A Sombra dos Homens

A Sombra dos Homens Roberto de Sousa Causo




Resenhas - A Sombra dos Homens


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Taverneiro 11/05/2017

Índios, Vikings e Amazonas!
Um índio brasileiro enfrentando vikings! É assim que começa esse pequeno livro de fantasia e aventura do autor Roberto de Souza Causo e lançado pela Devir.

O índio Tajarê é o escolhido da natureza. Ele é o guerreiro que terá de impedir uma força maligna de trazer a tona uma entidade muito perigosa que esta aprisionada em algum lugar da floresta. E quem personifica esse mal é a Sjala, sacerdotisa de Loki, que desembarca na praia com sua equipe de guerreiros vikings!

Assim começa essa história. Muito inspirada em Robert E. Howard e no estilo pulp de antigamente. O autor cria uma espécie de sword and sorcery em território nacional, com uma fantasia mais contida e um herói guerreiro e machão.

A construção desse mundo é muito bacana. O autor mistura várias mitologias com um tom de ficção histórica muito bem. Ele basicamente estabelece um mundo onde todas as mitologias são reais, embora sejam utilizadas mais a do Brasil e a nórdica (a prisão de loki fica em algum lugar da floresta amazônica!), além de também dar uma pincelada em diversas outras lendas (como Atlântida e a Cidade das Amazonas).

E os personagens que habitam esse mundo também são bem peculiares. O livro alterna entre o ponto de vista de Tajarê e o da sacerdotisa de Loki, a Sjala.

Tajarê é um índio guerreiro. Ele foi escolhido para lutar pela floresta e defende-la dessa ameaça estrangeira, mas por ser um homem pacífico, ele não gosta quando é chamado para a guerra. Quando o ponto de vista da história está com ele, o autor decidiu deixar a linguagem simples tentando simular uma fala com um sotaque indígena. Isso é interessante e foi bem feito, mas ainda assim ver tanta repetição do nome do protagonista, entre outras coisas, me incomodou um pouco no início, mas lá para o meio do livro eu já nem reparava mais nisso.

Sjala é uma sacerdotisa de Loki, que veio aqui com a missão de libertar o seu deus da prisão, só que ela é impedida por Tajarê e sequestrada por ele. E, no maior estilo a Bela e a Fera, ela vai desenvolvendo síndrome de Estocolmo e se apaixona pelo seu sequestrador, e começa a vê-lo como um protetor. Isso faz com que Sjala se encontre em uma situação difícil: Continuar sua missão para Loki ou se manter na tribo.

Toda a narração do livro é bem visceral. Não existe glamourização das coisas que estão acontecendo. Violência e sexo são tratados de um ponto de vista muito neutro, deixando com um tom de normalidade essas coisas, o que lembra muuuuito as antigas histórias do Conan, por exemplo, que por sinal é uma das maiores influências na narração e criação do mundo de Tajarê.

O livro é curtíssimo e é dividido em quatro partes, o que dá um ritmo muito bom para a leitura. Uma obra divertida, rápida e cheia de aventura. Para os fãs de Conan e todas as antigas histórias de sword and sorcery, é uma bela aquisição. ^^

site: https://tavernablog.com/2017/05/10/a-sombra-dos-homens-de-roberto-de-souza-causo-resenha/
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carlosmrocha 27/02/2013

Borduna e Feitiçaria!
O livro narra a jornada do índio Tajarê, da Aldeia do Coração da Terra, que é convocado pelas forças mágicas da Terra como seu campeão para cumprir seus desígnios. A Tajarê não agrada cumprir o destino que lhe é apontado, lhe desagradam as mortes e o combate, mesmo assim, o chamado é forte e quase irresistível. O livro reune quatro partes narrativas, algumas das quais foram publicadas separadamente como contos na revista Dragão Brasil. Em A Sombra dos Homens, Tajarê e os seres da Amazônia mítica do século XI encontram-se com uma expedição de vikings vindos da Islândia chefiada pela sacerdotisa Sjala.

Nesta terra fantástica estão presentes criaturas do folclore brasileiro tais como os Uauiaras, botos que assumem forma de gente, antigos Guaranguás (peixes-boi) entre outros. Também se fazem presentes as Icamiabas, mulheres-sem-homem, as amazonas que se instalaram na região após o cataclisma que varreu do mapa a Atlântida. É do confronto de forças antagônicas e fusão de distintas mitologias que a narrativa se forma.

A idéia de resgatar e trabalhar possibilidades contidas num contexto de mitos brasileiros e não cair na “mesmice” de recorrer a referências estrangeiras tais como elfos, dragões, lobisomens e vampiros é louvável. Há muito potencial de desenvolvimento narrativas de literatura fantástica elementos do folclore brasileiro, ou mesmo da proto-nação brasileira. A obra leva o leitor a um ambiente que recria uma espécie de mitologia brasileira, na realidade, dos povos indígenas que viviam no Brasil antes de seu descobrimento (e da formação da identidade da nação brasileira). Nesta linha o autor buscou incutir na linguagem utilizada trejeitos próprios de uma comunicação aproximada de linguagem indígena. Confesso que me falta conhecimento para atestar se é apropriada a forma pela qual o autor distorce o uso do português para aproximar de uma forma narrativa indígena. O efeito é curioso, mas trouxe consigo uma desvantagem que foi dificultar o entendimento da narrativa e, em alguns casos, torná-la um pouco enfadonha devido à repetição excessiva dos nomes dos personagens como forma universal de referência e tratamento. Outro aspecto negativo é a concatenação dos segmentos da história. Parece que como foram constituídos como contos separados, a junção das partes não cria um todo com continuidade fluida.

O livro tem também um interessante artigo por Bráulio Tavares intitulado: O herói e a sombra dos homens. Este procura situar a obra do autor e no contexto da literatura fantástica. Talvez, numa próxima edição, o artigo estivesse mais bem situado após a narrativa, na forma de apêndice (spoilers).

O balanço final é que é um livro um pouco difícil de digerir, apesar de ser curto. É corajoso no sentido de explorar uma temática pouco explorada por nossos autores de literatura fantástica. É um apontador de caminhos para que mais autores se desafiem a criar histórias fantásticas que escapem dos moldes de mitologias estrangeiras que muitas vezes tem pouca ou nenhuma relação com nossa identidade. Ainda há muito que explorar no fantástico e folclore brasileiro, em especial, neste subgênero de “capa e espada” (sword and sorcery) ou como o próprio autor chamou em seu fanzine, Borduna e Feitiçaria.
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Alvaro 04/03/2011

Borduna e Feitiçaria: A Saga deTajarê
A Sombra dos Homens A Saga de Tajarê: Livro I
Autor: Roberto de Souza Causo
Editora: Devir
Páginas: 120
Ano: 2004

O índio Tajarê, um herói de seu povo, vê estranhos, vindos de Muita Água, entrarem em seu território. Orientado por Anhangá, Tajarê rapta uma mulher de pele muito clara que parece ser a líder da expedição, Slaja. Slaja, tem uma missão; libertar o seu deus, Loki, há muito aprisionado, para que dê início ao Ragnarok, a batalha final entre os deuses nórdicos. A junção destas duas forças, ora em conflito, ora em harmonia dará início a uma saga de aventuras, onde não faltarão monstros mitológicos, seres mágicos, poder da espada e poder da magia, num confronto de forças que transcende os destinos de Tajarê e Slaja.

Roberto Causo tem um propósito bem definido ao escrever este romance. Ela pretendia à época da primeira aparição de parte deste romance nas páginas da revista Dragão Brasil, em 1995 dar início a um movimento que ele mesmo chamou de "Borduna & Feitiçaria".

Numa brilhante introdução de Bráulio Tavares (que recomendo a leitura após terem lido o romance, se não gostarem de spoilers), temos uma idéia do que seria este movimento. Causo vê, com razão, que os temas de fantasia medieval falam tanto aos ouvidos do brasileiro como uma guerra em outra galáxia (talvez até menos, haja visto o sucesso de Guerra nas Estrelas na Terra Brasilis). Ou seja gostamos e curtimos, mas quase não encontra eco na nossa mitologia cultural. Somos um povo sem mitos? Causo acredita que não e tenta mexer com eles resgatando três vertentes mitológicas que aterraram nesta Terras de Santa Cruz: a Indígena, representado pelo protagonista Tajarê, que transcende seu antecessor Peri, pois não é o índio idealizado pelos europeus, e também seu antecessor Macunaíma, pois Tajarê tem caráter, um caráter que o aproxima de outros heróis míticos; a européia dos chamados povos do norte (os vikings), resgatando uma referencia a vinda destes povos no norte do país (as carrancas dos barcos do rios São Francisco seriam uma herança desta passagem), representada pela determinada Slaja, que só vacila diante do ora amado, ora inimigo, Tajarê; e a européia dos povos celtas, representada pelas Amazonas, ou Icamiabas (mulheres-sem-homens), originadas da extinta Atlântida, antagonistas poderosas, que foram perdendo sua magia ao longo tempo.

Causo navega ao longo do romance com um estilo que lembra uma mistura de narrativa seiscentista (tipo "Carta de Caminha") com narrativas indígenas. Isso é feito de forma natural, que rapidamente elimina o estranhamento inicial, fazendo a leitura fluir muito bem.
A história tem dimensões épicas e os dois principais personagens estão muito bem caracterizados tanto como membros típicos de seus povos, como no seu parcial aculturamento, representado no caso de Tajarê quando se apropria da espada de um guerreiro viking, no caso de Slaja (um aculturamento muito mais forte) representado pelo seu filho Niadorã, que teve com Tajarê, que quase a faz esquecer de sua missão.

Há o confronto das culturas também, representado de várias formas, como batalhas mesmo: a batalha entre Tajarê e o grupo de vikings que veio em defesa de Slaja, batalha entre Tajarê e a aldeia das Icamiabas, ou como embates de criaturas sendo a mais dramática a luta entre Mboitatá e o Kraken, ou, ainda, embates pessoais como entre a líder das Icamiabas e Slaja, desejosa de roubar de Slaja o segredo de transformar-se em ave.

Vale ainda destacar a capa de Lourenço Mutarelli, que consegue captar muito bem todos este contrates, retratando a cena mis dramática da história.

Todas estas qualidades contudo me fazem perguntar: o que houve com o movimento Borduna & Feitiçaria?

Será que os possíveis leitores de sagas deste tipo ficaram traumatizados com José de Alencar e Mario de Andrade ao lerem obrigados "O Guarani" e "Macunaíma"?

Será que a dominação cultural americana e européia nos fez esquecer de nossos próprios mitos?

Será que só o Causo levantou a voz e a espada (digo, borduna) para defender este ideal?

Ler esse livro (excelente) me fez lembrar algumas coisas. A primeira é o caso da Turma do Pererê, do Ziraldo. Escrita nos anos 60, com preocupações de resgatar valores culturais brasileiros, com personagens e histórias bem feitas, também não decolou. Já o Menino Maluquinho, do mesmo Ziraldo, teve uma repercussão bem maior.

Pode-se pensar em marketing mais agressivo ou momento de mercado ou inibição provocada pela censura. Porém não creio ser este o caso. O Menino Maluquinho é um personagem urbano, bem característicos de uma cidade como São Paulo e fala mais alto que um saci para crianças que crescem na cidade.

No caso de Tajarê, embora tenha gostado do livro e esteja ansioso para ler o livro II, (que espero que Causo se anime em publicar), ele ainda me parece distante. Talvez o mito de um herói do tamanho de Tajarê tenha morrido com a chegada das caravelas e dos "descobridores", que estavam pouco interessados na cultura de um povo que, querendo ou não, acabaram por destruir.

Um resgate de uma raiz não é coisa fácil. Talvez por isso George Lucas tenha recriado toda a mitologia arthuriana, fundindo-a com várias outras e a colocou numa galáxia distante, há muito tempo atrás (talvez no tempo de "era uma vez...").
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