Um defeito de cor

Um defeito de cor Ana Maria Gonçalves




Resenhas - Um Defeito de Cor


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Newton Nitro 19/05/2015

Pode um romance conter toda uma vida?

Um romance é capaz de conter toda a vida de uma pessoa, com suas complexidades, paradoxos, contradições, alegrias e tristezas? Um romance é capaz de conter toda o sofrimento de um povo? Se você ainda tem dúvida, leia "Um Defeito de Cor", esse já clássico da literatura brasileira, um romance tão maravilhoso como necessário, escrito pela Ana Maria Gonçalves, que considero uma das melhores escritoras que ja li na minha vida.

Um romance cosmogônico, uma saga impressionante e muito bem escrita, um clássico da literatura mesmo sendo tão recente. Não conheço outro livro semelhante na nossa literatura que seja tão épico, tão extenso e que trate de maneira tão sensível e íntima o ponto de vista feminino da tragédia e dos horrores da escravidão no Brasil, o nosso imenso Holocausto, que sempre foi insuficientemente estudado e discutido pelo nosso péssimo sistema educacional.

Defeito de Cor é uma história de origem contada pelo ponto de vista de Kehinde, uma africana arrancada da região de Daomé, na África e levada como escrava para o Brasil. Toda a narrativa é feita dentro da premissa de Kehinde contando sua história pessoal, desde sua infância até sua velhice, uma história que vai sendo transcrita por uma de suas amigas para ser entregue ao filho, agora adulto, que foi tirado quando criança dela enquanto estava no Brasil. Essa estrutura é muito interessante, pois transforma o leitor no filho de Kehinde, me senti como se a narradora falava diretamente para mim, e de certa forma, todos os brasileiros são "filhos de Kehinde".

A técnica narrativa usada foi a do discurso indireto em primeira pessoa, que funciona muito bem em romances históricos, torna a exposição de contexto histórico mais natural. Gostei demais do estilo de Ana, conciso, sem muitas firulas, linguagem direta e enganosamente simples, ao mesmo tempo que a oralidade do texto cria efeitos poéticos no leitor. Eu engasguei e me emocionei muitas, mas muitas vezes durante a leitura desse tijolão, o que eu adoro, quem vem aqui no blog sabe, curto livros gigantescos, e "Um Defeito de Cor" tem quase mil páginas! E olha que terminei o livro querendo mais, querendo que Kehinde continuasse suas infinitas histórias; essa Sherazade de Daomé. Outra coisa que amei foi a força de Kehinde, isso é que é protagonista, fortíssima, inspiradora, valente, perseverante, fantástica, uma bela adição para o rol de personagens da literatura brasileira.

E esse é um romance com muita exposição, mesclando a história pessoal de Kehinde com fatos históricos, revoluções, com quase uma enciclopédia de cultura afro-brasileira, um glossário maravilhoso e um guia para as diversas matizes das religiões africanas e suas variações brasileiras, tudo sob o ponto de vista de Kehinde e dos negros brasileiros e africanos do período colonial e imperial no Brasil, um ponto de vista que quase nunca mereceu a atenção necessária. O livro revela a grande lacuna e falha na história tradicional do Brasil que omite todas as incontáveis rebeliões de escravos que sempre aconteceram durante a escravidão brasileira, uma omissão criminosa na nossa educação.

E a questão da escravidão é mostrada em toda sua complexidade, não existe maniqueísmo no livro, com brancos cruéis ao lado de brancos que se empatizam e até lutam pela liberdade dos negros. No lado africano, temos expostos a brutal realidade tribal africana, a sanguinolência das disputas tribais, a tirania dos chefes de tribos e dos reis africanos, fazendo sua parte dentro do horrendo comércio de escravos.

Outro aspecto interessante é o mergulho no ponto de vista da espiritualidade afro-brasileira, com seu sincretismo e com o modo poético de experimentar a vida, com os voduns, orixás, eguns, e outras forças vindas do orum para guiar, aconselhar, proteger e orientar cada passo. Fiquei até com um desejo impossível e romântico de vivenciar essa visão mistica da vida, que parece encher tudo de mistério, de sinais e sinas, de significado e sentido, mas para isso tenho a literatura, para viver outras vidas, ver outras realidades e me emocionar com a beleza sofrida da experiência humana.

Agora fica um aviso, o livro é também muito sofrido, muitas passagens bem dolorosas e cruéis, bem tristes, de encher de vergonha e de revolta pela escravidão no Brasil, essa parte horrenda da história de nosso país, uma tragédia que deixa marcas e consequências até hoje. Precisamos de mais livros como "Defeito de Cor", muitos outros livros como esse. É uma pena que ninguém mais lê, que as pessoas lêem cada vez menos, uma pena mesmo.

Fica a dica do livro, vale cada linha, cada palavra, e espero que como eu, você se apaixone por Kehinde.

Ah, como é bom ler um livro assim, daqueles que marcam a gente para sempre!



ANOTAÇÕES FEITAS DURANTE A LEITURA (PODEM CONTER SPOILERS)

Narrativa segue o amadurecimento do narrador, comeca trágico.

A brutal realidade tribal africana, das disputas tribais, e o medo da feitiçaria que gera violência contra mulheres velhas e sábias, curandeiras, etc.

Visão de mundo mítica, oa mortos são tão importantes quanto os vivos

A violência e o horror da travessia, dentro do ponto de vista da Kehinde.

Técnica Narrativa - pov de primeira pessoa, descrições diretas e concisas, voz muito pessoal e forte.

Protagonista fortíssima.

Descrições maravilhosas, e um pov sem melodrama, o que aumenta a tragédia.

As histórias dos negros, os mitos tradicionais unindo tribos.

Ponto de vista imerso na espiritualidade africana, maravilhoso.

O dia a dia daa escravas que serviam dentro da casa grande, o medo constante da punição, e progressiva colonização cultural, a mudança do olhar, a violência do esquecimento das raízes.

A vaidade pessoal de Kehinde como uma estratégia de resistência.

Sincretismo religioso como estratégia de resistência

O horror das fugas e a hipocrisia da igreja da época.

A importância dos musurumin, is africanos muçulmanos na resistência cultural e psicológica.

O quilombo como um sonho de vida livre, como esperança.

Conventos, a opressão sobre as mulheres brancas, patriarcado colonial.

Estratégias de sobrevivência, Kehinde é fantástica, inteligente, criativa. Uso do comércio como um caminho para a liberdade. Dinheiro como a única opção de liberdade social, mesmo que ilusória, sem violência.

Livros e a leitura como o caminho para a libertação da alma.

A sinhá de Kehinde é um monstro, e o mais assustador é que sua personagem segue a consequência natural do racismo colonial.



A religião africana como proteção psicológica contra o assalto cultural do catolicismo colonial.

Religião mudando no contexto brasileiro.

Oralidade e capítulos bem delineados tornam a leitura deliciosa, e gente fica querendo que a história não acabasse nunca.

Mesmo com tanta injustiça e angústia, a narrativa alterna com momentos de paz, amor, alegria e amizade, que me emocionaram muito.

O romance clássico de nascimento.

Símbolos recorrentes : riozinho de sangue, a cobra misteriosa que surge em momentos chaves da narrativa, a presença dos orixás e voduns.

Kehinde, empreendedora, usa seu dinheiro para livrar outros escravos.

Uma das histórias dos escravos, da mãe que mata os filhos por desespero me lembrou Beloved de Toni Morrison.

Kahinde tem muitos elementos do arquétipo do Trapaceiro, em uma versão feminina diferente da Sedutora, mais próxima do Ladino, quebrando o topo tradicional.

Registro dos rituais e cultos dos negros das diversas culturas que viviam na Bahia no período, um registro fascinante.

A partir de uma parte do romance, a narrativa é feita em primeira pessoa mas se dirigindo ao leitor em segunda pessoa, como se o leitor se transformasse em um dos filhos de Kahinde, adorei! :)

Kahinde tem espírito empreendedor, uma energia incrível, invencível, a encarnação da força de vontade imbatível do povo africano.

Técnica narrativa - capítulos curtos encerrados com ganchos tipo "o pior ainda estava porvir"

Técnica narrativa - exposição feita por meio de contação oral, ajudada pelo fascínio das informações e do desejo do leitor em conhecer a cultura africana.

Kehinde se transforma em uma heroína épica, eternamente em sua buaca pela felicidade.

A terceira e última parte do romance se passa no Rio.

I romance tem um necessário tom didático sobre o cotidiano brasileiro do século 19 do ponto de vista dos pretos.

Belissimas descrições da capoeira, arrepiei e me lembre dos muitos anos que joguei capoeira, saudades.

Quase no final do livro - estou apaixonado por Kehinde, acho que o leitor não tem outra escolha senão se apaixonar por Kehinde.

Espiritualidade africana muito ligada ao inconsciente, ou melhor, em uma leitura jungiana, eles são os mestres da interpretação dos movimentos do inconsciente coletivo.

Na última parte, a amoralidade do comércio, inevitável para a sobrevivência no período.

Ex-escravos retornando para África e se tornando mercadores de escravos.

Rivalidade entre is Retornados e os Africanos, muitos que eram enviados para a África forçados, imploravam para voltar ao Brasil, meamo em condição de escravo.

A brutalidade e a ação coruptora da miséria e das gueras tribais constantes na Africa da época.

No Brasil, os escravos tentavam manter as raízes africanas, os que retornavam para a África, tentavam manter os costumes brasileiros.

Histórias dentro de histórias, uma biblioteca de histórias do ponto de vista dos negros africanos e brasileiros.

O livro tembum lado glossário de termos da cultura africana e afro-brasileira.

Uma das espinhas principais da narrativa é uma rara visão "de dentro" da espiritualidade africana, base do nosso sincretismo, uma religião mais próxima da arte, da criação e criatividade artística.

O choque de Kehinde ao ver os rituais de sacrifício humano na África para a celebração fa morte de um quase-rei mostra a influência da cultura cristã nos africanos retornados para a Africa do Brasil, é o processo sem fim de influência cultural entre os povos.

No final do livro, na relação entre Kehinde e sua filha ilustrada na França, mostra os problemas das mulheres que tinham cultura na época e sua solidão, pela rejeição dos homens machistas.

eduardo 19/05/2015minha estante
parabéns pela vibrante resenha! ^_^


Thyago 13/08/2015minha estante
Resenha incrivel! Parabéns.


Tiago Doreia 19/12/2016minha estante
Muito boa a resenha, desperta o desejo de ler essa obra.


Joana 18/07/2017minha estante
Já desejava ler este livro. Sua resenha aumentou esse desejo. Parabéns!


valdivina.franc 08/03/2019minha estante
Amei ler Um defeito de cor. Pretendo reler. Parabéns, Ana Maria Gonçalves e parabéns pela bela resenha.




maricrve 15/08/2020

"Não tenho defeito algum e, talvez para mim, ser preta foi e é uma grande qualidade, pois se fosse branca nâo teria me esforçado tanto para provar do que sou capaz, a vida não teria exigido tanto esforço e recompensado com tanto éxito"
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Sérgio Mesquita 09/09/2010

Comprei há mais de 1 ano, após ler sobre o livro no caderno Prosa do Globo. Lá informava que a narrativa era tão boa que você era capaz de sentir o cheiro do porão de um navio negreiro. Perfeito, mas como tinha outros livros para ler, mais leves de carregar...
Iremos entender algumas das revoltas escravas através da interpretação dos prórpios. Você compara seus aprendizados da escola, nas aulas de história claro e, descobre que faltou muita coisa para aprender e entender sobre os sentimentos e desejos do povo africano. Vale e muito a leitura.
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Catarine Heiter 13/11/2020

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos! Ser de Salvador e iniciar a leitura de Um defeito de cor é simplesmente mágico... logo no começo, já fui arrastada para a Ilha de Itaparica e sinto especial satisfação quando leio sobre locais que já frequentei. Neste livro, além de seguir acompanhando a história de vida da maravilhosa Kehinde, viajamos no tempo e conhecemos MUITO de cultura, costumes, religião e política. Tudo isso enquanto acompanhamos a sua vida de escrava, de mulher livre, de mãe, de empreendedora e de alguém que busca um filho perdido. Mais do que simplesmente um romance histórico nacional, mas uma verdadeira aula de história com sentido; e que não fica restrita ao Brasil. Um baita calhamaço que você economiza pois não quer terminar... e, por mais dolorosa que tenha sido para mim a separação de Kehinde, indico de olhos fechados!

Esta leitura foi motivada pelo Desafio DLL 2020, na categoria ‘Do seu gênero favorito’.

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Conça 05/12/2020

Minhas impressões, opniões e sentimentos
Nota 4.4

Ana Maria Gonçalves nasceu em Ibiá, no estado de Minas Gerais, em 1970. Começou a escrever contos e poemas desde a adolescência, sem chegar a publicar. A paixão pela leitura nasceu durante a infância, e desde criança lia jornais, revistas e livros.

Um defeito de cor conta a história da literatura afro brasileira, e minha primeira impressão do título foi de assombro por se tratar de um assunto ainda polêmico nos dias atuais.

Fascinante história de uma africana idosa, cega e à beira da morte, que viaja da África para o Brasil em busca do filho perdido há décadas. Ao longo da travessia, ela vai contando sua vida, marcada por mortes, estupros, violência e escravidão.

A voz da narrativa é da personagem principal Kehinde, que mais tarde vai se chamar Luísa, transcorre com fluidez e de forma envolvente como se ela estivesse falando com o leitor. Nesse enredo, vai surgindo vários personagens bem reais com papéis fundamental na vida de Kehinde.

Fiquei impressionada com a vida sofrida e dolorosa da personagem, ao mesmo tempo, encontrei oportunidade para aprofundar a correlação da
história entre a África e Brasil. Para mim, foi uma aula de história que faltou na escola. Dessa forma, de forma envolvente e perturbadora pude entender e compreender melhor minhas origens e até mesmo, conhecer mais sobre minha cidade.

Não querendo desmerecer essa obra fantástica, em alguns momentos achei Kehinde muito prolixa e isso me incomodou por diversas vezes, hoje ao terminar o livro, entendo que deveria ler como se cada dia estivesse recebendo uma carta endereçada para mim ou lendo em forma de um diário encontrado, mas isso não refuta a grandeza do livro.

Os sentimentos são todos de natureza negativa porque só tem miséria, medo, privações, preconceitos e muita, muita violência infligida ao ser humano.

Recomendo a obra
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David 27/02/2020

Valeu as 947 páginas kkkkk.
Uma história de sofrimento e muita luta, trata-se de uma mulher de fibra que sofreu muito, e mesmo assim nunca perdeu as esperanças e não abaixou a cabeça pra ninguém.
Sua saga a procura do filho é um dos momentos mais tensos...
Demorei para ler, pois estava preguiçoso kkkk
Mas é um livro para pegar e ficar muitas horas na leitura, pois é de fácil entendimento, conta vários momentos da história do Brasil do século XIX.
A leitura é tão suave que parece que estamos em uma conversa com a protagonista.
Super recomento....
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Rai @atequeolivronosrepare 26/01/2021

📍 Um Defeito de Cor, por Ana Maria Gonçalves. Literatura brasileira. 952 páginas. 5/5 estrelas. ☕ 1° livro lido em 2021. #acResenhas

Iniciei no fim do ano passado e terminei ontem, desejando ficar e ler todos os dias algo mais escrito pela autora. É um baita calhamaço com suas quase mil páginas, mas a leitura foi fluida e cheia de emoções. Logo no início uma parte específica me trouxe muita dor e comoção - imagino que para mais gente, em especial para mulheres. Conforme o livro foi correndo outros momentos impactantes aconteceram, mas nenhum me atingiu tanto quanto aquele do início.

Para quem está procurando uma leitura extremamente rica sobre cultura, religião, política e tempos de escravidão no Brasil (se é que podemos bater o martelo para dizer que acabou... Mas isso é pauta pra outra conversa), é um prato cheio. Para quem, como eu, gosta de apreciar também a escrita, a maleabilidade do estilo do autor, também é maravilhosa a experiência que Ana Maria Gonçalves proporciona.

Acrescento ainda que é um livro que poderia ser sugerido nas "leituras essenciais para se perceber brasileiro". Forte. Cirúrgico. Belo.

site: https://www.instagram.com/p/CKb1bHHJP-w/?igshid=yusogprsjdvq
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Kizzy 07/01/2014

Obra prima. Histórica e Artística
Essa é uma das mais difíceis resenhas que eu já escrevi. Terminei de ler a história da fortíssima Kehinde há 4 dias e até agora não consegui parar de pensar em tudo que vivi com ela. Nesses dias, pensando no que escrever, cheguei a conclusão que tenho muito mais vontade de escrever sobre tudo que senti enquanto lia, do que os detalhes e características do livro ou do texto.
Pra começar, há muito pouco a falar sobre o livro em si. É um primor, histórico, literário, textual, antroplógico, social, teológico e cultural. Sim um livro extremamente descritivo, detalhista em relação ä vida do preto no Brasil e principalmente com relação à cultura e religião do povo africano. E ao mesmo tempo, profundamente sensível, dinâmico e delicioso de ser lido. De forma que, não tenho muito o que analisar, gostando ou não do enredo, o livro é definitivamente muito bem escrito e eu leria cada uma das quase mil páginas novamente com muito gosto.
Já com relação ao meu sentimento enquanto brasileira lendo esse livro, eu poderia escrever 300 páginas aqui. Eu me senti representada, me senti entendendo coisas que deviamos aprender desde criança, sobre nossa origem, sobre como o processo da escravidão mudou definitivamente a sociedade africana e brasileira. As situações vividas pelos personagem, na verdade são explicações extremamente importantes sobre a formação social do nosso país. "Essa história contada pela Adeola mostra bem a mistura das religiões, que valia mais entre os pretos, da África ou da terra, já que os brancos agiam como donos de tudo, inclusive da única crença verdadeira. Batizar os pretos com nomes de brancos, e obrigá-los a renegar a fé que tinham em Africa antes mesmo de pisarem na nova terra, era um modo de mostrar isso."
A vida da Kehinde, é na verdade a formação de um novo povo. Um povo que aprendeu viver com as condições tenebrosas a que foram submetidas e que se transformou em uma nova sociedade. Fato demonstrado pela volta dos ex escravos à África. Lá chegando, eles não eram mais os mesmos que haviam sido capturados há tantos anos atrás, não tinham mais os mesmo interesses, a mesma cultura, nem a mesma religião, que apesar de manter as mesmas raízes africanas tinha muito do catolicismo, um catolicismo que com certeza só existe no Brasil, cheio de figuras africanas. Quem voltou à Africa não era mais africano, e também não era português, nem inglês como os que eram seus senhores por aqui. Esse povo era o brasileiro, o braseileiro formado pelos pretos trazidos de áfrica, que sobreviveu a todos aqueles anos de escárnio, e que bem diferente do que aprendemos na escola, não passou sua vida como um cachorro doméstico jogado a sua sorte, mas viveu, lutou, aprendeu, acertou e errou muito, como a Kehinde.
Um povo que tenta ser feliz e andar pra frente apesar de tantas coisas, o tal do brasileiro, e principalmente o brasileiro negro, que até hoje, tenta e luta para desatar as consequências histórias que toda a atrocidade da escravidão deixou não só no Brasil, mas em todo mundo.
"Eu achava que era só no Brasil que os pretos tinham que pedir dispensa do defeito de cor para serem padres, mas vi que não, que em África também era assim. Aliás em África, defeituosos deviam ser os brancos, já que aquela era nossa terra e éramos em maior número. Não tenho defeito algum, e talvez para mim ser preta foi, e é uma grande qualidade, pois se fosse branca não teria me esforçado tanto para provar que sou capaz, a vida não teria exigido tanto esforço e recompensado com tanto êxito. Eu me sinto muito mais orgulhosa de ter nascido Kehinde, do que me sentiria se tivesse nascido Padre Clement".

Para terminar, queria falar do prólogo do livro. A autora conta que a obra foi fruto de uma "Serendipidade"(quando estamos procurando por uma coisa, e achamos uma muito melhor). Ao terminar de ler o livro, fiquei com a impressão que existia algo de mágico ou místico mesmo na história da Kehinde, pois no tempo em que estava lendo, me aconteceram também algumas serendipidades. Conheci pessoas que nem imaginava, com quem passei bons momentos comentando e aprendendo um pouco sobre o que lá estava escrito. Encontrei vários textos e "coincidências"sobre o que estava aprendendo, aprendi enxergar na rua tantas marcas que antes passavam desapercebidas, e passei 40 minutos no consultório do ortopedista (onde entrei com o livro porque estava lendo na sala de espera), e que ao ver a obra na minha mão, começou imediatamente a trocar muitas experiências sobre quando ele tinha lido e o quanto tinha sido tocado pela obra.
A Kehinde realmente me marcou, e por tudo que foi absorvido nessas quase mil páginas, hoje também sinto muito mais orgulho do que antes, de ter nascido Kizzy e ter me tornado a mulher que sou hoje.
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Analu :) 23/07/2020

Uma jornada cheia de lições
Esse livro é uma preciosidade, do tipo que todos deveriam ler para ter uma ideia do nosso passado como brasileiros, de onde viemos, nossas origens, entender que as aulas de história que tínhamos na escola não abordam 1/3 da escravidão sentida na pele do povo negro. Esse livro é tão completo, é lindo, doloroso, visceral, pesado, angustiante, dói mesmo mas ainda sim é incrível, a história é fascinante, fácil de prender a atenção, a autora conseguiu fazer um belíssimo trabalho de pesquisa e desenvolveu o romance na história a partir dos relatos da personagem história Luísa Mahin, ou como somos apresentados Kahinde.
Eu fiquei encantada com a riqueza de detalhes, a aula que além de história foi de respeito as religiões, as diferenças, as crenças divergentes, e fiquei tão feliz quando na história foi abordada até a minha terra, Maranhão.

Eu imagino demais como seria maravilhoso se fizessem alguma adaptação cinematográfica no estilo de Anne Frank: Parallel Stories, onde percorrem cada lugar em que Anne viveu, seria incrível tratar de trechos dos livros indo aos lugares que Kahinde esteve presente.

Esse é um livro para a vida, que todos merecem ler, é transformador e de uma importância muito grande!!! Só leiam ??
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Nat 17/11/2020

^^ Pilha de Leitura ^^
Um Defeito de Cor é considerado um romance de formação, desses que mostram o personagem desde crianças, se transformando. Mas acho que quem se transformou fui eu, com essa história espetacular. São quase mil páginas, mas que parecem 200 de tão fluída que a leitura é. Não dá vontade de parar. Kehinde é traficada como escrava para o Brasil, após perder toda sua família na África. Aqui é onde cresce, engravida duas vezes e se perde de uma das crianças. É quando decide voltar à África para procurá-lo, e constrói outra parte de sua história. Além de contar a história dessa ex-escrava, o livro conta quase um século de história brasileira, ou seja, a formação social, cultural e religiosa do Brasil. Leitura indispensável.

site: https://www.youtube.com/c/PilhadeLeituradaNat
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Tatiane 03/08/2020

O "tijolo" pode assustar, mas o conteúdo precisa ser lido.
Eu ainda estou muito impactada, sem condições de fazer uma resenha detalhada. Que poder tem a narradora-personagem Kehinde! Que mulher! Que força! Que história!

Viajei muito pelos lugares por onde a personagem passa, vive e sobrevive, principalmente Salvador, Itaparica e Rio de Janeiro, que conheço bem! Lia e pesquisava nomes, referências históricas, lugares. Uma aula!

Ana Maria Gonçalves gerou uma história ficcional que nos faz reviver e sentir - sofrer profundamente, chorar, sorrir, torcer, urrar... - momentos únicos e preciosos de nossa História real. Muitos desses momentos que também nos foram negligenciados ou contados por outro viés.

Dar voz a uma menina africana, trazida para o Brasil para ser escravizada, poder ouvir por essa voz parte da nossa História é uma experiência imperdível.

Aprendendo muito. Um dia de cada vez.

"A sola do pé conhece toda a sujeira da estrada. " Provérbio africano (Cap. 6)
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Pedro Bonavita 03/07/2020

Jornada com Kehinde
É emocionante demais acompanhar esse relato. São 952 páginas onde a ficção e realidade se misturam em um romance que faz com que aquele relato deixe de ser uma simples biografia.

Chorei e sorri durante essa jornada. Kehinde nos ensina muito com sua história de vida. É também uma aula sobre a história do Brasil, da África e principalmente da negritude.

Kehinde é uma personagem cativante, te envolve em sua própria vida com suas muitas virtudes e defeitos.

É maravilhoso. Indico que todo mundo entre nessa jornada ao menos uma vez.
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Alicia Gither 19/09/2020

leitura transformadora
a história que perpassa esse livro é de uma grandeza enorme sobre a vida da Kehinde, mulher africana sequestrada em meados dos seus oito anos e trazida para o Brasil como escravizada.

dentro de seus quase 80 anos, iremos acompanhar toda a trajetória da sua vida aqui no Brasil, atravessando inúmeras situações que desenham a história do nosso país, mas sob uma perspectiva totalmente diferente.

Kehinde vem ao Brasil e aqui passa a se chamar Luisa Mahin, a qual hoje conhecemos como a mãe de Luís Gama, orador, jornalista, escritor e um dos maiores abolicionistas da escravização do Brasil. sendo assim, iremos conhecer a história de uma mãe que escreve para um filho.

e o que falar dessa história e dessa narrativa, a qual não superei até o momento haha. a história de Kehinde me emocionou, me fez rir, me fez sentir tantos e tantos sentimentos, me fez conhecer tantas coisas que eu não fazia ideia... foi de uma grandeza enorme conhecê-la. eu realmente senti que vivi os seus quase 80 anos junto dela, conhecendo cada detalhe da sua vida e da sua trajetória tão marcante.

me apeguei a personagem de uma maneira que nunca pensei que poderia me apegar. Kehinde foi uma ponte, sem dúvidas, para eu querer mais ainda conhecer e me aproximar da minha própria ancestralidade. foi um livro que me marcou e me transformou em muitas coisas. pude aprender tanta coisa com ela, principalmente sobre acreditar mais nas coisas. aprendi com a Kehinde a ter fé e esperança.

foi difícil me despedir dela, mas foi impossível impedir a sua volta ao Orum. eu sentia que era uma pessoa muito próxima de mim, com uma intimidade muito grande.

a leitura desse livro, sem dúvidas, me transformou demais e, sinceramente, acho que não tem como terminá-la de forma diferente. já sinto muita falta da companhia da Kehinde, mas agradeço demais todos os ensinamentos que aprendi com ela.
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Ju 06/04/2020

Todos deveriam ler Um defeito de Cor
Leitura essencial uma vez que apresenta a escravidão através de uma narradora escravizada. Nos permite conhecer a história por outro lado da história que dificilmente é encontrado em livros e filmes sobre escravidão.

Ganhei esse livro e fiquei enamorada por ele muito tempo, mas faltava coragem pra encarar as quase 1000 páginas. Li em um projeto de leitura compartilhada encabeçado pela amiga Camilla e seus livros e não devorei, degustei cada passo da vida de Kehinde. E foram quase 80 anos. Chorei. Enjoei. Fiquei meses lendo, ruminando, uma história companhia. Me remeteu aos griot. Uma história inspirada em mais de 70 mulheres, uma história bem localizada no tempo da escravidão, mas contada pela boca de uma mulher negra escravizada. E kehinde foi escrava mas foi a empreendedora mais inspiradora que eu já vi. Um livro forte, pesado, motivador e corajoso. Senti muitas dores ao longo da história, mas aprendi um monte sobre estratégias de sobrevivência e reinvenção.
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