Molloy

Molloy Samuel Beckett




Resenhas - Molloy


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Lopes 13/03/2018

O intocável dano
Samuel Beckett. Este nome já carrega contrapontos somente ao citá-lo. É um autor imenso, e como todo autor imenso, é discutível e exaurido em sua redoma que questiona a existência. São compreensíveis todas as qualidades que emanam de seus livros apocalípticos, no entanto, não existe prazer ou riso histérico e nervoso, nada que desmonte aquela sensação de fim infinito. Estar na frente de “Molloy” é correr sem chão, dando voltas em si mesmo, como se a alma se jogasse para fora da consciência e criasse um repertório cheio de pistas embasadas. O enredo é trocado por perguntas sólidas que retratam a condição. Beckett implode, Molloy recebe desse movimento as dúvidas ao despertar num apartamento de sua mãe, sem saber boa parte do tempo que o levou até aquele lugar, e Moran, na segunda parte do livro, que por sua vez constata as dúvidas destes dois ruminando sua obrigação, vigiar Molloy até esse lugar. É difícil se comunicar com as vozes de Molloy e Moran, ambos estão no pós-guerra, distante do diálogo, próximos da morte e do amor, mas sem abrir qualquer mecanismo que exija um comunicar. Quando Samuel leva até as últimas consequências esses dois senhores e suas razões de não vida, não entendimento e emoções espatifadas, corta um laço importante entre o leitor e a obra, esse corte é o que revelam pontos positivos e negativos, se por um lado não existe esperança no pós-guerra, por outro é na luz dessa consciência que algo acontece. Este é o primeiro livro da trilogia pós-guerra, tão perturbador como estar diante de um fim de consciência.
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Júlio 03/09/2017

Molloy é o primeiro livro da trilogia do pós-guerra de Beckett. A história é dividida em duas partes. Na primeira são abordadas as desventuras de Molloy, que se vê no quarto de sua mãe sem saber como chegou até lá, e na segunda a peregrinação de Moran, que sem saber qual o propósito de sua missão fica encarregado de encontrar Molloy.

Tendo lido somente Fim de Partida já fui direcionado com certas expectativas à respeito de como seria a “trama” e seus personagens. Realmente, os personagens se mostram novamente como pessoas decadentes, fisicamente e psicologicamente. Na primeira metade o narrador é Molloy, que narra toda sua parte da história em um só fôlego, em um único parágrafo que começa após sua introdução, em sentenças curtas, diretas e cheias de digressões. Aos poucos vamos sabendo sobre suas manias, suas dificuldades físicas e sobre a forma confusa em que se formam seus pensamentos, sem ter certeza sobre a veracidade de certos eventos e de certos nomes Molloy vai ilustrando que não só seu corpo como também sua mente decaem. Por momentos surge a tentação de reduzir o personagem a um mendigo ou lunático, porém a clareza em certos pensamentos, suas referências sobre arte e a forma metódica em que ele elabora a logística das coisas mais absurdas ilustram um homem que lá existia, e que talvez ainda exista mas que já não tem como se libertar. Já na segunda metade temos a história de Jacques Moran, o novo narrador, que recebe a tarefa de ir ao encontro de Molloy. O contraste entre as duas narrações é o suficiente para mostrar a diferença entre os personagens. Os pensamentos de Moran são mais organizados, longos e devidamente ordenados, de forma que o texto reflete sua psique intacta e clara.

Moran se mostra um personagem bem adverso de Molloy, tem casa, rotina e um filho. A relação entre Moran e seu filhos é das mais complexas, ainda que pareça ser emocionalmente básica, pois Beckett consegue passar ao leitor informações que o narrador ou aparenta esconder ou expõe nas entre linhas sem se dar conta disso. Conforme Moran segue seu destino essa relação entre pai e filho acaba mostrando sinais que seu prognóstico é semelhante ao físico-mental de seus personagens.

Apesar de ao fim do livro ficar tentado a achar que a conclusão é óbvia, inteligentemente óbvia, que existe sim uma aliteração na forma em que ambos pensam, fiquei com a impressão de que a “trama” vai um pouco além do que os personagens contam. Suas desventuras e ruína mental são mais importantes que a história. Molloy em uma certa parte chega a dizer que já não mais diferencia as pessoas que vê pela rua, é uma constatação que muda a forma de interpretar os eventos narrados. Esse sentimento de que há uma dúvida que não deveria existir, que leva o leitor a indagar além daquilo que é apresentado, mesmo que indiretamente, pela narrativa dos personagens eleva muito a qualidade da obra, pois a dúvida, ao assombrar o leitor, o traz mais perto desses personagens que gostaríamos de manter distância.
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Welber 19/12/2016

Molloy o "Narrador-narrado".
Molloy, que, junto com Malone morre e O inominável, compõe a “trilogia do pós-guerra”, marca a estreia de Samuel Beckett como escritor em língua francesa. Escrito no início da década de 1950, mesma época em que o autor escreveu Esperando Godot, foi de certo modo eclipsado pelo imenso sucesso da peça, mas certamente está entre os romances do século XX que continuam atraindo a investigação da crítica mais exigente, e o próprio Beckett costumava pôr seus textos ficcionais num patamar mais alto.
O que se sente ao ler a trilogia de Samuel Beckett? Não sei ao certo, mas uma grande sensação de impotência, talvez, defronte da vida e de si mesmo, isso devido à situação irreversível da degradação de suas personagens, impossibilitada devido as suas enfermidades drásticas que os tornam em pessoas nulas, inúteis à sociedade e até mesmo a si próprias. O declive parece infinito, o declive que levará a morte parece infinito, por mais que se tenha passado apenas umas poucas horas, o tempo aqui é outro e também pode ser que não exista. Apenas se permanece um conflitante monólogo interno. Como o próprio Beckett diz sobre Molloy: “O narrador-narrado”.
Tratando-se de Molloy que é dividido em dois narradores, primeiro o próprio Molloy e depois um agente que não se sabe de quê, nem de onde, que é designado a procurar Molloy (a lá Kafka). Moran, o agente que também leva seu filho nesse empreendimento e vive experiências nada comuns com o garoto, digo até um complexo de Édipo (isso por parte da imaginação do pai).
Molloy que se encontra no quarto da mãe e vai tentando através de estilhaços de lembranças recordar como chegou ali, além de suas dificuldades físicas, com uma das pernas enrijecidas usando muletas e ao mesmo tempo se utilizando de uma bicicleta para se locomover isso até certo ponto da peregrinação. Mesmo em sua impotência segue com aventuras sub-humanas em sua trajetória na tentativa de retornar a casa de sua mãe, contando apenas com o acaso, pois nem sua memória funciona bem quando tenta se lembrar onde é a casa da mãe. Uma personagem indiferente aos atritos que vai encontrando ao longo de seu caminho.
Ambas as investidas, tanto de Molloy de chegar à casa da mãe e de Moran de encontrar Molloy, são completamente logradas pelas suas foças exauridas.
Apenas um adendo: Esses romances de Beckett são de uma leitura onde não se pode procurar sentido o tempo todo, digo que é melhor para uma boa leitura, se entregar ao fluxo das narrativas. Algumas palavras chaves são: talvez, quem sabe, etc. São essas incertezas que vão construindo o caminho do romance numa rica síntese.
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Adriana Scarpin 03/05/2016

Agora ficou clara a influência de Beckett em Hilda Hilst, imagine Hilst escrevendo de forma mais racional, este é o Beckett.
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Renato 02/03/2016

Nada como ser como
'Molloy' não é um texto fácil, Beckett não é. Literatura para quem gosta da escrita, não só da história. 'Molloy' é a cor acinzentada do fora de foco intencional. Um narrador que muda sua distância, enevoando o personagem. O enredo que é um fluxo de pensamentos musicalizado, com cada expressão escolhida minuciosamente para ser uma poesia - centenas no mesmo livro.

'Molloy' é o mundo interior que começou a ser desvelado com Dostoievski, o início do mundo que leva o particular como universal. Que vê a relação de busca do filho pela mãe como o campo de batalhas de uma grande cruzada. Beckett faz da narrativa a lógica do pensamento, que nunca consegue ser domado, quando muito, seguido. Os fatos se interpõem como uma livre associação. Sem nenhuma arrogância ou elitismo voluntário, 'Molloy' não é para muitos. É preciso se entregar sem buscar a compreensão imediata, deixar-se aventurar e sentir para compreender o verdadeiro motivo do rumo aparentemente anárquico. Da existência que nasce da relação que é a mais simples, e que se complica, ao se colorir de fatos e memórias.

Beckett é absolutamente influente na literatura brasileira contemporânea. Muitos tentam escrever como Beckett o fez, criando uma família, a mesma linhagem. Inúmeros romances de quase poesia, de quase linguagem, sem personagem ou enredo. Olhando em volta, sem nenhum julgamento de valor, percebemos: Beckett é, os outros parecem. Soa como se escrever como Beckett fizesse um autor ser inovador e moderno. Muitos de nós sabemos que somos um degrau, algo transitório rumando ao desconhecido. Outros fazemos como. Orgulho. Conseguimos. Somos capazes de. Becket foi e por isto continua sendo, muitos dos demais soam. Cópias piratas apaixonadas por si mesmas. Exercícios de estilo com preensão.

Por isto Beckett continua, e marca.

Nada como ser como se deseja.
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Arsenio Meira 27/04/2014

Detonando a linguagem, sem esperar por ninguém

Dizer que é uma leitura prazerosa, fluída, descompromissada, seria o mesmo que não reconhecer a genialidade de Beckett, do Beckett dramaturgo, autor da mítica peça "Esperando Godot". Este romance, o primeiro escrito por Beckett em língua francesa, causa estranheza porque nos arranca irreversivelmente do conforto. Agride porque aponta para a ruína de uma linguagem que já não é mais capaz de representar. Seus personagens chafurdam na lama, e é o gosto dessa lama que faz o nosso sorriso silencioso se sentir incomodado. Beckett fez questão de dar ênfase às contradições. Ênfase plena.

Por isso, ao final de Esperando Godot (lembro bem), Vladimir e Estragon dizem: Vamos embora, mas permanecem parados no mesmo lugar. Por isso Moran, um dos personagens deste romance, reconhece a impossibilidade de arrancar da linguagem algo que não seja paradoxo, um manifesto desespero pela palavra que perde os sentidos: Então voltei para a casa, e escrevi, É meia-noite. A chuva está batendo nas janelas. Não era meia-noite. Não estava chovendo (p. 237). Ao perder-se nesta intriga, Moran recupera as exatas primeiras linhas de seu relato, instaurando a incerteza, a consciência da parcialidade, transformando a precisão do branco e preto num borrão cinza.

Não obstante tais obstáculos, Beckett segue adiante, mesmo depois de atestar a impossibilidade de se ir adiante. Por isso Molloy, ecoando a expressão de seu criador sobre a necessidade de se pôr para fora, sobre a necessidade de dizer mesmo quando não há mais como ou por que, atesta a morte da linguagem, ao decretar de modo sublime: Não querer dizer, não saber o que se quer dizer, não poder dizer o que se acredita que se quer dizer, e sempre dizer ou quase, isto é que é importante não perder de vista, no calor da redação (p. 49). É preciso prestar atenção. Irlandês de nascimento e francês por vocação, Beckett não veio ao mundo para pagar hora extra. Um grande escritor.
Carlos Patricio 19/02/2016minha estante
parece beeeeeeeeeeeeeeem complicado, rs


Ricardo Rocha 12/10/2016minha estante
é tudo isso, amigo, saudades...




Henrique Pontes 26/04/2011

Beckett, o autor do não querer dizer, do não saber o que se quer dizer, do que sempre diz ou quase, faz neste texto o leitor ter de aproximar-se do nível de consciência do personagem, suspendendo a busca de sentido, mais comum dentro do formato convencional dos romances.
Diga-se de passagem que os personagens narradores de Beckett são incapazes de contar ou narrar suas próprias histórias, demonstrando sua total ausência da obrigação de se expressarem.

Cito como iluminadas estas palavras de Beckett e que são dilema para todo escritor que deseje empreender a busca por uma nova expressão na arte:
_ a inovação de que não há nada a inovar, nada com o que inovar, nada a partir do que inovar, nenhuma força para inovar, nenhum desejo de inovar, junto com a obrigação de inovar._

http://estudoeestetica.blogspot.com/2011/04/molloy-samuel-beckett.html
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