Nenhum Olhar

Nenhum Olhar José Luis Peixoto




Resenhas - Nenhum Olhar


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Mi Reis 30/06/2021

⚠️Confesso que esta semana foi bem corrida devido a nova rotina de trabalho e o ritmo de leitura diminuiu, mas estou organizando a rotina e logo volta tudo ao normal.
A leitura é bem poética, gostei muito da escrita do autor e a história de fato me encantou.
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Mateus com h 28/03/2021

Ultimamente
Tenho sofrido de nostalgias agudas. Como se a vida desentortasse os pregos que eu havia imobilizado. Há rostos em blur, travessias e paredes trincadas, retratos opacos e metáforas mais.

Senti que este livro de Peixoto foi concebido no ventre sereno de uma solidão que deixou de agredir, uma solidão pacífica.

Como se a dor, a morte, a saudade, as garoas, o silêncio, não nos torturasse mais.

Este livro é caminhar descalço através de um tempo que já foi, mas que volta refazendo o chão batido que sustenta um por um de nossos passos.

Viva José Luis Peixoto.
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Toni 18/02/2021

Leitura 9 de 2021

Nenhum olhar [2000]
José Luís Peixoto (Portugal, 1974-)
Dublinense, 2018, 224 p.

“O que mais há na terra, é paisagem”, escreveu Saramago na abertura de ‘Levantado do chão’. O que mais há na paisagem, é tempo—parece responder José Luís Peixoto. E o tempo, diferente do que se pensa, caminha sobre abismos, mulheres e homens abismos a desabarem uns sobre os outros. Talvez não seja suficiente introduzir este romance vencedor do Prêmio Literário José Saramago por meio de palavras tão simples: tempo, paisagem, homens e mulheres. Talvez, por outro lado, sejam estas as imagens mais cheias de sentido porque juntas, amalgamadas em Nenhum olhar, falam inseparavelmente de origens e fins, como convém à poesia.

Neste livro, um Alentejo quase mítico ganha forma na vida arrastada de um vilarejo onde mulheres não são nomeadas e os homens herdam profissões e alcunhas de seus pais, onde a cegueira atravessa gerações de filhas, uma voz presa numa caixa se faz ouvir, pássaros transportam homens pelos céus e os casamentos são celebrados por um demônio, na casa de Deus. Sem diferenciar o fantástico do cotidiano, Peixoto traduz uma realidade por vezes brutal (opressiva, religiosa, patriarcal) com a poesia interna de cada personagem, manifestações de saberes e sentimentos que somente a observação atenta de que “talvez os homens sejam as certezas que possuem” consegue produzir.

Entre as muitas personagens, um escritor trancado num quarto sem janelas chama a atenção. Ele nunca entrará em cena, não é visto por nenhuma das personagens, mas o escrevinhar de sua caneta rompe vez ou outra os silêncios de Nenhum olhar. Esse escritor somos nós, leitores, como também é Peixoto, sem deixar de ser, naturalmente, a voz que narra o romance: presos em nossas caixinhas, alheios ao mundo, a tentar captar qualquer coisa que nos fale de vida. Seja metáfora-crítica do trabalho da escrita (o autor isolado que não vê as pessoas e o mundo lá fora), seja aceno fantástico à metalinguagem, esse elemento misterioso existe para nos lembrar que vida e ficção são faces de um mesmo rosto cujo olhar que não enxerga a dor, a alegria, o tempo e a paisagem, homens e mulheres, não é olhar algum.
Derso 18/02/2021minha estante
Uau ???? dá pra ver nessa resenha o impacto que o livro teve em você.




Filippini 06/01/2021

Poesia em prosa
"Penso: talvez haja uma luz dentro dos homens, talvez uma claridade, talvez os homens não sejam feitos de escuridão, talvez as certezas sejam uma aragem dentro dos homens e talvez os homens sejam as certezas que possuem"

"Penso: talvez a dor exista para nos avisar de um sofrimento ainda maior"

"Penso: o lugar dos homens é uma linha traçada entre o desespero e o silêncio."

"Um homem sem certezas perde quase tudo de ser homem."

Um livro belíssimo, sobre solidão, morte, encontros e desencontros, enfim, sobre a vida. Com uma escrita poética, ao mesmo tempo simples e profunda, que te envolve e te leva junto com os personagens e seus sentimentos.

Um dos melhores que já li!

Autor de janeiro do projeto de leitura dos ganhadores do "Prêmio Literário José Saramago", José Luiz Peixoto foi o vencedor em 2001.
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Toni 02/01/2021

Todos os olhares
Dono de um estilo único em que alia concomitantemente uma singeleza proposital na escolha das palavras à uma sofisticada tecitura dos seus enredos, ler José Luís Peixoto é degustar de cada vocábulo, pontuação ou a ausência deles, porque nada é construído a toa, por isso é importante estar atento, a fim de não correr o risco de deixar o melhor "escorrer por entre os dedos".
"Nenhum olhar" só ratifica o mérito de ter sido premiado com o "Saramago", posto que a obra é "larga, rasa e profunda" o que faz dessa narrativa rica na sua forma (drama realista e/ou extraordinário/mágico, assim como poético) e seu conteúdo ( as relações de afeto ou abusivas, que provocam as decepções, expectativas interrompidas, mas sobretudo, é um retrato cru da morte e o sofrimento advindo dela, o luto tão presentes no cotidiano dos seus personagens.
"Partiste para o lugar eterno da tua solidão infinita e deixaste-me sozinho neste lugar de tanta gente longe de mim . Irmão, se estando morto continuasse pegado a ti, queria morrer agora para seguir vivendo."
São hstórias que se laçam e entrelaçam performadas por personagens que se reversam ora como narrador observador, ora participante ativo, dinâmica que além de aproximar o leitor da narrativa, permite tbm quase a aquisição de um poder onisciente em relação a certos personagens e, só por essa viagem, já vale a pena ler, "Nenhum olhar."
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Homerogoncalves 08/10/2020

Escrita poética e sensível.
Um livro para preencher as lacunas dos sentimentos, que toca em vazios que não reconhecemos sem provocação. Merece uma nova leitura... um daqueles livros que a cada leitura surge uma nova "leitura".
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Carol.Cuofano 16/05/2020

Que livraço
?Nenhum olhar? de José Luís Peixoto é o livro que apresentou o autor ao grande público ao receber o Prêmio José Saramago. No Brasil publicado pela editora Dublinense na Coleção Gira, dedicada à publicação de obras contemporâneas escritas em língua portuguesa fora do Brasil.

Nesta narrativa acompanhamos aspectos da vida pobre, sofrida e cheia de sentimentos ditos e não ditos de alguns personagens bastante peculiares em uma vila rural do Alentejo, dentre eles: um homem com mais de cento e cinquenta anos, um gigante, um demônio, uma cadela que vive muito ais do que o esperado, uma voz presa em uma arca, etc.

Duas gerações ficam bem marcadas no livro. A narrativa surpreende ao alternar a narração entre os pontos de vista dos diferentes personagens e de um narrador em terceira pessoa. A linguagem carregada de poesia pode ser um dificultador para quem não está habituado a esse tipo de leitura, mas a beleza dessa escolha de construção toca profundamente o leitor que se envolve com a narrativa de maneira leve e gradativa. Esta construção poética nos leva a um momento sublime no final da narrativa, sobretudo do ponto de vista visual.

O olhar presente no título é bastante significativo durante toda a obra, tanto pelos olhares que nos contam o que acontece, quanto pelos olhares que guardam palavras não pronunciadas, sentimentos não expostos e diálogos muito significativos entre os personagens. O livro é ao mesmo tempo triste e belo. Demorei para lê-lo, pois não queria que ele acabasse. Ficava esperando, mesmo que inutilmente, a redenção de algum dos personagens.

Um livro belíssimo de um escritor contemporâneo fantástico. Segundo livro de Peixoto que leio e já estou para lá de apaixonada pela escrita do autor. Recomendo demais a leitura!
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Ladyce 26/04/2020

Confesso que comecei a leitura de Nenhum Olhar de José Luís Peixoto com certa apreensão.  Eu havia gostado tanto, tanto, de seu Livro, que tinha medo de me decepcionar com qualquer outra obra do autor.  Dei tempo entre os dois e caí de amores mais uma vez por este autor que surpreende com a habilidade de encantar com a utilização de palavras comuns, que eu, você, nós todos sabemos e aplicamos diariamente.  Em sua escrita esses vocábulos comuns tornam-se elementos de uma  narrativa lúdica e poética capaz de abordar delicadas e violentas emoções de modo único e sensível.  Chega a ser difícil acreditar que temos  em comum as mesmas palavras, no número finito das existentes na língua portuguesa, porque José Luís Peixoto não inventa novos vocábulos, mas consegue construir  linguagem única,  que entendemos pelas ausências,  no avesso ou como se lêssemos pelo espelho.  Frases curtas trazem à tona reticências eloquentes. Silêncios  soturnos envolvem o leitor com um cordão mágico invisível que o amarra ao texto.  E imergimos num mundo fantástico e real, plausível, mágico.  Enigmático.

José Luís Peixoto canta uma aldeia. Cantar é a palavra que melhor descreve a prosa-poética, ou a poesia em prosa, da narrativa sobre esta aldeia portuguesa, que parece perdida no tempo, solitária no espaço, contida em si mesma, isolada na  imensa extensão agreste, bruta, bravia e rústica do Alentejo.  Sente-se o lugar.  É hostil, habitantes abrutalhados, sem  possibilidades de mudança.  Vivem todos sob o pesado manto dos séculos de isolamento e conformismo.  Nem todos são gente comum.  Há um tanto de mágica local. Mas há falta de perspectiva,  seus habitantes não veem o  horizonte além.  'Nenhum olhar' atravessa a distância,  supera a realidade desolada do lugar.

Gosto particularmente da capa desta edição da Dublinense de  Samir Machado  de Machado. Gosto porque desta janela do aposento de onde a foto foi tirada, não há horizonte visível.  Há telhados. E céu.  O olhar atravessa a janela e para.  Para  logo ali adiante.  Ali pertinho.  Ali, na casa ao lado, no vizinho vigilante, na vereda deserta, no silêncio impenetrável dos vigiados seguidos por trás das cortinas em seus mais corriqueiros movimentos. O olhar para ali,  sem qualquer esperança, para no muro e nas telhas.  Isso reflete a asfixia da aldeia.  A falta de espaço tão bem representada pelos irmãos siameses;  a exiguidade a despeito da imensidão algarvia que a rodeia.  Esta aridez externa ecoa na população retratada, do gigante à mulher estuprada, do pastor de ovelhas à mulher cega. E como num deserto, onde ocasionalmente vemos uma planta esboçar um alento, aqui também há amor.  Silencioso, profundo, dramático.  Talvez esses excessos nos levem a aceitar com maior encantamento a virada de perspectivas que ocasionalmente nos obriga a parar e pensar. "Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra como um céu, e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu." [123-24]

Os eventos que compõem a história dessa aldeia podem ser contados repetidamente, de maneira poética ou objetiva. E no entrar e sair do sonho, no abraçar ou abandonar o onírico, temos entendimento mais completo da agonizante e ferrenha determinação de seus  habitantes pela sobrevivência física e emocional. Esdrúxulas como a própria paisagem que as gera, essas pessoas parecem habitar o mundo das alegorias.  Seus nomes, vindos dos Novo e Velho testamento aparentam ser maiores do que os seres que os carregam e dão aos acontecimentos, junto com os personagens fantasiosos, um ar simbólico que em vão tentamos decifrar.

Essa é a história de uma aldeia. Belíssima narrativa ainda que extremamente triste.  Recomendo.
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Rodrigo Pamplona 06/03/2020

Esplêndido! (Sem Spoilers)
José Luis Peixoto é um dos mais conceituados nomes da literatura portuguesa contemporânea. Lançou seus primeiros livros em 2000 e arrematou o Prêmio Literário José Saramago com "Nenhum Olhar" em 2001. Na ocasião, Saramago disse que Peixoto "é uma das revelações mais surpreendentes da literatura portuguesa. É um homem que sabe escrever e que vai ser o continuador dos grande escritores."

Pois bem, endosso essas palavras em gênero, número e grau!

Como uma pequena introdução, te digo que "Nenhum Olhar" é ambientado em uma aldeia do Alentejo e tem como pano de fundo um severo estado de pobreza por onde o autor vai bordando histórias de homens e mulheres endurecidos pela fome, pelo trabalho, pelo amor (ou pela ausência dele) e pela violência. Seus personagens são ao mesmo tempo exóticos, relacionáveis e riquíssimos em simbolismos: o pastor taciturno, a prostituta cega, o senhor centenário, o marceneiro maneta, os irmãos siameses, a cozinheira viúva.

Reunindo elementos do mundo fantástico e intercalando discurso direto e indireto, cada pequeno capítulo é narrado por um personagem. Dito isso, já te adianto que este não é um livro fácil - ao contrário, é deveras profundo e desafiador. Por ser escrito em português lusitano, requer sempre um Google por perto. Além disso, cobra do leitor um olhar diferente, um nível de sensibilidade no melhor estilo "à flor da pele".

Como temos diferentes vozes narrando a história, há uma certa desorientação a cada início de capítulo. Em diversas ocasiões me peguei identificando o narrador somente nas últimas linhas do capítulo, ou depois de vários parágrafos depois do início. Mesmo assim, o autor não nos abandona e sempre coloca nas falas algum elemento que permita essa identificação. Embora comunguem na pobreza, os personagens possuem características e estilos tão únicos que te faz imaginar exatamente como são e, quando estão juntos, a interação é de encher os olhos. Um verdadeira máquina de fabricação de suspiros.

Absurdamente bem escrito, as descrições idílicas que o autor faz levam o leitor no embalo. É um livro inteligente sem ser pedante, ambicioso sem ser pretensioso e lírico e poético sem ser piegas. Como bem disse Antonio Molina, o fantástico é contado com a naturalidade do quotidiano. A crônica e a fábula sobrepõem-se, como as histórias que contam ou presenciam ou calam os personagens de William Faulkner ou de Juan Rulfo.

É, de fato, tão bonito que sinto dificuldade em expressá-lo. O domínio que o autor tem das palavras, como as coloca no texto, é de uma graça, de um encanto sem par. A mescla entre o mundo real e o imaginário transforma a estranheza em êxtase em poucas páginas; relembra Cem Anos de Solidão. Contundente como um raio, os capítulos finais conseguem causar dor física no leitor, da mesma forma em que sentimos um imenso calor - calor físico mesmo! - sob as descrições tão bem feitas do sol escaldante do Alentejo.

Enfim, me prolongar nessa resenha seria o mesmo que encurtar a sua experiência de leitura. Logo, termino dizendo que este livro é magnífico, de todas as formas que um livro consegue ser. Quanto a mim, se trata de um favorito. Faço votos que seja o mesmo pra você.

Leva 5 estrelas cadentes.

Frase interessante:

?Penso: o lugar dos homens é uma linha traçada entre o desespero e o silêncio.?
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Vera 20/01/2020

Nenhum olhar
Livro altamente poético, indicado para leitores habituados com uma literatura mais sofisticada. Sua linguagem é muito bem trabalhada, seus personagens bem caracterizados, sob o ponto de vista emocional. Não é um livro para iniciantes, mas os iniciados vão gostar, com certeza!
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Tamires 26/08/2019

Nenhum olhar, de José Luís Peixoto
Quando terminei de ler Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez, eu fiquei um bom tempo pensando: como é que esse livro, de realismo mágico, com personagens tão incomuns e acontecimentos tão desconectados da minha realidade pode dizer exatamente uma coisa que eu sinto e não sabia que sentia antes de ler? Pode parecer estranho começar a falar de Nenhum Olhar, do escritor português José Luís Peixoto, evocando outra leitura, que fiz há muito mais tempo, de um escritor colombiano. Pode parecer, mas não é. Só confirma um dos vários poderes que a literatura tem: nos transportar a outro lugar, outro tempo e nos permitir, com isso, olhar para dentro de nós mesmos.

Nenhum Olhar (e também Morreste-me e A criança em ruínas) preciso dizer, fazem parte da belíssima Coleção Gira, da editora Dublinense, com curadoria de Reginaldo Pujol Filho, dedicada às escritas contemporâneas em português não brasileiro, pois a língua portuguesa não é uma pátria, é um universo que guarda as mais variadas expressões.

“Tem aquela frase de Proust que talvez já comece a se tornar um lugar-comum: ‘Os mais belos livros são escritos em uma espécie de língua estrangeira’. O escritor, esse deslocado, inadequado, como criador de uma língua própria, única. Lugar-comum ou não, é uma afirmação precisa. E sempre me vem à mente quando penso sobre ler autores de língua portuguesa não brasileiros. Parece que na leitura de José Luís Peixoto essa descoberta de outra língua na minha se torna mais evidente e estranha. Perceber que, com o mesmo dicionário e a mesma gramática, se faz outra língua. E este prazer (que encontro não só em Peixoto) me move a ler a produção contemporânea de outros países que têm o português como idioma. Prazer que agora virou missão: a partir deste Morreste-me, junto com a Dublinense, vou dividir com você o prazer de ler autores de Portugal, Angola, Moçambique, São Tomé, Cabo Verde e Guiné.” (Reginaldo Pujol Filho no livro Morreste-me, de José Luís Peixoto)

Nenhum Olhar é, sem dúvida, um dos melhores livros que eu li na vida. Vencedor do Prêmio Saramago em 2001, é um livro que não se pode resumir, apenas pincelar alguns trechos e características mais marcantes, porque não se resume poesia, não se resume sentimento. Nenhum Olhar é o que comumente chamamos de prosa poética, como se a poesia só pudesse existir dissociada da prosa, e vice versa. Aqui a gente percebe que o texto pode ser tudo isso ou outra coisa, não há limite ou termo técnico que defina plenamente este livro.

Vários narradores nos conduzem entre as histórias sobre a vida em uma pequena vila rural do Alentejo. Neste lugar, o real coabita com o fantástico para mostrar o que temos de mais humano: o amor, força e fraqueza, a solidão e o luto, dentre tantas outras coisas com as quais somos atravessados ao longo da vida. Os personagens não poderiam ser os mais incomuns: um demônio, um gigante, a cadela que vive além do normal, uma voz presa dentro da arca, um homem com mais de 150 anos, uma prostituta cega, uma cozinheira… Gosto do que Reginaldo Pujol Filho diz na orelha deste livro: “uma galeria de personagens inusitados que podem ser lidos como metáforas, ou como parte de uma realidade que nos escapa”.

Nenhum Olhar é um livro que continua comigo, mesmo depois de passados vários dias desde que li a última página. Gosto de tê-lo por perto, reler alguns trechos, mergulhar novamente em suas páginas. São personagens que, sinto, viverão para sempre comigo. Espero que eles possam, também, encontrar cada vez mais leitores.

“Penso: os homens são ovelhas que não dormem, são ovelhas que são lobos por dentro.” (p. 10)

“Essa voz abafada falava solene como se estivesse a ler uma epopeia de um livro, disse: talvez os homens existam e sejam, e talvez para isso não haja qualquer explicação; talvez os homens sejam pedaços de caos sobre a desordem que encerram, e talvez seja isso que os explique.” (p. 27)

“Penso: talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros.” (p. 29)

“Ainda que o peso do meu peito seja custoso, qual é o peso de um abismo?” (p. 38)

“Mesmo que seja para sofrer sofrer, tenho de ir ao encontro daquilo que serei, por ter sido isto e não poder fugir, não poder fugir de me tornar alguma coisa.” (p. 38)

“Penso: talvez haja uma luz dentro dos homens, talvez uma claridade, talvez os homens não sejam feitos de escuridão, talvez as certezas sejam uma aragem dentro dos homens e talvez os homens sejam as certezas que possuem.” (p. 50)

“Penso: um homem é um dia, um homem é o sol durante um dia. E é preciso continuar.” (p. 113)

“Penso: sempre e nunca mais são o mesmo lugar.” (p. 115)

“E, de repente, a voz que está fechada dentro de uma arca disse: o vento passa e permanece nas folhas que ainda tremem depois dele; nenhum homem pode deter o vento, porque todos os homens são uma parte do vento.” (p. 136)

“Penso: o lugar dos homens é uma linha traçada entre o desespero e o silêncio.” (p. 179)

“Penso: chega devagar, mas vem; aproxima-se e será um dia infinito, uma noite eterna, um instante parado que não será um instante; e os assuntos grandes serão menores que os mais ridículos, e os assuntos maiores serão ainda maiores porque serão únicos. Penso: é hoje.” (p. 215)

“Não tenho medo das palavras. Vê como digo morte: morte morte morte morte morte. Repito-a assim e roubo-lhe o sentido. Roubo morte à morte. Roubo trevas e solidão. Morte morte morte morte morte. Não tenho medo das palavras. Torno a ver os teus olhos diante dos meus, manhã, e quero que esta seja a nosso última palavra: amor.” (p. 217, 218)

site: https://www.tamiresdecarvalho.com/resenha-nenhum-olhar-de-jose-luis-peixoto/
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Rodrigo Brasil 02/08/2019

A fantasia é real
Este livro é tão incrível, mas tão difícil de escrever uma resenha à altura.
Do que se trata? Do cotidiano numa vila rural do Alentejo. Mas não é um cotidiano normal, neste cotidiano encontramos o gigante, o demônio, um idoso com 150 anos, gêmeos ligados. É tudo muito fantasioso, mas ao mesmo tempo tudo tão real. É a vida como ela é. Com suas traições, paixões, solidão, amor e angústias.
É o terceiro livro que leio do Peixoto. Todos são igualmente especiais, cada um com suas características. Mas sempre cheios de sentimento nas palavras.
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BrunaKoelln 17/02/2019

Prefeito!
Li devagar para absorver cada detalhe e desejando que não acabasse. Escrita incrível!
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Cândida Bernardi 15/12/2018

"...talvez os homens existam e sejam, e talvez para isso não haja qualquer explicação; talvez os homens sejam pedaços de caos sobre a desordem que encerram, e talvez seja isso que os explique."
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