História da Loucura

História da Loucura Michel Foucault




Resenhas - História da Loucura


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Paulo.Incott 22/02/2017

História da Loucura - Foucault
Em História da Loucura Foucault constrói uma genealogia do modo como a sociedade abordou a questão na loucura. O filósofo detém sua atenção na transição da era clássica para modernidade, procurando discernir o pensamento que permitiu uma mudança drástica na forma como os loucos passaram a ser vistos. Por que os loucos se tornaram um problema com o qual a sociedade passou a se preocupar em determinado momento histórico? Que estruturas de poder permitiram os dois grandes internamentos e em que ponto estes são semelhantes e no que eles diferem? Dei que modo o pensamento positivista permitiu a abordagem médica da loucura (cura) e que efeito isso teve sobre a vida dos loucos? Que relações se estabelecem ao longo do tempo entre a loucura e o desatino, a paixão, a erudição, o medo, a razão, a verdade? O que nos revelam as diversas formas de "tratamento" as quais os loucos foram submetidos? Todas essas questões foram objeto de estudo de Foucault nesta obra. Importante destacar que o grande liame que se pode estabelecer entre toda a produção de Foucault é o desejo de compreender os mecanismos de exercício do poder, compreender de que forma as relações de poder se estabelecem, se reproduzem e atuam de modo a criar conhecimento e se auto-reforçarem, auto-perpetuarem.
Paulo.Incott 28/02/2017minha estante
Ao invés de fornecer uma resenha propriamente dita, que além de extensa se mostraria confusa diante do pensamento não "linear" com o que Foucault conduz sua obra, destacarei passagens fundamentais:
p. 55, 56: no final do Séx. XVIII..."em 50 anos o internamento tornou-se um amalgama abusivo de elementos heterogêneos... cabe interrogar qual foi a forma de sensibilidade à loucura de uma época que se costuma definir através dos privilégios da razão. O gesto que ao traçar o espaço do internamento conferiu-lhe poder de segregação ... não é simples. Ele organiza numa unidade complexa uma nova sensibilidade à miséria e aos deveres de assistência, novas formas de reação diante de problemas econômicos, desemprego e ociosidade, uma nova ética do trabalho e também o sonho de uma cidade onde a obrigação moral se uniria à lei civil, sob as formas autoritárias da coação"

p. 61 :"o internamento... terá essa estranha convertibilidade que das mudar o sentido conforme o mérito daqueles a quem se aplica. Bons pobres...gesto de assistência... os maus....repressão"
p. 62: "o aro da culpabilidade é o primeiro dos grandes nos quais a era clássica irá fechar a loucura"

p. 73: "a partir da era clássica a loucura é percebida através de uma condenação ética da ociosidade e numa imanência social garantida pela comunidade do trabalho. Esta comunidade adquire um poder ético de divisão que lhe permite rejeitar, como num outro mundo, todas as formas de inutilidade social"

p. 75, 76: "os muros do internamento encerram uma cidade moral com a qual a consciência burguesa começa a sonhar no séc XVII... uma espécie de soberania do bem... a internação oculta ao mesmo tempo uma metafísica da cidade e uma política das religião"

p.99: "na repressão do pensamento e no controle da expressão o internamento não é apenas uma variante incomoda das condenações habituais. Tem sentido preciso e deve representar um papel particular: o de conduzir de volta à verdade através da coação moral. E com isso ele designa uma experiência do erro que deve ser compreendida antes de tudo como ética

p. 108: "Nós, os modernos, começamos a nos dar conta de que, sob a loucura, sob a neurose, sob o crime, sob as inadaptações sociais corre uma espécie de experiência comum da angústia"

p. 115: "o internamento não é um primeiro esforço na direção da hospitalização da loucura... não é de surpreender que as casas de internamento tenham o aspecto de prisões"

p. 124: citando Tuke > "o medo é o princípio mais eficaz para reduzir os loucos a uma conduta ordenada"

p. 128: "o que pode determinar e isolar a loucura não é tanto uma ciência médica quanto uma consciência suscetível de escândalo"

p. 137: "é na qualidade da vontade, e não na integridade da razão que reside finalmente o segredo da loucura"

p. 141: "o internamento aparece como um exorcismo bem sucedido"

p. 145: "o internamento se explica no desejo de evitar o escândalo"

p. 148: "até o começo do séc. XIX os loucos continuam a ser monstros - isto é, seres ou coisas que merecem ser mostrados"

p. 155: "essa animalidade da loucura que o internamento exalta, ao mesmo tempo em que se esforça por evitar o escândalo da imoralidade do irracional"

p. 181: "na própria medida em que não sabemos onde começa a loucura, sabemos, através de um saber quase incontestável, o que é um louco"

p. 183: "entre o louco e o sujeito que pronuncia "esse aí é um louco" estabelece-se um enorme fosso"

p. 184: "esta nova forma de experiência inaugura um novo relacionamento da loucura com a razão: não mais dialética como no séc XVI, nem oposição simples e permanente, nem rigor da partilha como no começo da era clássica, mas ligações complexas e estranhamente estabelecidas...A loucura tem uma dupla maneira de se postar diante da razão: ao mesmo tempo do outro lado e sob seu olhar." ... "a razão considerada como norma e definida como sujeito do conhecimento" ... : o louco não pode ser louco por si mesmo mas somente a partir do olhar do outro"

p. 204: "a definição das perturbações de inicío chamadas vapores" > prevalência eletroquímica de percepção

p. 206: "um mundo de símbolos e imagens está nascendo"

p. 213: "a polêmica que no séc XIX se tornará indubitavelmente evidente: ou a loucura é uma afecção orgânica de um princípio material ou é a perturbação espiritual de uma uma alma imaterial"

p 214: "no ciclo das paixões a loucura ganha consideração de causalidade próxima e longínqua"

p. 237: "o delírio torna-se condição necessária e suficiente para que uma doença seja chamada de loucura"

p. 241, 242: "a loucura começa ali onde se obnublina o relacionamento entre o homem e a verdade" ... "cegueira: palavra das quais mais se aproxima da essência da loucura clássica"

P. 249!!! : "o internamento não pode ter por finalidade outra que uma correção" ... "a loucura portanto é a negatividade"

p. 295: "a cegueira vai tronar-se insconsciencia, o erro falta e tudo que designava na loucura a paradoxal manifestação do não-ser se tornará castigo natural por um mal moral... domínio que será ocupado conjuntamente pela psicologia e pela moral. A psiquiatria científica do séc XIX tornou-se possível"

p. 299: "por meio de transformações químicas e regenerações fisiológicas o ópio assume o valor de medicamento universal"

p. 306: ainda existe todo um corpo técnico de cura que nem médicos nem a medicina nunca controlaram" ... "esta fragmentação que separa na medicina teoria e pratica é sensível especialmente na loucura... na segunda metade do séc XVIII os alienados são cuidados por vigilantes e não por médicos"

p. 325: "não é possível no séc XVII distinguir medicamentos físicos e psicológicos ou morais"... "a psicologia organiza-se, como meio de cura, ao redor da punição"

p. 394: "a era positivista foi testemunha incansável desta ruidosa pretensão de ter sido a primeira a libertar o louco de uma confusão lamentável com o condenado... de ter separado a inocência do desativo... essa pretensão é vã"

p. 395: "ela não evoluiu no quadro de um movimento humanitário, tampouco sob a pressão de uma necessidade científica.. é do fundo do próprio internamento que surge esse movimento [liberttação].. consciência política bem mais que filantrópica"

A partir daqui Foucault contrói uma história riquíssima, mais próxima de nós, entre os ideias de liberdade e o tratamento da loucura. Entre a psicanálise e as ciências neuronais e a surgimento das casas de Asilo ou Retiro. Demonstra os projetos der Pinel e Turket não daquilo que ensejaram discursos de livramento humanitário das correntes mas na constituição de novas formas de poder e coação moral. Como ele descreve "o asilo de Pinel, se libertou o louco da desumanidade de suas correntes, acorrentou ao louco o homem e sua verdade"

Como forma de encerrar essas citações de forma apropriada colaciono uma da pág 522:

"o ser humano não se caracteriza por um certo relacionamento com a verdade, mas detém, como pertencente a ele de fato, simultaneamente ofertada e coletada, uma verdade"









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