que Alex e Bennie Salazar fizeram no último capítulo do livro “A visita cruel do tempo” (e não, não considere isso um Spoiler). Essa pergunta provavelmente irá conduzir o leitor a refletir, com um leve sorriso, sobre a sua própria vida, e talvez ele tente imaginar por onde andará aquele garoto/garota que era seu melhor amigo nos tempos da escola, ou ainda aquela moça/rapaz (como era mesmo o nome?) que namorou no verão de dez ou quinze anos atrás.
Esse é, em minha opinião, um dos maiores méritos do livro “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan.

A história não é linear. Sim, a técnica é antiga, mas funciona muitíssimo bem, moldada pelo talento da autora. O livro mostra um personagem numa determinada época, depois salta para outro personagem, em outra fase, outro tempo, e alguns capítulos depois nos deparamos com aquele que não víamos há umas vinte ou cinquenta páginas. E aí ocorre a mágica: é como encontrar, dez anos depois, o filho daquela vizinha que mudou de cidade, que era um pirralho, e agora é outra pessoa, agora é um rapaz. E você pensa: “meu deus, como o tempo passou!” O livro proporciona esses “sustos”, essas sensações.

Além de não ser linear, a própria estrutura narrativa é constantemente modificada: são diversos tipos de narradores diferentes, o que traz ainda mais movimento ao texto. O curioso é que toda essa confusão resulta em um livro harmônico e sem furos; tudo se conecta, a história é extremamente bem costurada.
Mas sobre o que trata a história mesmo?
Bennie Salazar tinha uma banda de rock na adolescência, na qual tocava baixo, mas não era bom com o instrumento. Já seu amigo Scotty era um ótimo guitarrista. Bennie desiste do baixo, mas se torna um produtor musical famoso, porém inconformado com a influência da tecnologia sobre o som; ele é um amante do som “sujo”, analógico. Sasha é assistente de Bennie. Scotty...bem, não vou contar mais nada sobre ele. Basta saber que na adolescência ele era charmoso e mandava bem na guitarra. Muitos outros personagens aparecem e reaparecem, e a história não é o mais importante do livro, porque ele trata de pessoas comuns vivendo suas vidas através dos anos. Eu e você poderíamos ser personagens. Não existe um núcleo central de mocinhos e bandidos. É um livro que trata das perdas e da ação do tempo sobre as pessoas (e sobre o rock!). É um livro sobre relações humanas, mudanças, redes sociais, crescimento, declínio, nostalgia, solidão, morte, drogas, autodestruição, tudo ao mesmo tempo, e tudo embalado por uma bela trilha sonora (muitas músicas são citadas ao longo do livro).

A autora ganhou o pulitzer de 2011; de forma engraçada e irônica, “A visita cruel do tempo” vem sendo considerado “o livro do momento”. Sim, porque esqueci de mencionar que ele também discute as relações de marketing. Logo na capa do livro vemos em letras grandes: “vencedor do Pulitzer”.
Mas é bom, o livro é muito bom. Não sei se daqui a alguns anos lembrarei dele; não sei se entrará para a minha galeria particular de livros inesquecíveis, mas valeu a pena.


“A nostalgia era o fim da linha – todo mundo sabia disso” (Bennie Salazar)


Danielle 05/07/2012

A visita cruel do tempo.
O hype é um problema. A visita cruel do tempo [Intrínsica, 2011] foi um dos livros mais falados nos últimos seis/sete meses, quer dizer, eu ouvi muito falar sobre ele nesses últimos seis/sete meses.

Jennifer Egan ganhou o Pulitzer com ele e mais de mil e uma citações derretidas para seu romance que, na verdade, não é um romance convencional de capítulos que se seguem em uma mesma história sob o ponto de vista de um mesmo personagem. Não, nada disso.

Nada se repete nesse livro: capítulos vão sendo escritos em primeira, terceira e, pasmem, em segunda pessoa [e, Deus, que capítulo!], passando por um artigo jornalístico [fiquei pensando se os jornalistas se atreveriam a escrever um artigo daquele jeito. Cheguei a conclusão que não, definitivamente], até um capítulo inteiro escrito como slides de Power Point que, na verdade, é o diário de uma menina de doze anos.

Jennifer Egan é o que eu chamaria de virtuose.

Verdade que nos dois primeiros capítulos eu fiquei pensando: cadê o livro imperdível que disseram que eu iria ler, mas depois desse começo meio manco, o livro é uma aula [para pretensos escritores] e uma mágica [para leitores].

Isso porque os dois primeiros capítulos se encaixam nessa fôrma [desesto fôrmas, mas vá lá]: do convencional. São dois capítulos ‘normais’ que dá pra você encontrar por aí. Quer dizer, cadê a novidade? Cadê as surpresas?

Faz tempo que procuro o não-convencional na literatura, ou seja, minha opinião vai ser uma voz dissonante em relação a livros. O que me faz lembrar de uma história de Bolaño que, quando era convidado para julgar contos/romances em concursos, acabava se apaixonando pelos piores, na opinião dos outros. O que quero dizer é que, depois de pensar em abandonar o livro 7×70 maneiras diferentes, Jennifer Egan segurou minha garganta me fazendo ter uma profunda crise de choro e uma histérica crise de riso no meio do ônibus.

O que mais me impressionou, portanto, foi o quão alto Jennifer apostou. Sua narrativa impressiona por isso: pelo risco. O livro não é perfeito, o hype é um problema, mas é audacioso. E como dizem mesmo? Quanto maior a altura…

***

"O magnetismo de Scotty está começando a surtir efeito: as pessoas admiram seus músculos expostos reluzentes de suor e cerveja. Então um dos caras que jogava lixo tenta inavadir o palco, mas Scotty lhe dá um chute no peito com a sola da bota – a plateia solta uma espécie de arquejo quando o cara sai voando para trás. Scotty agora está sorrindo, mostrando os dentes como quase nunca o vi fazer, com uns dentes de lobo a reluzir, e percebo que, de nós todos, Scotty é o que realmente tem raiva."


Carlos Ralize 20/02/2013

Um livro musical
Passei um pouco batido por todo o marketing e pelo hype em torno desse livro. Nem sabia que ele existia até que li o comentário em uma resenha de 1Q84, em que alguém dizia que aquele livro era apenas o segundo melhor que havia lido em 2012, sendo que o primeiro era esse "A Visita Cruel do Tempo". Foi só então que procurei informações sobre esse livro. Comprei por curiosidade e confesso que ele demorou a pegar em mim. Os dois primeiros capítulos foram arrastados e já estava pensando em abandoná-lo, quando a autora me deu um soco no estômago e eu percebi que o livro era bom e forte, mas que eu teria que trabalhar um pouco pra que essa força se apresentasse.
Jennifer Egan tem um domínio excepcional do ritmo da narrativa. Esse não é um livro fácil que se deixa capturar por uma leitura fragmentada. Talvez por isso alguns leitores o tenham achado chato ou confuso. É preciso imergir em cada capítulo com tempo e atenção. Quem estiver disposto a esse exercício vai conseguir aproveitar melhor a experiência musical do livro. Sim, musical.
Já li muitas resenhas que dizem que esse livro é como uma antologia de contos mais ou menos interconectados e que formam um todo mais ou menos coerente. Isso é verdade, mas pra mim, uma descrição mais precisa seria dizer que o livro é como uma "playlist" ou o álbum de uma banda de rock. Um álbum temático, onde a unidade pode ser encontrada, mas onde cada faixa tem vida própria. Essa opinião é obviamente influenciada pela temática do livro, centrada em alguns personagens ligados à indústria da música (ou obcecados pela música). Mas não é só isso que me faz ter essa leitura. O aspecto musical se faz presente principalmente pelo desenvolvimento dos capítulos. Alguns são fáceis e diretos como uma balada romântica; outros são viscerais como uma canção punk e ainda há os que são complexos como um número de jazz ou um rock progressivo.
Pra mim, cada capítulo funciona melhor se lido de ponta a ponta, sem interrupção e sem muita preocupação em fazer as conexões com outros cápítulos. Essas conexões acabam ficando claras mais cedo ou mais tarde por referências que as personagens fazem, mas mesmo que não fiquem, cada capítulo se sustenta em sua própria estrutura. O segredo, então é se entregar à condução precisa da autora. Ela vai então dirigir a atenção do leitor, ora a descrições extremamente detalhadas, ora a diálogos quase desprovidos de contexto. O olhar do leitor ou leitora vai seguir o de cada narrador e aos poucos vai se envolver com as pessoas apresentadas. Elas têm a qualidade e o defeito de serem reais. Não há heróis nem vilões. Não há atos grandiosos, apenas pessoas como você e depois que você tiver se habituado a cada uma dessas pessoas, a autora vai conduzir o capítulo a um clímax, por vezes cortando bruscamente a narrativa, outras vezes fazendo uma espantosa e quase documental viagem ao futuro, entregando cruamente o final de cada história. Depois disso, a autora vai te largar com suas emoções e iniciar outra história, que pode até apresentar personagens familiares, mas terá um ritmo e uma ambientação totalmente diferente.
Como acontece com as canções, o potencial de cada um desses capítulos só é plenamente atingido se a leitura for ininterrupta. Caso contrário, a mágica se quebra e só o que sobra são histórias pouco costuradas.
Embora só tenha lido esse livro uma vez, desconfio que, também como boas canções, essas histórias devem se beneficiar de uma segunda ou terceira leitura. Vou tentar fazer isso daqui a algum tempo pra ver se minhas impressões se confirmam.
Mas pela primeira audição, percebo que essas são canções que vieram pra ficar.


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