Psicopata Americano

Psicopata Americano Bret Easton Ellis




Resenhas - O Psicopata Americano


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|Cinara|@cinarasrv 01/10/2020

Brutal!
"O mal é algo que está no ser? Ou é algo que está nas ações? Minha dor é constante e aguda, e não espero um mundo melhor para ninguém. Na verdade, desejo que minha dor seja infligida aos outros. Não quero que ninguém escape."

Esperei tanto por uma nova edição do Psicopata Americano quanto esperei pela edição de Cabo do Medo, mas ao contrário da decepção que foi Cabo do Medo, o Psicopata foi uma experiência única!
Nunca li algo tão brutal, violento, explícito e gráfico na minha vida!!!! O filme realmente é muito bem comportado!
Incrível! Muito bem escrito!
Alguns erros de digitação hein dona Darskide! "Mas eu tenho bebido quase vinte livros de água " não dá né!
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Queria Estar Lendo 08/09/2020

Resenha: Psicopata Americano
Resenhar Psicopata Americano vai ser difícil porque eis um livro perturbador como nenhum outro que li na vida. A controversa obra de Bret Easton Ellis, lançada aqui pela Editora Darkside - que cedeu este exemplar em cortesia - retrata uma mente perversa em todas as suas nuances, e por isso te prende do começo ao fim.

A história é contada pelo ponto de vista de Pat, o psicopata funcional e perturbador que vive na elite de Nova York no fim dos anos 80. Em meio ao luxo e à riqueza, a mente de Pat se desconecta da realidade para que ele realize seus crimes monstruosos a dezenas de vítimas, usando sempre a sombra de bom moço e do desconhecido para que nenhuma suspeita caia sobre ele.

Ler Psicopata Americano foi uma grande experiência de horror e desespero e raiva e medo. A escrita do autor é perturbada e te coloca justamente no lugar mais desconfortável da história - a mente do serial killer.

O protagonista, Patrick, é sádico. Insano. Violento a níveis extremos e asquerosos. É o tipo de livro cuja classificação indicativa ultrapassa os dezoito anos porque requer muita maturidade e consciência para encarar essas cenas gore; apesar de em partes eu ter achado muita coisa gratuita, entendo que é a mente de um cara que vive pelos surtos violentos. Não dá para esperar menos da narração de alguém assim.

O autor divide Pat entre esses episódios de descontrole total, onde ele se torna quase animalesco em sua sede de sangue e tortura, e os momentos apáticos para tirar ainda mais a humanidade dele. O prefácio inclusive cita isso como um motivo pelo qual o livro é tão focado em descrever coisas, a primeira vista, fúteis e inúteis.

São páginas e mais páginas de bens materiais luxuosos que não acrescentam, realmente, nada à narrativa, mas à desconstrução de qualquer traço humano do personagem que é Pat. Ele é uma máquina de informações consumistas e um surto de brutalidade e violência. Patrick é tudo que existe de pior em uma pessoa e além. Traços que já são horrendos por si só (sadismo, racismo, sexismo, homofobia, etc), no personagem, ultrapassam o absurdo.

Causa repulsa. Ódio. Dá vontade de jogar o livro longe e gritar. Por causar tudo isso, como a história que ela é, funciona.

Não é um livro que traz bons sentimentos em você, mas ele nunca existiu para isso. Assim como um livro de terror existe para aterrorizar, esse existe para perturbar. Pode não ser convidativo como história, mas é uma história a se discutir, principalmente porque a gente sabe que existem homens como o Patrick por aí.

Que têm muito poder ao seu alcance e usam e abusam dele - exageradamente, algumas vezes, ou moderadamente, mas de maneira inadequada da mesma maneira.

O final abre margem para maiores discussões a respeito da psiquê do personagem e de quão longe sua mente insana ainda poderia levá-lo - ou o havia levado. Quando terminei, estava só o John Travolta naquele gif icônico.

Não dá pra falar muito mais sobre o livro porque sinto que saber muito sobre o desenrolar da história entrega onde ela quer chegar - e onde talvez chegue ou talvez não chegue. É confuso? Sim. Tem muitas análises sobre o livro e o filme? Sim também, e eu vou assistir todas.

A edição da Darkside é uma das coisas mais lindas e combina o visual patriótico estadunidense com a bizarrice insana que é a narração do Patrick. Capa, diagramação, tudo impecável - a tradução do Paulo Raviere está muito boa e a revisão também não deixou nada a desejar.

Psicopata Americano é uma montanha-russa difícil e perturbadora que não é para qualquer um. Se tem estômago fraco ou se impressiona fácil com nuances e situações escancaradas de crueldade, não é uma leitura para você. Mas, se tem curiosidade de conhecer mais sobre a história que inspirou o filme e também sobre a mente de um dos maiores psicopatas que a literatura já viu, esse lançamento é uma oportunidade para isso.

site: http://www.queriaestarlendo.com.br/2020/09/resenha-psicopata-americano.html
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Lucas Rocha 02/11/2011

Cruel e arrebatador
Charles Dickens talvez seja o primeiro autor que penso quando quero falar de alguma coisa que tenha relação com análise social. O autor inglês tornou-se famoso, em seus últimos trabalhos, por mostrar aos ingleses do século XIX quem eles realmente eram, mesmo que isso pudesse significar abrir algumas feridas nos egos alheios. Dostoiévski talvez também tenha feito isso, em uma escala menor, ao abordar os aspectos pessoais do indivíduo e analisá-lo como um bicho urbano e construído através da sociedade que o cerca, e não construtor dessa mesma sociedade.

Não é à toa que a edição de bolso da L&PM traz em sua capa uma citação de Norman Mailer que compara Bret Easton Ellis à Dostoiévski. A princípio pensei que pudesse ser presunção tentar equiparar dois autores tão distantes, sendo Dostoiévski um dos parâmetros de literatura social existentes na história. Mas, ao longo da leitura do livro, pude perceber que a comparação é extremamente válida. Easton consegue, através de seu personagem principal, Patrick Bateman, mostrar uma sociedade norte-americana vazia e fútil, excessiva e preocupada em se calcar em aparências. Easton expõe essa sociedade em seus mínimos detalhes, utilizando para isso um personagem obsessivo, egocêntrico, cruel e maníaco, para dizer o mínimo.

O grande trunfo de Psicopata Americano é ser uma história sobre um personagem. Não há conflito imediato, não há plot, não há problema que precisa ser resolvido e que guia o leitor ao longo da narrativa. O livro é um exercício de exploração, de montar o quebra-cabeça que é Patrick Bateman, para, no fim, continuarmos a não entendê-lo. Easton é extremamente eficaz em sua escrita, e mostra para nós um personagem que, de início, é tímido e inexpressivo, mostrando-se até mesmo desinteressante nas primeiras vinte páginas, preocupado com seu corpo, as roupas que os outros vestem e o tema de seu programa matinal favorito. Até então, não passa de uma história comum sobre um cara que passa a vida inteira malhando, vendo TV e ouvindo música.

Mas, ao longo da narrativa, percebemos que as coisas são um pouco mais complicadas do que isso. Patrick Bateman possui um gosto bastante peculiar de torturar e assassinar mendigos, prostitutas, animais, crianças e qualquer coisa que possua um coração que bata regular ou irregularmente. Bateman é um personagem extremamente complexo: em alguns momentos, parece fazer de seus assassinatos consecutivos apenas mais uma das etapas de seu dia (acordar / tomar banho / fazer a barba / cortar a garganta da mulher amarrada na cama / vestir meu Armani / ir para o brunch), e, em outros, faz a morte parecer um processo complicado e inexecutável, como quando é perturbado por um homem que cisma que ele é homossexual e decide que a melhor opção é apenas se esquivar das tentativas do sujeito.

A crueldade de seus atos e seus pensamentos o ponto chave da narrativa. Easton nos brinda (ou nos atormenta, dependendo do ponto de vista) com jogos sádicos de sexo e tortura, que envolvem canibalismo, utilização de animais peçonhentos, artefatos perfurantes, cortantes, quentes, frios, pontiagudos, etc etc etc. As cenas são extremamente gráficas, chegando a beirar o insuportável em alguns momentos. E o jogo que Easton faz, durante os capítulos, é incrível: em um capítulo Bateman está torturando duas prostitutas com pregos, martelos, ratazanas e furadores de gelo e, no capítulo seguinte, gasta cerca de dez ou quinze páginas para descrever a discografia do Genesis ou da Whitney Houston, ou explica como se barbear corretamente durante a manhã, sem que a pele resseque.

O livro passeia entre delírios e realidade. O personagem muitas vezes idealiza diálogos em sua cabeça e, em certos momentos, essa linha não fica muito clara para o leitor. Não sabemos se ele está realmente dizendo o que diz e ninguém está prestando atenção ou se ele apenas imagina tudo aquilo. Sua obsessão é desenhada através de seus pensamentos: detalhar quais são as marcas de roupas e acessórios que cada um utilizada, descrever todos os cosméticos de seu banheiro, contar quantas vezes esbarra com um cartaz da peça Os Miseráveis na rua ou qual o tema do dia do programa matinal The Patty Winters Show, seu programa favorito.

Patrick Bateman é, ao mesmo tempo, um analista frio de sua sociedade e um produto da mesma. Ele funciona como um reflexo dos yuppies dos anos 80, investidores de Wall Street podres de dinheiro, viciados em cocaína e restaurantes de luxo, que despejavam seu dinheiro inesgotável em roupas de marca e novidades tecnológicas. Ele é a metonímia dessa sociedade, acrescentado o fato de que é um psicopata sádico e canibal, que mata (ou pensa matar, uma vez que todas as mortes podem ser interpretadas como uma forma de delírio, se relativizarmos ao máximo o livro) com a mesma facilidade com que respira.

Um personagem extremamente conturbado e complexo, construído de forma a nos deixar com uma sensação de que ele realmente existe ou pode ter existido em algum momento, e que nos faz refletir sobre a sociedade em que vivemos e como somos mesquinhos, em menor ou maior grau.

(Leitura recomendada para quem tem estômago forte. Sério. Acho que foi o único livro, até hoje, em que fiz careta enquanto lia, tamanha a crueldade e detalhismo de algumas passagens.)
Daia 29/11/2011minha estante
Brilhante a sua resenha.


Júlio 25/06/2015minha estante
Que resenha ! Parabéns.
Tô quase acabando o livro, o filme é um dos meus prediletos.




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Drika.Neske 01/11/2020

Livro desconfortante, muito pesado e de revirar o estômago. Nenhum dos personagens dos livro são passiveis de se gostar, principalmente o personagem principal. Ambientado em diálogos e descrições extremamente vazias e fúteis (o que acaba deixando a leitura maçante). Uma coisa não se pode negar é uma leitura original.
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Bruno 08/03/2014

Talvez americano demais.
Não vou escrever uma resenha, mas sim um comentário.

O que mais me incomodou no livro do Bret Ellis foi o excesso das descrições das roupas das personagens. Ele cita, em quase todas as páginas, umas 10 grifes diferentes. Isso tudo somado a incontáveis diálogos (não todos) chatérrimos que, sinceramente, não acrescentam absolutamente nada à história. Eu acho que nesse ponto, o livro chega a ser entediante.

Patrick Bateman, o personagem principal, extremamente atraente, rico e desejado por todos, é sim, um psicopata interessante. Sem escrúpulos.
As cenas de assassinato, sexo e sadismo são muito boas, ricas em detalhes. E, por mais macabro que isso possa soar, bem criativas. Tem que ter estômago para aguentar.
Mas elas aparecem como um oásis no meio de vários capítulos que causam bocejo.
Penso que essa foi uma intenção do autor, não tenho certeza.

Ainda estou ponderando se valeu ou não a pena ter perdido tempo lendo todas aquelas quase 500 páginas, e não apenas umas 100, mais interessantes.
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Simone de Cássia 18/09/2020

Gendedeus, que trem cansativo... Minha amiga disse pra eu insistir porque a história é boa... mas tá me parecendo aquele lance: "no funfo no fundo a pessoa é legal"... no fundo tipo pré-sal, né?? Acho que não vai dar, desculpa, amiga...
Riva 18/09/2020minha estante
Que pena que não gostou. Eu amei. Mas, gosto é gosto!




Lucas Almeida 17/09/2020

Crítica visceral e atual.
Psicopata Americano é um livro que requer um pouco de paciência e, sobretudo, que o leitor compreenda a proposta de Bret Easton Ellis. Há uma razão para a existência de trechos demasiadamente descritivos a respeito de roupas, cosméticos e afins. Assim como há uma razão para a lentidão com que o enredo se desenrola. Uma boa dica é não pular o prefácio de autoria de André Barcinski, presente no relançamento da DarkSide Books.

O autor nos apresenta ao grande processo de desumanização de Patrick Bateman, um yuppie serial killer dado ao materialismo, aos excessos pautados em superficialidade. A obra realiza uma profunda crítica ao consumismo e aos rumos da sociedade americana. O ídolo de Bateman é ninguém menos que o odioso Donald Trump. Atual, não? Contudo, possuo algumas ressalvas. Se você tem estômago fraco, não encare a obra. É repleta de gatilhos e uma violência desmedida, crua, altamente descritiva e real. Demorei mais que o usual para finalizar meras 428 páginas pelo fato de que, em diversos momentos, o soco no estômago e a repulsa eram demasiadamente grandes e me impediam de prosseguir com a leitura. Esteja ciente de que estará lendo um livro sobre um psicopata, escrito por um autor que desejou chocar e até estudou manuais forenses do FBI para trazer uma perversidade desnuda nas descrições. Não espere algum senso de empatia, moral ou a violência comum que vemos em outros livros e em filmes.

Afinal, Bateman está, gradativamente, sendo despersonalizado e dominado por seus instintos desequilibrados.
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Euflauzino 13/09/2010

O capitalismo em forma de loucura
É a história de um yuppie egocêntrico, megalomaníaco e muito rico, com uma noiva perfeitinha, mas que se sente entediado com a vida (qualquer semelhança com incendiários de índios é mera coincidência). Vive em um mundo em que a maior vitória é conseguir produzir cartões de apresentação mais finos que o de seus companheiros de farra.

Simplesmente devorei o livro. É duro ver o quanto a realidade pode ser mais chocante que o realismo fantástico, mesmo sabendo ser uma obra de ficção (ou não). É tão bizarro que me lembrei na hora do filme Veludo Azul, que também me causou repulsa e um caso de amor cult que trago até hoje.

Cenas escabrosas, inclusive com canibalismo, nos deixam desconsertados: o crime compensa. Assim como os bêbados, deve haver algum anjo que cuide dos loucos.

Tem uma cena em que o maluco convida uma prostituta para uma festa e em determinado momento introduz queijo em suas partes pudendas e coloca um rato para degustar lá dentro. Non sense maior impossível. O imponderável é lugar comum neste livro. Mas não quero estragar a leitura.

Senti uma aversão tão grande pelo protagonista do livro, que pensei, Ellis só pode ser muito bom no que faz, ou também é um completo demente, tamanho o realismo das cenas. Nunca mais li nada do cara, uma pena, pois fiquei curioso pra checar algo mais, ainda mais com a polêmica que o mesmo gerou quando de seu lançamento. Já ouvi referências encorajadoras a respeito dos outros livros dele.

Virou filme com Christian Bale (o menino de Império do Sol e hoje conhecido como Batman do filme Begins, o melhor de todos) no papel do psicopata. O cara arrebentou.

Vale a pena lê-lo. Pra quem tem culhões e nervos de aço.
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Riva 23/08/2020

Tapa na cara da sociedade como um todo!
Simplesmente abismada com esse livro.
Já li muito livros sobre psicopatas bem como já li inúmeros livros baseados em casos reais.
Contudo, este livro, embora ficção (ficção que poderia perfeitamente ser uma triste realidade!), é narrado em 1ª pessoa, então, conseguimos ver o mundo pelos olhos do psicopata.
Outra coisa que eu achei interessantíssima foi a maneira do autor descrever os personagens e lugares. É muito peculiar e isso só faz reforçar como o psicopata vê tudo o que está ao seu redor.
O livro foi lançado em 1991 e causou muita repercussão e a história se passa nos anos de 1980.
Porém, a história é atemporal, pois além de mostrar a vida do psicopata, é também um tapa na cara da sociedade em geral.
Uma coisinha e outra poderia ter sido mais explorada, mas nem isso consegue apagar o brilhantismo do livro com um
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Wee 06/06/2020

Se o objetivo era causar náusea, foi um sucesso rsrs, depois de ler, abalou meu psicológico.
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Ruh Dias (Perplexidade e Silêncio) 17/08/2017

O livro ou o filme?
Independente do veredito desta batalha livro versus filme, a consequência foi a mesma: ao terminar de assistir ao filme e de ler o livro, quase vomitei - literal e metaforicamente. De longe, esta foi a obra mais difícil de digerir que já tive em mãos e precisei de muito preparo para conseguir escrever este post. Se você é sensível, não queira saber mais sobre "O Psicopata Americano", de Bret Easton Ellis.

Não sou capaz de acreditar que o escritor Bret Easton Ellis é mentalmente equilibrado. A intensidade da violência desta estória não é para qualquer um e só um escritor ligeiramente perturbado seria capaz de evocar cenas tão assustadoramente depravadas. Confesso que não consegui ler os últimos três capítulos do livro, tamanha a violência grotesca que se desenrolou ali. Meu estômago embrulhou como nunca tinha feito antes.


O livro foi publicado em 1991 e é a terceira obra de Bret. A estória é narrada em primeira pessoa pelo playboy Patrick Bateman. Bateman é um empresário da Bolsa de Valores extremamente rico, vive em Manhattan e, além disso, é um perigoso serial killer.
Cada capítulo do livro é destinado a uma atividade cotidiana de Bateman, que narra com pormenores maçantes todas as marcas de tudo o que possui. Assim, o leitor deve estar preparado para descrições longas e cansativas das roupas de todas as personagens, incluindo as do próprio Bateman, bem como de todos os objetos de valor existentes na estória e todas as comidas e bebidas chiques que são consumidas. Embora tais descrições sejam chatíssimas, a intenção de Bret é enfatizar uma sociedade viciada em consumo e em imagem, bastante fútil e superficial, que prioriza marcas e glamour. Além disso, tanto Bateman quanto seus colegas ricos menosprezam e maltratam diversos mendigos e homossexuais ao longo do enredo, mostrando o egocentrismo e o preconceito enraizado neles.

Bateman leva uma vida enfadonha, mesmo com a atmosfera de luxo e riqueza. Todos os seus relacionamentos são extremamente superficiais e os diálogos com seus amigos são muito entediantes, dando ao leitor a mesma sensação que Bateman tem no convívio com aquelas pessoas. Além disso, Bateman é um grande misógino e trata as mulheres de um jeito absurdamente machista. (Se você não sabe o que é misoginia, recomendo que leia este texto que escrevi para a Obvious Magazine). Conforme a leitura prossegue, fica claro que Bateman enxerga as pessoas da mesma forma que enxerga os objetos, lhe atribuindo valor (ou falta dele) por causa de sua aparência ou de sua origem.

O único escape de Bateman à esta rotina insossa são os assassinatos que comete. No início do livro, os assassinatos são referenciados de forma bastante indireta e quase passam desapercebidos na trama. Porém, conforme a psicopatia de Bateman evolui, seus assassinatos tornam-se cada vez mais presentes, violentos e degradantes - chegando ao ápice no fim do livro, que não consegui ter estômago para ler.


O filme foi lançado em 2000 com Christian Bale no papel de Patrick Bateman. Bale fez um excelente trabalho como o serial killer, pois aumenta seu nível de perturbação e deterioramento exatamente como imaginei ao ler o livro.

Em termos gerais, o roteiro do filme manteve-se bastante fiel ao livro. A cronologia e os acontecimentos-chave da trama estão posicionados da mesma forma. Uma vez que o filme não descreve as marcas de cada item que aparece na tela, isso o torna mais dinâmico que o livro, o que é um ponto a favor.

A única grande alteração feita na estória é em relação a Luis Carruthers. Homossexual assumido, Luis é apaixonado por Bateman que, sucessivamente, recusa suas investidas. No livro, quando Luis começa a persegui-lo em bares e restaurantes, Bateman ameaça matá-lo, mas não chega às vias de fato. A cena com Luis marca a degradação final de Bateman, que já não consegue mais disfarçar que é um serial killer. No filme, Bateman redige uma confissão de assassinato de um colega de trabalho - confissão esta que não ocorre no livro - e é este momento que marca a mudança de Bateman na tela.

O livro ou filme? Preferi o livro, por dois motivos.

O primeiro motivo é o fato do livro explorar mais o contexto social e político da época. Bret retrata não apenas Bateman como serial killer, mas faz uma crítica a todos os novos ricos da Bolsa de Valores dos anos 80. Em maior ou menor grau, todos eles são psicopatas, no sentido de que não se importam com outras pessoas nem com seus sentimentos e necessidades. Eles maltratam não só mendigos, prostitutas e homossexuais, como prejudicam a vida pessoal e profissional uns dos outros. Há uma série de traições, mentiras e falta de escrúpulos no enredo, e Bateman é apenas uma peça deste quebra-cabeça horroroso. A critica que é feita ao american way of life é pesada e contundente e acho que, no filme, esta crítica foi diminuída, focando mais nos assassinatos de Bateman e não no contexto como um todo.
Não à toa, as referências a Donald Trump são inúmeras ao longo do livro. Bateman idolatra Trump e faz questão de visitar todos os restaurantes que Trump recomenda, ler os livros que Trump indica e vestir o que Trump veste.

O segundo motivo é a vividez da violência e do sexo. Se você já viu o filme, deve ter se chocado com as cenas dos assassinatos e com as cenas de sexo. Pois, acredite: o livro é ainda pior. Houve momentos que eu gostaria de ter um botão un-read no meu cérebro, para esquecer certas passagens pavorosas que Bret concebeu.

Não me considero uma pessoa careta mas, se este livro fosse censurado, eu ficaria aliviada e dormiria melhor à noite.

site: http://perplexidadesilencio.blogspot.com.br/2017/08/o-livro-ou-o-filme-o-psicopata.html
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Ariadne 24/10/2020

Gente do céu, que leitura perturbadora! É tanto tédio e futilidade por metrô quadrado, que as mortes são o ponto emocionante do livro. Depois de um tempo, você começa a ansiar por elas (?) já que o resto é uma leitura super lenta. Muito lenta.
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Fábio 25/01/2016

Dostoiévski hardcore: A violência complexa
"A justiça está morta. Medo, recriminação, inocência, simpatia, culpa, desperdício, fracasso, dor eram coisas, emoções que ninguém sentia realmente. A reflexão não tem utilidade, o mundo não tem significado. O mal é a única coisa permanente."


Um livro bárbaro... em todas as acepções da palavra. Um romance perverso, chocante, mas, surpreendentemente complexo do ponto de vista psicológico, revelando uma densidade narrativa assombrosa.
Se, de um lado temos a violência explícita, crua e, por vezes, intragável, que inclui tortura, mutilação (inclusive sexual), canibalismo e assassinatos com requintes de crueldade – o que justifica a polêmica que acompanhou o lançamento do livro –, temos também, para equilibrar a balança e contextualizar essa violência, um retrato vivo e implacável dos anos 80 e, particularmente, do cenário social ao qual pertenceram os yuppies daquele período: uma geração marcada pelo consumismo, pela futilidade, pelo egoísmo e, claro, pela violência.
Patrick Bateman não é apenas o narrador-personagem do livro, mas um ícone, um símbolo do mal palpável, realista, resultado do vazio que acompanhou sua vida adaptada à comodidade. Sua psicose não se manifesta por motivos bizarros ou mirabolantes, e ele também não tem dupla personalidade; na verdade ele praticamente não possui consciência: após cometer suas atrocidades, ele simplesmente se concentra em questões mais pertinentes ao seu bem-estar: vai aos restaurantes da moda, às lojas de grife ou tece longos discursos sobre música, moda e estética.
A excessiva preocupação com o corpo e com a aparência, bem como o consequente jogo de aparências social, a despeito da corrupção moral do indivíduo, fez-me lembrar da perspectiva wildiana (tão bem exposta em “O retrato de Dorian Gray”), mas, sobretudo foi a densidade psicológica do romance de Ellis que me fez recordar com frequência de um outro autor: Dostoiévski. Na capa da edição de bolso da L&PM há uma citação que menciona o fato de o livro ter “ares de Dostoiévski” e eu preciso concordar. Há uma conexão notável entre a complexidade vertiginosa do autor russo (sobretudo em “Crime e castigo”) e “O psicopata americano”. Embora Bateman não sofra com a crise moral e os dilemas de consciência de Raskólnikov, suas mentes são vasculhadas de formas semelhantes por seus respectivos autores. Quando, por exemplo, Bateman sofre de um surto psicótico próximo ao final do livro, percorrendo as ruas de Nova Iorque totalmente desnorteado foi inevitável lembrar do protagonista de “Crime e castigo” a percorrer sua cidade sob terrível pressão psicológica. Entretanto, bem antes disso, de forma fragmentada, ao longo do livro de Ellis, já se nota a habilidade do autor em explorar os recônditos da mente de Bateman, e como ela é articulada, degradando-se continuamente e tornando necessário que ele recorra ao consumismo para manter um autocontrole em sociedade. Ainda que seja extremamente violento, é um livro cuja violência possui contexto e profundidade, uma complexidade interior que remete, sem exageros, à grandeza dostoievskiana.
Mariana 01/04/2016minha estante
Fábio, que interessante sua resenha. Parabéns!
Consigo enxergar tudo o que você colocou aí nas páginas do livro. Mas é incrível, a minha relação com ele foi péssima. Talvez simplesmente não seja um livro pra mim... senti uma leitura extremamente penosa por esse universo niilista do Patrick.
Mas, enfim. Bom demais ver perspectivas como a sua.


Fábio 08/08/2016minha estante
Obrigado, Mariana! Somente agora pude ver seu comentário e tenho de concordar que alguns livros realmente não são para todos os leitores. Falando assim, até soa presunçoso, mas o que quero dizer é que certas obras não se encaixam nas nossas perspectivas, ainda que sejam aclamadas por uma parcela significativa de leitores (eu, por exemplo, não tolero Tolkien!). De toda forma, são as diferenças que fazem do mundo da literatura um espaço tão variado, porque ninguém vive de mesmice!




Mara Vanessa Torres 22/09/2020

Uma sociedade em estado de desintegração em "O psicopata americano", de Bret Easton Ellis

Garimpando na internet uma frase de efeito que seja mais forte do que a famigerada “People use masks” (Pessoas usam máscaras), achei duas sentenças ainda mais impactantes. A primeira delas é do escritor canadense André Berthiaume, que diz: “We all wear masks, and the time comes when we cannot remove them without removing some of our own skin” (Nós todos usamos máscaras, e chega o momento quando não podemos removê-las sem remover parte da nossa própria pele). A segunda máxima vem de Don Draper, personagem da série Mad Men, cuja interpretação ficou a cargo do ator Jon Hamm: “People tell you who they are, but we ignore it because we want them to be who we want them to be” (As pessoas contam quem elas são, mas nós o ignoramos porque nós queremos que elas sejam quem nós queremos que elas sejam).

E antes que você me pergunte como o tema “máscara social” pode estar relacionado com tudo isso, vou lembrando logo que as coordenadas foram dadas pelas nossas tataravós, com suas fábulas e lendas. Sabe aquela história de “não confiar nas aparências” lida na escolinha com o nome de “O gato, o galo e o ratinho”? Foi o primeiro passo para chegar até o sanguinolento “O Psicopata Americano” (original American Psycho – 2011), obra barra-pesada do norte-americano Bret Easton Ellis.

A narrativa e o fluxo de consciência se misturam para fazer emergir Patrick Bateman, yuppie, geração anos 80, jovem, bem sucedido financeiramente, mentalmente desumano e espiritualmente vazio. Patrick trabalha no “final do arco-íris” conhecido como Wall Street e incorpora a futilidade que tanto caracteriza os jovens profissionais urbanos, onde a aparência conta mais do que a própria individualidade, as festas são regadas à cocaína, mulheres são meros objetos sexuais acéfalos (fato que rendeu a Bret E. Ellis uma saraivada de críticas por parte de grupos feministas – e com fundamento, é preciso que se diga), dinheiro e poder são as únicas perspectivas de vida e ninguém, absolutamente ninguém, se reconhece. Todos esses fatos são uma grande rede de conexões com uma função estarrecedora: mostrar o processo de bestialização humana. Isso mesmo: Patrick Bateman, o jovem bem sucedido, bonito, herdeiro de fortunas e executivo no coração das finanças mundiais é, na verdade, uma farsa, uma máscara, um protótipo, um hospedeiro para um parasita maior e sem proporções, algo que está fora do que entendemos por humano e que se aproxima das bestas-feras.

Patrick mata, tortura, mutila, retalha, cozinha e devora. A sequência de imagens formadas à partir da narrativa são de embrulhar o estômago, pois, de excelente crítico musical amante de Phil Collins, Whitney Houston, Genesis, Talking Heads e Huey Lewis and The News, o comedor de tripas é um sádico de primeira categoria, onde torturar e aniquilar exercem atrativos infinitamente superiores ao de matar. Mas, ao contrário do que se pode pensar em um primeiro momento, o livro não está aí para falar de assassinatos em série, carnificinas ou açougues humanos. Indo de encontro ao que diz a resenha veiculada na bula gigante “1.001 livros para ler antes de morrer” -percepção totalmente insubstancial -, o Psicopata Americano não é “acima de tudo um livro feio”, com cenas de violência sem sentido e descrições enfadonhas de roupas e produtos de grife. É muito mais do que isso.

Bret Easton Ellis arremessa o facão na sociedade americana dos anos 80, que ele entendia como uma juventude vazia, consumista, materialista, pobre de ideais (qualquer conexão com a realidade atual é mera coincidência). As únicas coisas que importavam eram os lugares caros, as badalações alucinógenas seguidas de sexo desenfreado com completos desconhecidos e pessoas que não são pessoas: são máquinas de reproduzir notas e cotações na bolsa. As descrições exageradas em cada produto mostram o que era a vida de sujeitos como Patrick, que só enxergavam as roupas e bugigangas que se podia ostentar. Não interessava se era Paul, Tim, Richard, Marcus… O que importava era o que o sujeito estava usando, que mulher “boazuda, tesuda e tesaozinho” o acompanhava, o que ela estava usando e de que conta ele cuidava (qual era sua posição no mercado de trabalho). Tudo se banaliza, se aniquila, se usa, joga fora ou se destrói. “And as things fell apart/Nobody paid much attention” (Enquanto as coisas se desintegravam, ninguém prestava muita atenção), é o que diz o Talking Heads (banda preferida de Patrick) na música “(Nothing But) Flowers”. E assim eram os yuppies dos anos 1980, viciados em si mesmos.

As mortes e violências cometidas por Patrick Bateman não escolhem vítimas: de mulheres com que ele se relaciona a crianças em visita ao zoológico, mendigos, trabalhadores e até mesmo colegas de profissão, como foi com Paul Owen, o cara que cuidava da conta Fisher (uma contaça, pelo visto). A inveja é o tipo de sentimento motivador nutrido por Patrick, cegando-o e enchendo-o de fúria, de ânsia assassina. A clássica cena dos cartões de visitas, com cada qual expondo o seu, esnobando-se mutuamente e competindo em detalhes ínfimos, como a escolha da cor do papel, da fonte, do material, são indicativos de como essa “yuppada” toda estava mal, muito mal.

Em matéria de relacionamentos, tudo não passa de sexo. Bateman mantém algo como “aparência” com uma dondoca chamada Evelyn, que o trai com seu “amigo de aparências” Tim Price; Patrick também é amante da viciada em lítio Courtney, que por sua vez é noiva de Luis Carruthers, que por conta de um mal entendido acaba se envolvendo em outro mal entendido ainda maior com o psicopata de Wall Street. Bateman também é viciado em filmes pornôs, cenas de sexo selvagem e massacre de prostitutas, que contrata para satisfazer suas necessidades animalescas para, logo depois, torturar e matar.

O livro é cercado por momentos insanos, onde o fluxo de consciência de Patrick dá intensidade marcante, caracterizada por mostrar o que está por trás da máscara, o que se faz “pelas sombras”. Nas cenas que se encaminham para o final, quando Patrick já está tão alucinado que nada faz efeito – o sujeito se entope de remédios do tipo Valium e Xanax -, seu nível de crueldade atinge patamares alucinantes: ele começa a não conseguir conter seu instinto assassino, outrora noturno, e passa a cometer toda espécie de atrocidades à luz do dia.

A crítica que o autor Bret E. Ellis faz é tão contundente que pode ser notada através das falas do psicopata-narrador que, muitas vezes, comenta com pessoas diferentes e em ocasiões diversas que ele é um assassino, homicida sem controle. Mas, como diz a música do Talking Heads: “ninguém prestava muita atenção”. Assassinatos são cometidos sem sentimento de culpa, a continuação dos crimes é inspirada pela impunidade, as pessoas são ocas, apartamentos guardam corpos em estado de decomposição que são “desovados” para purificar o local e passar para o próximo comprador, flores e purificadores de ar escondem o odor de morte, falta de reconhecimento faz o Miguel se passar por João, como já foi dito… Todos esses fatores formam a teia de podridão e superficialidade que o norte-americano Bret Easton Ellis tentou, ao seu modo, criticar e chamar a atenção.

A obra enfrentou severos rechaçamentos, editoras cancelaram e renegaram sua edição, grupos protestaram e escritores precisaram sair em defesa da liberdade de expressão para que o livro fosse publicado, o que aconteceu em 1991. No ano de 2000, a história foi levada ao cinema com o ator Christian Bale no papel de Patrick Bateman. Não deixa de ser uma versão interessante, mas muito – MUITO – longe da loucura que é o livro. Foram feitas adaptações, com a permissão da licença poética e que não chega a alterar os fatos, mas deixa muito a desejar. Bale personifica o psicopata muito bem, sem maiores ressalvas, mas a película não representa a real tensão que você só encontra nas linhas do original. Seria interessante se o longa-metragem descortinasse a crueldade como um pano de fundo para a real insanidade dos que beberam no vazio yuppista da década de 1980. O Psicopata Americano é, além de um thriller ou slasher, um filme sobre desintegração, vazio, crenças perdidas, sangue derramado e existência banalizada.

site: https://biblioo.info/uma-sociedade-em-estado-de-desintegracao-em-o-psicopata-americano-de-bret-easton-ellis/
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