Poesia - Álvaro de Campos

Poesia - Álvaro de Campos Fernando Pessoa




Resenhas - Poesia - Álvaro de Campos


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Mila F. @delivroemlivro_ 17/11/2011

Vale a pena cada momento de leitura!
Poesia de Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, São Paulo: Martin Claret, 2006, 600 pág.

Álvaro de Campos é um dos muitos heterônimos de Fernando Pessoa e como este fez uma biografia para cada um de seus heterônimos, temos que Campos nasceu em Tavira da Serra Grande, estudou engenharia naval e dentre todos os heterônimos foi o único a manifestar fases poéticas.

Neste volume de poesias somos apresentados a um poeta amante efusivo do modernismo e das máquinas. Poeta disposto a sentir tudo de todas as maneiras. Poeta obstinado a cantar tudo "Canto, e canto o presente e também o passado e o futuro,/ Porque o presente é todo o passado e todo o futuro" (p.60).

Ao todo, neste livro, são contados 245 produções poéticas desse heterônimo, divididas de acordo com as fases poéticas vividas pelo poeta - eu achei fantástica essa divisão -, que são: O Poeta Decadente (1913-1914); O Engenheiro Sensacionista (1914-1922); O Engenheiro Metafísico (1923-1930); e O Engenheiro Aposentado (1931-1935), após esta divisão também há alguns poemas Post-scriptum e alguns Apêndices.

Dentre os muitos poemas presentes tempo: Opiário (da fase: O Poeta Decadente), Ode Triunfal, Ode Marítima, Ode Marcia, Saudação a Walt Whitman, A Passagem das Horas (estes da fase: Engenheiro Sensacionista), Lisbons Revisited, Ode Mortal, Aniversário (estes da fase: O Engenheiro Metafísico), Magnificat (da fase: O Engenheiro Aposentado).

Esta edição também traz algumas Notas que auxiliam na leitura dos poemas e apesar de ter 600 páginas temos que reconhecer que é pouco se observarmos a magnitude da obra de Álvaro de Campos. Realmente um poeta que merece destaque. Fernando Pessoa conseguiu algo que nenhum outro poeta jamais conseguiu e talvez não haja outro que consiga: mutiplicou-se, despersonalizou-se, tudo isto para ser o Mundo, as Pessoas, as Máquinas. Ser a essência e nunca - jamais - a aparência.

Em suma, esta obra é indicada para as pessoas que apreciam uma boa poesia e se deixem guiar pela viagem que a poesia de Campos proporciona. Contudo, também indico esta obra para todo e qualquer tipo de leitor que queira adentrar no mundo da poesia, que adentre no mundo poético através dos Grandes e Universais Poetas! Vale a pena cada momento de leitura!



Camila Márcia
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Alexandre Kovacs / Mundo de K 05/06/2010

Fernando Pessoa - Álvaro de Campos
De todos os heterônimos de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos é o que me provoca mais identificação e, ao mesmo tempo, mais me atormenta. A multiplicação ou desintegração da personalidade de Fernando Pessoa, através de seus heterônimos: Ricardo Reis, Alberto Caeiro e até mesmo de Bernardo Soares no "Livro do Desassossego" é um dos fenômenos mais complexos da literatura moderna e, certamente, muito ainda há de se aprender e discutir sobre a sua obra poética.

Discutir Fernando Pessoa em um espaço tão limitado é quase ridículo (todas as cartas de amor são ridículas), mas queria apenas dividir este poema que em intervalos regulares, geralmente nesta época do ano, vem me assombrar com sua beleza e tristeza incomparáveis.

Aniversário
(Álvaro de Campos, 15-10-1929)

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Lígia Guedes 08/08/2010minha estante
"Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida."

aiai




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