A Vida Acima de Tudo

A Vida Acima de Tudo Allan Stratton




Resenhas - A Vida Acima de Tudo


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O Livreiro 01/05/2013

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Existem histórias e histórias. Histórias efêmeras e histórias inesquecíveis. A Vida Acima de Tudo – Os Segredos de Chanda, de Allan Stratton, faz parte do segundo grupo. Com uma história singular, desoladora e maravilhosamente bem contada, esse é um livro excepcional, sobre pessoas e sentimentos e medos e preconceitos e a determinação tocante de uma menina em recusar as coisas como são e buscar a vida como acha que esta deveria ser: livre, feliz, justa.

Chanda, de 16 anos, mora no sul da África, e tudo o que quer é um mundo e uma vida melhor — mais próspera, mais feliz. Mas as coisas não são como ela gostaria que fossem. A epidemia de AIDS arrasa o país em que ela vive, um mal invisível e destruidor, envolto de crendices, morais conservadoras e preconceitos. Quando ser portador do vírus HIV significa tornar-se um pária social, as pessoas mantêm a doença em segredo, ignoram-na, não procuram tratamento — morrem.

Desde que a irmã caçula de Chanda morreu, segredos começaram a eclodir diante da jovem; segredos que ela não gostaria de saber, e que inevitavelmente terá que guardar, para proteger a si e aqueles que ela ama.

Tenho uma visão: um dia haverá rostos que virão pôr mamãe e por mim e por Esther, Soly e Iris, e todos que amo. Sinto vontade de enterrar o rosto no peito de mamãe e gritar: “Não quero morrer! Por que nascemos?”.

A Vida Acima de Tudo é um livro incrível. Intenso. Forte. E, mais que qualquer coisa, verdadeiro. Allan Stratton escreveu uma história maravilhosamente cativante. A escrita forte e saudosista dele reverbera durante toda a leitura, mantendo o leitor preso às suas palavras, torcendo, angustiadamente, pelo bem dos personagens, desejando por piedade.

Não suporto que ela tenha morrido. E detesto que as pessoas tentem fazer eu me sentir bem com isso.”

Chanda, com sua determinação e inteligência, com seus medos e coragem, transformou-se uma de minhas protagonistas favoritas de todos os tempos. A maneira como ela não desiste, como não para de amar, mesmo quando todos sussurram do contrário. A forma como ela insiste em tentar encontrar a felicidade, mesmo quando todos dizem que isso é impossível. E, sobretudo, o quanto ela é autêntica, genuinamente real, irretocavelmente humana, lutando contra as adversidades e nunca desistindo.

“Só uma dor de cabeça.”
A senhora Tafa mexe no nariz devagar. “Um conselho”, sussurra, “essas dores de cabeça têm de acabar.”
“Ela não tem as dores de propósito. São por causa da dor do luto.”
“Luto ou não, as pessoas comentam.”

A mensagem sobre superar a vergonha, confrontar a verdade e ir de contra a ignorância é visualizada a todo instante no livro. Além disso, aspecto evidente em A Vida Acima de Tudo é a vontade real de se quebrar o silêncio, de suspender os segredos e estigmas que tentamos enclausurar dentro de nós; e, também, o medo de perder o respeito e o amor das pessoas que amamos. Sobretudo, é sobre lidar com a dor do luto e de ter coragem para viver com a verdade (ainda que ela seja dolorosa demais para se confrontar).

Inesquecível e autêntico, sufocante e libertador, A Vida Acima de Tudo – Os Segredos de Chanda é um livro sobre vergonhas e um mal letal do qual não é possível fugir; mas, especialmente, um livro sobre amor, coragem, vida e enfrentamento — enfrentamento necessário para alforriar-se de vez das amarras opressoras dos preconceitos.
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Tami 25/07/2013

Resenha publicada no blog Gaveta Abandonada.

Chanda é uma menina de 16 anos que mora na África. Sua família já passou por muitas tragédias e agora está passando por mais uma: a morte de sua irmã. E as coisas não param por aí. Além da família, Chanda ainda tem que se preocupar com sua amiga Esther, que está tomando algumas decisões erradas. Isso tudo com o medo (e fofoca) constante na comunidade sobre uma doença que muitos tem, mas poucos ousam falar em voz alta: aids.

Essa história não é real, mas poderia ser. Certamente mostra a vida de milhares de famílias que passam por esse problema, especialmente em regiões pobres e sem acesso à informação. Os preconceitos são latentes, e o medo das pessoas em até mesmo mencionar o nome da doença é algo muito triste. A desinformação gera uma completa exclusão dessas pessoas da comunidade, que consideram toda a família amaldiçoada porque um de seus membros tem a doença.

"Estou sozinha no escritório da Funerária Luz Eterna, do senhor Bateman. É manhã de segunda-feira e ele está ocupado com um novo carregamento de caixões." (primeiro parágrafo, pág. 9)

A narrativa é um pouco simples demais. Muitas vezes temos várias coisas acontecendo em apenas uma página. Por exemplo, sabemos da morte do pai de Chanda e sobre como sua mãe encontrou e se casou com o próximo marido em questão de dois a três parágrafos. Isso é bom pois o livro não se torna monótono, mas ao mesmo tempo senti falta de uma profundidade maior em alguns momentos. Não sei se foi porque me acostumei com o ritmo ou se o livro realmente se tornou mais profundo, porém à medida que o livro foi chegando ao fim senti que estava melhor conectada com ele.

Os personagens são interessantes, mas a que mais me pareceu real foi a vizinha (sra. Tafa). Ela é a típica fofoqueira de bairro, que quer cuidar da vida de todos, mas ao mesmo tempo é uma pessoa que realmente se preocupa com os outros. Esther e Chanda são apenas duas crianças sem muita informação no meio de tudo, e apesar das escolhas estranhas muitas vezes, conseguimos entender o lado de cada personagem. A mãe de Chanda é outra personagem muito bonita, que enfrenta vários problemas para cuidar de seus filhos.

É um livro muito interessante e que recomendo. Apesar da crítica, é um livro que ajuda a refletir sobre os assuntos abordados. O livro é fininho e a leitura é bem rápida. Já existe um filme do livro que é de 2010. Life, above all chegou até a ser premiado em Cannes! E me surpreendi ao saber que o livro possui uma continuação (Chanda's Wars) pois a história é bem fechada. Espero que seja publicado aqui no Brasil também.

"Se o povo diz que uma pessoa está contaminada, ela pode perder o emprego; sua família pode expulsá-la de casa e ela pode morrer sozinha na rua, então ela vive em silêncio, escondida atrás da cortina. Não só para se proteger, mas para proteger aqueles que ama e o bom nome de seus ancestrais. Morrer é horrível, mas morrer sozinho, com medo e vergonha, carregando uma mentira é ainda pior." (pág. 50)

site: http://gavetaabandonada.blogspot.com.br/2013/07/resenha-vida-acima-de-tudo.html
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Raquel 10/01/2017

Poderia ser mais um clichê sobre o tema, mas não é!

Chandra é uma garota de dezesseis anos, com sonhos no coração e muitos problemas na vida. Residente na África do sul, de família humilde, sua trajetória é marcada por diversos percalços. Emigrou ainda pequena, juntamente com os pais e os irmãos da região de pastoreio para a área das minas. Em trágico acidente, seu pai e irmãos foram soterrados. Sem recursos para sobreviver sozinha, sua mãe contraiu matrimônios sucessivos, resultando no nascimento dos irmãos Iris, Soly e Sara. Ainda na infância é abusada por um dos padrastos, motivo pelo qual sua mãe decide acabar com seu segundo casamento.
O grande vilão do livro de Allan Stratton não é a miséria ou o caráter dos personagens; é a AIDS, uma das doenças contagiosas que ceifa milhares de vida nos países subdesenvolvidos. Em a vida acima de tudo, Chandra convive em um meio onde a doença é enfrentada com rejeição e exclusão social, seja do doente ou aqueles que tiveram contato com o portador. É aquele assunto sussurrado pelos cantos, envolto em mitos e crendices, que análogo a suas vitimas, é creditado à marginalização e a morte.
Envolta em acontecimentos e segredos incompreensíveis, Chandra convive com os rumores que sua melhor amiga Esther está fazendo coisas erradas, a dor da morte prematura da irmã, a convivência com o padrasto alcoólatra, as dificuldades financeiras e sociais numa comunidade humilde, os olhares vigilantes e acusadores dos vizinhos fofoqueiros, como a senhora Tafa e a necessidade de acreditar em um destino diferente. Se a vida nunca suavizou o cotidiano de Chandra, imagine quando segredos começam a ser desvendados e o peso em carregá-los, os quais influenciará incontestavelmente o rumo da sua existência e daqueles a quem ama.
O autor constrói uma protagonista jovem, mas nada tem de inocente; não encontramos uma linguagem rebuscada, antes uma estória direta, seca, sem floreios como as vidas retratadas nas suas páginas. Chandra é real, palpável, sendo por vezes necessário respirar profundamente antes da próxima página, seja pela tonalidade marrom da existência dessas personagens, seja pela urgência em tratar de temas com a AIDS – tão bem discorrido aqui –, que ainda constitui um dos grandes problemas de saúde pública no mundo. Poderia ser apenas mais um livro clichê sobre o tema, mais não é. Você não vai encontrar aqui aquelas frases de efeito, mas com a sensibilidade típica da idade, Chandra ensina conceitos de lealdade, esperança, resiliência, o porquê quebrar velhos preconceitos e a importância em alimentar sonhos, mesmo quando todas as probabilidades dizem o contrário. Um tributo aos que ousaram lutar contra o preconceito e a AIDS.

“Mamãe dizia que eu devia guardar minha raiva para lutar contra a injustiça. Bem, sei o que é injusto. A ignorância sobre a AIDS. A vergonha. O estigma. O silêncio. Os segredos que nos fazem nos esconder atrás das cortinas. (p.250)
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