Dois irmãos

Dois irmãos Milton Hatoum




Resenhas - Dois Irmãos


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Keylla 07/01/2017

Após a Rede Globo anunciar sua nova minissérie baseada num livro de autor brasileiro, fui atrás do autor para conhecer sua obra. Não havia lido algo de Milton Hatoun e essa foi minha primeira obra.

A sinopse já me chamou a atenção. Uma história sobre gêmeos. Eu sou gêmea. Sei os amores e dissabores que essa relação exige.

Os gêmeos e personagens principais são Yaqub e Omar. A relação deles é marcada por uma desavença desde a infância e essa cicatriz não está cicatrizada, tanto fisicamente quando emocionalmente, o que gera um afastamento e reclusão entre os irmãos. Halim, o pai, sempre se ocupa com os afazeres do comércio e nunca quis ter filhos. Zana, a mãe, nunca escondeu a preferência por Omar. Para ela, o fato dele ter quase morrido quando nasceu o fazia frágil e necessitava de seus cuidados para sobreviver. Essa dependência se prolongou par a a fase adulta. Domingas, a governanta, cuidava da casa e de Yaqub.

Quando crianças Yaqub e Omar eram apaixonados por Lívia, sua vizinha. Por ela tiveram uma série desavença, e Yaqub ficou com a marca física dessa lembrança. Após esse acontecimento, Halim decidiu enviar Yaqub para o Líbano. Talvéz a distância fizesse com que os filhos esquecessem a mágoa, se perdoassem e conseguissem retomar a relação de irmãos. Sozinho, com treze anos de idade, foi mandado para longe da família. E ficou por lá cinco anos, até que ele volta um garoto duro, amargo e sofrido por ter tido que aprender a viver e a trabalhar longe da família, em outro país.

De um lado um adolescente recluso e calado, com um futuro promissor. Do outro lado, o gêmeo que gostava de farra, bebida, mulheres, festa e gostava de viver o hoje. O responsável e o preguiçoso. O reservado e o extrovertido. O ressentido e o protegido.

Com uma riqueza psicológica dos personagens, a história é desenvolvida e o leitor é envolvido no enredo. Além de uma detalhada cultura manauara, que nos remete à época e nos faz viajar e conhecer a cultura regional. O narrador, que é revelado na metade do livro, se insere na trama, vai nos revelando a história e nos despertando o desejo de saber mais.

Impossível não associar à criação católica, de Caim e Abel como também em Esaú e Jacó. Vemos em Zana, a encarnação da personagem bíblica , Rebeca, mãe dos gêmeos Esaú e Jacó, que também prefere um filho ao outro, e cuja a rivalidade será praticamente eterna.
A obra é riquíssima em detalhes da cultura manauara, em descrições psicológicas e nos diálogos . Narrativa muito bem construída. Livro muito bem escrito. Um trato das relações humanas. Um livro que te leva a pensar na multiplicidade cultural do país, e que certamente é enriquecedor.
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Renato 14/12/2016

Profundo, tocante, e, como já colocaram, arrebatador.
O melhor livro que já li.
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leila.goncalves 12/07/2018

Ódio Fraterno
Publicado em 2000, após onze anos da estréia de Milton Hatoum com "Relato de um Certo Oriente", o romance "Dois Irmãos" gira em torno da conturbada relação entre os gêmeos Yaqub e Omar, manauaras de origem libanesa. Em síntese, o escritor recria a rivalidade "ab ovo", presente no Velho Testamento e já explorada por Machado de Assis em "Esau e Jacó".

Indo de 1910 até a década de sessenta, o livro exibe Manaus após um período de crescente desenvolvimento econômico e cultural provocado pelo ciclo da borracha. Trata-se do retrato de sua decadência e posterior reconstrução que está intimamente ligado a vida de Halim, pai dos gêmeos, e é narrado por Nael, seu único neto. O jovem apesar de jamais ser tratado como parte da família, é filho de Yaqub ou Omar com Domingas, a empregada da casa, que se recusa a tocar no assunto. Envolvido emocionalmente com os acontecimentos, revela-se um narrador tendencioso, capaz de distorcer a história como melhor lhe aprouver.

Além de abordar o ódio fraterno, o livro exibe outros temas paralelos e de caráter universal como a desagregação familiar e a formação identitária além de acontecimentos históricos cuja repercussão vão além das fronteiras da cidade como a Segunda Guerra e a Ditadura Militar, logo, enquadrá-lo unicamente como um romance regionalista é um erro imperdoável.

Outro ponto curioso são os avanços e recuos temporais que Hatoum maneja com destreza, encaminhando o leitor para um desfecho tocante e muito bem escolhido. Com relação a escrita, ela prima por uma linguagem coloquial no qual mesclam-se palavras árabes e indígenas numa intrigante sintonia.

Para os vestibulandos, é imprescindível distinguir as diferenças entre os gêmeos, pois frequentemente essa é a questão mais abordada nos exames. Vai uma ajuda: enquanto Yaqub é um engenheiro tímido e conservador que fez fortuna sem ajuda da família em São Paulo, Omar não passa de um beberrão, boêmio e conquistador que conta com os mimos de Zana, sua mãe, para levar a vida dessa maneira.

O escritor confirmou na série "Livro de Cabeceira" no YouTube que Domingas foi inspirada em Felicidade, protagonista do conto "Um Coração Simples", uma pequena joia legada por Flaubert.

Indubitavelmente, "Dois Irmãos" está entre os melhores romances contemporâneos e merece sua atenção assim como as demais obras do autor.
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Alex Nascimentto 01/08/2017

Devastador
Gente, que livro maravilhoso é esse, hein?! Quero confessar que essa obra já estava há um tempo na estante, é só agora em julho, eu pude fazer a leitura, no entanto já vi a série.
O livro é de autoria do Milton Hatoum. Mais uma vez somos levados a Amazônia, nas décadas de 40 à 60, e conhecemos uma família de libaneses imigrantes.
Num lar marcado por mágoas, ódio, inveja, acompanhamos a jornada de Yakub e Omar, dois gêmeos totalmente diferentes, filhos de Zana e Halim, o casal também tem uma filha chamada Rânia.
Até a chegada dos filhos gêmeos, tudo era flores na relação entre Zana e Halim, é tanto que eles decidem, antes do tal nascimento, adquirir uma índia chamada Domingas para ajudar nas tarefas domésticas.
Omar é o gêmeo que nasceu por último, recebendo cuidados excessivos de sua mãe, enquanto o outro irmão, Omar, é enviado ao Líbano, logo após protagonizarem juntos uma briga que gera um mal entendido que mexe com essa família para sempre.
Essa obra foi meu segundo contato com esse autor, sendo também um livro com um enredo muito bem construido, personagens fortes e marcantes. Além do "mistério" do narrador, que só conseguimos descobrir lá pela página 100.
O livro também aborda a questão da figura feminina, do erotismo, da guerra entre pai e filho, o desfuncionalismo da família, entre outros.
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Raquel Lima 21/01/2013

É sempre bom conhecer novos autores, este tem uma escrita muito boa, seu texto é bem apurado, seus personagens são bens constituídos, uma ótima formação textual, mas o enredo é ...o que posso dizer para não parecer injusta... Deixa eu ver se consigo explicar minha decepção: Me interessei pela obra por ter uma trama baseada na colonização libanesa, apesar de na região amazônica,achei que poderia acrescentar alguma coisa ao meu conhecimento, que acabei me tornando próxima.Infelizmente, a trama corre muito além do tema sobre colonização, longe de lembrar o Esaú e Jacó de Machado de Assis, os gêmeos estão mais para Caim e Abel mesmo, seu ódio um pelo outro é sem proposito, motivado por ciúme, principalmente pela síndrome de Jocasta que arrasta toda a história.
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avdantas 21/01/2016

Imagine quantas histórias sobre irmãos que se odeiam você já leu/ouviu/conheceu na sua vida. Foi o que pensei sobre este livro. Mas desde o começo, eu dei um crédito imenso ao autor. Já havia lido um livro de Milton Hatoum antes, chamado “Relato de um certo oriente”. Ouvi falar do autor ainda na faculdade, com muito entusiasmo. O que posso dizer, agora, das narrativas de Hatoum é: exóticas. Primeiro, porque se passam no norte do país, no Amazonas, tendo Manaus como pano de fundo, a floresta, a mistura do português com outras línguas nativas e não nativas. Segundo, porque a maioria das personagens de Hatoum são imigrantes ou descendentes de imigrantes libaneses. A mistura de duas culturas, uma nacional e outra internacional, porém ambas desconhecidas minhas, tornaram as narrativas muito, muito excitantes.
“Dois irmãos” é considerado pela crítica especializada um dos melhores romances brasileiros da atualidade. É um livro que supera expectativas, mas vou arriscar o motivo: Hatoum não subestima seus leitores. A história, apesar de ter como “gancho” principal a relação conflituosa entre os irmãos Omar e Yaqub, não gira só ao redor desses dois personagens. Na verdade, a história é centrada muito mais na influência que a relação desses dois personagens ocasiona nos outros integrantes da família: Halim, o pai; Zana, a mãe; Rânia, a irmã e Domingas, a agregada e empregada da família e seu filho. Começa com o fato de que a história é apresentada por um narrador em primeira pessoa que só se “mostra” (se dá a conhecer de fato) depois de decorridas cinquenta páginas do relato e de toda a história ter iniciado. Sabemos, então, que quem narra é o filho de Domingas (só saberemos seu nome muito tempo depois, contado de uma forma extremamente honesta, sem parecer uma obrigação narrativa).
Os irmãos, gêmeos, se odeiam desde a infância, pois tinham personalidades muito divergentes. Tudo se agrava quando ambos se interessam pela mesma menina e Yaqub consegue beijá-la em uma festa no porão da vizinha. Omar, meio enciumado meio humilhado (é assim que o narrador faz parecer de fato) rasga o rosto de Yaqub. A família sente medo da relação dos irmãos e resolve mandar Yaqub para morar com a família numa aldeia no Líbano. Sim, parece absurdo exilar um filho assim só por medo da relação dele com o irmão, mas lhe adianto que este livro é composto de uma série de escolhas péssimas por parte dos pais dos gêmeos. A mãe, Zana, não permite que Omar vá também, pois tem medo que ele se machuque, alegando que o filho é muito frágil. A partir daí, a superproteção de Zana com Omar leva as coisas a níveis muito ruins.
Quando Yaqub volta, anos depois, ele e o irmão já são estranhos e o ódio que sentem é mutuamente cultivado. Muitos conflitos acontecem ao longo da narrativa que inflamam essa relação. Aí vem um grande diferencial da narrativa: não existe um gêmeo bom e um gêmeo ruim. Os dois têm personalidades muito diferentes: Omar é abusivo, fanfarrão, malicioso; Yaqub é orgulhoso, não mede esforços para conseguir o que quer e não tem medo de abandonar todos. Ao longo da narrativa a família sente pena de um ou de outro, sem entender propriamente quem é culpado de que na história dos irmãos; o leitor é levado junto, ora simpatiza com Yaqub, ora com Omar.
O fim da narrativa é trágico, mas não porque aconteceu algo trágico necessariamente. Esta é uma história familiar, extremamente sedutora, porque pode ser real. A profundidade dada às personagens faz com que o leitor se familiarize com cada uma delas. Desde o distanciamento da família que Yaqub almeja à atitude extremamente passiva e condescendente de Zana com Omar.
Além disso, Hatoum cria uma trama temporal muito bem desenvolvida, mesclando casos particulares da família com a situação histórica de quando a narrativa acontece (fim da segunda guerra mundial e início da ditadura militar brasileira). Apesar disso, esse cenário político não é trabalhado de forma exagerada. Existem momentos, inclusive, que é possível esquecer da influência da ditadura militar, já que ela quase nunca é enunciada pelo narrador, o que, para mim, demonstra a incrível capacidade que Hatoum tem de criar personagens verossímeis.
Por fim, eu ressalto o cuidado com os pormenores da narrativa que Hatoum demonstra. Hoje em dia, na era das sagas literárias e da necessidade de colocar no mercado um livro por ano, ler um livro realizado com cuidado é algo refrescante, quase orgástico, mesmo. (Não estou criticando as sagas literárias. Eu mesmo sou um grande fã de sagas).

Um livro incrível e envolvente.


site: http://cheirodesombra.blogspot.com.br/
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mouemily 19/05/2017

Eu demorei um tempo pra pegar o ritmo de Dois Irmãos, mas, depois que peguei, fiquei boba com a beleza da história. Apesar do foco principal - o relacionamento dos gêmeos Omar e Yaqub e como o mesmo molda a vida de toda a sua família - ser bem trágico e repleto de vingança e ódio, tem muita coisa linda aqui.

A começar pela prosa - esse é o primeiro livro do Milton Hatoum que eu leio e eu me apaixonei? Dá pra ver que ele sabe muito bem do que está falando e as descrições de Manaus e das comidas e dos animais eram muito bem feitas e maravilhosas e bem colocadas no texto - me lembrou até mesmo Iracema e O Guarani (só que mais legal), e a presença da Domingas, a índia catolizada vendida para Zana como empregada e mãe do Nael, o narrador, só reforçou essa ideia, mas de um jeito doloroso e lindo.

Aliás, como não amar os personagens todos e se deixar envolver por suas histórias? O amor de Halim por Zana e seu ressentimento dos filhos por roubarem ela dele, o amor maternal de Zana que chega a ser possessivo e ciumento, a presença constante de Domingas e seu relacionamento complicado com os gêmeos, a Rânia, apaixonada pelos dois irmãos, devota a eles com um fervor quase tão feroz quanto o da mãe, assumindo a loja do pai, o próprio Nael, um narrador incrível - todos eles são fantásticos e, mesmo com suas falhas e erros, é difícil não gostar de cada um deles (ok, confesso, peguei birra dos gêmeos, MAS OS OUTROS PERSONAGENS!!!).

Enfim, adorei demais essa leitura, mesmo ela sendo bem curtinha, e fico até meio triste que não conheci o Hatoum durante minha graduação em Letras. Esse, com certeza, seria um dos livros / autores que me teriam feito me apaixonar pelo curso.
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A! 27/06/2017

Romance nacional que retrata uma relação tumultuada de uma família de origem libanesa que vive em Manaus. Tem como foco a relação de dois irmãos gêmeos Yakub e Omar (o Caçula). Os irmãos dividem a casa os pais Halim e Zana e sua irmã Rânia, além de Domingas, empregada da família, e seu filho.
O autor envolve o leitor na descrição dos aspectos de Manaus, das ruas e cultura local. Revela uma Manaus em desenvolvimento, entre o período da segunda Guerra até o Golpe de 64. É possível ler as histórias de personagens que se entregaram ao incesto, à vingança, ao ódio e à paixão desmesurada.

site: https://www.youtube.com/watch?v=FsL-Gs7mO8Q
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Talita Fernanda 13/01/2017

Talvez, o mesmo corpo mas, jamais, o mesmo coração
Dois irmãos, idênticos no que diz respeito à aparência física. Encontrando-se um em frente ao outro, ficamos com a impressão de que apenas um deles está diante de si mesmo em um espelho. O que os diferencia, então? Deixemos que o próprio autor, Milton Hatoum nos conte no trecho a seguir:

Do cabelo cacheado de Yaqub despontava uma pequena mecha cinzenta, marca de nascença, mas o que realmente os distinguia era a cicatriz pálida e em meia-lua na face esquerda de Yaqub.

Esta cicatriz talvez tenha sido o começo de tudo, do eterno duelo entre os irmãos. Entretanto, não fora por meio de uma garrafa quebrada no rosto do primogênito que Omar revelara a antipatia pelo irmão. Desde crianças os dois se viam como opostos um do outro. Yaqub era o intelectual, tinha medo de subir em árvores ou de arranjar briga com os curumins da vizinhança; Já Omar fora expulso do colégio por agredir o professor de matemática e era conhecido por passar as noites em festas e por namoriscar o maior número possível de garotas.
No entanto, como se vê na vida, no livro "Dois Irmãos" é justamente o filho mais rebelde que é mais protegido. Zana, mãe dos meninos, cobre o filho mais novo de mimos e justifica da forma mais cega possível todos os erros que este comete. Sua visão é tão deturpada por esta verdadeira obsessão que ela sente pelo filho Omar que, ao chegar de suas noitadas, o garoto sempre encontrava a sua rede armada e a mãe e a empregada, Domingas, prontas para mimarem-no até que ele adormecesse.
Por ocasião da cicatriz, Yaqub fora mandado para o Líbano, com apenas 13 anos, passando lá cinco anos distante da família e sem entender direito o motivo pelo qual estava sendo punido. Afinal, não fora ele quem ficara com a horrível cicatriz fruto da garrafada que o irmão dera-lhe no rosto naquele dia fatídico? Por que ele e não o irmão fora para aquela aldeia miserável?
Ao longo do livro, vemos Yaqub crescer e ir embora para São Paulo, tornar-se um engenheiro muito bem sucedido e com capacidade suficiente para cuidar de si, desdenhando qualquer tipo de ajuda dos genitores. Não é apenas o irmão mais velho que nota a cegueira que parece corroer a família, mas também Halim, baba (pai em árabe) dos garotos que vê onde tudo aquilo pode levá-los. Ele também não suporta ver as mulheres da casa, inclusive sua única filha, Rânia alimentando as excentricidades de Omar. A irmã, tão cega quanto a mãe, dava mesada ao irmão rebelde. Ao mais velho desprezava pois entendia que este perseguia ao irmão caçula.
É impossível passar de forma indiferente pela história desses dois irmãos. O sonho da mãe, em meio a culpa por uma criação tão desigual, era que os irmãos fizessem as pazes e assim o foi até sua hora derradeira.
Para esta mãe cega em termos de discernimento, não havia diferença de caráter entre os filhos. Ela poderia tratá-los de forma desigual, mas jamais admitira uma comparação que diminuísse o caçula em detrimento do mais velho, tal como se pode perceber no trecho a seguir:

Alguém disse que ele era mais altivo que o irmão. Zana discordou: ?Nada disso, são iguais, são gêmeos, têm o mesmo corpo e o mesmo coração?. Ele [Yaqub] sorriu, e dessa vez a hesitação da fala, o esquecimento da língua e o receio de dizer uma asneira foram providenciais.

O narrador do livro é filho de Domingas, a empregada, neto de Halim, filho de um dos gêmeos. Fruto de uma relação completamente obscura, olha para esta família como um expectador externo, podendo enxergar sem piedade suas mazelas. Não é indiferente ao que acontece na casa, tem seus ímpetos de raiva diante das injustiças ocorridas ali. Enxerga, entretanto, o que todos escondiam uns dos outros.

A mesma voz, a mesma inflexão. Na minha mente, a imagem de Yaqub era desenhada pelo corpo e pela voz de Omar. Neste habitavam os gêmeos, porque Omar sempre esteve por ali, expandindo sua presença na casa para apagar a existência de Yaqub. Quando Rânia beijava as fotos do irmão ausente, Omar fazia umas macacadas, se exibia, era um contorcionista tentando atrair a atenção da irmã. Mas a lembrança de Yaqub triunfava. As fotografias emitiam sinais fortes, poderosos de presença. Yaqub sabia disso? Sempre com a expressão altaneira, o cabelo penteado, o paletó impecável, as sobrancelhas grossas e arqueadas, e um sorriso sem vontade, difícil de compreender. O duelo entre os gêmeos era uma centelha que prometia explodir.

Ele, e somente ele, filho de uma índia, neto bastardo de Halim teve discernimento para ver onde toda aquela história poderia dar. As consequências seriam devastadoras. Ao término da leitura ficamos com a sensação de que Omar não foi somente beneficiado com o protecionismo da mãe, foi também completamente arruinado por este. Entretanto, nego-me a colocá-lo aqui como vítima de uma educação torta. Ninguém é completamente passivo diante da vida, tão pouco, completamente responsável pelos rumos que ela toma.
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Ziza 19/01/2017

É muita obsessão pra pouca família.
De maneira geral, achei interessante a narrativa do romance "Dois irmãos" - Omar e Yaqub - duas pessoas tão iguais fisicamente, porém, tão diferentes em seu modo de ser. Não tem como deixar de se impressionar com a perturbadora e doentia relação familiar mostrada na história contada. Certos trechos são, de certa forma, incômodos - ódio, carnalidade, incesto - o “amor” de uma mãe que acaba por destruir a honra e paz geral. A imobilidade e fraqueza do pai diante de uma paixão tão forte que o torna incapaz de manter a firmeza e sensatez diante de um sentimento maternal obsessivo e, tudo isso, num contar tranqüilo e memorial; na voz do narrador e último descendente do clã Halim: Nael, seu neto bastardo, fruto violência, da desonra.
Outro ponto que gostei foi a naturalidade no relatar aspectos ambientais e históricos. Para mim, uma nortista, ficou compreensível quando Hatoum descrevia lugares, sabores, costumes dos lugarejos de Manaus. Dava até pra imaginar todas as circunstâncias descritas de um jeito que só quem mora aqui (Norte) sabe como é.
A literatura amazônica foi elevada com uma habilidade que mostrou que aqui também tem autores sensacionais! ;)
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Natália | @tracandolivros 01/06/2019

Dois irmãos
❝Me dá raiva comentar certos episódios. E, para um velho como eu, o melhor é recordar outras coisas, tudo o que me deu prazer. É melhor assim: lembrar o que me faz viver mais um pouco.’❞
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Yaqub e Omar são irmãos gêmeos, apenas na aparência, porque os gênios são outros; e no fundo mesmo, eles se odeiam. Toda a cordialidade existente entre eles teve fim com o episódio em que os dois gostavam da mesma moça, mas ela escolheu Yaqub. Com raiva, Omar bate no irmão, deixa ele com uma cicatriz no rosto, e assim até a aparência deles tem uma quebra.

Depois desse acontecimento, os pais resolvem que é melhor afastar os meninos e enviam Yaqub para morar no Líbano, após 13 anos ele volta para Manaus, e assim tem início a nossa estória.
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❝Louca para ser livre.’ Palavras mortas. Ninguém se liberta só com palavras. Ela ficou aqui na casa, sonhando com uma liberdade sempre adiada. Um dia, eu lhe disse: Ao diabo com os sonhos: ou a gente age, ou a morte de repente nos cutuca, e não há sonho na morte. Todos os sonhos estão aqui, eu dizia, e ela me olhava, cheia de palavras guardadas, ansiosa por falar.❞
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Quando foi lançada a minissérie sobre esse livro houve uma febre, todo mundo resolveu ler ele, e vi muitas opiniões como “melhor livro do ano”, e até mesmo no livro diz que ele é “eleito o melhor romance brasileiro dos últimos quinze anos por críticos literários”. Para deixar claro, não sou uma crítica literária, sou apenas uma leitora, e como leitora eu não enxerguei o que os críticos viram.

Dois Irmãos é um livro com uma premissa interessante, com uma família extremamente problemática, todavia eu não consegui me conectar a ela, e me pareceu que o autor apenas jogou os problemas e não trabalhou eles. Me parece que ele pegou um quadro e apenas jogou umas cores de tinta, mas não se importou em misturar elas e combiná-las. Eu sinto que todos os problemas abordados poderiam ter sido mais aprofundados.

De forma alguma eu digo que este é um livro ruim, a escrita do autor é sensacional e flui super bem, mas não é uma estória que me cativou como aos outros leitores e aos críticos.

site: https://www.instagram.com/p/BiXHiWpHoZr/
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Lorena Alhadeff 29/01/2017

Intenso, incrível, desequilibrado!
Que livro! De uma intensidade incrível, ao mesmo tempo descreve uma família desequilibrada, a começar pelos pais dos gêmeos...
Numa mesma história Milton Hatoum mescla descrições de paisagens, vida cotidiana de Manaus entre os anos 40-60 (e suas respectivas mudanças), personalidade dos integrantes da família de Halim e de muitos personagens que habitavam as redondezas do local onde os protagonistas viviam. São várias informações, mas o desenrolar da historia e a escrita do Milton é harmoniosa e entrelaça a evolução e o rumo de cada personagem com perfeição. Gostei demais, quero ler outros livros dele...
Essa história não linear se inicia com um narrador, que inicialmente não sabemos que é, falando sobre a situação atual da família e trás à tona lembranças do passado. É dele o relato das ocorrências na casa e vida da família, bem adiante descobrimos sua identidade.
Essa história fala de uma típica família de raízes libanesas, cujo chefe é completamente cego de amor pela esposa e permite que ela cometa todo e qualquer absurdo, principalmente em relação à criação dos filhos. A partir dela vi que o ditado "a mão que balança o berço governa o mundo" é verdadeiro. A caótica e violenta relação entre os irmãos gêmeos e que posteriormente irá influir na ruína da família vem do desequilíbrio da relação dos pais: Zana demasiadamente autoritária com seu amor desequilibrado pelo seu Caçula e Halim, permissivo. Sim, em alguns momentos Halim tenta tomar as rédeas dos problemas e pôr limites no Caçula, mas Zana é inteligente e manipuladora e sabe enfeitiçá-lo a partir do seu ponto fraco, o amor, então, ponto para ela sempre! Neste turbilhão de confusões entre os irmãos e acontecimentos diversos temos passagens picantes na história: insinuações de incesto, estupro e relatos bem sensuais da relação fogosa entre Zana e Halim e dos amores dos gêmeos. Há Rânia, a Irmã caçula que idolatra (excessivamente) os irmãos e posteriormente toma as rédeas das finanças da casa; Domingas, empregada da família e possível amante de um dos irmãos. Ela possui uma personalidade forte e reprimida que só o filho reconhece. E temos Nael, o menino sofredor e observador. Conhecemos esta história a partir do seu ponto de vista dos acontecimentos... Teria muito mais a falar mas não conseguiria evitar spoilers rsrs. Só tenho a dizer que a releitura deste livro é certa!
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Lu 22/02/2013

Tenho a impressão que daqui uns anos esse livro vai virar um dos clássicos da literatura brasileira.
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Daniel 11/08/2012

Leitura recomendada.
O livro é muito bem escrito, gostoso de ler e os personagens são muito bem construídos psicologicamente. Eles parecem reais! A impressão que dá é que você já os viu e conversou com eles em algum lugar...
Achei que a história ficou um tanto circular, sempre indo e voltando ao mesmo lugar...mas acredito que essa seja a proposta do livro, o ódio entre os dois irmãos e a forma como o relacionamento deles altera a vida de toda uma família.
O livro me causou grande impressão após terminar a leitura, mas não me marcou muito. Dois dias depois ele estava fora da minha mente.
Infelizmente não consegui "entrar" dentro da história.
Talvez seja culpa minha, eu não estivesse em um bom momento para lê-lo. Só por isso leva as três estrelas (bom). Mas é um livro muito profundo, com muitas coisas nas entrelinhas, gerador de muitas discussões, basta digitar seu nome no Google para ver diversas interpretações diferentes. Vale uma nova leitura para tentar maior imersão.
Eu o recomendo a qualquer pessoa e com certeza vou ler outros livros do autor.
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