A Sombra no Sol

A Sombra no Sol Eric Novello




Resenhas - A Sombra do Sol


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Bruno 29/05/2014

O sol noturno
Após a incursão no mundo noir das noitadas do Neon Azul, onde o fantasioso e o real se mesclam de maneira discreta mas perceptível, Eric Novello agora nos oferece uma experiência relacionada mas distinta, em seu próximo (e, até agosto de 2014, último) trabalho, A sombra no sol. Nos trinta textos que se entrelaçam em uma narrativa, vemos ser construído um retrato de um homem desiludido, quiçá quebrado, ali apaixonado, com uma voz bem marcada que transforma cada visão do cenário urbano noturno. Sua dor se mistura à ironia, à sensualidade e à natureza dos relacionamentos de uma pessoa solitária com o desenrolar de cada parágrafo, em uma escrita algo lírica que não se torna enfadonha em momento algum.

A princípio, estamos mais uma vez acompanhando o gerente do Neon Azul, Armando, em uma tarefa repassada em caráter especial pelo Homem, dono do inferninho. Seu objetivo: resgatar o cadáver de Ícaro, um garoto de programa, e oferecer-lhe um trabalho singular no estabelecimento. Equipado com um líquido especial e força de vontade, o insone se aventura por uma construção anônima e encontra, junto ao cadáver do garoto, um caderninho escrito pelo morto. Deve conhecer a Ícaro se quiser trazê-lo de volta à vida, e há jeito melhor que a leitura de suas confissões e reflexões, confere?

O “diário” é composto de vinte e nove dos trechos escritos por Ícaro, narrados em uma primeira pessoa com uma presença perceptível. Enquanto as cenas que conectam e contextualizam os excertos do caderno, as partes de Armando, são narradas com a voz de terceira pessoa também presente, em estilo e atmosfera, em Neon Azul, é na figura do garoto de programa que percebemos a multiplicidade – ou talvez melhor, duplicidade – das vozes que permeiam A sombra no sol. Porque se a narrativa impessoal, ainda que talvez mais íntima do que estamos acostumados, é em partes seca, mais distante, Ícaro narra sua vida e obras em uma melancolia lírica, uma voz diferente em gênero e grau mas que também se contextualiza no próprio livro. Cobertura simbólica, uma imagem que se transforma em significado.

O diário, ou caderno de anotações, funciona como um catálogo de suas experiências, de seus clientes. E em uma história de cunho principalmente sexual, é perceptível como a narrativa evita cair em um lugar comum de “vulgaridade”. As cenas de sexo, cotidiano de Ícaro, tornam-se exatamente isso: cotidiano; a rotina que acontece, seu estilo de vida. Suas tentativas vez ou outra de desviar o rumo de uma relação, provações pelas quais deve passar em seu ofício. Mesmo com a banalização da relação sexual que inevitavelmente se alcança ao transformar o êxtase em ganha-pão, essas cenas são narradas com a sensibilidade de quem ainda mantém alguma reverência à fluidez dos corpos.

Dispenso desde já as piadas sobre o xará que foi ao sol, vivemos em polos opostos. Eu mesmo derreti minhas asas de cera com a chama do isqueiro que o último amante esqueceu na mesa do telefone. Esse papo sempre me enojou. Se pudesse alçar voo o faria do terraço, de cima da tampa da caixa de água, da ponta mas aguda do para raios em noite de tempestade, da cadeira onde conto meu dinheiro antes de deitar e dormir.

Da beira da janela só não voa quem não quer. (01. Muito prazer)


A surpresa pela descoberta de uma experiência tão diferente de Neon Azul é rapidamente substituída pela apreciação da uma narrativa mais realista. Aqui, a fantasia não ultrapassa a proposta: A sombra no sol é feito de histórias pautadas em uma realidade; a magia discreta do Neon Azul se substitui pela intimidade, sexo, e cenário urbano. Porque, a despeito da diferença entre as formas, o conteúdo se concatena em sua temática: mais uma vez estamos em um mundo imerso pelo luar, o sombreado da luz artificial dos postes cobertos pelos prédios do cenário metropolitano. A vida noturna das cidades, esta variação entre a casa, o bar, a rua, o apartamento. A sombra no sol se mantém em suas raízes da urbanicidade, repleto dos típicos e atípicos notívagos do centro urbano. E, com a noite da cidade, a vida desregrada à espreita, com suas promessas de prazeres infinitos. Se em Neon Azul este era simbolizado pelo próprio inferninho (com seu apelido já bem indicativo), aqui temos o próprio Ícaro, que é mais uma das atrações, um dos petiscos potenciais para o endinheirado habitante noturno. E, como aquele diabo em miniatura no canto esquerdo do ombro, com um olhar e um sorriso procura seus clientes, oferecendo tentação.

A noite se aconchega para que a cidade acenda janelas e risque as ruas em jogos de luzes e sons infernais. O caos humano se move num imenso reflexo de possibilidades. O destino de uns é a partida de outros. Não há lado que seja o contrário. o que há é muita gente lá embaixo, muitas roupas, disfarces, fantasias, olhares sob máscaras. Um deles deverá servir para mim. (29. O pulo do gato)

Mas apesar das imagens, Ícaro, em seu caderno, não se esconde através de uma fachada contente: esta é reservada a seus clientes. É naquelas páginas em que pode depositar a sua melancolia, narrar seu ponto de vista, sentimento visceral transformado em prosa poética. Em páginas suas, prova ser si mesmo, experiência transformada em literatura. Mas não deixa de carregar a sua voz, talvez o elemento que pese pra o não tão disposto: Ícaro exige abstração, rogue para que lhe acompanhe em suas figuras de linguagem, em seu discurso menos imagético que simbólico.

Para puxar conversa, ela conta do outro mundo. Diz que as drogas são mais fortes e que vou amar viajar entre espíritos errantes. Amar, ela se dá conta, palavra errada. E para se justificar fala que há muitas formas de se amar, e que as mais letais são as únicas sinceras, pois já sabemos o que esperar delas no fim. (27. Necrópole particular)

Ele pode ser amado, naquela situação meio estranha, um pouco difícil, com clientes fixos. Assim, proteger as pessoas da claridade, ser uma espécie de seu pervertido eixo na realidade, sua sombra no sol. Mas quando elas somem, o ofício deve ser mantido. Em uma espécie de rotina eterna: só o que pode quebrá-la, e quebrá-lo, é quando parece de fato encontrar o amor. E então poderemos ver como ele foi se transformar naquele cadáver encontrado por Armando…

Uma experiência diferente, mas tão envolvente quanto o seu antecessor. A internet me indica que foi escrito por seu autor em um período de profunda melancolia, e postado originalmente em formato virtual. Mais tarde seria concatenada a história pela tarefa de Armando, escrito o texto final, transformado em livro. E, de fato, o romance nos oferece a atmosfera pesada, o sentir de uma angústia por um significado maior de uma vida, de seus feito: de um legado inexistente. Ao final, parece-me uma história do vazio de uma falta de amor recíproco, um conto sobre a beleza mas finalmente a futilidade da união de corpos sem coração.

site: http://adlectorem.wordpress.com/2014/05/29/a-sombra-no-sol/
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RoFolDo 02/01/2013

Nos piores dias surgem as melhores criações.
Confira a resenha no blog Elhanor:
http://elhanor.blogspot.com.br/2012/12/resenha-de-livro-sombra-no-sol-de-eric.html
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A.Z.Cordenonsi 13/09/2012

A Sombra no Sol das Selvas de Pedra
Ok. Lido "A Sombra do Sol", de Eric Novello no meu tablet. Adquiri o texto na Amazon. Primeiro, sobre o modus operandis: foi mais fácil e tranquila que imaginei. Achei que a luz forte do tablet prejudicaria a leitura, mas ele se adaptou bem ao aplicativo Kindle do android e funcionou perfeitamente. Abriu possibilidades para novas leituras. Segundo, o livro em si. Achei um livro forte e bem construído, sem cair no lugar comum e na banalização do sexo. As angústias do protagonista escorrem pelas letras de uma forma quase cruel, mas necessária. O texto é fluído e seus trinta contos absorvem muito bem a temática que o autor quis apresentar. É um prato cheio para quem curte histórias urbanas, boates escondidas e os becos escuros da sociedade moderna. Recomendo.
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Cristiano Rosa 03/08/2012

Diário CT: A Sombra no Sol
Seria uma tarde de segunda-feira qualquer, se eu não tivesse optado por ler A Sombra no Sol, de Eric Novello, publicado há poucos meses pela Editora Draco. A capa misteriosa e os textos curtos não justificados me chamaram a atenção em um dia nublado e com ares de chuva que poderia cair a qualquer momento. Nem uma gota sequer caiu lá fora, mas em mim fantasias desabaram em grossos pingos.

A obra de 120 páginas possui 30 textos permeados por uma única narrativa. A trama está envolta de Armando, dono do bar Neon Azul – que é objeto principal de outro romance do autor e com referências neste – que vai do Rio de Janeiro a São Paulo, para analisar um cadáver. O morto é Ícaro, um garoto de programa que conhecemos por meio das leituras de seu caderno, uma espécie de diário, que é achado pelo gerente na ocasião.

Intercalando narrações em primeira – no diário – e terceira – nas impressões de Armando – pessoas, o leitor é convidado a entrar no mundo experiente do jovem. Interessante como nos tornamos leitores do leitor, uma vez que é um personagem que lê o que outro personagem escreveu.

As anotações de Ícaro são visões críticas do mundo, o seu e o de outros, com um senso de quem já viveu muita coisa por aí. Entre idas e vindas pela cidade, ele adquire marcas no corpo e na alma em seus encontros com clientes, que são mulheres, homens e casais. Seus pensamentos sugerem reflexões ao leitor, pois ele cria suas próprias teorias sobre a vida e o caos em que todos estamos.

O garoto de programa analisa cada ato, gesto e olhar das pessoas com que tem contato, nos passando suas impressões por todos os sentidos: visão, cheiro, toque, sabor e som, com detalhes e descrições que sugerem muito ao leitor. Em seu apartamento, entre chegadas e partidas, há dinheiro, banhos, lençóis e orgasmos, um tira e põe de roupas que mexem com o prazer durante a leitura.

Personagens aparecem e somem, como Nazarethe, Eros, Angelus, Marcos, Alice, Calisto, Patrícia, Le Saint e Gabriel, entre outros não nomeados, que conhecemos brevemente, porém alguns com intensidade. O cenário de tudo é uma sociedade que usa máscaras para conseguir o que deseja, e mesmo com a singularidade de cada questão, permite que continue assim.

As divagações de Armando ao longo da leitura dá uma pausa nos textos intensos e, ao mesmo tempo, prendem ainda mais naquele universo de lugares diferentes, drogas e sexo. A alternância de apartamento, bar e rua é grande; a cidade, suja e limpa, faz parte da vida de Ícaro, que permeia ruas de realismo e sarcasmo, entre uma bebida e um cigarro.

Ao final, descobrimos o motivo da morte do personagem e revelações são apresentadas a Armando que, surpreso, toma decisões e dialoga com o jovem, fazendo um último pedido, que é aceito com encanto e precisão. A ideia geral da trama percorre a mente do leitor de maneira ágil e adentra em conceitos por vezes fechados e guardados lá no fundo. Ao se abrirem, novos caminhos são mostrados. Agora minhas sombras no sol têm outro sentido.

Fonte: http://www.blogcriandotestralios.com/?p=17821
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Zilda Peixoto 11/07/2012

A Sombra no Sol
Em parceria com a editora Draco, a Cachola Literária foi contemplada no sorteio feito pela editora entre blogs parceiros. Sendo assim, a Cachola tirou a sorte grande e tem o prazer de resenhar um livro tão incrível quanto A Sombra no Sol.

O livro contém 30 contos fascinantes que narram à história de Ícaro, um garoto de programa que vive na cinzenta cidade de São Paulo. Com uma escrita envolvente e exuberante, o autor nos conduz ao universo sombrio e solitário da vida de um garoto de programa.
O autor esclarece que os contos reunidos no livro já faziam parte de um projeto, onde os contos já existiam e já haviam sido publicados anteriormente em seu site. Mais tarde, ele faria pequenas modificações até a conclusão do último conto _ “Ode aos Cacos”.

O livro aborda um tema que faz parte do cotidiano de toda cidade grande. Fala sobre sexo sem hipocrisia e sem esconder o que há por trás da vida de garotos de programa como Ícaro. O jovem foge ao estereótipo do garoto fortão, musculoso e super atraente. Ícaro é uma figura enigmática. Sua personalidade e a maneira como se entrega aos seus clientes é o que faz a diferença. Ícaro é um “instrumento” de desejo. Ele transcende o sexo comum, o desejo de fazer sexo pelo simples ato.

Os contos são narrados em sua maioria pela voz do personagem Ícaro, que relata suas relações amorosas, suas marcas e reflexões após inúmeras torças de clientes. Inicialmente, Ícaro encontra-se morto e cabe a Armando, gerente do bar Neon Azul (livro que aborda mais o personagem) a missão de oferecer uma nova chance a Ícaro. Só que Armando irá se deparar com o caderno de anotações de Ícaro, onde ele relata suas experiências com cada um de seus clientes. Armando terá de ler cada página desse caderno para compreender melhor a causa da morte de Ícaro e porque ele seria tão especial a ponto de merecer tal privilégio. A partir daí, o leitor é convidado a conhecer o mundo cinzento e sem glamour de um personagem tão rico e bem construído com Ícaro.

Percorrendo os 30 contos temos a impressão de estar assistindo a uma peça teatral, ou melhor, uma tragédia grega com nova roupagem e com linguagem bem contemporânea. Eric Novello enche nossas almas de poesia através de 120 páginas. A Sombra no Sol é um livro eletrizante, não há como resistir à escrita de Eric e a maneira como ele conduz o leitor a se envolver com a narrativa. O autor nos encanta com sua descrição minuciosa dos encontros e desencontros da vida de Ícaro.

Eric Novello expõe a nudez dos personagens explorando a busca pelo prazer inesgotável. Tanto Ícaro quanto seus clientes buscam exorcizar os demônios que habitam dentro de cada um. No escuro da noite, os personagens se despem do véu da moralidade que a sociedade prega aos quatro ventos. Ícaro é a figura representativa dessa sociedade que necessita e mantém jovens como ele para exorcizar tais demônios e devaneios dos que buscam o prazer carnal.

Uma coisa é evidente: não existe glamour na vida de Ícaro. A prostituição é uma via de mão única. O mundo das drogas está diretamente ligado ao comércio do corpo. Pois, o corpo é apenas objeto e nada mais. A vida de Ícaro é como de tantos outros garotos de programas que vivem em inferninhos, seja ele localizado no gueto, na beira das estradas ou até mesmo em casas de luxo.

A Sombra no Sol é um livro forte com uma narrativa impactante. Eric escreve contos como recita poesias, com requinte e sutileza, tudo na mesma proporção. Ícaro como tantos outros garotos de programa são como sombras que vagam pela manhã após noites sombrias regadas de muito álcool, sexo e drogas.

O livro possui uma arte gráfica de altíssima qualidade. As páginas são feitas de papel pólen bold(aquelas amarelas e ásperas) e a fonte escolhida facilita a leitura. O texto está alinhado à direita e faz com que se assemelha a um caderno de anotações. A capa do livro é muito charmosa e toda a diagramação está em perfeita harmonia.

A editora Draco está de parabéns pelo excelente trabalho e por nos presentear com a publicação de autores tão talentosos como Eric Novello. A Sombra no Sol é uma grande viagem ao submundo do sexo, sem máscaras, sem cortes ou pudores. Uma leitura simplesmente fascinante.

Leitura recomendada! O leitor ficará preso e sem fôlego do início ao fim
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