Você é minha mãe?

Você é minha mãe? Alison Bechdel




Resenhas - Você é minha mãe?


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Julyana 08/09/2013

Fiquei com a impressão (não sei se correta) que Alison é o centro desse livro, não sua mãe. Ainda gosto mais de Fun Home, mas gostei muito desse aqui também.
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Marc 04/10/2013

Mais do Mesmo
Não queria ser o único a destoar da série de elogios ao livro. Na verdade, para ser franco, quando comprei o livro já estava com uma enorme inclinação ao elogio. Antes mesmo de ler, porque Fun Home havia sido uma grata surpresa. Mas bastaram umas oito páginas para mudar radicalmente de opinião. O livro é ruim, muito ruim. Nem mesmo a enorme capacidade de desenhar e combinar a voz em off com os diálogos foi capaz de impedir essa minha impressão. Sei que provavelmente serei um dos poucos a falar mal, até agora não li sequer uma resenha em sites especializados que criticasse o livro, mas não vou mentir em relação ao que pensei só para receber uns comentários positivos...

O primeiro ponto que chama a atenção é que o talento de Alison Bechdel, comprovado em Fun Home, não soube evoluir. Ela quis fazer o mesmo livro, mas agora com a mãe. É irritante ver como as mesmas questões aparecem novamente. E para piorar, o fundo psicológico que não consegue convencer ninguém, que não funciona com a mesma maestria da opção do livro anterior. Usar James Joyce e Marcel Proust foi realmente algo de importante não apenas para o livro em si, mas para o horizonte das HQs. Recorrer a Winnicott, ao contrário, me parece um caminho fácil, uma tentativa de reproduzir o sucesso espetacular do álbum anterior. Não é dando mais do mesmo aos leitores que a autora vai avançar...

E fico imaginando o dilema, o real e mais importante, que a autora não aborda em sua metalinguagem: como conseguir a mesma repercussão agora? Um trabalho premiado, elogiado por leitores e por críticos, uma mostra evidente de que os quadrinhos podem ser adultos no sentido mais abrangente do termo; enfim, como conseguir continuar nesse caminho? E a autora decidiu que era fazendo exatamente a mesma coisa, que os leitores iriam adorar e a crítica iria perceber a sutileza com que passa da literatura aos quadrinhos e vice-versa. Mas não é assim, infelizmente. O dilema de ser rotulada como escritora de um sucesso só fez com que entrasse pela via já pavimentada e segura de Fun Home novamente. Alison Bechdel se diminui na tentativa de não ser menor que ela própria. Uma pena. Comete o erro de tentar agradar o público e esse é o pior erro de um artista, ou de qualquer um que submeta seu trabalho à apreciação geral. Todas as vezes que pensamos: “será que isso vai agradar meu público” e retrocedemos para ir em outra direção, é um pouquinho do artista que morre.

Depois de aceita essa dura verdade, talvez o álbum agrade mesmo aos leitores que esperavam uma nova versão de Fun Home. Tudo está ali: a revisão da infância, a censura aos silêncios dos pais, o choramingo com a falta de amor que (ela supõe) apenas seus pais não tiveram por ela, enquanto todo o restante da humanidade se amava e sorria feliz. Mas Fun Home mostrava, e agora acredito que à revelia da autora, um lado inevitavelmente benévolo da relação com seu pai. Ela ia descobrindo que apesar da falta de amor, seu pai não era um mau sujeito, apenas não sabia lidar com crianças. Porque a partir da faculdade, quando já poderiam conversar de igual para igual, começou até a admirar sua vasta cultura. Era a narrativa de uma série de descobertas do mundo e de si mesma, a procura pelo seu território. E nesse sentido dou razão à autora, porque era preciso, para ser uma artista, rever sua infância e adolescência para conhecer sua voz.

Esse, no entanto, é um trabalho de uma pessoa que já sabe de tudo isso, que já chegou à maturidade. Sua voz está estabelecida, seu mundo criado. Mas então porque ela insiste em não sair do consultório?

E lembro da crítica que vários autores já fizeram à dependência que a psicanálise cria nos pacientes. Em determinado momento, depois que consegue estabelecer uma verdade sobre o passado e sobre si, o paciente não consegue mais sair disso. Esse tema passa a se repetir e repetir, e o paciente remete todas as coisas de sua vida a infância. Vira um circuito retroalimentado. Tudo que lhe acontece precisa ser dito e pensado no consultório para ganhar sentido. É como se a psicanálise esvaziasse a capacidade de gerar significado de seus pacientes e implantasse uma estrutura, uma cadeia, que obriga todos os acontecimentos a percorrer os mesmos caminhos e chegar, inevitavelmente, ao mesmo lugar.

Se alguém duvida dessa dependência, basta prestar atenção às cenas de análise no livro. Retrata a si mesma sempre insegura, curvada, deitada e com expressão de dúvida, enquanto a analista aparece firme, como um apoio. Isso não é por acaso. É exatamente assim que as coisas acontecem. E a maneira como as analistas vão induzindo as descobertas de Alison é a maior prova de seu domínio absoluto.

Também acho bastante vulgar a necessidade de afirmar a homossexualidade de seu pai. E o desprezo por sua mulher, condescendente, no entanto, com seus relacionamentos com homens desprezíveis. E acho vulgar, olhando Fun Home à luz desse livro atual, porque se essa era sua realidade, se foi trabalhada com anos e anos de análise, de que vale retomar esse tema? Me parece que apenas pelo prazer de cutucar uma ferida que já cicatrizou, ou pelo menos deveria estar cicatrizada. Apesar disso, Fun Home consegue ser benevolente, porque narra a descoberta de que o pai não é a figura tão vazia que sua infância fazia supor.

E no final, se refletirmos sobre o que de fato aconteceu durante a produção dos dois livros narrada aqui, é a insensibilização de Alison. Sei que ela conclui dizendo que a mãe lhe transmitiu uma maneira de lidar com a vida que é fundamental, mas nunca me esqueço das sábias palavras de Nelson Rodrigues a respeito da dor superada: que ao deixar para trás (no caso, destruir o objeto, como aparece na linguagem de Winnicott), só fazemos nos tornar mais indiferentes ante o sofrimento alheio. Acho que esse livro deixa patente que a análise é uma espécie de panacéia, ou para nós brasileiros, um emplasto Brás Cubas. Que esse possa não ser o sentido original da psicanálise nada prova em contrário à minha afirmação, porque é exatamente assim que a sociedade a vê, ou seja, é esse seu significado social.

E sem meias palavras, o livro engana pela referência complexa de Winnicott. Porque no fundo são quase 300 páginas fazendo beicinho, choramingando, batendo o pé porque mamãe e papai não me davam brinquedos e nem boa noite (como a mãe de Proust, quando ele era criança). Então, se hoje eu sou assim, destrambelhada, é por culpa de vocês. E não consigo nem externar que tenho raiva desse descaso, fico sempre na metade do caminho, em tudo. Só queria um abraço, um beijo, uma demonstração de amor... Agora, da primeira à última página, lendo suas desventuras com analistas enquanto desmancha relacionamentos e não consegue escrever sobre o pai ou a mãe, é uma verdadeira tortura. Que me desculpem os fãs, mas esse livro não faz juz à capacidade da autora. E, como disse, lança retroativamente uma luz sobre Fun Home, fazendo com que pareça menos significativo. Afinal ela usa os mesmos artifícios para cativar o leitor, inclusive perdoar a mãe, como havia feito de modo muito mais espontâneo com o pai.

Não é apenas a sua interpretação, mas ela se coloca como referência, o ponto a se avaliar o modo de vida dos pais. Em prova disso, basta ver o episódio de sua primeira menstruação, retomado nesse livro. Como não censurar pais que silenciavam sobre tudo, a ponto de fazer a coitadinha tentar esconder esse fenômeno tão natural e fantástico ao mesmo tempo?

Enfim, eu poderia seguir, mas acho que já ficou claro que não gostei da covardia da autora. O sucesso do livro prova, no entanto, que é mais vantajoso dar ao leitor exatamente o que ele espera. A conta bancária engorda e a vaidade pelo elogio silencia tudo o mais. E já que estamos falando de silêncio, nós também ficamos calados, absortos, mera audiência, como ela, a autora, tantas vezes aparece assistindo o espetáculo do palco.
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Cassia 21/03/2014

Decidi ler este livro após o encantamento que senti com a obra anterior da autora, Fun Home, que achei excelente. Infelizmente, a sensação não se repetiu desta vez, e só posso lamentar o fato de a história ter ficado muito aquém do que o esperado.

A proposta da história é contar o relacionamento complicado entre Alison e sua mãe, que, teria deixado de tocá-la quando ela fez sete anos de idade.

Porém, há pouco aprofundamento na questão mãe e filha. Na verdade, o livro fica muito centrado nos dilemas da própria Alison, e na impressão que ela tinha das coisas, e não em como elas verdadeiramente tinham ocorrido (não que os dilemas dela não sejam importantes, afinal, muitos deles brotaram dessa relação mãe e filha, mas achei que muitas coisas narradas não estavam diretamente relacionadas à essa dinâmica complicada, e sim, eram questões exclusivas de Alison).

Outra coisa que me incomodou muito foi o excesso da utilização de referências à Psicologia, com ênfase em Winnicott. Alison fez terapia durante muitos anos, e esse interesse no processo terapêutico e em como ele funciona é muito comum entre muitas pessoas que escolhem essa modalidade de tratamento. Porém, pelo menos para mim, houve certo exagero no uso desse recurso - que, em muitos pontos, quebrava a fluidez da narrativa, tornando-a maçante.

Mas, talvez o que tenha me deixado mais decepcionada é que a autora não avançou tanto quanto poderia ao narrar seu relacionamento com a mãe – talvez porque, ao contrário do livro anterior, a mulher ainda está viva, e tem uma influência muito forte sobre ela. Em muitas passagens, percebi um “freio de mão puxado”. Claro, eu não esperava nenhum segredo sórdido, nada disso; mas a sensação é que ela ficou com receio de ir mais além.

O típico final clichê aberto, porém esperançoso, encerra a narrativa.

Não dá pra dizer que é uma obra péssima, longe disso. Mas deve ser lida sem maiores expectativas, pois, comparada com Fun Home, é uma narrativa inferior. O que é uma pena, pois Alison já deixou demonstrado, de modo inegável, ser uma excelente contadora de histórias – não só com seu estilo, mas com seus desenhos tão expressivos.
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Chanel 09/09/2020

Em comparação com Fun Home, Você É Minha Mãe é extremamente mais profundo e tocante. Me vesti de Alison Bechdel e experimentar seus sentimentos e suas vivências foi uma experiência inusitada.
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Renata (@renatac.arruda) 27/07/2015

Fazendo as pazes com a mãe
Continuação do excelente "Fun Home", "Você é minha mãe?" é muito mais cerebral que o primeiro. Alison Bechdel, que ficou conhecida pelo Teste de Bechdel, parece mais querer fazer as pazes - de maneira metafórica - com a mãe, que contar propriamente uma história, e sua maneira de fazer isso é esmiuçando o relacionamento emocional entre ambas traçando paralelos com a psicanálise, mais especificamente as teorias de Winnicott, os escritos de Virginia Woolf e alguma coisa da seguda onda do feminismo.

É um livro denso, de estrutura complexa, sem o mesmo apelo emocional de "Fun Home", mas não menos cativante, que sem querer pode acabar instigando o leitor a refletir sobre seu relacionamento com a figura materna e buscar suas próprias respostas.

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Adriana Scarpin 03/03/2018

Holy Shit! Holy Shit! Holy Shit!
Holy Shit três vezes. Eu realmente não esperava tudo isso, ouvindo sobre a Bechdel há anos, essa foi a primeira vez que sentei e a li - e foi de cabo a rabo compulsivamente porque a excelência disso é indescritível.
E nem sou tão suspeita assim já que meu amor por psicanálise sempre foi dirigido à Lacan e olhei sempre com suspeita para Winnicott já que não suportava as aulas sobre ele na faculdade de psicologia. Mas agora a Bechdel me trouxe um olhar totalmente distinto sobre ele e devo confessar que aparentemente aprendi mais sobre Winnicott aqui do que nas aulas que tive, e ela o faz de uma maneira tão sagaz, entremeando referências bibliográficas com exemplos extraídos da própria vida e fica tudo tão palpável e delicioso que me sinto mal por ter renegado Winnicott em função de questões pessoais.
O assunto da HQ? O maior objeto de estudo da psicanálise: a mãe, mais perspicaz impossível.
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Rafaela Moura 16/03/2020

Bom
Livro bom. Não gostei tanto quanto gostei de fun home, mas acho até injusto fazer esse tipo de comparação.
O livro é bonito, gostei muito dos desenhos e das cores. Os traços bem característicos da autora me agradam também.
Gostei da história de uma forma geral, dos recortes da relação com a mãe, as sessões de terapia e as relações amorosas. Mas achei que tinha citações demais, referências demais aos autores que permeiam a história. Achei que em alguns momentos quebrava, interrompia, a narrativa. Mas talvez seja porque eu não tenho tanta familiaridade com o Winnicot.
Resumindo, achei bom.
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Ivan de Melo 03/09/2020

Alison Bechdel, sua mãe e o divã do terapeuta: a complexa continuação de "Fun Home"
O quadrinho “Fun Home” (2006) foi sem dúvidas uma das minhas leituras mais empolgantes na temática LGBTQIA+. Nele a cartunista estadunidense Alison Bechdel nos apresenta uma narrativa biográfica sobre a iniciação da sexualidade lésbica ao mesmo tempo em que conta a trajetória da homossexualidade de seu pai. Com um pungente trabalho de memória e referências que perpassam a literatura, o conjunto é uma obra divertida e comovente que aborda também a complexidade das relações familiares.

Se em “Fun Home” o ponto de partida é a relação paternal, em “Você é Minha Mãe?” a autora se dispõe a analisar sua relação com sua mãe, a mulher – ela confessa - que parou de lhe beijar antes de dormir aos sete anos de idade, uma das muitas marcas carregadas pela Bechdel filha. E quando falo em analisar, trata-se de uma análise de fato. O elemento da psicanálise permeia as conversas entre a mãe e filha e entre a filha e seus terapeutas, mesclando teorias de Freud e Donald Winnicott além das biografias das escritoras Virginia Woolf e Alice Miller na busca por respostas ou novas perspectivas sobre sua relação maternal quase como um estudo de caso. Ao mesmo tempo, Bechdel expõe o processo da escrita da obra sopesando os seus possíveis reflexos, e revolve seu trabalho anterior e suas relações amorosas (como pode) em diálogos francos com sua mãe. Diálogos estes que não pretendem forjar imagens ideais sobre a figura materna ao expor as subjetividades da mesma e a busca por uma espécie de trégua familiar. Sua mãe era uma atriz que durante muito tempo balanceou a carreira, a maternidade e um casamento insustentável, como vimos também no quadrinho anterior.

Esse mote e a abordagem de Bechdel para nos contar sobre sua relação com a própria mãe faz dessa uma obra muito mais densa e eu diria que às vezes até um pouco hermética para aqueles que não estão acostumados com os jargões da psicanálise, a quantidade de referências e a possibilidade de que você talvez pare no caminho para fazer uma rápida pesquisa em segundo plano pode deixar a leitura um tanto quanto processual. Mesmo lançado seis anos após “Fun Home”, este trabalho é uma continuação direta e subentende-se que o leitor conheça previamente aqueles personagens, o que pode desnortear um pouco os leitores que decidirem conhecer a obra da autora por aqui. Uma boa sugestão talvez seja uma leitura sequencial dos dois títulos, o que evidenciará um amadurecimento de Bechdel no tratamento dos temas inerentes ao seu próprio passado. Se você for interessado por temas da psicanálise, o segundo então é uma ótima referência.
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Gabriel 11/04/2014

Intimismo, sensibilidade e sacrifícios
Impossível falar de um livro sem mencionar o outro, apesar de que até o ano de 2012 Você é Minha Mãe? não havia sido publicado. Mas, agora que o foi, ao se reler Fun Home, de 2006, que já era um livro denso e poderoso independentemente, após a leitura da segunda graphic novel de Alison Bechdel esta acaba por enriquecer a análise do primeiro livro, assim como o inverso certamente ocorrerá para quem se arriscar a ler o album de 2012 antes do de 2006, pois, ao contrário do que a sobrecapa de Você é Minha Mãe? afirma, este não se trata exatamente de uma continuação do outro, sendo ambos, antes de tudo, obras de arte sobrepostas, intercaladas e interconectadas. Dizer que um é a continuação do outro é como dizer que a mãe é a continuação do pai, e isso não faz sentido nenhum, ao menos teoricamente, pois, a despeito de tudo, a mãe continua a vida, enquanto o pai induziu sua própria morte. Mas adianto-me.
Fun Home traça uma biografia do pai da autora conjuntamente com a autobiografia da própria, seguindo a tendência contemporânea no universo dos quadrinhos das histórias autobiográficas. Mas, pode-se dizer que ela não traça exatamente uma história, e sim, uma auto análise, reflexão e uma percepção particular e íntima de sua família, em especial a respeito do pai, sob a luz dos livros que este lia avidamente, e que, para quem ler perceberá, influenciou bastante na história dele e em suas atitudes. Isso me fez pensar num diálogo que tive uma vez com uma amiga, em que esta assumia que as atitudes que ela tomava e por consequência uma boa parte de sua história havia sido influenciada por experiências literárias. Tiro por mim, também, que passei a apreciar e analisar mais as relações humanas, tanto as próprias quanto as alheias, numa espécie de exercício em busca de arquétipos e tipos sociais, motivado pela rica experiência observativa do livro de Marcel Proust, que se tornou o meu favorito, Em Busca do Tempo Perdido, além dos estudos fisiológicos russos do século XIX (não, nada a ver com a fisiologia do corpo humano), que se aventuravam em descrever estes tipos, uma espécie de crônica social romanceada.
Já Você é Minha Mãe? é um livro mais maduro e surpreendente em sua abrangência temática. A literatura aqui é substituída pela psicanálise, exceto por referências a Virgínia Woolf. Aqui, o livro trata de Winicott, Woolf e Jocelyn, sua psicóloga. Todos esses exerceram uma influencia maternal em seu desenvolvimento mental, além de sua mãe genética.
As relações humanas acabam por ser o tema principal de ambos os livros, para o bem e para o mal, e isto foi o que me atraiu na análise das obras. Tolstói escreveu em sua famosa e supracitada frase de abertura de Anna Kariênina: "Todas as famílias felizes se parecem entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua própria maneira." Apesar de ter medo de chover no molhado com uma citação tão clichê, é exatamente isso que me veio à mente quando fiz a releitura de Fun Home, em que justamente na página de abertura há um desenho do livro de Tolstói, sendo que este não é mais mencionado ao longo do álbum de Alison. Fiquei besta com a incrível sutileza (ela comenta que seu objetivo é sempre informar algum detalhe sutil em cada um de seus desenhos, e ela consegue fazer isso magistralmente). Pois de fato a história da família Bechdel é infeliz, mas de uma maneira um tanto peculiar. A tristeza aqui não se traduz em sofrimentos físicos nem em algum tipo de violência doméstica, não ocorrem tragédias gregas ou romanas. A tristeza se revela por conta de que a autora se recusa a mascarar o que quer que seja, sendo obsessivamente sincera, além de filosofar em retrospecto a respeito de cada ato realizado por si e seus pais, a respeito de seus seres interiores, suas psíques, suas opiniões e atitudes. O que dá o tom triste (acho que melancólico é a palavra correta, pois a melancolia é sóbria e contida, como afirma Ariano Suassuna em A Pedra do Reino, palavras estas que poderiam ser usadas para definir o tom destes livros) é o ressentimento que ela desenvolveu contra os pais pela falta de afeto e contato físico. Como Bechdel interpreta a obra Winicott em Você é Minha Mãe?, refletindo que "o sujeito tem que destruir o objeto, mas o objeto tem que sobreviver à destruição", pois, "se o objeto não sobreviver, ele vai permanecer interno, uma projeção do Self do sujeito. Se o objeto sobrevive à destruição, o sujeito o observa como algo a parte". Da mesma maneira como Virgínia Woolf se livrou do fantasma psicológico de sua mãe sobre si ao concretizar Passeio ao Farol, Bechdel dá a impressão de querer se livrar do fantasma psicológico de seus pais, tornando-os meros objetos que ela poderá analisar de modo racional e menos emocional, impossibilitando-os de assim exercerem sentimentos de culpa nela.
Enquanto em Fun Home ela justapõe suas observações com obras literárias, em Você é Minha Mãe? ela o faz com as teorias do psicólogo e pediatra Donald Winicott (este livro me motivou a comprar um outro chamado Vivendo Num País de Falsos-Selves, do psicólogo pernambucano Júlio de Mello Filho, sobre as aplicações das teorias de Winicott em nossas rotinas cotidianas, o qual pretendo ler em breve), além de algumas poucas menções a Freud e Lacan. Seu estilo, apesar de autobiográfico, não se resume a contar uma história, como já disse. É como se ela escrevesse uma dissertação com suas reflexões, e para ilustrá-las, utiliza-se de momentos soltos de sua vida e da vida de seus pais, encadeando e correlacionando numa cronológica descontínua, o que se revela genial. Apesar do livro não possuir uma "trama", num sentido amplo, é justamente esse encadeamento e correlação que a delineiam. Os capítulos foram escritos com esmero, lógica e coerência invejáveis, sempre com um final surpreendente arrebatador e dramaticamente eficientes (por exemplo, ela liga o fato de que seu pai ficou preso na terra aos 3 anos, e conecta com a reflexão sobre o pai morto, preso na terra para sempre).
Ambos os livros são obras densas, que fogem do melodrama em busca da mais sincera realidade. Tem charme e tem poesia, de seu modo mas tem. Recomendo fortemente.


Mais resenhas:
http://oquadropintadodecinzas.blogspot.com.br/2014/04/resenha-fun-home-e-voce-e-minha-mae-de.html

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Pedro 29/08/2016

Neste livro duro, a quadrinhista Alison Bechdel, autora do prestigiado Fun Home, investiga as relações entre mãe e filha, tateando um jogo de espelhos na busca por descobrir quem ou o que é sua mãe. Cheia de dúvidas e indo frequentemente a analistas, Alison tenta entender a difícil relação com a mãe, com quem não convive há anos e que lida mal com a homossexualidade da filha artista. A publicação de sua primeira obra traz à tona segredos de família e dificulta uma aproximação, tornando o relacionamento repleto de não-ditos ainda mais turbulento. Resgatando da infância os episódios aparentemente inocentes na formação do indivíduo, Bechdel percorre o labirinto de identidades, desejos, frustrações e reconhecimentos que define, para o bem e para mal, quem somos e aquilo que nos tornamos.
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Kymhy 01/04/2018

Você é minha mãe? - Alison Bechdel
Mesclando a arte em quadrinhos com sua história, Bechdel ilustrará a relação que teve com a própria mãe, tentando explicar muitas das situações através das teorias do psicólogo Winnicott.

site: https://gatoletrado.com.br/site/resenha-voce-e-minha-mae-allyson-bechdel/
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Maria Clara 25/10/2019

Uma decepção
...Depois de saber do sucesso da Autora com seu Livro anterior "Fun Home".
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