Dois irmãos

Dois irmãos Milton Hatoum




Resenhas - Dois Irmãos


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Potterish 30/11/2012

Ódio em família
Família nem sempre é sinônimo de amor. Principalmente quando dois irmãos se odeiam desde os primeiros dias de sua vida. Cada um segue seu caminho, com vidas completamente diferentes, e se reencontram expondo as cicatrizes de uma família dividida.

O cenário é a cidade de Manuas e o narrador transita entre o presente e o passado da história. “Dois Irmãos” é uma obra vencedora do Prêmio Jabuti e um dos livros mais bem conceituados dos últimos tempos no país. Leia a resenha de Gabriela Alkmin e saiba mais!



“Dois Irmãos”, de Milton Hatoum


Yaqub e Omar são irmãos gêmeos, mas, além da aparência física, a única coisa que têm em comum é a inimizade que sentem um pelo outro. Muito diferentes desde a infância, a rivalidade entre os dois foi semeada aos treze anos, devido à disputa pelos afetos de uma mesma menina, Lívia. O resultado dessa competição, uma cicatriz no rosto de Yaqub, fez com que os pais achassem melhor separá-los.


O Caçula, como também era chamado Omar por ter nascido alguns instantes depois, ficaria com os pais – a mãe deles, Zana, alegava que a saúde do menino era frágil e que ele não resistiria sem os cuidados dela. Yaqub, mesmo sendo o agredido, foi mandado para o Líbano, país de origem do seu pai, levando consigo um ressentimento que carregaria até o final da sua vida.

Com o retorno do Líbano e o reencontro dos irmãos, após cinco anos, as diferenças entre os dois estão cada vez mais acentuadas. Omar, criado sob os mimos excessivos da mãe, tornou-se um bon vivant, amigo das farras e das mulheres, que não se compromete nem com os estudos nem com o trabalho. Yaqub, por outro lado, concentrou suas energias na ambição de se provar a todos, dedicando-se arduamente aos estudos, sempre alimentando, com suas mágoas, o desejo de vingança.

“Dois Irmãos”, publicado em 2000, ganhou o prêmio Jabuti daquele ano e foi traduzido para vários idiomas. Considerado pelos críticos um dos melhores romances brasileiros dos últimos anos, a trama, muito bem construída, nos apresenta a história de uma família em Manaus, sua fragmentação e suas complicadas relações. Somos apresentados aos gêmeos Yaqub e Omar, ao pai Halim, apaixonado por sua mulher, Zana, e à irmã dos gêmeos, Rânia, que foge de todos os seus pretendentes.

O narrador do livro é Nael, filho da empregada Domingas, cujo pai era desconhecido – ele desconfia, entretanto, desde o começo da história, de que seja um dos gêmeos. Através do que testemunhou e dos relatos que ouviu, principalmente através de sua mãe, Domingas, e do seu possível avô, Halim, ele tentar reconstruir a história da família, bem como a evolução e o desfecho do conflito entre os dois irmãos, em uma narrativa sem cronologia linear – o narrador recua e avança no tempo ao longo dos capítulos.

O romance também retrata as mudanças que aconteceram em Manaus durante a narrativa – do seu passado glorioso, passando pela fome e miséria durante os anos de guerra, até o regime militar e ocupação de Manaus, atraindo migrantes e causando mudanças significativas na cidade. Hatoum constrói uma narrativa envolvente, misturando a história de Manaus à história da família, convidando o leitor, através das
palavras, a acompanhar a trajetória dos dois irmãos até a última página.

Resenhado por Gabriela Alkmin

198 páginas, Editora Companhia do Bolso, 2006.
Publicado originalmente em 2000.


ACESSE: WWW.POTTERISH.COM/RESENHAS
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Portal JuLund 10/01/2017

Dois Irmãos, @cialetras
Confesso para você que o livro Dois Irmãos não me chamou muito a atenção quando o escolhi como cortesia do mês. Porém, fico feliz por minhas expectativas serem baixas, pois elas mudaram já nas primeiras linhas. Tanto que resolvi apressar a resenha para vocês e estou publicando extraordinariamente em uma segunda-feira, que não é meu dia de postagem, justamente porque hoje estreará, à noite, a minissérie baseada nessa história.

É claro que o que é adaptado, quase sempre, não é tão bom quanto o livro. Mudanças são feitas, assim como cortes e inclusões de personagens, mas, como não dará tempo para você ler a história, recomendo que assista aos episódios, mas depois leia o livro para conhecer melhor os personagens e seus dramas.

Não, Dois Irmãos não é uma trama muito dramática. É um relato da vida de vários personagens que vivem em Manaus, e sua rotina durante trinta anos. Quem narra é o filho da empregada, mas isso não está claro nas primeiras páginas. E mais: Domingas teve a participação de um dos filhos da casa nessa gestação. Isso mesmo: ela se deitou com Omar ou Yaquib.

Mas vamos à história. Os personagens principais são Nael: narrador, filho de Domingas e de um dos gêmeos; Zana, mãe dos meninos e de Rânia; Omar e Yaqub, os gêmeos; Domingas, índia que foi trabalhar para a família logo que Zana e seu marido, Halim, se casaram. Também há outras pessoas, mas seu papel é secundário na trama.

O ódio entre os irmãos começa cedo, pois é bem perceptível o amor diferenciado que a mãe tem por um dos gêmeos. Halim não queria ter filhos, desejava Zana só para ele, mas ela insistiu e eles tiveram três, conforme o desejo dela: os gêmeos e Rânia.

"Zana não se despegava dele, e o outro ficava aos cuidados de Domingas, a cunhantã mirrada, meio escrava, meio ama, “louca para ser livre”, como ela me disse certa vez, cansada, derrotada, entregue ao feitiço da família, não muito diferente das outras empregadas da vizinhança, alfabetizadas, educadas pelas religiosas das missões, mas todas vivendo nos fundos da casa, muito perto da cerca ou do muro, onde dormiam com seus sonhos de liberdade."

Resenha completa no

site: http://portal.julund.com.br/resenhas/resenha-de-dois-irmaos-cialetras
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Karlinha 29/01/2013

Uma viagem até a Amazônia
O primeiro livro do ano foi uma sugestão do meu maridinho. Eu queria um "clássico" e ele me indicou "Dois irmãos" de Milton Hatoum, um escritor de Manaus que já ganhou vários prêmios literários, incluindo Jabuti.
Dizem por aí que a obra foi comprada pela Rede Globo e pode virar micro-série tipo "O canto da sereia" que também é adaptação de um livro do Nelson Mota.
Pois bem, "Dois irmãos" conta a história de três irmãos (oi? é, é isso mesmo. Calma aí!). Os protagonistas são gêmeos: Omar e Yaqub, mas eles têm também a Rânia que é mais nova e aparece sempre.
A família dos gêmeos é de imigrantes libaneses que foram morar em Manaus lá pela década de 20. Os pais deles, Zana e Halim nasceram no Líbano, mas foram para o coração da Amazônia na juventude. Eu digo coração da Amazônia, porque era Manaus. Se fosse Belém, seria o cérebro da Amazônia, beleza? (Imparcialidade. Você vê aqui.)
Continuando... os gêmeos tem uma rixa braba desde criança e é claro que o motivo tinha que ser mulher. Os dois queriam pegar a mesma guria e aí já viu...
Mas o problema entre os dois é na verdade uma outra mulher: a mãe. Isso aí, meus caros. A trama tem um "quê" de complexo de Édipo sem igual.
A relação de Zana (mãe) e do Omar (gêmeo caçula) é um negócio meio incestuoso e aparentemente doentio (eu digo aparentemente, pois quem sou eu pra dar algum diagnóstico?). A irmã também tem verdadeira devoção por este Omar, que na verdade é a ovelha negra da família. "Uma fábula sobre o ódio". (revista Veja)
Não vou entrar muito em detalhes pra que vocês leiam o livro e tirem suas próprias conclusões, entretanto, eis o que mais gostei:
1) O livro é ambientado em Manaus durante o regime militar. Eu lembro de ter estudado sempre sobre como a ditadura refletiu no Rio de Janeiro, em São Paulo...pouca coisa de Norte, então pra nós, nortistas, é algo interessante de conhecer;
2) Os cenários descritos são altamente familiares. Igarapés, palafitas, barquinho pô-pô-pô... Pra quem está longe de casa como eu, é um bálsamo e um afago na saudade;
3) A estrutura narrativa é curiosa. Você só descobre quem é o narrador lá pelas tantas, quase no final do livro. Você se apega ao narrador, sem saber nem com quem dormiste, ou babaste em cima (da página...);
4) É muito bom reconhecer que temos autores talentosos fora do eixo Rio-São Paulo.
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03/02/2017

“Certa vez, Halim me disse que Yaqub era capaz de esconder tudo: um homem que não se deixa expor, revestido de uma armadura sólida. De um filho assim, disse o pai, pode-se esperar tudo. Omar, ao contrário, se expunha até as entranhas, e esse excesso era a maior arma de Zana.”

Essa parte, contada pelo narrador da história, define bem o que seria esse livro: irmãos gêmeos, idênticos fisicamente, porém, com personalidades completamente opostas.
Não queria me ater a uma comparação com Caim e Abel, porque vai muito além da questão de gêmeo bom/gêmeo mau.

Dois Irmãos é uma história contada aos pedaços pelo filho da empregada da casa, o Nael. Apesar de a história focar no relacionamento difícil dos gêmeos, ele aborda outros assuntos, como o dia a dia de uma família de imigrantes libaneses em Manaus nas décadas de 1940 até 1960. O autor faz um trabalho tão bem feito em nos ambientar nessa atmosfera que me senti por lá em vários momentos, assistindo de perto a ruína da família acompanhada pela ruína de Manaus.

Zana, a matriarca, apesar de tratar os gêmeos bem, tem claramente um preferido: Omar. O problema é que ela vai além do que pode ser considerado normal em uma relação mãe-filho, mimando-o tanto a ponto de estraga-lo completamente. Há nuances de algo mais entre os dois, mas fica a critério da interpretação de cada um.

Ainda quando criança, Yaqub é despachado para o Líbano pela mãe, achando que essa seria a solução para os desentendimentos constantes entre eles. Isso irá moldar a personalidade de Yaqub - assim como os mimos moldaram a de Omar - que após alguns anos depois de retornar ao Brasil, investe em seus estudos e resolve ir para São Paulo tentar uma vida melhor.

Ao longo dos anos, mesmo à distância, a rivalidade dos dois só vai aumentando, e isso acaba afetando a família toda que será desintegrada por completo.
O livro já foi adaptado para os quadrinhos pelo Fabio Moon e Gabriel Bá e para uma minissérie da Globo. Devo confessar que, apesar de já ter ouvido falar do livro (bem por cima), foi a chamada da Globo que me fez ter vontade de ler essa obra. Agora só resta conferir se as adaptações são tão carismáticas quanto o livro.
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Adriana 25/08/2016

Espetacular!
Aquele momento ao término de um livro que te deixa atônita, um romance que te prende do início ao fim, que te leva ao extremo dos sentimentos de amor e ódio. Sem palavras para dizer o quanto é bela essa obra, sorri, chorei, respirei fundo e continuei..
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tray 07/01/2017

( resenha dois irmãos) a disponibilidade de amar, cara esse livro te consome, te engole, você acaba comendo as palavras do narrador como se você não comesse há anos!

O livro acende todos os nossos sentimentos, o conflito intenso e doloroso dos irmãos ,a negligência familiar, a ausência presente do pai e mãe que deseja e sente mais amor ao caçula , Milton mostra toda sua generalidade ao nos colocar nesse conflito de qual irmão amar.

E confesso que amei Yaqub por um bom tempo, era o menino calado, o que não despertava amor desesperado da mãe, mas isso muda e é triste, porém importante.

O narrador é de uma beleza e de um conflito que te coloca na corda bamba, aliás, o livro todo vivemos nessa dualidade, quem merece nossos ouvidos a mãe ou o pai que não deseja essa casa com filhos ?!

Além dessas disparadas violentas por amor e disponibilidade, temos o crescimento de Manaus e a ditadura, temos o desejos de Rania pelos dois irmãos gêmeos, eles despertam o amor de forma diferente

Milton derruba a questão de que mãe ama os filhos da mesma forma, o amor é uma grande arena de conflito e disputas e ausências

Terminei o livro e ainda estou ali naquela casa, naquela infância e naquele desejo.

Como se recupera após essa leitura tô aceitando dicas!
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Kakau 01/06/2019

Personagens:
Irmãos Gêmeos - Yaqub e Omar
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Alessandro 02/07/2014

O simples
Um grande escritor não precisa de um enredo mirabolante para desenvolver a boa literatura, nos encantar com seu estilo e surpreender com a densidade de seus personagens.
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Gabi 17/02/2009

Uma história de ódio entre dois irmãos. E nos mostra como duas pessoas gêmeas podem ser tão diferentes.
Gostei de ler...
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Aline Teodosio 30/05/2017

Mágoa, ódio e ressentimentos
Dois irmãos conta a história de uma família marcada por mágoas, ressentimentos, ódio, raiva, inveja protagonizada pelos irmãos gêmeos Yaqub e Omar. O primeiro, centrado, calculista, contido. O segundo, explosivo, extrovertido, mimado, sem limites. Ambos nascidos da mesma barriga, mas com temperamentos completamente diferentes.
A história é narrada por Nael, filho de um dos gêmeos com a índia e criada, Domingas, que observando tudo de fora nos leva ao universo dessa família permeada de conflitos desde a infância dos irmãos.
Uma obra repleta de sentimento, com uma escrita magnífica, que enaltece a natureza humana, com seus altos e baixos, fraquezas e forças, em que o principal não é mostrar quem é o mocinho ou o vilão, mas que, como humanos, somos todos formados por qualidades e defeitos.

P.S.: apesar de entender essa premissa, continuo odiando o Omar. Haha
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Valério 26/10/2016

Contrapontos
Milton Hatoum escreveu um livro de opostos. Aqui, assim como os dois irmãos, temos o amor versus o ódio. A amizade versus a rixa. E Yaqub e Omar. Um muito correto, sensato, dentro dos padrões, dedicado. E outro solto na vida, passeando em sua existência.
Uma mulher no meio é o estopim de uma rivalidade mortal que duraria uma vida inteira.
Agressor que se torna vítima. E vítima que se torna agressor.
Evolução de duas vidas que, se não correm juntas, correm em paralelo para o encontro final.
Muito bem escrito, com a profundidade psicológica que gosto.
Forte. Real. Excelente.

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Sergio Mariano 01/10/2012

Reflexões sobre ódio e relacionamento familiar
resenha originalmente publicada no blog: www.muitoseninguem.blogspot.com.br

Ler Dois Irmãos foi uma experiência fantástica. É meu primeiro contato com a obra de Milton Hatoum e há algum tempo eu estava ansioso em ler os livros dele. Os comentários e críticas sobre esse livro fazem juz a sua qualidade.

Me envergonho muito de ter lido pouquíssimos livros de autores brasileiros e coloquei para mim como meta me dedicar mais a nossa Literatura. Livros como Dois Irmãos nos mostram como temos obras espetaculares no Brasil.

Dois Irmãos trata essencialmente sobre o ódio.

A história conta a trajetória de uma família em Manaus durante o regime militar brasileiro e através das diferenças entre os irmãos gêmeos, Yakub e Omar, vamos conhecendo os demais membros dessa família e todos os desdobramentos do relacionamento conturbado existente entre eles.

O livro é narrado por um personagem fantástico. Filho de uma empregada da casa, que não conhece seu pai, ele vai relatando tudo aquilo que presenciou e todas as confissões que foi recebendo dos familiares durante todos aqueles anos de convivência. Sua presença é sempre sutil, mesmo sendo testemunha ocular da maioria dos acontecimentos ele passa quase como um narrador relatando minuciosamente aquilo que vê.

O livro nos mostra a ação do ódio em relação ao tempo e a degradação dessa família graças às rusgas entre os irmãos que vai se agravando com o passar dos anos. Além de tratar de temas relevantes o livro é um tour por uma Manaus que eu desconhecia.

Fui arrebatado logo nas primeiras linhas e assim me mantive até a última. Recomendadíssimo.
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Day Freddi 21/09/2016

Yakub e Omar dois irmãos que não se bicam desde a infância. A mãe Zana tem um amor e uma complacência, ciúme de Omar, não quer que ele saia de casa e se aventure com outras mulheres. Omar passa a vida vivendo na esbornia. Yakub o irmão bem sucedido vai embora de Manaus para se tornar engenheiro.
A história é contada pelo filho da Domingas que trabalhou desde a infância na casa dos patrões. Halim o patriarca da família era fogoso só quais saber de se deitar na rede com Zana, mas fica um pouco de escanteio por causa das loucuras de Omar.
Rania uma das irmãs tem quase um amor platônico pelos irmãos. Enfim uma história rápida mas gostosa.
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Amanda 24/03/2018

Como estragar os filhos
Muito se fala sobre criação de filhos, falta de limites, obrigações e responsabilidades, sobre a proteção exagerada e o excesso de amor, assim como a falta dele. Sobre tornar o filho o centro da família. Ainda assim muitos pais não enxergam que a criança mimada pode se tornar o adulto transgressor, violento ou eternamente dependente dos pais. Em Dois Irmãos, Milton Hatoum nos apresenta um romance de formação riquíssimo em detalhes e causos do cotidiano de uma família descendente de libaneses em Manaus e as consequências de uma criação irresponsável.

Yaqub e Omar são irmãos gêmeos idênticos, exceto pela personalidade e favores familiares. Yaqub foi enviado para o Líbano quando criança após desentendimentos com o irmão e passou cinco anos sem contato com a família. Enquanto isso, Omar brilhou como a estrela da casa. A criança levada cresceu e se tornou um jovem fanfarrão, alcoólatra, brigão e mulherengo, mimado até os ossos pela mãe Zana.

Quando Yaqub volta do Líbano mostra-se ainda mais retraído, envergonhado, sem muito trato social e, como sempre, ofuscado pelo gêmeo "mais novo", o Caçula Omar. A casa vive em prol de Omar e Zana, que domina o marido, filhos, vizinhos e a cunhantã Domingas. Zana é teimosa, tem uma personalidade intratável, autoritária, cega pelos caprichos do filho e insensível às necessidades de Yaqub, do marido Halim e da outra filha, Rânia.

Rânia, por sinal, é completamente esmagada nesse fogo cruzado entre irmãos. Uma moça sem voz, sem vontades, sem atenções. Halim, por outro lado, apaixonado por Zana até os cabelos, tudo aguenta, tudo suporta por ela. Não interfere na criação dos filhos, prefere beber e jogar seu gamão, cuidar da loja e contar histórias.

Por falar em histórias, Dois Irmãos é narrado em primeira pessoa por um narrador a princípio desconhecido, em forma de relato, e logo percebe-se que, apesar de não sabermos quem está falando conosco, trata-se de alguém próximo à família. Ele reúne os histórias contadas por Halim, por Domingas e Zana, suas próprias experiências e as impressões que os gêmeos e essa família tempestuosa deixaram nele.

Essa é a sacada de mestre de Milton Hatoum: nos deixar curiosos até o final pra saber quem é essa pessoa misteriosa que nos conta de forma tão direta e honesta sobre os acontecimentos ao longo dos anos. O interessante é que o romance acompanha não apenas o crescimento dos gêmeos, mas também do próprio narrador, que muda sutilmente sua visão sobre algumas coisas ao longo da trama, de um olhar mais inocente e doce de criança para descrições mais maldosas e cortantes de adulto que tanto viu essa família aprontar.

Domingas, a índia, merece um enorme destaque aqui, não só pela sua doçura, mas principalmente pela crítica ao trabalho escravo. Suas passagens nos fazem atentar e refletir para esse problema que sempre fez parte da sociedade brasileira. Escravidão não afeta só negros, não representa apenas chibatadas e senzala. A escravidão também está marcada a ferro na alma das várias mocinhas e mocinhos que são criados como parte da família, mas que nunca realmente o foram, treinados a obedecer e limpar, lavar, cozinhar, passar, costurar... a servir em troca de um teto e refeições. Não ter liberdade de ir e vir, não receber o próprio dinheiro, ser explorado também é trabalho escravo.

Os passeios por Manaus que Hatoum proporciona também são um ponto alto do livro. A descrição dos pratos de peixes assados, manjares e refeições manauaras são de dar água na boca e todas as andanças pela cidade, pelos rios em canoas e barcos, bares e casinhas de palafita nos fazem respirar Manaus sem nem precisarmos pagar a passagem de ida.

Mais do que um simples romance cotidiano, Dois Irmãos é sobre o quanto os pais podem e influenciam na moldagem de caráter e personalidade dos filhos, quanto dos sucessos e fracassos são responsabilidade dos genitores. Amor demais estraga, assim como uma planta encharcada de água apodrece. Amor de menos também, como fel na língua, amarga a alma.
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daniel henrique 02/10/2009

Mais que a história de dois irmãos, a história de toda uma família!
Peguei o livro para ler ao acaso. Nunca tinha ouvido falar, mas a cada página a história ia me fisgando mais.
Hatoum é genial em sua composição. Sua escrito é, eu poderia dizer, lirica. Vi muita influência de Raduan Nassar em Dois Irmãos, mas isso é um grande elogio.
Gostei bastante e recomendo.
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