Nenhum Olhar

Nenhum Olhar José Luis Peixoto




Resenhas - Nenhum Olhar


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Marcos 13/04/2011

Resenha
Troco minha resenha por uma 6ª estrela
Renata CCS 01/09/2014minha estante
Adorei!




Toni 18/02/2021

Leitura 9 de 2021

Nenhum olhar [2000]
José Luís Peixoto (Portugal, 1974-)
Dublinense, 2018, 224 p.

“O que mais há na terra, é paisagem”, escreveu Saramago na abertura de ‘Levantado do chão’. O que mais há na paisagem, é tempo—parece responder José Luís Peixoto. E o tempo, diferente do que se pensa, caminha sobre abismos, mulheres e homens abismos a desabarem uns sobre os outros. Talvez não seja suficiente introduzir este romance vencedor do Prêmio Literário José Saramago por meio de palavras tão simples: tempo, paisagem, homens e mulheres. Talvez, por outro lado, sejam estas as imagens mais cheias de sentido porque juntas, amalgamadas em Nenhum olhar, falam inseparavelmente de origens e fins, como convém à poesia.

Neste livro, um Alentejo quase mítico ganha forma na vida arrastada de um vilarejo onde mulheres não são nomeadas e os homens herdam profissões e alcunhas de seus pais, onde a cegueira atravessa gerações de filhas, uma voz presa numa caixa se faz ouvir, pássaros transportam homens pelos céus e os casamentos são celebrados por um demônio, na casa de Deus. Sem diferenciar o fantástico do cotidiano, Peixoto traduz uma realidade por vezes brutal (opressiva, religiosa, patriarcal) com a poesia interna de cada personagem, manifestações de saberes e sentimentos que somente a observação atenta de que “talvez os homens sejam as certezas que possuem” consegue produzir.

Entre as muitas personagens, um escritor trancado num quarto sem janelas chama a atenção. Ele nunca entrará em cena, não é visto por nenhuma das personagens, mas o escrevinhar de sua caneta rompe vez ou outra os silêncios de Nenhum olhar. Esse escritor somos nós, leitores, como também é Peixoto, sem deixar de ser, naturalmente, a voz que narra o romance: presos em nossas caixinhas, alheios ao mundo, a tentar captar qualquer coisa que nos fale de vida. Seja metáfora-crítica do trabalho da escrita (o autor isolado que não vê as pessoas e o mundo lá fora), seja aceno fantástico à metalinguagem, esse elemento misterioso existe para nos lembrar que vida e ficção são faces de um mesmo rosto cujo olhar que não enxerga a dor, a alegria, o tempo e a paisagem, homens e mulheres, não é olhar algum.
Derso 18/02/2021minha estante
Uau ???? dá pra ver nessa resenha o impacto que o livro teve em você.




Mateus com h 28/03/2021

Ultimamente
Tenho sofrido de nostalgias agudas. Como se a vida desentortasse os pregos que eu havia imobilizado. Há rostos em blur, travessias e paredes trincadas, retratos opacos e metáforas mais.

Senti que este livro de Peixoto foi concebido no ventre sereno de uma solidão que deixou de agredir, uma solidão pacífica.

Como se a dor, a morte, a saudade, as garoas, o silêncio, não nos torturasse mais.

Este livro é caminhar descalço através de um tempo que já foi, mas que volta refazendo o chão batido que sustenta um por um de nossos passos.

Viva José Luis Peixoto.
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*Carina* 03/10/2010

As palavras, a morte e a vida.
"Não tenho medo das palavras. Vê como digo morte: morte morte morte morte morte. Repito-a assim e roubo-lhe o sentido. Roubo morte à morte."

Eu, ao contrário de Peixoto, confesso que tenho medo das palavras. Tenho medo de sua incompletude, da impossibilidade de ser perfeitamente compreendida, da eterna dissonância entre o que se quer dizer, o que se diz, e o que é escutado. Além disso, a impossibilidade de controlar as palavras uma vez que essas deixam nossa boca - ou nossos dedos - é algo assustador. Essas palavras aqui, por exemplo, podem fazer com que alguém resolva ler esse livro, ou desista de lê-lo. Então como posso escrevê-las, sem ter certeza de seu efeito para cada um que as lerá? Só posso, e só o faço, por me submeter justamente a essa alteridade que a dimensão da palavra traz tão forte. Só digo o que digo aqui, porque preciso part-ilhar da minha experiência na leitura desse livro. Preciso deixar que essa parte de mim se vá em palavras, para que o livro reste em mim como efeito.

Todo esse devaneio não era - como nunca é - o que eu tinha em mente ao começar a escrever essa resenha. Mas como foi o que saiu de meus dedos irei deixá-lo aqui, em homenagem a Peixoto e sua liberdade com as palavras que tanto me encantou. "Nenhum Olhar" é um livro belíssimo. Tem uma história majoritariamente triste, mas a destreza do autor com as palavras é tão grande que mesmo a tristeza me causava uma certa alegria, um contentamento por poder ler o que ali estava escrito. E tem pelo menos três cenas incríveis, uma delas, na página 55, é uma das cenas mais belas que já li na vida, só de lembrá-la meus olhos já se enchem d´àgua.

No trecho que citei no começo da resenha, Peixoto diz que "Rouba morte à morte". Eu discordo; o que ele faz, através de suas palavras, é dar vida à vida.
Paula 29/09/2010minha estante
Linda a sua resenha, Carina. Eu já comprei esse livro desde o início do ano e ainda não o li, mas será um dos próximos. José Luis Peixoto realmente sabe brincar com as palavras, dando vida ao texto. Dele já li Uma casa na escuridão e Cemitério de pianos, mas pelas resenhas que tenho lido parece mesmo que Nenhum Olhar é a obra prima do autor =]


Amandha Silva 30/09/2010minha estante
Estou com o livro aqui na fila eterna. Sua resenha me fez querer lê-lo mais ainda. O que um livro é capaz de deixar em nós é o legado mais bela que a escrita pode proporcionar, e quando isso é bom, é perfeito.


Nessa Gagliardi 30/09/2010minha estante
Cá, mais uma linda resenha sua. Parabéns! Ainda bem que meu "Peixoto" já está à caminho!




Viviane 01/09/2010

Todos os sentidos
Não conhecia a escrita de José Luís Peixoto, não sabia nada sobre o livro, não tinha lido nenhum comentário a respeito da história. Escolhi "Nenhum olhar" simplesmente porque era português e estava disponível na biblioteca. A leitura era tão despretensiosa que iniciei o livro no intervalo do almoço, com apenas 15 minutos disponíveis e a vontade simples de me distrair.
Mas então o texto me atingiu. Os primeiros 15 minutos foram interrompidos por obrigação e as palavras daquelas primeiras páginas reverberaram durante todo o dia.
Num ambiente rural marcado pela simplicidade, a vida ganha personagens fantásticos e os sentimentos emergem muito verdadeiros, sem a companhia das palavras, sem explicações possíveis. O sofrimento se percebe e se sente, a tristeza é visível, o afeto é real.
Em determinados momentos a poesia é tão grande que se desprende da narrativa. E mesmo quando o mundo acaba, é belo.
Terminei o livro já com vontade de reler muitas passagens e a certeza de que o olhar de Luís Peixoto desperta em mim todos os sentidos.
Dirce 03/09/2010minha estante
Que linda resenha, Vivi.
Ai, Ai! Será que vou me viciar em Luiz Peixoto também?
bjs




Dirce 22/10/2010

Mero detalhe
Ao ler a resenha da minha amiga Vivi, não resisti a tentação e conclui: tenho que ler esse livro, mesmo porque já compartilhamos leituras de alguns livros e não me recordo de discordâncias em nossas opiniões (exceto Saramago, mas este não conta – ainda chego lá).
Logo na primeira página pensei: que lindo!Este livro promete,mas (tem sempre um mas) o que vejo de repente? Um demo fuxiqueiro servindo na venda do judas? Um gigante? É isso mesmo? Reli e era isso mesmo. Ai!ai!ai!... não vou gostar. Afinal em Cem Anos de Solidão tive que travar uma batalha...Será que o Sol carioca "fritou" os miolos da minha amiga?
Vamos ver no que vai dar, pensei, e segui em frente.
Gostaria muito de dar uma de intelectual, de sabichona, e de poder dizer que entendi tudo o que José Luiz Peixoto quis transmitir com suas alegorias. Dizer que entendi o porquê de todos os nomes bíblicos. Dizer que sei dizer qual é protagonista da história, entretanto, o que aconteceu foi que os meus QI´s se tornaram polar: o meu Q.E ( quociente de entendimento) foi lá pro Polo Sul, e o Q.S ( quociente de sensibilidade) foi lá pro Polo Norte e, penso que não houve,em momento algum,uma congruência entre eles.
Entretanto, a cada linha lida, o meu quociente de sensibilidade começou a se fazer presente. O ENTENDIMENTO? Diante da beleza da escrita ele( o entendimento), se tornou tão, mas tão minúsculo. A cada frase, a cada página, a emoção começou a tomar conta de mim de forma contundente. A leitura desse livro foi como ouvir uma bela canção interpretada numa bela voz, porém, em um idioma que eu desconhecia só que, isso, era um mero detalhe porque a beleza e a dor vislumbradas eram tamanhas que me levaram as lágrimas. Terminei o livro numa espécie de estado de choque. Transcrevo abaixo três dos muitos fragmentos que fizeram com que as lágrimas rolassem:

(...) Imagino-te a ver esta noite da varanda dos meus olhos, a entrares nesta floresta de mil estrelas por contar, estas estrelas que não chegam para iluminar a terra, mas que iluminam pequenas circunferências do céu à sua volta. Imagino-te a ouvires-me enquanto se calhar embalas o menino com essa cantiga com que o teu pai, quando eras pequena, te adormecia e que assobiava no telheiro da tarde. pág. 55

(...) Mãe como gostava de ter de ter-te sentido dentro dos meus braços, como gostava de ter estado dentre os teus. Mãe para ti a morte não é cruel , pois há muito escolheste existir apenas para me lembrares o amor e, agora que nada em mim tem regresso eu sou definitivamente uma vertigem (...), pág. 181.

(...) Aproxima-se o fim e o desespero, E, sei agora, o fim e o desespero são a serenidade de uma solidão eterna e irremediável, tudo eterno e tudo irremediável, são o silêncio de quem chora sozinho numa noite infinita(...)pag.182

Afinal de que trata o livro? Penso que da DOR, da SOLIDÃO, do TEMPO, da existência , melhor dizendo, da NÃO EXISTÊNCIA, da morte e de tudo que está “impresso no DNA” da humanidade.
MAG-NÍ-FI-CO, mais um a figurar um dentre os meus favoritos.



Obs: Releitura em 10/2019. Melancólico, lindo. Graças a generosidade da minha amiga Vivi , tenho um exemplar com uma dedicatória do autor com os dizeres: Para a Dirce. Este é um romance de homens e mulheres da terra. Com a estima de José Luiz Peixoto. Rio (17/12/2012)
Hoje (11/11/2019) acrescentaria às palavras de J.L.P as palavras sobreviventes heroicos.
Um livro que deve ser LIDO, RELIDO E DIVULGADO.
Viviane 23/10/2010minha estante
:)
Também tive essa mesma reação inicial. Achei que não fosse gostar pelos mesmos motivos que vc citou e, de repente, a obra me atingiu de forma irremediável. Achei tudo tão poético e tocante que o entendimento racional deixa de ser um objetivo.
Não sei se vai acontecer com vc, mas eu passei a gostar ainda mais do livro alguns dias depois da leitura. Viu como ainda não estou sofrendo de insolação? ;)


Ladyce 19/10/2012minha estante
Dirce, ótima resenha. Ela ajuda a quem às vezes resiste à uma leitura... Obrigada!


Ladyce 19/10/2012minha estante
Dirce, ótima resenha. Ela ajuda a quem às vezes resiste à uma leitura... Obrigada!




Rodrigo Pamplona 06/03/2020

Esplêndido! (Sem Spoilers)
José Luis Peixoto é um dos mais conceituados nomes da literatura portuguesa contemporânea. Lançou seus primeiros livros em 2000 e arrematou o Prêmio Literário José Saramago com "Nenhum Olhar" em 2001. Na ocasião, Saramago disse que Peixoto "é uma das revelações mais surpreendentes da literatura portuguesa. É um homem que sabe escrever e que vai ser o continuador dos grande escritores."

Pois bem, endosso essas palavras em gênero, número e grau!

Como uma pequena introdução, te digo que "Nenhum Olhar" é ambientado em uma aldeia do Alentejo e tem como pano de fundo um severo estado de pobreza por onde o autor vai bordando histórias de homens e mulheres endurecidos pela fome, pelo trabalho, pelo amor (ou pela ausência dele) e pela violência. Seus personagens são ao mesmo tempo exóticos, relacionáveis e riquíssimos em simbolismos: o pastor taciturno, a prostituta cega, o senhor centenário, o marceneiro maneta, os irmãos siameses, a cozinheira viúva.

Reunindo elementos do mundo fantástico e intercalando discurso direto e indireto, cada pequeno capítulo é narrado por um personagem. Dito isso, já te adianto que este não é um livro fácil - ao contrário, é deveras profundo e desafiador. Por ser escrito em português lusitano, requer sempre um Google por perto. Além disso, cobra do leitor um olhar diferente, um nível de sensibilidade no melhor estilo "à flor da pele".

Como temos diferentes vozes narrando a história, há uma certa desorientação a cada início de capítulo. Em diversas ocasiões me peguei identificando o narrador somente nas últimas linhas do capítulo, ou depois de vários parágrafos depois do início. Mesmo assim, o autor não nos abandona e sempre coloca nas falas algum elemento que permita essa identificação. Embora comunguem na pobreza, os personagens possuem características e estilos tão únicos que te faz imaginar exatamente como são e, quando estão juntos, a interação é de encher os olhos. Um verdadeira máquina de fabricação de suspiros.

Absurdamente bem escrito, as descrições idílicas que o autor faz levam o leitor no embalo. É um livro inteligente sem ser pedante, ambicioso sem ser pretensioso e lírico e poético sem ser piegas. Como bem disse Antonio Molina, o fantástico é contado com a naturalidade do quotidiano. A crônica e a fábula sobrepõem-se, como as histórias que contam ou presenciam ou calam os personagens de William Faulkner ou de Juan Rulfo.

É, de fato, tão bonito que sinto dificuldade em expressá-lo. O domínio que o autor tem das palavras, como as coloca no texto, é de uma graça, de um encanto sem par. A mescla entre o mundo real e o imaginário transforma a estranheza em êxtase em poucas páginas; relembra Cem Anos de Solidão. Contundente como um raio, os capítulos finais conseguem causar dor física no leitor, da mesma forma em que sentimos um imenso calor - calor físico mesmo! - sob as descrições tão bem feitas do sol escaldante do Alentejo.

Enfim, me prolongar nessa resenha seria o mesmo que encurtar a sua experiência de leitura. Logo, termino dizendo que este livro é magnífico, de todas as formas que um livro consegue ser. Quanto a mim, se trata de um favorito. Faço votos que seja o mesmo pra você.

Leva 5 estrelas cadentes.

Frase interessante:

?Penso: o lugar dos homens é uma linha traçada entre o desespero e o silêncio.?
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Ladyce 26/04/2020

Confesso que comecei a leitura de Nenhum Olhar de José Luís Peixoto com certa apreensão.  Eu havia gostado tanto, tanto, de seu Livro, que tinha medo de me decepcionar com qualquer outra obra do autor.  Dei tempo entre os dois e caí de amores mais uma vez por este autor que surpreende com a habilidade de encantar com a utilização de palavras comuns, que eu, você, nós todos sabemos e aplicamos diariamente.  Em sua escrita esses vocábulos comuns tornam-se elementos de uma  narrativa lúdica e poética capaz de abordar delicadas e violentas emoções de modo único e sensível.  Chega a ser difícil acreditar que temos  em comum as mesmas palavras, no número finito das existentes na língua portuguesa, porque José Luís Peixoto não inventa novos vocábulos, mas consegue construir  linguagem única,  que entendemos pelas ausências,  no avesso ou como se lêssemos pelo espelho.  Frases curtas trazem à tona reticências eloquentes. Silêncios  soturnos envolvem o leitor com um cordão mágico invisível que o amarra ao texto.  E imergimos num mundo fantástico e real, plausível, mágico.  Enigmático.

José Luís Peixoto canta uma aldeia. Cantar é a palavra que melhor descreve a prosa-poética, ou a poesia em prosa, da narrativa sobre esta aldeia portuguesa, que parece perdida no tempo, solitária no espaço, contida em si mesma, isolada na  imensa extensão agreste, bruta, bravia e rústica do Alentejo.  Sente-se o lugar.  É hostil, habitantes abrutalhados, sem  possibilidades de mudança.  Vivem todos sob o pesado manto dos séculos de isolamento e conformismo.  Nem todos são gente comum.  Há um tanto de mágica local. Mas há falta de perspectiva,  seus habitantes não veem o  horizonte além.  'Nenhum olhar' atravessa a distância,  supera a realidade desolada do lugar.

Gosto particularmente da capa desta edição da Dublinense de  Samir Machado  de Machado. Gosto porque desta janela do aposento de onde a foto foi tirada, não há horizonte visível.  Há telhados. E céu.  O olhar atravessa a janela e para.  Para  logo ali adiante.  Ali pertinho.  Ali, na casa ao lado, no vizinho vigilante, na vereda deserta, no silêncio impenetrável dos vigiados seguidos por trás das cortinas em seus mais corriqueiros movimentos. O olhar para ali,  sem qualquer esperança, para no muro e nas telhas.  Isso reflete a asfixia da aldeia.  A falta de espaço tão bem representada pelos irmãos siameses;  a exiguidade a despeito da imensidão algarvia que a rodeia.  Esta aridez externa ecoa na população retratada, do gigante à mulher estuprada, do pastor de ovelhas à mulher cega. E como num deserto, onde ocasionalmente vemos uma planta esboçar um alento, aqui também há amor.  Silencioso, profundo, dramático.  Talvez esses excessos nos levem a aceitar com maior encantamento a virada de perspectivas que ocasionalmente nos obriga a parar e pensar. "Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra como um céu, e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu." [123-24]

Os eventos que compõem a história dessa aldeia podem ser contados repetidamente, de maneira poética ou objetiva. E no entrar e sair do sonho, no abraçar ou abandonar o onírico, temos entendimento mais completo da agonizante e ferrenha determinação de seus  habitantes pela sobrevivência física e emocional. Esdrúxulas como a própria paisagem que as gera, essas pessoas parecem habitar o mundo das alegorias.  Seus nomes, vindos dos Novo e Velho testamento aparentam ser maiores do que os seres que os carregam e dão aos acontecimentos, junto com os personagens fantasiosos, um ar simbólico que em vão tentamos decifrar.

Essa é a história de uma aldeia. Belíssima narrativa ainda que extremamente triste.  Recomendo.
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Carol.Cuofano 16/05/2020

Que livraço
?Nenhum olhar? de José Luís Peixoto é o livro que apresentou o autor ao grande público ao receber o Prêmio José Saramago. No Brasil publicado pela editora Dublinense na Coleção Gira, dedicada à publicação de obras contemporâneas escritas em língua portuguesa fora do Brasil.

Nesta narrativa acompanhamos aspectos da vida pobre, sofrida e cheia de sentimentos ditos e não ditos de alguns personagens bastante peculiares em uma vila rural do Alentejo, dentre eles: um homem com mais de cento e cinquenta anos, um gigante, um demônio, uma cadela que vive muito ais do que o esperado, uma voz presa em uma arca, etc.

Duas gerações ficam bem marcadas no livro. A narrativa surpreende ao alternar a narração entre os pontos de vista dos diferentes personagens e de um narrador em terceira pessoa. A linguagem carregada de poesia pode ser um dificultador para quem não está habituado a esse tipo de leitura, mas a beleza dessa escolha de construção toca profundamente o leitor que se envolve com a narrativa de maneira leve e gradativa. Esta construção poética nos leva a um momento sublime no final da narrativa, sobretudo do ponto de vista visual.

O olhar presente no título é bastante significativo durante toda a obra, tanto pelos olhares que nos contam o que acontece, quanto pelos olhares que guardam palavras não pronunciadas, sentimentos não expostos e diálogos muito significativos entre os personagens. O livro é ao mesmo tempo triste e belo. Demorei para lê-lo, pois não queria que ele acabasse. Ficava esperando, mesmo que inutilmente, a redenção de algum dos personagens.

Um livro belíssimo de um escritor contemporâneo fantástico. Segundo livro de Peixoto que leio e já estou para lá de apaixonada pela escrita do autor. Recomendo demais a leitura!
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Rodrigo Brasil 02/08/2019

A fantasia é real
Este livro é tão incrível, mas tão difícil de escrever uma resenha à altura.
Do que se trata? Do cotidiano numa vila rural do Alentejo. Mas não é um cotidiano normal, neste cotidiano encontramos o gigante, o demônio, um idoso com 150 anos, gêmeos ligados. É tudo muito fantasioso, mas ao mesmo tempo tudo tão real. É a vida como ela é. Com suas traições, paixões, solidão, amor e angústias.
É o terceiro livro que leio do Peixoto. Todos são igualmente especiais, cada um com suas características. Mas sempre cheios de sentimento nas palavras.
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Cândida Bernardi 15/12/2018

"...talvez os homens existam e sejam, e talvez para isso não haja qualquer explicação; talvez os homens sejam pedaços de caos sobre a desordem que encerram, e talvez seja isso que os explique."
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BrunaKoelln 17/02/2019

Prefeito!
Li devagar para absorver cada detalhe e desejando que não acabasse. Escrita incrível!
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Tamires 26/08/2019

Nenhum olhar, de José Luís Peixoto
Quando terminei de ler Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez, eu fiquei um bom tempo pensando: como é que esse livro, de realismo mágico, com personagens tão incomuns e acontecimentos tão desconectados da minha realidade pode dizer exatamente uma coisa que eu sinto e não sabia que sentia antes de ler? Pode parecer estranho começar a falar de Nenhum Olhar, do escritor português José Luís Peixoto, evocando outra leitura, que fiz há muito mais tempo, de um escritor colombiano. Pode parecer, mas não é. Só confirma um dos vários poderes que a literatura tem: nos transportar a outro lugar, outro tempo e nos permitir, com isso, olhar para dentro de nós mesmos.

Nenhum Olhar (e também Morreste-me e A criança em ruínas) preciso dizer, fazem parte da belíssima Coleção Gira, da editora Dublinense, com curadoria de Reginaldo Pujol Filho, dedicada às escritas contemporâneas em português não brasileiro, pois a língua portuguesa não é uma pátria, é um universo que guarda as mais variadas expressões.

“Tem aquela frase de Proust que talvez já comece a se tornar um lugar-comum: ‘Os mais belos livros são escritos em uma espécie de língua estrangeira’. O escritor, esse deslocado, inadequado, como criador de uma língua própria, única. Lugar-comum ou não, é uma afirmação precisa. E sempre me vem à mente quando penso sobre ler autores de língua portuguesa não brasileiros. Parece que na leitura de José Luís Peixoto essa descoberta de outra língua na minha se torna mais evidente e estranha. Perceber que, com o mesmo dicionário e a mesma gramática, se faz outra língua. E este prazer (que encontro não só em Peixoto) me move a ler a produção contemporânea de outros países que têm o português como idioma. Prazer que agora virou missão: a partir deste Morreste-me, junto com a Dublinense, vou dividir com você o prazer de ler autores de Portugal, Angola, Moçambique, São Tomé, Cabo Verde e Guiné.” (Reginaldo Pujol Filho no livro Morreste-me, de José Luís Peixoto)

Nenhum Olhar é, sem dúvida, um dos melhores livros que eu li na vida. Vencedor do Prêmio Saramago em 2001, é um livro que não se pode resumir, apenas pincelar alguns trechos e características mais marcantes, porque não se resume poesia, não se resume sentimento. Nenhum Olhar é o que comumente chamamos de prosa poética, como se a poesia só pudesse existir dissociada da prosa, e vice versa. Aqui a gente percebe que o texto pode ser tudo isso ou outra coisa, não há limite ou termo técnico que defina plenamente este livro.

Vários narradores nos conduzem entre as histórias sobre a vida em uma pequena vila rural do Alentejo. Neste lugar, o real coabita com o fantástico para mostrar o que temos de mais humano: o amor, força e fraqueza, a solidão e o luto, dentre tantas outras coisas com as quais somos atravessados ao longo da vida. Os personagens não poderiam ser os mais incomuns: um demônio, um gigante, a cadela que vive além do normal, uma voz presa dentro da arca, um homem com mais de 150 anos, uma prostituta cega, uma cozinheira… Gosto do que Reginaldo Pujol Filho diz na orelha deste livro: “uma galeria de personagens inusitados que podem ser lidos como metáforas, ou como parte de uma realidade que nos escapa”.

Nenhum Olhar é um livro que continua comigo, mesmo depois de passados vários dias desde que li a última página. Gosto de tê-lo por perto, reler alguns trechos, mergulhar novamente em suas páginas. São personagens que, sinto, viverão para sempre comigo. Espero que eles possam, também, encontrar cada vez mais leitores.

“Penso: os homens são ovelhas que não dormem, são ovelhas que são lobos por dentro.” (p. 10)

“Essa voz abafada falava solene como se estivesse a ler uma epopeia de um livro, disse: talvez os homens existam e sejam, e talvez para isso não haja qualquer explicação; talvez os homens sejam pedaços de caos sobre a desordem que encerram, e talvez seja isso que os explique.” (p. 27)

“Penso: talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros.” (p. 29)

“Ainda que o peso do meu peito seja custoso, qual é o peso de um abismo?” (p. 38)

“Mesmo que seja para sofrer sofrer, tenho de ir ao encontro daquilo que serei, por ter sido isto e não poder fugir, não poder fugir de me tornar alguma coisa.” (p. 38)

“Penso: talvez haja uma luz dentro dos homens, talvez uma claridade, talvez os homens não sejam feitos de escuridão, talvez as certezas sejam uma aragem dentro dos homens e talvez os homens sejam as certezas que possuem.” (p. 50)

“Penso: um homem é um dia, um homem é o sol durante um dia. E é preciso continuar.” (p. 113)

“Penso: sempre e nunca mais são o mesmo lugar.” (p. 115)

“E, de repente, a voz que está fechada dentro de uma arca disse: o vento passa e permanece nas folhas que ainda tremem depois dele; nenhum homem pode deter o vento, porque todos os homens são uma parte do vento.” (p. 136)

“Penso: o lugar dos homens é uma linha traçada entre o desespero e o silêncio.” (p. 179)

“Penso: chega devagar, mas vem; aproxima-se e será um dia infinito, uma noite eterna, um instante parado que não será um instante; e os assuntos grandes serão menores que os mais ridículos, e os assuntos maiores serão ainda maiores porque serão únicos. Penso: é hoje.” (p. 215)

“Não tenho medo das palavras. Vê como digo morte: morte morte morte morte morte. Repito-a assim e roubo-lhe o sentido. Roubo morte à morte. Roubo trevas e solidão. Morte morte morte morte morte. Não tenho medo das palavras. Torno a ver os teus olhos diante dos meus, manhã, e quero que esta seja a nosso última palavra: amor.” (p. 217, 218)

site: https://www.tamiresdecarvalho.com/resenha-nenhum-olhar-de-jose-luis-peixoto/
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Vera 20/01/2020

Nenhum olhar
Livro altamente poético, indicado para leitores habituados com uma literatura mais sofisticada. Sua linguagem é muito bem trabalhada, seus personagens bem caracterizados, sob o ponto de vista emocional. Não é um livro para iniciantes, mas os iniciados vão gostar, com certeza!
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