Maldito Sertão

Maldito Sertão Márcio Benjamin




Resenhas - Maldito Sertão


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Clayton De La Vie 13/04/2015

Contando contos
Reconstruindo mitos e lendas nordestinas, Maldito Sertão, de Marcio Benjamin, desperta em você os mais assombrosos pensamentos. Com uma linguagem um tanto coloquial, realçando as origens daquelas terras, podemos nos arrepiar a cada conto apresentado.

Embora a ideia seja assustar os leitores com lendas de lobisomens, fantasmas e mulas-sem-cabeça, o livro tem um teor crítico e cômico, por assim dizer. Explico: a comédia surge como brisa suave para as pessoas que estão acostumadas com a narrativa "certinha", principalmente quando deparadas com expressões como "arrudiar". O senso crítico do livro se percebe justamente quando o autor faz uma análise bem estruturada acerca de aspectos corriqueiros dos nordestinos, e não deixa de incluir certas incoerências na Igreja Católica - principalmente se tratando de uma religião que - no nordeste - está muito presente desde que nos entendemos por gente.

O primeiro conto, Casa de Fazenda, foi sem dúvida o que mais me instigou. Em uma narrativa fácil, podemos sentir toda a apreensão que pessoas comuns sentem quando a morte se aproxima lentamente, bufando em nossas "cacundas", trazendo consigo garras afiadas.
"Apoiado na espingarda, o velho já não tinha mais a força: sentia como um bacurim deitado em cima do peito. Um punhado de areia soprando em seus olhos cada vez mais pesados."


Estradinha de Barro nos faz refletir acerca do quanto parecemos insignificantes perante a tudo, o quanto a falta de dinheiro, de comida, nos torna mesquinhos. O conto narra os desaparecimentos de crianças pela cidade. Crianças que voltam abarrotadas de dinheiro.
"Naquela vila, o dinheiro que aparecia abrandou a vigília dos pais; o que se comenta é que tem uns, já cansados de apanhar da fome e da seca, que à noite rezam para o seu menino desaparecer."


Por se tratar de contos, sem ligação alguma entre eles, não podemos estabelecer uma análise mais ampla, mesmo porque afetaria a forma como cada leitor veria a história, mas, de forma geral, Maldito Sertão foi feito exatamente para os amantes do terror. Aqueles que não costumam se aventurar nesse gênero literário, possivelmente não visitarão o sertão após o término da leitura.

site: http://desenhandoemletras.weebly.com/blog/resenha-maldito-sertao
Márcio 16/04/2015minha estante
Show de resenha! :)




Cecília 10/08/2019

Meu Maldito Sertão
No dia 08 de agosto larguei todas as minhas obrigações da tarde para ir pra Flipelô assistir a mesa de debate mais aguardada por mim cujo tema era: "Literatura e terror: zumbis e vampiros no imaginário de norte a sul do país". Eu confesso que após ler o tema, a primeira coisa que chamou minha atenção foi o convidado André Vianco, eu simplesmente gravei data, horário e local e pensei: não importa o que aconteça, eu PRECISO abraçar o André Vianco! E foi com esse objetivo que fui até o Teatro Sesc.

Cheguei com duas horas de antecedência, sentei na primeira fileira do teatro e em menos de 10 minutos de debate, abraçar o Márcio Benjamim se tornou o meu objetivo também. Eu me encanto facilmente com qualquer pessoa que a) demonstre domínio sobre um assunto b) fale sobre esse assunto de maneira simples e empolgada c) me faça refletir, construir ou desconstruir um conhecimento sobe tal assunto e d) tenha consciência política sobre esse assunto. E na moral, o Benjamim gabaritou todos esses requisitos com excelência! E até agora estou me perguntando porque cargas d'água eu nunca ouvi falar deste homem antes! A falta de disseminação e visibilidade de produções artísticas do Nordeste não é uma novidade, na verdade, esse problema foi construído no nosso país desde o seu "descobrimento" e desde então o discurso de região inferior é sustentado diariamente por imagens canônicas, meios de comunicação em massa e políticas públicas (por isso que eu recomendo que todo nordestino leia A invenção do Nordeste do Albuquerque Júnior para iniciarmos uma revolução).

Mas voltando, o Benjamim é um autor de terror nordestino, especificamente do Rio Grande do Norte, muito ciente dos desafios do seu trabalho e muito afrontoso na forma que apresenta o tema terror nordestino para o mundo. A forma de apresentar esse tema é interessante porque normalmente a cultura nordestina é apresentada como o Sul (e com Sul, pegando o conceito do Albuquerque, eu me refiro ao Sudeste, Centro-oeste e Sul do país) quer que a nossa região seja apresentada, a consciência de nós mesmos é tão contaminada pelo discurso alheio, que mesmo que o artista seja daqui, a maioria acaba se espelhando em algo de fora para apresentar o seu trabalho. E isso é uma coisa que o Benjamim (graças aos orixás) não faz e pra mim foi muito gostoso ler a oralidade do sertão em um livro, em ler personagens com nomes que escuto no interior, em captar referências de criaturas sobrenaturais que são nossas mas que estão apagadas, mermão, a Mula sem cabeça e o Homem do saco são tão importantes quanto os vampiros e merecem ser citados em nossa literatura. O cenário do sertão é tão rico e pode abraçar tantas histórias boas quanto o estado do Maine. A cultura nordestina precisa ser contada e representada por nordestinos e por mim Maldito Sertão deveria ser livro base das escolas, da universidade, da vida.

No mais, eu abracei os dois autores, peguei autógrafo dos dois autores, tenho obras dos dois autores e tô muito feliz com minha irresponsabilidade pois caso contrário, perderia a chance de ouvir as brilhantes ideias e conhecer um cara tão encantador e engraçado como o Benjamim. Maldito Sertão será o primeiro livro que vou contar para meus filhos ao pé de uma fogueira rs
Márcio 10/12/2019minha estante
Que coisa mais linda! Nossa, fico muito feliz pela leitura!!! Em breve tem mais coisa chegando...ehehe. Um grande abraço!!


Cecília 09/01/2020minha estante
Você merece todas as palavras lindas do mundo, Márcio! s2 Abraço pra vc tbm!




LidiRSantos 08/12/2016

Recomendo
Amei conhecer mais do folclore e causos de terror e suspenses nordestino. Muito bem escrito !
Márcio 04/02/2018minha estante
Que maravilha! Muito obrigado!




Yuri Leal 17/05/2017

Terror na medida certa
Um livro de contos com criaturas e lendas do nordeste Brasileiro, o livro faz jus o sucesso que conquistou.
Cuidado e boa leitura.
Márcio 20/07/2017minha estante
Muito obrigado!!!




Márcio 02/05/2013

MALDITO SERTÃO - UMA COLETÂNEA DE LENDAS RURAIS
"Maldito Sertão é um livro de contos de Márcio Benjamin, escritor potiguar que se prestou a descrever situações do sertão brasileiro. O que torna o livro mais interessante são as situações escolhidas: os contos transitam pelo sobrenatural, pelas experiências do sertanejo com as criaturas e forças estranhas que povoam a noite e o campo.

O autor parece amadurecer durante o livro, tendo seu ápice em alguns dos contos mais à frente. Não sei se esta foi uma opção editorial, se os contos estão organizados em ordem cronológica, mas o fato é que tive a impressão de que os primeiros contos tinham mais dificuldade em ganhar tração, enquanto outros te prendiam já desde o início.

A linguagem usada pelo autor chama atenção logo ao início do livro. Misturando o vocabulário formal e o português padrão com expressões e modos de falar próprios do sertanejo, Márcio consegue uma mistura de estilo que choca inicialmente, mas aos poucos conquista o leitor e soa agradavelmente familiar.

Pessoalmente, meus contos favoritos foram O Oratório e à Sombra da Cruz. Nestes dois contos, a exposição do sobrenatural é apenas o bastante para que você saiba que há algo por trás dos acontecimentos, sem nunca se revelar totalmente; desta forma, as duas estórias geram expectativa e terminam sem decepcionar. Por outro lado, talvez o nível técnico do autor tenha atingido seu auge de fato nos últimos três contos: Uma Casa de Muro Branco, A Porca e A Mariposa Negra são tão bem desenvolvidos como roteiros que deixam a impressão de que, dando mais algum tempo ao autor, ele seria capaz de gerar algo com o impacto de O Sexto Sentido, por exemplo (o filme com o Bruce Willis). Quem sabe?

Maldito Sertão é ótima pedida para quem quer conhecer um autor brasileiro, jovem, com texto promissor e temática diferente. Fãs do sobrenatural e / ou da cultura do campo brasileiro se sentirão em casa."

Gabriel Cavalcante, em http://www.opoderosoresumao.com/livros/resenha-maldito-sertao

Márcio 27/04/2014minha estante
O Fantástico Sertão de
Márcio Benjamim.

O Sertão está em toda parte
Riobaldo em ?Grande Sertão: Veredas?



O livro do escritor Márcio Benjamim, ?Maldito Sertão? é um mundo, um universo onde se misturam mito, ficção, poesia e linguagem regionalistas. É uma viagem, uma incursão pelas estórias da nossa região. Poucos os contistas potiguares que tratam deste tema com propriedade. Afonso Bezerra, Manoel Onofre Júnior, Bartolomeu Correia de Melo e Clauder Arcanjo são alguns dos nomes da lista de escritores que o abordam.
Nos contos notamos espaços existenciais, vivos, personificados, verdadeiramente regionais, além de um vasto universo folclórico, repleto de vida e imaginação, brotando assim os mais diversos sentimentos como o riso, o medo, a dúvida, angústias, esperanças, desilusões, o bem e o mal, e as tensões entre o homem, o sertão e o mundo, numa síntese onde tudo se transforma em linguagem.
O sertão a uma vasta (e indefinida) área do nosso país, que abrange boa parte dos Estados do Nordeste. Esta caracterização corrente de sertão é tida como a de uma área despovoada ou escassamente habitada, quase deserta. Qualquer tentativa de definição ou delimitação do sertão ou dos sertões implica não só uma explicação geográfica, mas, sobretudo, uma compreensão histórica e social. Os causos do livro Maldito Sertão expressam um complexo de elementos fundamentais que valem nas relações humanas e sociais do país e as perpassam historicamente. Embora seu objeto de representação seja um ambiente determinado ( o sertão) Márcio Benjamim recria, reinventa e o localiza em uma realidade mais ampla, mais rica em significados folclóricos e culturais em narrativas fantásticas.
Em Maldito Sertão, o sertão é um universo registrado como mítico, ativo e interativo, num ambiente natural e cultural, onde a figura sertaneja salta aos nossos olhos em cada narrativa, em cada estória. Existe, nesse sentido, uma ponte de ligação, de transcendência entre o regional sertanejo e o universal humano na obra de Márcio Benjamim que se dá no campo da linguagem, destacando-se nos relatos fabulosos. A linguagem constitui assim um aspecto rico, amplo, que nos traz de volta a vida no sertão, as falas sertanejas, as angústias, os medos, as felicidades, as descobertas, os encontros e os desencontros humanos em temáticas universais.
É no trato desta realidade sertaneja que destacamos uma grande síntese, uma capacidade de contar estórias em poucas palavras, mas com riqueza de léxico. Destacam-se dentre outros quesitos, o espaço geográfico e histórico, em que o sertão é narrado. Além disto, o fato de que as dimensões sociopolíticas e culturais do sertão extrapolam seus limites, tornando-se universais, apontando para uma tendência histórica posterior a esse momento.
No Maldito Sertão o homem se vê reduzido a um mero coadjuvante, onde o sertão é o principal personagem, um belo e imenso palco de estórias; ai se destacam o lado ficcional, o mítico e a exploração dos recursos da linguagem que adquirem contornos poéticos a cada nova estória.



Thiago Gonzaga


Márcio 09/04/2015minha estante
?Maldito Sertão?, do natalense Márcio Benjamin, ganha nova edição - Doze contos de terror são ambientados na geografia desolada do Brasil Profundo

Acordo às cinco da manha, após uma noite em que o vinho coordenou minhas ações. De ressaca, meio leso, é o que quero dizer. Ligo a luminária. Carol dá um pequeno estrebucho com o clique do botão, sem acordar. Pássaros fuleiros da aurora rasgam o silêncio do feriado santo. Junto com o crepúsculo, é a hora do dia que mais gosto. Ainda na paquera, pois se paquera com livro (ou quando a capa é bonita e o autor promissor, não olhamos constantemente, damos um jeito de estar sempre por perto, de tocar?), pego ?Maldito Sertão?, de Márcio Benjamin, brochura na segunda edição pela editora Jovens Escribas.

De uma tirada só, leio os três primeiros contos do potiguar, escritor, dramaturgo e advogado, ?nessa ordem?, como é dito na própria contracapa. E penso que não teria melhor situação para conhecer suas histórias de assombração, daquelas que povoam a mente de um matuto que se preze. Márcio deve ter feito um pacto com o fute, lá isso deve, porque sua habilidade com as palavras é incomum. Sua capacidade de gerar expectativa e manter o suspense é infernal. Sem digressões, sem divagações, como um conto tradicional, cada frase há sua razão de ser. Parei quando tudo acabou, na 12ª história, ?BR-101?.

A primeira edição de ?Maldito Sertão? surgiu em 2012, o que já é sabido por muita gente do meio literário local. Alguns estranharam a linguagem do narrador repetir o sotaque das personagens sertanejas, da ausência de norma culta na escrita de quem fala para o leitor. Alta ou baixa literatura? Popular ou erudita? Foram questões levantadas. É nessa hora que recorro a Émile Faguet, e seu ?A arte de ler?. Sobretudo ao capitulo sobre saber ler como crítico. Entendo que existem predileções temáticas ? eu mesmo não me apego a histórias de zumbis, matéria-prima do romance que Márcio planeja para ano que vem.

Aqui a questão é o terror. E para criar vigor dramático, o autor utilizou, com sucesso, recursos que convergem as doze narrativas para um único caminho: o sobrenatural que amedronta ou amedrontou qualquer um que tenha passado uma temporada longe da urbanidade ? a vida na cidade criou seus fantasmas, deixando as lendas de nossos avós no passado, quase risíveis. Pois a fala do narrador nada mais é do que o próprio Márcio apavorado, ainda menino, como testemunha chave dos ?malassombros? mitológicos de uma geografia surreal. Perde-se muito em buscar incongruência com uma lupa.

Ou falamos de um Edgar Allan Poe? De um Robert Louis Stevenson? O jovem escritor potiguar saltou na escuridão ficcional, aquela que apaixona feito amor inocente da fase virginal ? e inquieta pelo desconhecido. ?Maldito Sertão? foi indicado duas vezes ao Prêmio de Cultura Potiguar com suas doze frações decisivas, cheias de pormenores involuntários, em uma ambiência cinzenta. Velhas caducas, moleques travessos, meninas babás, tipos interioranos que pedem o tom adotado por Márcio, com sua voz de advogado ligado no mato.

Mato este que engoliu um homem, Manel, para desespero de sua mulher (?A Mata?). Ela entra em um bar silencioso, ocupado por homens que mantém ?uma tranquilidade meio aperreada, como se algo de muito ruim tivesse pra acontecer?. Entre cervejas mornas e uma radiola quebrada, a esposa desesperada pergunta pelo cônjuge. Seu Marcondes sentencia o desconhecimento geral. Ela menciona adentrar o matagal, enquanto os colegas ouvem um grito por socorro. Se passado e futuro quase sempre são descartáveis em um conto, o presente se tornou sufocante.

Ainda na abertura, em ?Casa de Fazenda?, um velho range dentes, juntas dos dedos e o juízo à espera por um bicho que comeu suas seis filhas e a mãe delas. Somente o filho homem escapou da carnificina. O patriarca, então, quer vingança a todo custo contra ?aquele satanás, uivando alto como um condenado?. Esbraveja contra Jesus, que nunca perdeu filho, nem mulher, antes do momento fatal. O conto cumpre o papel introdutório, preparativo para as histórias mais elaboradas ? casos de ?O Oratório?, ?À sombra da cruz?, ?Estradinha de barro?, ?A porca? e ?A mariposa negra?.

Terror matuto

No primeiro citado após o travessão, um menino vê uma espécie de bode preto entrar em seu quarto, ?peludo e fedorento [...] quase gente?. Nas noites de insônia, escuta discussões dos pais, com o chefe da família adoecido por 33 dias, triste com o prejuízo de umas sacas de café. A realidade espacial sertaneja, de noites enluaradas e silêncios sepulcrais, amplificam a tensão muito bem construída por Márcio Benjanin. Mesmo mistério de morte é que conduz ?Estradinha de barro?, com a tragédia do sumiço de crianças em um vilarejo. Os corpos aparecem boiando no açude, largados no matagal, com dinheiro ao lado.

Logo as famílias mais pobres alimentam o desejo de terem suas crias levadas pelo tinhoso, em troca do cacau. É possível forçarmos uma analogia com o Bolsa-Bucho do Governo Federal, mas a melhor seria com o filme ?O Silêncio dos Inocentes? e o pandemônio de Buffalo Bill. Pandemônio este que acomete um casal proveniente da capital; ele filho do interior, formado em ?medicina de bicho?; ela, moça bonita que ?só tinha visto vaca em televisão?. Em ?A Porca?, uma leitoa e seus sete filhotinhos trarão lembranças de uma bela escrava que abortou diversas vezes com a ajuda de um padre.

O amigo leitor deve pensar que li tudo isso aos raios iniciais da Sexta-Feira da Paixão (03), a mesma que enfeita e alegra o sertanejo tão religioso. Pois é o conflito da crença espiritual, alívio e prisão em Deus, o tormento de um padre envolvido com mulher, em ?À sombra da cruz?, belo titulo de um belo conto. Encaixar a lógica em sua vida de preconceito e culpa é tudo o que ele tenta, para tudo o que ele agoniza. O restante dos contos segue a balada do mistério, do enigma, do pavor diante de mitos folclóricos, como a mula sem cabeça, aqui transformados em seres inominados.

Eu não conheço Márcio Benjamin, natalense de 35 anos. Vi sua imagem em uma entrevista para a TV Assembleia, disponível no Youtube. Portanto, tive liberdade para curtir ou desgostar de seu ?Maldito Sertão?. Em demasia, fiquei com a opção mais simpática. Devorei as 87 páginas com a mesma gana que a besta fera estraçalhou as seis filhas do velho solitário de ?Casa de Fazenda?. Recomendo sobremaneira, para iniciados ou não nas conversas de lobisomem. A bonita arte da capa completa o pacote sedutor desta segunda edição à venda nas poucas livrarias que ainda restam em Natal. Compre, antes que o cão atente.

Conrado Carlos em http://jornaldehoje.com.br/maldito-sertao-natalense-marcio-benjamin-ganha-nova-edicao/


Márcio 09/04/2015minha estante
?Maldito Sertão?

Tem crescido o número de livros de contos baseados nas lendas populares, no folclore, nas histórias de assombrações e de monstros das diversas regiões do Brasil. Quando publiquei no ano passado meu livro de contos Sete Monstros Brasileiros (Casa da Palavra, 2014) , citei alguns amigos que estão trabalhando esse tipo de literatura, como Simone Saueressig, Christopher Kastensmidt e Felipe Castilho. Mitos e lendas populares têm sido sempre adaptados para livros infantis, tomando inclusive uma feição paradidática, mas o fenômeno mais recente é a produção de textos nessa linha para leitores adultos, fazendo uma interface com a literatura de terror tradicional.

Outro lançamento recente é Maldito Sertão (Natal, Editora Jovens Escribas, 2012, 2ª. Edição) de Márcio Benjamin. É uma coletânea de doze contos curtos onde surgem os ?habituais suspeitos? das nossas lendas de terror e assombração: o lobisomem, o papa-figo, a porca dos sete leitões, a Comadre Fulozinha, a mula sem cabeça, etc. As histórias de Márcio Benjamin têm narrativa ágil, com parágrafos curtos. Em sua maioria descrevem uma situação humana (uma casa, uma família, um grupo de pessoas) onde a invasão do sobrenatural se dá tanto por acaso quanto por uma espécie de maldição tipo ?estava escrito?, algo que provavelmente aquelas pessoas nunca poderiam evitar. Os desfechos são misteriosos e geralmente violentos.

Um aspecto que me agradou foi a linguagem nordestina coloquial empregada pelo autor, que reforça a textura oral desses contos. ?Saiu desembestada?, ?arrudiando a casa?, ?velho como a fome?, ?aperreados com a violência?, ?buchos cheios de arribaçãs fritas?, ?uma zuada seca?, ?o primeiro bufete que levei, de uma ruma de outros?, ?eu moro aqui faz é tempo?, ?arrumadinhas como bonecas de feira? são algumas expressões que dão ao livro essa oralidade sertaneja, esse resíduo de um modo de falar e de pensar que serve de caldo fermentador dessas histórias. Sem forçar a barra da oralidade (o português é simples mas correto, sem transcrições fonéticas), essa maneira de escrever dá credibilidade literária a essas pequenas fábulas de crueldade, pecado, mistério, medo, ambição.

São histórias que não vêm dos livros, embora Câmara Cascudo e outros as tenham registrado. Vêm da memória de infância, das reuniões na mesa da cozinha, no alpendre da casa da fazenda, em volta de uma fogueira ou de um candeeiro que recorta de luzes e sombras a imaginação de um grupo de crianças de olhos grudados na pessoa que conta os malassombros, com largos gestos de ênfase multiplicados e ampliados pela chama.

Bráulio Tavares em http://mundofantasmo.blogspot.com.br/2015/03/3769-maldito-sertao-2432015.html




Ciro 28/10/2013

Para ler no alpendre, à luz do lampião
O livro traz alguns contos com todos os ingredientes de um típico conto do terror do sertão. Daqueles que, para os menos destemidos, tiram o sono. Daqueles que quando escutamos, ficamos procurando uma mensagem oculta, uma lição de vida, enfim, histórias de caboclo passadas de geração em geração, cada vez que é repassada perdendo um detalhe e ganhando outro, mudando o tom e a entonação, de forma que depois nos perguntamos: Será que aconteceu mesmo?

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Rodrigo 21/01/2018

MALDITO SERTÃO
Um dos melhores livros de contos que eu já li. O gênero terror abrange algo muito além dos sustos, e isso é muito claro neste livro. É algo muito rico. Me surpreendi com o livro FOME, do mesmo autor, e fui ainda mais surpreendido com esta coletânea de contos tão brasileiros, e ao mesmo tempo tão universais.
Como já escrevi na resenha de FOME, ansioso por mais obras do autor.
Márcio 04/02/2018minha estante
Muito obrigado!




Rodrigo Ramos 14/08/2016

Maldito Sertão é uma ótima prova de que existe terror nacional e que não precisamos importar zumbis, vampiros e outros monstros gringos!
Nascido e criado no interior de São Paulo, muitas das minhas noites na infância eram embaladas pelos causos contados pelos meus avós após as reuniões familiares quando todos, após o jantar, nos sentávamos na varanda a prosear. Minha família surgiu e cresceu na roça e o que não faltava era assunto praquelas longas conversas. Foi ali que nasceu minha paixão pelo horror e sobrenatural. O tom quase documental dos relatos familiares tornava o fantástico palpável e crível. Principalmente se levarmos em conta que eu ainda era uma criança. E foi com este delicioso sabor nostálgico que devorei de ponta a ponta o livro Maldito Sertão, do escritor potiguar Márcio Benjamim.

O livro, lançado originalmente em 2012, chega a sua segunda – e merecida – edição através da editora Jovens Escribas, e traz 12 contos de horror passados no sertão nordestino. Márcio resgata e reinventa causos tradicionais da cultura sertaneja como o papafigo, o lobisomem, a mula-sem-cabeça, entre outras criaturas folclóricas, sempre com o palavreado e o linguajar do sertanejo. No início, as grafias e a gramática utilizada pode causar algum estranhamento no leitor mais urbano, desacostumado a algumas expressões, mas nada que prejudique a imersão na leitura. Aos poucos você se acostuma.

Márcio ainda se aproveita do horror para apresentar, de forma crítica, a situação do sertão brasileiro. Seja na pobreza e miséria presente em alguns contos, na doença e falta de cuidados médicos em outros, no domínio que a igreja católica sempre exerceu sobre a região e até na superpopulação e falta de recursos, levando os pais a torcerem por seus filhos serem levados pelo papafigo, como pode se ver em Estradinha de Barro, um dos melhores contos da antologia. Mas não se deixe levar pensando que é um livro politizado e panfletário, Márcio usa estas características da região para reforçar o horror presente no cotidiano do sertanejo que, por si só, já assustaria sem o auxílio do fantástico.

Os contos curtos não deixam espaço para a enrolação, tornando as histórias enxutas e valorizando os finais, geralmente surpreendentes, exatamente como uma “contação de causos”. É impossível não imaginar alguns daqueles contos se tornando filmes ou curtas, pois dariam excelentes obras audiovisuais de horror genuinamente brasileiro. Maldito Sertão é uma ótima prova de que existe terror nacional e que não precisamos importar zumbis, vampiros e outros monstros gringos. Mojica já sabia disso nos anos 60 e Márcio Benjamim está aí para confirmar.

site: http://bocadoinferno.com.br/literatura/2015/12/maldito-sertao-2012/
Karine 11/06/2017minha estante
Adoramos monstros nacionais, adoramos monstros gringos, adoramos monstros alienígenas. Não precisamos importar nada, mas queremos sim kkkkkk. Cultura não tem fronteiras. Aguardo ansiosamente o segundo volume de Maldito Sertão. :-)




Karine 11/06/2017

Nosso terror
Honestamente, eu estou morrendo de vontade de ler mais historias brasileiras de terror. Adoro historias de terror de qualquer país, nada de limitações, mas eu gostaria de ler mais coisas horripilantes sobre o nosso país. Caro Marcio, por favor, escreva o segundo volume.
Márcio 20/07/2017minha estante
Muito obrigado, Karine! Do sertão não sei se virá, mas possivelmente em breve...alguns contos sobre outro ser sobrenatural que nos fascina e assusta, o mar! :) Conheça também Fome, um apocalipse zumbi que se passa no sertão.




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