Dois irmãos

Dois irmãos Milton Hatoum




Resenhas - Dois Irmãos


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Samia 26/01/2011

Rivalidade entre irmãos, entre pai e filho, mãe e namoradas, empregados e patrões tornaram esse livro muito interessante. A maneira de Hatoum escrever o tornou completo.
O narrador é um menino que cresceu à margem da família e testemunhou os fatos. Esse garoto suspeita ser filho de um dos irmãos. Ele carrega a mágoa de que a família sabe sobre ele e mesmo assim todos o tratam como um empregado. Portanto, não é uma testemunha isenta.
Desde o começo o leitor sabe que todas essas rivalidades não terão um bom fim, algumas pistas são dadas, prendendo ainda mais a atenção mas só no final a gente tem o quadro completo.
Hatoum escreve de forma poética, faz lindas analogias e enquanto descreve o ambiente da cidade de Manaus torna essa história universal.
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Mara.Aline 29/03/2017

"Alguns dos nossos desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nós mesmos"
"Dois irmãos" apresenta a trajetória de uma família, marcada por dramas, paixões, conflitos e perdas, durante cerca de cinco décadas.
Ao longo dos anos, o leitor acompanha também o desenvolvimento predatório da cidade de Manaus, onde a vida simples cede lugar aos extremos: riqueza e miséria coexistem.
O fluxo de tempo expresso na narrativa não é linear, mas segue o ritmo da memória do narrador-personagem: vai e volta, com suas lacunas e esquecimentos, mas também com suas marcas indeléveis: as coisas que o tempo apaga, mas também aquelas que ele não é capaz de apagar.
O tempo é o tempo vivo da memória.
A forma de vinculação dos personagens com o espaço público e doméstico explicita-se nas mudanças subjetivas que coincidem com as transformações destes espaços.
O espaço é subjetivo.
Enfim, o livro aborda as formas de se pertencer a um lugar, a uma família e suas implicações na construção das identidades: o olhar materno ("... carecia de olhar, que é como carecer de alma"), seus beijos (quantas vezes devoradores?), as palavras ditas e aquelas que se deixa de dizer.
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Eric 22/11/2015

Vencedor do premio Jabuti e consagrado pelos críticos, Dois Irmãos irá narrar a trajetória de Omar e Yaqub, irmãos gêmeos em que as únicas semelhanças que possuem são as aparências e o ódio entre eles. Em um cenário de imigração e industrialização, Milton Hatoum mostra em como boas famílias se direcionam para um abismo sem fim de tristeza, ódio e tragédias.

Halim é um imigrante libanês que vem ao Brasil por melhores condições de vida. Aqui ele conhece Zana, também de descendência libanesa, com quem se casa. Halim nunca quis ter filhos, mas após a morte do pai de Zana, a esposa fica depressiva e o casamento caminha para o declínio. O surgimento de filhos seria propicio naquele momento para restauração da felicidade do casal, visto isso eles decidem ter filhos, e assim nasce os gêmeos e Rânia.
Criados de forma distintas, Omar sempre foi o mais paparicado pela mãe. Cresceu um garoto mimado, sempre submisso a mãe e um verdadeiro vadio. Já Yaqub era um garoto mais independente, focado nos estudos e almejava crescer na vida, e dessa forma quando atingiu uma certa idade, ele recebeu proposta de estudos em São Paulo e resolveu partir em busca do seu sucesso.
O ódio entre os gêmeos se originou por um caso na adolescência. Este ocorrido desencadeou uma briga violenta entre os irmãos e levando a separação dos gêmeos. Yaqub é mandado embora pro Líbano e lá fica uns anos, quando volta ele se vê deslocado dentro da família, e foi questão de poucos dias para que o eterno ódio entre gêmeos se restabelecessem
Além disso, teremos a empregada Domingas e seu filho que é o narrador dessa balburdia toda. A partir dos desabafos de Halim e do que presencia, o narrador vai nos contando o que se passa nessa família tão desunida.

Milton Hatoum vai estabelecer uma metáfora de dualidade nesta obra, uma vez que ele acredita que um imigrante sofre um tipo de dualidade do lar, da pátria. Com isso teremos Omar representando o jeito boêmio do brasileiro e Yaqub um jeito mais centrado dos libaneses. E a partir dessa analise, podemos ver um choque de culturas representadas pelos gêmeos e as consequências dessas desavenças que é a destruição familiar.

A expansão comercial, o processo migratório e o desenvolvimento industrial no Norte é fortemente retratado no livro. É tão bem construido e concreto que o autor possibilita uma viagem quase palpável na historia da Amazônia. O choque cultural entre imigrantes e brasileiros é um dos aspectos mais interessantes no livro, podemos ter um conhecimento maior entre o quanto é benigno ou maligno o entrosamento de culturas diferentes.

A escrita do autor é maravilhosa, possui riqueza nos textos e isso é fortalecido com a presença de termos da propícios da região amazônica. Por mais que possa dificultar o entendimentos em alguns momentos, esses termos acabam dando uma qualidade mais consistente para obra.

Recomendo muito este livro, pois é um retrato muito crível de uma realidade pouco discutida. Dois irmãos é um drama familiar de qualidade, carregado de brigas, traição, romance e amor descontrolado.
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Lourena.Oliveira 02/01/2018

É fácil identificar-se com essa família e o livro é excelente.
Dois Irmãos é o tipo de romance que envolve o leitor na vida dos personagens de tal maneira, que não se preocupar com o destino deles é impossível.
A narrativa gira em torno da família de Omar e Yaqub, irmãos gêmeos, filhos de Zana e Halim, descendentes de Libaneses que residem na cidade de Manaus há muitos anos.
É incrível como a vida da família acaba se pautando sobre as decisões dos irmãos: a boemia de um, o comprometimento e sucesso do outro, as rixas, a separação na adolescência, a preferência explícita da mãe por um deles desde o nascimento, tudo isso influi diretamente no destino de todos na casa.
Nas personagens femininas encontra-se força, determinação e empoderamento para a época da narrativa. É de conhecimento mútuo, a inferioridade com que a mulher era tratada no início do século XX e o autor soube construí-las de forma admirável, cada uma a seu tempo e personalidade. A presença de Domingas, por exemplo, possui extrema relevância, na casa desde muito nova, pratica seu serviço à família com força, lealdade e excelência. Zana, apesar de sua fixação por um dos filhos, possui uma garra e determinação enormes e sua filha Rânia é a personagem independente e empoderada, dona de sua vida, de suas vontades, que não admite que os outros decidam seu futuro por si. Diante dessa realidade, conclui-se que as mulheres acabam sendo os arrimos dessa família, na qual os homens se perdem numa competição de egos sem fim.
Fazer uma resenha sem pincelar sobre as personalidades dos personagens seria difícil, já que toda narrativa pauta-se bem no desenvolvimento deles. Dois Irmãos é um livro, no qual o leitor não encontra personagens fracos. Dos principais ao maior secundário, todos são bem explorados e causam em quem está lendo uma verdadeira relação de amor e ódio. Não existem mocinhos e bandidos, são como pessoas reais, com problemas reais e inerentes à muitas famílias, passíveis inclusive de fácil identificação com alguém que o leitor conheça.
O texto claro, bem escrito e coerente com a época em que se passa causa no leitor um gosto pela leitura sem precedentes. Um livro espetacular para quem aprecia personagens bem desenvolvidos e a exploração de suas ações e decisões, numa relação direta com o psicológico de cada um.
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Jhons Cassimiro 02/04/2017

Somos todos errados
Difícil compreender o que nos torna o que somos.
Os caminhos pelos quais percorremos ao longo da vida, as decisões que iremos tomar dia após dia, as derrotas que vamos acumular e que servirão de adubo para fazer florescer nossas decepções mais íntimas, são escritas por nós mesmos e por aqueles que nos cercam, em especial nossos pais.
Longe de ser um conto de fadas, a vida real nos revela, infelizmente somente após muitas décadas, que as coisas não são tão simples. Nem sempre o pai amará o filho, as vezes ele apenas cumpre sua obrigação de pai. Quase sempre a mãe escolhe um predileto e faz dele sua razão de viver.
Não se sabe ao certo o que faz um filho ser preferido de um ou de outro. Talvez a razão esteja na maneira de enxergar o mundo e suas leis de certo e errado. A mãe concorda com as atitudes de um, o pai com as do outro. Nesse momento, o conflito surge e ilude aqueles que pensam que existe um certo e um errado.
Somos todos errados.
No livro Dois irmãos de Milton Hatoum, Yaqub e Omar são os gêmeos do casal Zana e Halim. Extremamente diferentes, porém incrivelmente reais, mostram suas distintas personalidades ao longo do livro, fazendo o leitor se enxergar tanto em um, quanto no outro. Em um primeiro momento escolhemos torcer por um dos dois, mas logo percebemos que as coisas não são tão simplórias. Cada um possui sua razão de ser como é, de agir estranhamente de acordo com a maneira que a vida apresenta sua trama.
Não somos (tampouco Yaqub e Omar) personagens cumprindo um papel desempenhado pela genética, mas também não somos um livro em branco onde o ambiente ditará o que será escrito. Mas essa última alternativa possui um grande peso.
O que levou Halim a preferir Yaqub, aparentemente, foi o fato deste ter decidido partir de casa em busca de um futuro próspero, mas isto estava longe de ser uma verdade. O egoísmo de Halim é que falava mais alto ao perceber que com os filhos longe de casa ele poderia voltar a ter a felicidade sexual e a liberdade com a mulher, vivenciadas na época em que não possuiam filhos. Zana preferia Omar porque ele foi o que nasceu por último, mais frágil quando bebê. Tal fragilidade se restringiu a este período, pois o mimo exagerado de Zana por Omar o tornou alguém incapaz de ir adiante nas coisas da vida. Um eterno moleque incapaz de levar a sério qualquer coisa.
Por diversos momentos vemos Omar como o errado da história, era o mais impulsivo, irresponsável, desleixado para com os estudos e sobretudo violento contra seu irmão Yaqub. Este se tornou calado, ensimesmado após as erradas decisões que seus pais tomaram ao distanciá-lo da família de maneira forçada, logo após ele ter sido vítima da violência de Omar. A vítima acabou pagando por algo que não fez. E através dessa decisão errada que os pais impuseram, surge o Yaqub fechado, que encontra na devoção aos estudos o caminho para provar ao mundo, ou talvez aos pais e ao irmão, que ele poderia ser muito mais que um simples menino que fora obrigado a se tornar um camponês em um país distante.
Mas Yaqub não era apenas vítima. Se transformou em um homem de sucesso e após muito tempo conseguiu se vingar de Omar. Não seria capaz de esquecer tudo que passou, estava escrito em sua face através de uma cicatriz, a violência e o desprezo que Omar sentia por ele.
A proteção exagerada de Omar, promovida por Zana, determinou sua personalidade e o momento em que ela exige que ele seja diferente mostra o quão errados os pais são ao esperar algo diferente daquilo que seus filhos foram acostumados a fazer durante uma vida inteira.
Um bom exemplo disso é um pai ou uma mãe que criam seus filhos com muita proteção, longe de interações mais perigosas com o meio. Após algum tempo esses mesmos pais irão reclamar que seus filhos são pouco sociáveis, tímidos, bichos do mato. Entretanto não percebem a armadilha que eles mesmos criaram.
A situação gera um conflito estabelecendo o desencontro entre os membros da família. Surgem os desentendimentos, as brigas, o ódio, a busca pelo perdão e reconciliação que podem vir ou não.
Nem Omar, nem Yaqub, nem Zana, nem Halim, sequer um personagem do livro possuía razão. Ninguém estava completamente certo, da mesma forma que na vida real. É a crueza contida nesta história que torna o livro do manauara Milton Hatoun, extremamente doloroso de se ler.
Dói perceber o tempo passando, as pessoas morrendo, a cidade crescendo, o passado desaparecendo, o ódio se perpetuando. Dói saber que a vida de cada um de nós é bastante parecida com as histórias do livro, porque temos irmãos, pais e mães. Nos tornamos empáticos com Omar e Yaqub (se somos filhos), empáticos com Zana (se somos mães), empáticos com Halim (se somos pais). Empáticos com todos, porque estamos vivos e cheios de histórias de dor.
Dois irmãos é um retrato de nossas famílias, de nossa sociedade, de nosso país em uma época específica, porém possível em qualquer época. Nos vemos em Yaqub, o filho estudioso, que como o país, sempre promete ser próspero. Nos vemos na malemolência de Omar em seus dias preguiçosos na rede sempre gozando os prazeres da vida fácil embalada por nossas mães carinhosas. Vemos nossa sociedade retratada nas relações de poder de ricos e pobres, nos patrões e empregados, nas serviçais estupradas pelos filhos dos patrões, nos filhos bastardos.
Vemos como somos grandes criadores de paixões difíceis e perigosas, incapazes de pedir e dar perdões.


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Di 16/04/2011

Iguais, porém diferentes
Vencedor do prêmio Jabuti de 2001 na categoria melhor romance, Dois Irmãos aborda conturbada relação fraternal

O relacionamento entre irmãos sempre rendeu boas histórias. Desde o episódio épico de Caim e Abel - irmãos que protagonizaram o primeiro assassinato da história da humanidade incitado por ódio e inveja -, o tema se mostra irresistível para a criação de tramas memoráveis. O autor Milton Hatoum parecia saber disso quando escreveu Dois Irmãos, publicado em 2000 pela Companhia das Letras.
Ambientado em Manaus, entre 1910 a 1960, o livro traz a vida dos irmãos gêmeos Yaqub e Omar, filhos dos imigrantes libaneses Halim e Zana. A casa da família ainda conta com Rânia, irmã dos gêmeos; a empregada Domingas e seu filho Nael, do qual provém toda a narração da história.
O relacionamento entre Omar e Yaqub é marcado pelo ódio e encontra reforços na diferença de personalidade de ambos. Omar é o típico boêmio, passa as noites em bailes e os dias na rede do seu quarto de ressaca. Já Yaqub é o filho promissor que vai a capital para estudar engenharia civil. As diferenças são notadas desde a infância, porém o que marca profundamente o desentendimento entre os dois é quando brigam por causa de uma garota em um baile na adolescência. A luta deixa uma cicatriz no rosto de Yaqub. Um sinal permanente que o motivará a vingar-se. A convivência na casa torna-se impossível e Yaqub é mandado para o Líbano numa tentativa dos pais de apaziguar os irmãos. Quando Yaqub volta, Halim e Zana veem sua tentativa frustrada, e o bom relacionamento entre os irmãos torna-se um sonho para Zana.
Numa narrativa não linear, que intercala diferentes períodos da história da família libanesa, Hatoum provoca a empatia do leitor pela casa e pelos dilemas vividos nela. As festas, as brigas e as visitas da vizinhança são assistidas pelas mesmas paredes, pelos mesmos móveis. A imagem da casa vem acompanhada do retrato fiel de Manaus em plena transformação. A história dialoga com o desenvolvimento acelerado da economia brasileira e da repressão social na época da Ditadura Militar.
Assim como Zana, o leitor anseia a solução do desentendimento entre os irmãos; porém, mais que uma solução, Hatoum traz um verdadeiro ensaio sobre a inexplicável questão de afinidade entre membros de uma mesma família e a complexidade da alma humana quando o perdão é posto à prova.
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Íris 18/02/2009

Surpresa

Quem diria.Comecei a ler o livro porque era leitura obrigatória do vestibular que ia prestar e logo no início me surprendi,por ser um leitura envolvente e inteligente quando percebi estava fascinada pela estória.
Recomendo a todos!
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Fabio 02/03/2016

Dois Irmãos
"Dois irmãos" é a história dos gêmeos Omar e Yaqub, inimigos em um conflito constante que marca suas vidas e a de todos à sua volta. Porém não é apenas um livro sobre esta rivalidade, espécie de interpretação livre e contemporânea da história de Caim e Abel. Há de fato a intertextualidade com o relato bíblico: irmãos que recebem atenção diferenciada por parte da mãe desde o nascimento, tal como o deus que prefere Abel, deixando Caim enciumado e propenso à vingança. Neste paralelo Abel seria Omar, o filho preferido pela mãe, escolhido para ficar na casa quando começam os conflitos entre ambos na adolescência. Yaqub é Caim, o renegado, enviado para longe de casa como solução dos problemas, fechado para sempre em sua rejeição. Ao se tornarem adultos se mantém opostos, um escolhe a disciplina exagerada, o outro transforma a vida em uma festa onde todos pagam a conta. Mas Hatoum vai além, transformando lentamente os gêmeos, alternando qualidades e defeitos, distintos porém devastadores, nas personalidades que construiu completamente opostas, a ponto de não se reconhecerem em absolutamente nada além da aparência física que os une - esta também rompida por Omar ao deixar uma cicatriz no rosto de Yaqub. Assim como Caim, Yaqub se vinga, mas é Omar, tão ou mais responsável pela destruição da própria família, quem sofre a pena final de ser um fugitivo vagando sem rumo pelo mundo. Yaqub, apartado da casa e da vida que deveriam ter sido suas, refaz a vida distante, não sendo capaz de perdoar o irmão e atender o último pedido da mãe. Também Omar nunca pede perdão pelas vidas que destruiu.

Mas "Dois irmãos" não é apenas sobre estas vidas divididas que deixaram seu rastro de guerra sobre toda a família. É também um livro sobre imigrantes libaneses, Halim e Zana, pais dos gêmeos e de Rana. Sobre como chegaram e viveram, construindo do outro lado do mundo um pedaço da sua terra, ressignificando o mundo tropical com suas tradições, comendo peixe frito com Arak, mesclando o português com o árabe, se apegando a objetos que lembram o que ficou no Líbano, enfim, todas as pequenas e grandes coisas que não se localizam geograficamente senão pela ação dos deslocadas. Zana é a mãe superprotetora de Omar, que deixa a criação de Yaqub a cargo de Domingas, a índia que serve a família numa quase escravidão. A matriarca zela por três coisas em sua vida: sua casa, a memória do pai, e seu filho Omar. Sacrificará todo o resto para manter estas três coisas intocadas e próximas de si, mas acaba por abrir mão até das duas primeiras para satisfazer o filho. Halim é o pai que nunca quis ter filhos. Um imigrante simples que desejava ganhar apenas o suficiente para passar a vida em um amor erótico com a esposa, jogando e bebendo com os seus. Abriu um comércio onde recebia mais amigos que clientes, assim era feliz. Porém os filhos mudaram tudo, os gêmeos tiraram-lhe a paz com Zana, abalando para sempre o amor carnal que tanto os fazia feliz; Rana, a filha mais nova, acaba por tomar conta dos negócios do pai e transforma sua pequena venda de bugigangas em uma grande loja, saem os amigos e entram os clientes, uma apaixonada pelos negócios e astuta na arte de lucrar. Halim vai se retirando de cena na própria casa, virando um recluso na própria vida. Na loja fica apenas com uma salinha de onde olha a rua, lembrando e esquecendo de si, culpando os filhos pela vida que teve.

Domingas, inicialmente uma personagem secundária, vai crescendo na trama e se torna peça chave no enredo. É uma índia que ao se tornar órfã foi entregue a um orfanato católico, onde aprendeu a rezar e trabalhar. Seu sonho revoltado contra a instituição é o desejo de um novo destino, que acaba sendo a casa da família. Ali seu martírio continua, ainda sem liberdade, rezando e servindo dia e noite, acordando madrugadas seguidas para cuidar de Omar depois de suas bebedeiras. É também a mãe do narrador, Nael, filho de um estupro ou de um amor proibido tolerado em segredo na casa. Nael, o narrador, é outro caso à parte. Temos, em meio a tanta intensidade, uma narração que ao mesmo tempo pode observar tudo e ainda está imersa na história, tem seus próprios sentimentos e conclusões. Ele é um dos explorados, uma das vítimas da casa, e isso torna a narrativa ainda mais pessoal, repleta de inconformismo e dúvida.

Difícil ser conciso ao escrever sobre um livro com tantas reflexões possíveis, mas para terminar ressalto ainda dois pontos que circulam e constroem a história: Manaus, a cidade que ao longo da trama vai deixando de ser provinciana, simples e próxima, para se tornar uma metrópole capitalista, impessoal, com grandes obras, mudança no fluxo de trabalho, demolições, e esta é uma segunda perda para os imigrantes mais velhos, especialmente Halim, como se tivesse novamente se deslocado; o outro é o estabelecimento da ditadura militar na cidade, os saraus clandestinos, a prisão do professor de literatura, sua morte, a revolta e a impotência diante da opressão, o único aspecto capaz de aproximar alguns personagens.

Das muitas formas de se compreender o mundo através de uma história familiar, Hatoum criou uma das mais interessantes possíveis.

site: http://lovelessknife.blogspot.com.br/2016/03/resenha-milton-hatoum-dois-irmaos.html
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Pateta 22/10/2018

ROUPA SUJA SE LAVA EM CASA?
Cresci com aquela ideia: uma família é um grupo de pessoas onde os próprios laços de sangue já predisporiam seus membros a manter para sempre fortes laços de afeto. A vida ensina que há famílias de todos os tipos, onde as coisas podem ou não se dar daquele modo. A história desse livro é sobre uma família, sua origem e seu destino. Admiravelmente contada, embora nem tudo o que foi contado seja admirável. Uma história difícil de narrar num livro estranhamente fácil de ler. Um livro do qual quase não podemos nos separar. Exatamente como nas melhores e nas piores famílias.
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isa.dantas 18/01/2017

Que livro incrível, que vai muito além do conflito entre dois irmãos! Quero ler mais obras de Hatoum!
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Moacyr.Junior 09/01/2017

Impossível parar de ler
Milton Hatoum não deixa você parar de ler seu livro, impressionante!
Devido aos compromissos no trabalho, demorei 10 dias para terminar Dois Irmãos.
A história é ótima, mostrando o relacionamento tempestivo de dois irmãos gêmeos, que têm tanto de diferente entre si.
Recomendo demais a leitura da obra, não somente pela história em si como também pela cultura manauara, descortinada ao longo das páginas do livro. Tive o privilégio de morar em Manaus e matei a saudade da beleza exuberante daquela região do país, tão pouco conhecida dos brasileiros.
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Jeanne 11/01/2017

Fiquei sabendo deste livro por causa da minissérie baseada no mesmo que a Globo está apresentando, pela chamada me pareceu uma história muito boa, então busquei pelo livro.
A narrativa nos leva pra dentro de uma família complicada, tendo como centro os gêmeos: Yaqub e Omar. A escrita não é linear, vai e volta para os acontecidos; o cenário é belamente descrito, nos fazendo viajar para Manaus. O contexto histórico abarca o fim da Segunda Guerra, a industrialização do Brasil, a construção da nova capital - Brasília - onde o Norte foi esquecido, a crise econômica que afetou a vida dos brasileiros - em destaque, a dos manauaras -; logo o golpe de 1964 que encobre a cidade de militares. Mas isso não é o enfoque, o que temos aqui são as relações pessoais e todo tipo de sentimento que estas despertam em nós; desde os mais simples até os mais fortes e recalcados. Os personagens são muito bem construídos, todos são atraentes, as descrições dos ambientes, das emoções, dos gestos e jeitos são incríveis. A leitura é extremamente prazerosa, fisgando a leitora do início ao fim.
Fiquei me perguntando como não ouvi falar deste livro antes, e como pude passar tantos anos sem desfrutar tal maravilha da nossa literatura.
A adaptação pra TV está muito boa, porém nada alcança a trama lida, original. Com certeza lerei mais obras de Milton Hatoum.
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Deda 10/03/2017

Dois irmãos
A algum tempo ouvi falar sobre esse livro, mas nunca tive um forte interesse nele, logo após a exibição da minissérie na Rede Globo que tomei o real conhecimento da grandeza da obra. Posso dizer que ler esse livro foi uma das experiências mais prazerosas que já tive lendo literatura brasileira, ele abrange muitos temas importantes e te prende a uma manaus de tempos atrás, recomendo a todos que leiam.
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