A Insustentável Leveza do Ser

A Insustentável Leveza do Ser Milan Kundera




Resenhas - A Insustentável Leveza do Ser


524 encontrados | exibindo 1 a 16
1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |


Jonara 15/04/2010

Este é decididamente o livro mais humano e mais profundo que eu já li. Conta a história da vida de 4 personagens, Thomas, Teresa, Sabina e Franz. Kundera é muito delicado e sensivel ao construir cada um deles, e eles são muito verdadeiros em todas as suas atitudes, pensamentos e principalmente sentimentos. É tão raro a gente ler um livro onde conseguimos nos identificar realmente com algo. Onde a descrição das sensações e contradições das nossas atitudes consegue ser tão real. Quantos livros já lemos em que as relações são fantasiosas, idealistas, exageradas, ou simplesmente falsas. Este livro me encantou de uma forma que nenhum outro jamais chegou perto, em se tratando de relações humanas. Me acertou em cheio, justamente por ser tão sincero. O peso e a leveza são bons e são ruins, os instantes em que ocorrem, um ou outro, determinam se são positivos ou negativos. Faz sentido a leveza ser muitas vezes insustentável. Faz sentido as coisas chegarem ao um limite, e o limite das coisas é algo determinante. Sempre pensei nisso, nos limites e bordas das coisas/ cidades/ sentimentos. São as áreas mais delicadas de todo o resto. Quando ele fala das situações em que os polos opostos se aproximam a ponto de unir seus limites, e a questão se torna de uma leveza insustentavel, não sei como explicar mas isso faz um sentido absurdo para mim.

Achei simplesmente fantástico. Não é um livro que recomendo a todos. Acho que é preciso ter vivido um pouco antes de ler ou não vai ser aproveitado como deveria. E também acho que deve ser lido com muita atenção, calma e tempo, para pensar em cada um dos personagens profundamente, para refletir sobre os relacionamentos em geral. Aos que embarcarem na leitura, aproveitem bem!
Graça 27/05/2010minha estante
Que bom que eu embarquei. Que bom que aproveitei. E é por isso que que fico feliz em ler um comentário tão sensível. Parabéns.


Daniel 09/11/2012minha estante
Um grande livro, sem dúvida. Sua resenha me deu vontade de relê-lo


Antonio.Raimundo 23/03/2019minha estante
Li "A insustentável leveza do ser" aos 25 anos e gostei, a partir da sua resenha vou reler, pois acho que hoje terei outra percepção desta obra. Obrigado por ter me despertado essa vontade.


Douglas Marques 16/09/2020minha estante
Excelente resenha, Jonara


Jimena 06/10/2020minha estante
Acabei de lê-lo e sua resenha não poderia ter sido mais acurada!


Maria 13/10/2020minha estante
Excelente resenha. Definitivamente, eis um livro a ser relido!


gon 02/12/2020minha estante
Terei de ler novamente após essa resenha.


Lana 06/12/2020minha estante
Estou lendo agora e de um terço só falta uma parte pra eu terminar e essa resenha conseguiu me representar perfejtamente


Lari 11/01/2021minha estante
AHHHHHHH terminei esse livro faz três dias e estou em uma ressaca literária cruél. Louca para ter alguém e conversamos sobre. É sem dúvida um dos livros mais sensíveis e mais humano que já li. Kundera é fantástico, poético, realista, visceral. Ele desenvolveu quatro personagens totalmente diferentes, deacreveu o mais íntimo de cada um deles em riqueza de detalhes, dentro de um romance, deixou clara sua visão sobre a vida e acrescentou fatos históricos e movimentos políticos que são presentes e estão em plena ação até os dias de hoje. Estou simplesmente apaixonada pela personagem Tereza, só penso nela desde que terminei o livro, talvez seja um pouco dramático, mas eu sinto como se eu e ela fôssemos fundidas, uma só pessoa.




Book.ster por Pedro Pacifico 01/03/2020

A insustentável leveza do ser, Milan Kundera - Nota 9,5/10
Escrever sobre um clássico da literatura como “A insustentável leveza do ser” não é nada fácil! E isso se dá, principalmente, pelo fato de a obra de Kundera ir muito além de uma simples história sobre dois casais, amor e traição. E isso já é facilmente percebido pelo leitor que, logo no início do livro, se depara com diversas reflexões. E é isso mesmo: se valendo do papel de um narrador ativo, Kundera vai preenchendo o enredo com questionamentos filosóficos e reflexões sobre o ser humano e seus relacionamento. E como pano de fundo para essa obra, Kundera apresenta a vida de quatro personagens, Tomas, Tereza, Sabina e Franz, na Praga, ocupada pelos soviéticos, da década de 60. São dois casais que vivenciam conflitos constantes entre sexo e amor e que têm como ponto em comum a busca pelo sucesso em suas relações afetivas. No entanto, o que é esse sucesso? Aí que está a genialidade do autor, que mostra como cada indivíduo, com suas próprias angústias e anseios, possui diferentes formas de enxergar a leveza (e o peso) do ser. E é essa oposição peso e leveza que influencia de forma distinta as escolhas dos personagens e como cada um deles vai reagir aos acontecimentos de sua vida. Também me chamou a atenção a capacidade que o autor tem de entrelaçar os aspectos históricos da República Tcheca com a vida dos personagens, dando uma forte sensação de perda de identidade de um povo.

Um livro profundo e reflexivo, daqueles que fica inteirinho marcado ao final e que ainda vai precisar de novas leituras…Ah, recomendo muita atenção na leitura, já que, apesar de usar uma escrita simples, a narrativa construída por Kundera não é linear, com um intenso vai e volta. Leitura recomendadíssima!

"Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é.

Em compensação, ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semirreal, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.
O que escolher, então? O peso ou a leveza?".

site: https://www.instagram.com/book.ster
Fer 20/04/2020minha estante
Adoro as suas resenhas, Pedro! Comecei a ler esse livro depois de ver a indicação no seu insta.


13/01/2021minha estante
Esse livro é maravilhoso!




Lais Isabelle 11/08/2020

Este livro acaba levando em diversas
direções, por isso, a
história de cada um dos personagens
é uma espécie de emblema que evolui das
diversas configurações possíveis: necessidade e
contingência, fidelidade e traição, realidade e sonho,
corpo e alma, peso e leveza, uno e múltiplo, força e fraqueza.
Sávio 12/08/2020minha estante
Laís, li esse livro em 2019 e tive percepção muito semelhante a sua...


Pan 14/08/2020minha estante
Esse livro me fez entender melhor os humanos


Sávio 15/08/2020minha estante
Sim...sim...e o quão complexo somos!!




Thaís | @analiseliteraria 10/07/2020

Sobre pesos insustentáveis...
Publicado em 1984, o título do livro não poderia ser mais apropriado. Finalizei a leitura com um nó na garganta, sentindo um peso insustentável que me fez prender a respiração. Filosófico, difícil, veraz. Não é um livro para ler a qualquer momento da vida, correndo o risco de ser incompreendido. É uma sequência de acasos e escolhas que torna a história tão íntima e possível. Não existe como verificar as possibilidades, a vida não permite ensaio, somos condenados a escolher e nossas escolhas e não-escolhas vão se repetir e repetir, tornando-se um peso insustentável. ⁣
Quatro protagonistas, Tomas, Tereza, Sabina e Franz; amor, erotismo e várias traições. Praga está tomada pelo totalitarismo soviético da década de 60 - contextos reais como a Primavera de Praga. Kundera vai questionar a dualidade citando o filósofo Parmênides, que dizia que o leve é positivo e o pesado é negativo. "Teria ou não razão? A questão é essa. Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições". O autor tcheco também se utiliza do Eterno Retorno de Nietzsche na narrativa, não só como teoria que se apresenta nos acontecimentos da história - que tendem a se repetirem-, mas na própria forma como o livro é escrito; não linear, voltando ao passado para repeti-lo.⁣
Tereza, quando se oferece para trazer ao marido suas amantes, me fez querer levá-la para a terapia. A que ponto desce uma mulher emocionalmente dependente. A submissão beira o absurdo. O Franz praticamente se anula por paixão. Tomas e Sabina me interessaram mais, mas a leveza de suas liberdades, uma hora pesou. O destaque vai para Kariênin, a cadelinha que me fez refletir sobre o amor desinteressado. ⁣
Não acho que personagem algum tenha optado pelo peso ou pela leveza, mas que isso se alterne em suas vidas. Não entendo que as coisas sejam dicotômicas. Pode haver algum conforto no peso, que traga leveza. Pode haver um fardo na leveza, que logo pesa. Acho que se trata disso o livro, não sobre os personagens em si, mas sobre relações e escolhas, com seus pesos insustentáveis.

site: @analiseliteraria
comentários(0)comente



Amanda 12/01/2021

Complexo
Certamente eu preciso de uma releitura para poder opinar melhor sobre o livro. Mas, já recomendo para os que gostam de filosofia, é um ótimo romance filosófico; e as partes políticas - que acabam muitas vezes refletindo nas decisões dos personagens- são bem ricas. Já adianto que é um livro que requer muita atenção na leitura (algumas vezes fiquei confusa/perdida).
comentários(0)comente



Rodrigo 25/07/2020

E o título de livro difícil de 2020 vai para...
Eis aqui um livro que me incomodou ao longo de um mês inteiro... eu sou do tipo de leitor lento, que busca me certificar que cada frase escrita foi compreendida, e qual era o intuito do autor ao escrevê-la. Nesse sentido, A insustentável leveza do ser foi pra mim um desafio grande, vencido às duras penas de 10p por dia, não mais que isso. Mas, por se tratar de um livro cult, tão querido por leitores mais experientes que eu, fiz um pacto com ele de manter o ritmo nessa maratona literária até o fim, e esse dia chegou.

O livro conta a história de dois casais, que formam opostos entre si. O primeiro, Tomas e Tereza. Ele um médico quase quarentão bem sucedido em Praga, que, após o fim de um casamento sufocante, resolve adotar o estilo de vida descompromissado dos solteirões que trocam de namorada a toda hora. Tereza, uma moça mais nova e vinda do interior, e extramente frágil emocionalmente. No início do relacionamento, ele é a sua razão de viver, enquanto que Tomas se vê incapaz de se livrar dos seus relacionamentos extra-conjugais, mesmo morando com Tereza, o que obviamente, a faz sofrer.
O segundo casal, Franz e Sabina. Ele, preso a um casamento falido, mas sem coragem de abrir mão da segurança afetiva cultivada por anos, se apaixona por sua amante, que é uma jovem artista plástica de alma libertária. Para Franz, Sabina é a sua felicidade, aquilo que lhe dá sentido à vida, enquanto para ela, a possibilidade de transgredir uma regra social universal (não se relacionar com pessoas casadas), é o que lhe prende nesse relacionamento natimorto.

Ao fundo, há uma ficção histórica interessantíssima, que narra a opressão da União Soviética ao povo Tcheco, durante a imposição do regime comunista, com todos os tentáculos dessa ideologia doentia, e que aos poucos vai afetando a vida da sociedade, e também a dos dois casais.

A obra tem como ideia central fustigar o leitor com o seguinte questionamento: o que vale mais a pena na vida: ter uma vida leve e insignificante ou uma vida de cheia de fardos e reconhecimento? Isso fica explícito a cada mudança de rumo, até a última página.

Por fim, o excesso de passagens filosóficas acabou por me deixar extenuado, mesmo tendo havido alguma empatia com o protagonista do livro (Tomas), e, apesar de ter nascido em mim um sentimento bom de admiração pela obra, acho ( e espero) que não sentirei saudades.
comentários(0)comente



Aline T.K.M. | @aline_tkm 14/02/2015

Essencial para a vida toda
Sabe aquele sentimento único que se experimenta ao deparar-se com o – ou um dos – livro da sua vida? Pois foi este o carimbo que A Insustentável Leveza do Ser, clássico contemporâneo do tcheco Milan Kundera, deixou em mim.

Praga, fim da década de 60; a Primavera, ocupação soviética, regime comunista, opressão. Os holofotes se revezam entre quatro protagonistas: Tomas, Tereza, Sabina e Franz. O libertino Tomas e a doce Tereza dividem o teto e a vida, e se apoiam em seu amor. Sabina, amiga e amante de Tomas, é dona de si, fugaz e muito sexual. Já Franz é idealista e sonhador. Através das décadas, acompanhamos os relacionamentos, as frustrações e o destino dessas quatro pessoas, em um retrato emoldurado pelo caráter passageiro da vida.

Durante as pouco mais de trezentas páginas do livro, Milan Kundera nos leva numa jornada filosófica pela natureza do ser humano, dos relacionamentos, da vida. Análise com muito de psicológica, que tem como apoio a teoria do eterno retorno de Nietzsche e as ideias de Parmênides quanto à oposição entre o pesado e o leve.

Se por um lado o peso comprime, ele também torna tudo mais real, mais vivo e intenso, dá sentido e vínculos ao ser humano. Já a sua ausência, a leveza – ou a falta de um fardo –, faz voar e distancia do real, conferindo liberdade e despreocupação, mas trazendo também a ausência de laços e compromisso, a insignificância. Se considerarmos então o eterno retorno, retiramos a fugacidade das coisas; a vida passa a ser uma série de repetições, rotinas, o que torna tudo carregado de responsabilidade, de um peso impossível de ser ignorado ou levianamente perdoado. A questão que o autor nos traz é justamente se o peso seria verdadeiramente cruel e a leveza, bela e sempre desejável.

Ao dissecar os personagens, Milan Kundera descortina o ser humano em sua essência, seus desejos e motivações. Com metáforas e uma narrativa suficientemente densa, o autor nos carrega para as profundezas do amor, da sociedade e mesmo do mundo; fala de carências e solidão, das diferentes motivações da pessoa adúltera e do tipo de olhar que cada ser humano busca e necessita. Fala de candura e da entrega incondicional, livre de qualquer peso, personificadas na pele da cachorrinha Karenin.

E, ainda, fala da dualidade existente no âmago de cada um de nós. Exemplo disso é a relação de Tomas e Tereza. Ele não consegue se privar de seus desejos, tampouco pode viver sem Tereza (ainda que por vezes a considere um peso em sua vida, além de expressar pena da moça). Ela – traumatizada pela mãe e que tem uma relação peculiar com o próprio corpo e os espelhos – é ciente das traições do companheiro, mas segue obstinada ao seu lado em um sofrimento mudo, cujo único meio de escoamento se dá através de pesadelos constantes. A fortaleza de um não vive sem a fragilidade do outro, e vice-versa.

Eleger um dos protagonistas como o mais significativo é tarefa impossível, mas não posso esconder que tive, sim, um preferido. A pintora Sabina tem na traição um modo de vida, algo que lhe atrai e dá prazer e, sobretudo, do qual sua essência não lhe deixa escapar. Não se trata somente da traição carnal: ela trai o puritanismo do pai, o comunismo na Escola de Belas-Artes (Sabina admirava Picasso), e, de certa maneira, a identidade do próprio país.

Mas tão essencial quanto as histórias entre os protagonistas, é toda a faceta política, histórica e social que permeia a trama. Diante da invasão russa na Tchecoslováquia, todos os quatro se verão por vezes de mãos atadas, oprimidos em uma pátria que inevitavelmente deixa neles sua marca indelével – por mais distantes que estejam dela fisicamente.

Existencialista, A Insustentável Leveza do Ser desconcerta. É aquele livro que nos faz querer saborear intensamente cada parágrafo, para então digeri-lo; que nos faz encarar os vazios dos personagens só para nos darmos conta de que não diferem muito do vazio que reside em nosso próprio ser. É o título que, ao lado de Cem Anos de Solidão, conquistou o posto de livro essencial da minha vida.

LEIA PORQUE...
É uma leitura encorpada, complexa – no melhor sentido da palavra – e que exige certa entrega da parte do leitor. Esteja preparado: provavelmente se tornará um dos livros mais inesquecíveis que você já leu.

DA EXPERIÊNCIA...
É difícil resumir em uma resenha tudo o que esse livro traz. Além da narrativa que toca fundo, digo que encontrei nele praticamente tudo de que mais gosto em uma leitura: conteúdo bastante psicológico, análise profunda dos personagens, divagações sobre as coisas da vida, contexto sociopolítico relevante para a trama, entre outros.

FEZ PENSAR EM...
"O sentido de um fim", de Julian Barnes. Também reflexivo, o livro fala sobre “a pequenez da vida”, o tempo, a memória. Vale a leitura.


site: http://livrolab.blogspot.com
Vic 22/03/2015minha estante
Fantástica resenha!


Thiago 30/03/2015minha estante
Li há muito tempo mas me interessei por relê-lo depois de ver seus comentários. Parabéns !!!!


Luis 05/05/2017minha estante
Nossa! Concordo demais. Ele também está junto com Cem Anos de Solidão pra mim.


Amanda 31/01/2018minha estante
Resenha maravilhosa!




Renato Medeiros 25/09/2010

O exercício da liberdade insustentável

O homem está condenado a ser livre, já dizia Sartre, mas para o escritor tcheco Milan Kundera essa liberdade se mostra insustentável, pesa mais que o próprio peso. Essa é uma das conclusões que podem ser tiradas de seu clássico A insustentável leveza do ser (Cia. de Bolso, 2008), que mais parece um ensaio filosófico sobre a existência do que um romance. Nele, o autor investiga o que há por dentro dos seres, mergulhando no íntimo de suas personagens.

A jovem Tereza esbarrou na vida de Tomas, um respeitado médico de Praga, por causa de seis acasos. Porém, antes de Tereza, a pintora Sabina já era amante dele há muito tempo e não deixou de ser. A distância acaba separando os amantes e Sabina tenta encontrar em Franz, professor universitário suíço, as mesmas qualidades que via em Tomas. É nessa intrincada história de encontros e desencontros que temas como o amor, a traição, a lealdade e o sexo são abordados, na tentativa de detectar as particularidades da natureza humana.

Mas antes o autor explora o que há de mais singular em cada uma das personagens para só depois encontrar essas particularidades e concluir que a busca comum a todos os seres é a busca pela felicidade, que necessita de liberdade para ser plena. Uma liberdade tão leve que passa a ser inadmissível, imensurável, e que por isso é insustentável.

O romance também parece defender uma faceta política, principalmente na sexta parte, quando passa a ter uma preocupação mais intensa com questões vividas no leste europeu durante o período de Guerra Fria. Fica evidente a insatisfação do autor com o regime comunista instaurado na Checoslováquia na segunda metade do século XX, tanto que algumas vezes o texto assume um caráter de denúncia. Talvez esse tenha sido um dos motivos que fizeram com que o livro causasse tanta polêmica ao ser publicado em 1982, quando a União Soviética ainda controlava o país.

É nessa atmosfera pesada que vive Tomas e Tereza. Entretanto, mesmo sob a repressão de um regime ditatorial, sempre se é livre para pensar e sentir. É uma responsabilidade da qual não se pode escapar, da qual não se pode colocar a culpa no regime. A alma pesa mais que o próprio corpo e aqui ela deixa de lado as possíveis conotações religiosas para assumir o sentido de parte mais íntima de um ser. É sobre esse pedaço tão leve e não-palpável de humanidade que Milan Kundera pousa o seu olhar. É a investigação dessa leveza absurda que se sobrepõe a qualquer limitação carnal, espacial ou temporal.

O livro promove um diálogo constante entre o individual e o coletivo. O escritor considera que a existência em coletividade experimenta uma espetacularização contínua. É a vida de aparências, que ele chamou de Kitsch e que banaliza a individualidade dos seres. A humanidade mantém uma Grande Marcha em direção ao progresso, a uma evolução inesgotável. Entretanto, Tereza se afasta dessa marcha quando percebe que a felicidade, objetivo final daqueles que a percorrem, não anda em linha reta, mas sim em círculos. É na repetição que se encontra a felicidade.

Observa-se aí uma crítica não apenas àquele regime ditatorial, mas ao próprio caminhar da humanidade em direção a um desconhecido e incerto futuro, em busca de uma felicidade que poderia ser encontrada sem precisar ir tão longe ou arriscar tanto. Um caminho que o ser humano percorre desde que fora expulso do Paraíso, como é sugerido no livro.

Quanto à estrutura, a narrativa é dividida em sete partes, cada uma com vários capítulos curtos e que oferecem certa facilidade de leitura. Esse estilo de escrita pode ser considerado uma estratégia para atrair o leitor e prendê-lo até a última página. No caso de A insustentável leveza, esse recurso funciona.

O que não funciona é a insistência com que o autor responde às suas próprias indagações. Milan Kundera escreve para si mesmo, tanto é que são várias as passagens em que ele usurpa o papel de seu narrador e se coloca francamente diante do leitor, admitindo isso. Parece que ele quer utilizar a força da literatura para mascarar suas intenções, para não tornar-se tão explícito. As indagações não são detectadas nas entrelinhas. É como se a trama servisse apenas para exemplificar as idéias de seu autor.

Dessa maneira, nem o romance e nem as personagens sobrevivem sem Milan Kundera. Essas personagens parecem ser meras enunciadoras de conceitos, não conseguem pensar, sentir ou agir sem a presença do escritor. Afinal, ele pensa tanto por elas que, presas como marionetes em suas mãos, não exercem com leveza a liberdade de existir nas mentes dos leitores.
comentários(0)comente



Bebela 29/07/2020

O peso ou a leveza?!
O fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de realização de uma vida. Quanto mais pesado for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é... Que escolher, então? O peso ou a leveza?


Um livro para ser lido no momento certo. O desenrolar dos personagens se baseia no contexto histórico e filosófico. As discussões acerca do peso e da leveza e do kitsch são bem proveitosas.
Uma leitura engrandecedora.
Hudson 30/07/2020minha estante
Vou ler com toda certeza!!


Bebela 07/08/2020minha estante
Leia! Espero que goste ?




Etiene ~ @antologiapessoal 20/04/2020

Estou aqui, imóvel, olhando pro teto da sala há algumas horas, revendo cada citação e cada trecho, repassando, dessa leitura, os sutis detalhes que me fizeram chegar à seguinte conclusão: estamos diante de um exemplar vivo - e raro - de livro que ecoa. É daquele que vibra, que reverbera, sabe? Mas deixemos solta essa escolha de verbo. O propósito da obra é nos ensinar e a partir dele afirmo que o autor chega a ser mesmo didático durante sua narrativa. Percebi que os personagens são meras desculpas pra o arranjo da trama, e que, dessa forma, Milan nos apresenta nitidamente delicados temas filosóficos. Liberdade, amor, beleza, hierarquia, honestidade e fidelidade são aqui abordados pelo escritor enquanto nos envolve nas vidas de quatro adultos - Tomás, Tereza, Sabina e Franz -, e mais particularmente nos seus relacionamentos amorosos.

Kundera decide nos cravar algumas lições preciosíssimas. A primeira e talvez mais profunda delas, a qual ele reafirma durante todo o curso da obra, é que não há ensaio para esta vida. Não nos é dada a possibilidade de viver duas vidas a fim de sabermos se tomamos as decisões corretas, a fim de apagarmos erros ou fracassos: esta jornada é única; depois, usando de algumas situações entre Sabina e Franz, o autor escancara as ambiguidades dos seres humanos, inclusive nos que se amam e que compartilham do íntimo: o que para um pode ser prontamente belo, para o outro pode ser o completo terror; o que para um é exata leveza, para o outro se apresenta como fardo incapacitante; por último, num dos capítulos que mais me tocou, o tcheco nos prova que a honestidade pura do homem só consegue se manifestar naqueles que não representam força contrária e deliberadamente maliciosa, aqueles que estão a sua mercê: os animais.

Famoso clássico da literatura mundial, A insustentável leveza do ser é celebrado há anos por sua delicadeza e capacidade de se achegar no leitor. Kundera entrega um texto de fácil leitura, mas principalmente uma obra vulnerável a múltiplas interpretações. Essa releitura veio no momento certo e o resultado dela foi um exemplar marcado de cabo a rabo e uma fortíssima recomendação à vocês.

"O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana na armadilha que se tornou o mundo."
Vic 20/04/2020minha estante
Belíssima resenha! Obrigada por colocar em palavras muitos dos sentimentos que vivi ao ler esse livro excepcional!


Etiene ~ @antologiapessoal 20/04/2020minha estante
aaaaaaa OBRIGADA :) sigo tentando




Leo 20/10/2014

Para começar, o título, na minha opinião, é um dos mais bonitos da história da literatura. Não só pela sua visível antítese, mas pela sua relação com o profundo conceito de Ser. O livro começa com uma questão: e se o postulado nietzschiano do Eterno Retorno fosse um fato? Em outras palavras, se cada um de nós estivesse condenado a reviver a sua vida, com cada instante de dor e de alegria, ad aeternum, como seria? Esta é uma questão que, sem dúvida, cria, em si mesma, um abismo de múltiplas reflexões.

Assim sendo, o romance se inicia com um convite à reflexão. Em seguida, são apresentadas as personagens centrais: Tomas e Tereza. Tomas, a aparente força que se revela fraqueza; Teresa, a aparente fraqueza que se traduz em força.

É com estas dicotomias: força/fraqueza; peso/leveza; corpo/alma, que Kundera tece este magistral romance, que, no fundo, nos devolve o espelho da nossa complexa essência. Muitos quiseram apelidar este livro de romance geracional. Um erro bem grosseiro, em minha opinião. Este é, claramente, um livro rumo à eternidade. Porque, apesar de o seu contexto retratar a Primavera de 68 em Praga, as temáticas de Kundera são universais.

Philip Kaufmann adaptou este romance ao cinema, com os brilhantes Daniel Day Lewis e Juliette Binoche. Apesar de se tratar de um belíssimo filme, neste caso, como em muitos outros, é bem inferior ao livro.

Foi o meu primeiro livro de Kundera que li, e o único por enquanto, contudo já posso considera-lo um dos meus autores preferidos.

Não quis, nesta minha breve resenha, revelar muito da história. Porque isso, como em todos os grandes livros, acaba por ser o menos significativo. O que fica, manifestamente, das grandes obras, é uma outra forma de olhar a realidade. Um novo despertar. Como se fôssemos, novamente, apresentados ao mundo.
comentários(0)comente



MelAnia.Rafaela 07/07/2020

Um bom livro.
O livro é interessante. Tem seus méritos. Mas não é uma leitura que me envolveu. Não consegui desenvolver um sentimento pelos personagens.
comentários(0)comente



Marília 14/04/2010

Um livro para ser relido
Quatro persongens protagonizam esta historia, e cada um experimenta o peso insustentavel da vida, um exercicio constante.
Neste livro Kundera nos leva a Praga,(invasão Russa na Tchecoslováquia) e nos conduz pela filosofia explicando-nos a realidade.
A referência a autores da tradição filosófica como Nietzsche e Parmênides situam o enredo do romance dentro de uma perspectiva existencial,como a leveza e o peso, o eterno retorno, compaixão.
O livro foi publicado em 1984,sem dúvida, uma das maiores obras-primas de todos os tempos.
Um romance filosófico para refletir e reler, reler, reler...
Lima Neto 25/05/2010minha estante
você falou tudo quando afirmou, no título de sua resenha, que esse era "um livro para ser relido". "Insustentável Leveza do Ser" é uma obra com um forte cunho filosófico, que o leitor até pode se agrdar numa primeira leitura (o que foi o meu caso), mas não compreendera, de maneira geral, os motivos de sua aceitação, dele ser considerado um dos maiores romances da literatura mundial no século XX. eu preciso relê-lo, definitivamente, para compreender melhor tão magnífica obra.


Heineken 04/07/2010minha estante
Você tem razão, é um livro para ser relido...li a maior parte da obra do Kundera entre 90 e 92, achei incrível mas com certeza a diferença dos anos dará um novo e melhor entendimento não apenas a "Insustentável..." mas também a outros da época como Risíveis Amores, Livro do Riso e de Esquecimento e Valsa dos Adeuses.
Legal sua resenha.


Menezes 04/09/2010minha estante
é uma das melhores narrações sobre as relações humanas. Maravilhoso.




@umapaginahoje 22/09/2020

O que escolher? O peso ou a leveza?
"Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?"

A insustentável leveza do ser, é um livro com alto teor filosófico e um contexto histórico forte. Publicado em 1984, por Milan Kundera, a história se passa em Praga, durante a primavera de Praga, que foi a tentativa de desvincular a Tchecoslováquia do regime comunista autoritário que comandava o país.

No meio desse contexto, será contada a história de dois casais. Tomas é um libertino, para quem amor e sexo não estão interligados, mas eventualmente se casa com Tereza, e eles mantêm um relacionamento "semiaberto", pois Tomas têm várias amantes e Tereza não o trai, Tereza é uma mulher totalmente dependente dele e leva uma vida pesada e cheia de questionamentos sobre seu relacionamento. Sabina é uma das amigas ?eróticas? de Tomas, e é tudo que Tereza não é: livre, dona de si, independente e sem amarras, tanto profissionalmente, quanto no âmbito pessoal. Em um outro momento de sua vida, na Suíça, já longe de Tomas, Sabina vem a se relacionar com outro homem, que é Franz, ele vive em um casamento infeliz, conhece Sabina e se apaixona loucamente.

A partir desses dois relacionamentos o autor vai trazer a questão do peso e da leveza, percebemos a dualidade como um elemento essencial da narrativa, e isso também reforça os pensamentos do narrador, sobretudo quanto à questão do "peso". A leveza e peso são qualidades opostas entre si. A discussão, porém, se dá quanto à proposta de indicar qual deles é negativo e qual deles é positivo. Assim, juntamente a essas considerações e a exposição dos relacionamentos dos quatro personagens, o narrador tece um longo e impressionante diálogo existencialista com o leitor, com muita bagagem filosófica e uma sagacidade incrível.


Esse livro é amado e odiado na mesma proporção, eu particularmente tive uma relação de amor e ódio, o jeito que ele traz a questão do amor, do relacionamento, do desprendimento e da dependência pode indignar muita gente, que foi o meu caso. Esse não é livro fácil, é bastante denso, não na questão da escrita, mas sobre trazer reflexões pertinentes sobre vários aspectos da nossa vida.

Será que ser extremamente leve e desprendido é realmente melhor, o que torna nossa vida insustentável?

 Recomendo fortemente a leitura, e espero que consigam absorver tudo o que Milan Kundera tem a oferecer.
comentários(0)comente



524 encontrados | exibindo 1 a 16
1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |