A Lâmina na Alma

A Lâmina na Alma Guy Gavriel Kay




Resenhas - Tigana


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Paulo 26/04/2020

O ato de escrever não é algo extremamente complicado. Escrevemos coisas todos os dias: uma receita de bolo, um relatório no escritório, um formulário de emprego. A escrita de ficção é uma tarefa que exige mais criatividade. Criar personagens, construir um mundo, articular uma narrativa. Mas, o elemento fundamental em uma obra de ficção ainda continua sendo o que você escreve no papel. Se o autor consegue ser claro, conciso, instigante. Alguns autores conseguem criar histórias memoráveis, mas com uma escrita que pode ser dura e lenta. Por exemplo: eu adoro os livros do Haruki Murakami, mas sei que ler uma obra dele exige foco total e absoluto, e que suas páginas vão levar mais tempo para serem transpostas. Guy Gavriel Kay consegue escrever linhas e parágrafos tão suaves e macios que a leitura flui muito bem (crédito também para a ótima tradução que manteve a essência da escrita do Kay). Não apenas isso como também os encadeamentos de frases parecem belos e corretos. Belos no sentido de que as frases parecem ritmadas e musicadas; corretos significando o simples fatos de que as palavras deveriam estar naquela ordem, naquela sequência. Não há outra ordem para elas.

Antes de começar a escrever fantasia, Guy Gavriel Kay escrevia poesias. Ele é um mestre na arte da composição de versos líricos e sua habilidade foi o que levou Christopher Tolkien a procurá-lo para ajudar a organizar os textos que viriam a formar o Silmarillion. As frases escritas pelo autor soam diferentes, há uma pegada emocional por trás de cada parágrafo. O autor sabe também criar tensão na medida certa. Tem alguns momentos em que o leitor vai se pegar emotivo por conta de um assunto abordado pelos personagens ou alguma cena mais forte. O estilo de prosa do Kay vai ser associado por alguns à escrita do autor de O Nome do Vento, Patrick Rothfuss. Entretanto, Kay é mais um jogador do que um apreciador. Rothfuss prefere mostrar o cotidiano e se focar nas mínimas coisas; Kay prefere posicionar suas peças e fazer as engrenagens girarem.

A história tem como protagonistas principais Devin e Dianora. Devin é um cantor que faz parte da trupe itinerante de Menico de Ferraut. Saiu de casa mais moço porque não conseguia se ver trabalhando no campo. Ao lado de Menico conseguiu um pouco de fama e fortuna a ponto de se tornar sócio do dono da trupe em pouco tempo. No momento em que a história começa, chegamos com Devin em Astibar, uma das nove províncias da Palma. O Duque Sandre D'Astibar, um dos nobres que mais resistiram ao domínio de Alberico de Barbadior, finalmente decidiu cruzar os portais de Morian, uma expressão que significa sua morte. Mas, antes de morrer, Sandre exigiu de Alberico ser enterrado com toda a pompa e tradição dos rituais antigos. Isso significa passar por todo o ritual que simboliza a Tríade, os deuses protetores da Palma (Adaon, Eanna e Morian). Os filhos de Sandre estão escolhendo que músicos cantarão o Lamento de Adaon durante o funeral e, obviamente que Devin consegue obter esse privilégio, significando a entrada de muito dinheiro para a trupe de Menico. Mas, após a apresentação, coisas estranhas começam a acontecer. Principalmente com a estranha Catriana, uma bela mulher ruiva que vem tirado o sono de Devin.

Em Chiara conhecemos nossa outra protagonista, Dianora. A melhor definição para ela é sobrevivente. Tendo sido uma das sobreviventes das guerras no Deisa, Dianora tem um profundo ressentimento por Brandin de Ygrath, aquele responsável por desaparecer com a memória de Tigana. O objetivo na vida de Dianora é matar o tirano. Para isso ela coloca em prática um audacioso plano para se aproximar dele. Após uma longa jornada, Dianora se torna uma das principais concubinas da saishan de Brandin. Possuidora de um carisma terrível e conhecendo as artimanhas por trás das sedas da saishan, Dianora se torna uma força da natureza. Mas, ela percebe que os anos se passaram e ao invés de matar Brandin, agora ela simplesmente habita sua cama. Um dia, Brandin vê uma riselka (um ser mítico da Palma) e confidencia esse estranho encontro a Dianora. Apesar de Brandin não conhecer o significado do encontro com este ser, Dianora sabe... E tudo irá mudar.

É preciso situar também os leitores no cenário do livro. A Palma é uma península formada por nove províncias: Chiara, Senzio, Asoli, Astibar, Corte, Certando, Tregea, Baixa Corte e Ferraut. Mas, antigamente havia Tigana. Há vinte anos atrás a Palma foi vítima do ataque de Alberico, a mando do imperador de Barbadior e de Brandin que veio colonizar a Palma em nome de Ygrath. Os dois possuíam incríveis poderes que subjugaram rapidamente a península. Mas, Brandin teve mais dificuldades quando colocou seu filho Stevan a mando de um ataque à província de Tigana. Os tiganeses resistiram bravamente e Stevan acabou morrendo durante um combate às margens do rio Deisa. Brandin, enfurecido, parte em uma campanha de massacre à Tigana e após sair vitorioso usa seus poderes mágicos para apagar o nome de Tigana da mente de todas as outras províncias da Palma. Somente os tiganeses se lembrariam do nome de sua nação; quando fossem falar com outras pessoas, o nome Tigana seria ouvido como um ruído incompreensível pelos demais. Pessoas que nascessem depois também não reconheceriam mais o nome de Tigana. Tigana se tornou Baixa Corte, uma província desprezada por Brandin com todas as forças.

A temática da memória nacional é um dos temas mais destacados na narrativa. Estamos falando da importância de ter nascido em um lugar. De o quanto temos a necessidade de pertencermos, de termos uma casa. O ato de apagar um lugar da memória coletiva é a violência final contra um coletivo. A dor que isso provoca no íntimo dos envolvidos em resgatar Tigana é absoluta. Tem um momento da narrativa em que Devin fica sabendo dos detalhes de sua missão que chega a doer o coração. A maneira como Alessan coloca toda a situação, a angústia, a tristeza, é de emocionar o leitor. Mencionar a palavra Tigana é um grito de fúria e de liberdade; só que ninguém consegue ouvir além daqueles que entendem o que acontece. Talvez isso não seja tão compreensível para nós, brasileiros, já que temos uma relação diferente com nosso país. Nosso nacionalismo é esquisito e o ufanismo aparece apenas em raros momentos de nossa história. Por essa razão talvez uma das problemáticas para o livro ecoar com os leitores brasileiros seja justamente a falta de compreensão sobre o que realmente significava o apagamento da memória.

Lendo o posfácio escrito por Kay para a nossa edição brasileira (um mimo entre muitos problemas na edição) é ele colocar para nós uma das chaves para a sua narrativa: homens bons realizando coisas ruins em prol de um ideal. E realmente é isso no fim das contas. Mesmo Devin, Baerd e Alessan desejando algo bom para a Palma, eles são obrigados a realizar coisas deploráveis ao longo da narrativa. Alessan se vê na necessidade de usar uma pessoa como ferramenta para poder avançar seus planos; coloca toda uma província em perigo porque necessita estabelecer um campo de batalha; se vê obrigado a engolir seus ideais em um determinado momento. Alcançar o objetivo final na história vai exigir muito do caráter dos personagens. É aí que a gente começa a separar meninos de lobos. Quando chegarmos aos momentos finais de Tigana, veremos que os personagens serão completamente diferentes.

Uma das virtudes de Kay é saber trabalhar todos os personagens de forma bem igualitária. A gente pode reclamar de que um personagem ou outro ficou menos tridimensional e simplificado demais, mas todos recebem seu tempo na narrativa. E isso porque estamos falando de um livro único (a Saída de Emergência dividiu um livro que era de um volume só). A habilidade de Kay de compor sua narrativa lhe dá tempo de construir o mundo, desenvolver os personagens e aprofundar a história. Isso é mais do que vemos em muitos outros livros. Em um espaço de aproximadamente 600 páginas, Kay faz mais do que trilogias com mais de 800 em cada volume. Alberico e Brandin são muito mais do que simples antagonistas. Por exemplo, vemos que Alberico é um homem que apostou tudo em uma campanha militar com vistas a reforçar seu poder e destronar seu imperador. Mas, ele vai percebendo que tomou uma decisão errada ao vir para a Palma. Conhecemos seu caráter cauteloso, mais voltado para coisas práticas do que ideais. Já Brandin é o inverso. Brandin se mantém na Palma por conta de sua vingança contra os tiganeses. Mas, Brandin é um homem que vive de suas emoções, que, por vezes, são intempestivas. O caráter do imperador de Ygrath acaba tendo uma boa química com a inflamada Dianora.

Se eu posso tecer críticas à Tigana está no fato de que não se trata um livro com muitas cenas de ação. Kay é mais um planejador do que alguém que vai te colocar no meio do conflito. Temos dois momentos um pouco mais climáticos na narrativa: uma no final da terceira parte e outra realmente no final da narrativa. Outra coisa que me incomodou um pouco foi que em alguns trechos que aparecem sobre o ponto de vista de Alberico são mais contados do que aparecem de verdade. Eu gostaria de ter visto alguns acontecimentos se desenrolando e como Alberico foi sendo levado ao limite por Alessan e suas intrigas feitas nas sombras. Teria sido mais recompensador. Mas, enfim, talvez isso incomode aos leitores que esperam algo mais desenfreado. Isso não é o estilo de Kay. Ele prefere um ritmo mais constante na narrativa.

Daria para falar de Tigana por parágrafos e parágrafos a fio. Mas, fica o meu convite para os leitores para darem uma oportunidade para este material. Se vocês não puderem ler em inglês, adquiram o resto do estoque de Tigana que está sendo vendido sempre a preços irrisórios na Amazon. A qualidade do livro fala por si mesma. Kay é um mestre na prosa poética. Além disso, ele consegue tornar aquilo que nos é familiar em algo diferente do que existe por aí. Alguns vão imaginar que a ideia de Tigana é copiada de um cenário renascentista dos condottieri lutando entre si pelo predomínio na península Itálica. Nada poderia estar mais errado. É como aquela brincadeira da série de TV do Chaves: parece península Itálica, tem sabor de península Itálica, mas não é a península Itálica. É a península da Palma, com todos os seus problemas e dilemas.

site: www.ficcoeshumanas.com.br
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Fernanda 10/04/2020

O moço da capa é o Jensen Ackels
Esse livro para mim...foi meio gostei e não gostei
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Paty 21/03/2020

O lugar da memória ou a memória do lugar
Dizem que o autor #GuyGavrielKay é considerado o herdeiro de #Tolkien
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Mas, o que é muito legal nesta duologia é que a história é sobre memória (e seu poder).
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A protagonista é uma província: Tigana, que teve seu nome e lembranças removidos (por feitiçaria) da mente de qualquer um que não seja nativo. Seu nome sequer pode ser pronunciado, ouvido ou compreendido por qualquer um nascido fora da província.
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Vinte anos depois dessa maldição, um grupo de pessoas luta por reaver a memória do lugar e expulsar os feiticeiros que controlam a península.
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Eu diria que o gênero da obra é uma #fantasia política, na qual os personagens lutam contra a tirania.
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Kleyton Lírio 24/01/2018

Sutilezas da Política Diplomática.
Boa história sobre exilados que é construída lentamente focada em controle, manutenção e exercício do poder e nas sutilezas da política diplomática. Demais assuntos são pouco desenvolvidos, como antropologia, religião, batalhas e magia. A parte sobrenatural do Dia das Brasas é bacana. Como recurso de sofisticação, eventualmente, o autor utiliza a narrativa não-linear. Compensou a leitura pelo desfecho razoável e adulto, descontando as partes condescendentes da Catriana. Do que é feito o líquido fumegante Krav (seria algum chá, café?).
Nota ZERO para essa finada editora que dividiu 1 livro de 600 páginas em 2 tomos. No final do 1º tomo tem um pretensioso posfácio, seguido de uma prévia de 45 páginas do 2º tomo que eu pensei ser o capítulo subsequente na narrativa, porém, pasmem, eram 2 capítulos que li novamente no meio do próximo livro. E ainda compara este autor com o Tolkien que inventou toda uma mitologia exaustivamente copiada. No 2º tomo, depois do epílogo, colocaram um capitulo de outro livro, seguido de algumas sinopses de fantasias.
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ViagensdePapel 08/08/2017

Um livro que foi lançado em 1990 e 24 anos depois continua bastante atual. É assim que defino Tigana, a narrativa épica escrita pelo canadense Guy Gavriel Kay. Nesta primeira parte – A lâmina na alma – somos apresentados a um mundo bem diferente do nosso e a personagens bastante singulares. Tigana é uma nação oprimida por conquistadores que, por vingança, tiraram o direito do povo de saber o nome de sua própria terra. Com o intuito de recuperar a identidade perdida e destronar os tiranos que governam a Península da Palma, o príncipe de Tigana, Alessan, reúne um pequeno grupo e segue em busca de liberdade.

O começo da história é bastante confuso. São diversos nomes, tanto de personagens, quanto de locais, que confundem o leitor. Porém, ao decorrer da história, vamos conhecendo um a um e descobrindo a importância de cada um para a trama. Ali, todos têm a sua importância. Narrado em terceira pessoa, o livro não foca apenas em um núcleo de personagens. Somos agraciados com diferentes pontos de vistas, o que ajuda na compreensão da narrativa. Essa primeira parte funciona como uma introdução. Em A lâmina da alma nós descobrimos quem são e porque são importantes os personagens da história, assim como vamos descobrindo o que aconteceu com a terra que teve seu nome banido. Conhecemos Alessan, o misterioso príncipe de Tigana e líder do grupo que está em busca de liberdade; Baerd, braço direito de Alessan e de lealdade admirável; Catriana, a linda ruiva de personalidade forte; Dianora, que teve que renunciar a muitas coisas para ter sua terra de volta; entre tantos outros.

Para mim, o personagem mais importante da trama é Devin. Devin é um jovem que não tinha muitas preocupações na vida. Era sócio em um grupo itinerante, com quem cantava em diversos eventos ao redor da Península da Palma. Entretanto, de uma hora para outra, descobre que sua terra é Tigana e envolve-se com a missão de Alessan. O personagem gera uma identificação muito grande, porque, assim como nós, vai descobrindo sua origem aos poucos e desvendando os integrantes de sua equipe junto conosco. Além disso, o crescimento do personagem ao decorrer da trama é bastante notável. Conforme vai compreendendo seu povo e história, Devin vai amadurecendo e passando de jovem a adulto.



Leia a continuação da resenha, acesse o link abaixo:

site: http://www.viagensdepapel.com/2014/02/18/resenha-tigana-a-lamina-na-alma-tigana-1-de-guy-gavriel-kay/
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Carlos 19/05/2017

No fue del todo aburrido pero me costó engancharme al ritmo. En mi opinión resulta en exceso tranquilo y los acontecimientos tardan en desarrollarse, amén de las exageradas descripciones que aporta el autor.

No es un mal libro pero le falta.
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Nicky 23/10/2016

O nome da cidade que não pode ser falada
Tigana - AS lâmina da alma, primeiro livro de 2 volumes, escrita por Guy Gavriel Kay, trata-se de um livro com a temática de fantasia e história épica, trazendo em si um mundo novo, com suas próprias gírias, costumes, vestimentas e vários aspectos culturais, sendo a base um sistema absolutista monárquico, caracterizado por seu enredo envolver as guerras por conquistas de territórios.
Começa assim um livro maravilhoso, com uma linguagem de vai da forma culta a informal. Com enredo e desenvoltura deste de forma descritiva e bem elaborada, seus personagens são bem trabalhados e suas ações dão ainda mais uma dica sobre o seu caráter.
Devin é filho de um dono de fazenda em Asoli, com seus dois irmãos gêmeos, vivem tranquilamente, dotado de uma perfeita memória que possui seus lados positivos e negativos, descobre-se um cantor nato, consegue entrar em uma companhia, onde viajara por quase toda Península da Palma. Depois de anos nela, uma séries de acontecimentos o leva a se juntar ao Príncipe de Tigana, Alessan para recuperar sua cidade e nome esquecido, devido ao Tirano chamado Brandin, feiticeiro que ao perder seu filho mais novo e querido na batalha pela conquista de Tigana.
Sendo descoberto a verdade sobre onde nasceu, Devin vai entrar nessa resistência, sendo o caminho tortuoso, sendo constantemente pego por ações que vão faze-lo questionar sua moral e ética.
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Cami Gouveia 06/07/2016

Resenha: Tigana-A lamina na alma
Tigana era uma cidade onde existia um reino e muitas pessoas,tradições,cultura,música,lendas.. mas tudo é perdido por causa de um assassinato de um príncipe que queria tomar aquela cidade e seu pai tomado pela dor destrói a cidade e por ser mago lança um feitiço para que as pessoas que morassem lá não pudessem lembrar do nome da cidade além das pessoas de outros lugares não saberem de sua existência e isso gera uma revolta e luto muito grande nas pessoas tiganesas, aos poucos juntam-se e lembram daquela cidade e decidem retomar o nome para o povo e fazer com que todos lembrem deles.

Opinião:A história é muito bem construída, as vezes confusa pela quantidade de personagem mas depois que pega o enredo fica bem fácil de entender o que se passa,mostra o que é preciso para um povo ficar unido e mesmo com muita dor e luto continuarem sobrevivendo.
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Samuel Simões 22/03/2015

SURPREENDE demais! Muito bom!
Não esperava nada deste livro e me surpreendi demais!! Com uma história fascinante e rica em detalhes e personagens e brigas por poder e terras! Uma fantasia medieval a altura dos elogios que tem na capa! Um livro brilhante e o autor é incrível para nos conduzir por além de seu mundo com o príncipe Alessan! Vale demais a pena!! Leiam!!
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Albarus Andreos 22/12/2014

Confuso, para dizer o mínimo
Não posso me lembrar da última vez que tive de recomeçar a leitura de um livro, após já ter avançado consideravelmente (no caso, fui até a página oitenta), por não estar conseguindo absorver completamente a narrativa, seja por um estilo um tanto quanto confuso (e aí até credito a falha, parcialmente, à preparação do texto por parte da editora), seja por haver uma série de informações jogadas, de forma muito rápida e sem as conexões necessárias para torná-las mais palatáveis. E afirmo que jamais havia feito isso duas vezes, embora na terceira tentativa as coisas já se mostrassem mais fáceis de absorver (Deus é Pai!). Tigana: a Lâmina na Alma (Editora Saída de Emergência, 2013), vem da primeira leva de livros lançados pela SDE no Brasil, e exige um esforço de interpretação um pouco mais apurado, diferentemente do que está acostumado o leitor de fantasia mediano.

A história, basicamente, inicia-se com um flashback que marcaria profundamente a história nesse mundo fictício, batizado como península da Palma, baseado numa realidade com toques e nomes italianos e nas lutas das suas cidades estado, na idade média. Dito isso, temos que no local travou-se uma batalha sangrenta onde um rei invasor, detentor de conhecimentos místicos, massacrou os locais. Esse rei, Brandin, vindo do império de Ygrath, é inimigo de um outro soberano, Alberico, de Barbadior, e ambos estão subjugando a península, dividindo-a entre si, sob o peso de seus exércitos e sua magia. Bem, isso é o que nos conta o narrador, pois magia mesmo é difícil de encontrar nesse livro. Fico aqui raciocinando se deveria mesmo ser inserido no gênero fantasia, pois ela praticamente não aparece, nem seres fantásticos, nem espadas mágicas ou qualquer coisa do tipo, a não ser pelo fato de que Brandin apagou o nome de uma das províncias da Palma da memória das pessoas, após a morte de seu filho numa batalha.

Misturado a isso temos a introdução do personagem principal, Devin D’Asoli, um jovem fazendeiro com muito talento para a música; ele sai de sua terra, Asoli, no norte da península, e viaja o mundo com uma trupe de artistas. Nessa trupe conhece Catriana, uma linda cantora, um pouco inexperiente na arte, mas extrovertida e geniosa — e linda! Em Astibar, um Duque de nome Sandre, há muito deposto e exilado por Alberico, planeja sua própria morte, com o intuito de invocar o ódio de antigos nobres, inimigos seus, no esforço comum de expulsar ou matar Alberico, o“mal maior”. Esse plano passa pela colaboração de seu filho do meio, Tomasso, um homossexual que finge ser depravado e escandaloso, mas que na verdade é muito ciente de seus deveres e interpreta o papel de bicha louca apenas para que possa assim passar "despercebido", como ameaça aos inimigos.

Devin segue Catriana durante os ritos fúnebres para os quais foram contratados para cantar. Num aposento secreto no andar de cima da casa, ouvem uma conversa entre alguns membros da família Sandrini, em que se afirma que na vigília, que se realizará na parte da tarde, em uma cabana de caça na floresta, fatos importantes que envolvem essa revolta se concretizarão. Catriana, para “enrolar” Devin, transa com ele (!), com o intuito de que não preste atenção à discussão e assim possa continuar com os próprios planos secretos, junto com um grupo que conheceremos depois, na cabana (cara, muito forçado isso!).

A vigília é então realizada após o caixão ser levado para a tal cabana, Tomasso e seus familiares se reúnem lá, com os dois nobres convidados, inimigos de seu pai, e o contexto é revelado a eles, pois assim “planejou detalhadamente o pai”, pois estão às vésperas do Festival das Brasas, e Alberico não poderia impedir que os rituais fúnebres se realizassem e até permitiria que o corpo do antigo Duque voltasse a Astibar, para a visitação final dos seus antigos súditos.

Entendeu? Tudo isso acontece nas primeiras oitenta páginas, e com um rigor de detalhes que ainda inclui as divindades veneradas pelos habitantes da Palma, as bebidas que gostam, os locais que habitam e vários personagens secundários e suas ações, que nem me atrevo a incluir também nessa resenha, por simples questão de espaço. E, claro, como já citei, há certo despreparo com relação à preparação do texto (paradoxal, não é?), que falha em alguns momentos com a pontuação e exagera na prolixidade de algumas passagens. Aliás, as partes internas das capas trazem um mapa lindo da península. Ótimo, se não fosse o erro infantil de atribuírem erradamente o topônimo Barbadior, o império do leste, à capital da ilha de Chiara, que deveria ser Sangarios, como o próprio livro mostra num outro mapa interno. Ao invés de ajudar, o mapa atrapalha, e muito. Tenha dó, Editora!

Ficaria espantado ao saber que alguém chegou a esse ponto com uma só leitura, tendo entendido certinho, concatenado todos os fatos e reunido todas as pontas, sem qualquer problema. Você conseguiu? Uau. Parabéns! Sinto-me aqui uma besta quadrada, mas como quem está escrevendo a resenha sou eu (e você pode fazer a sua também, esmiuçando brilhantemente todos os fatos com sua perspicácia), vou é tentar explicitar do que estamos falando em Tigana, mas sob minha ótica, óbvio.

Que porra é essa de Sandre se matar para reunir os antigos inimigos na cabana de caça? Não tinha jeito mais fácil? Não dava para trocar mensagens usando o velho truque do espião disfarçado, ou informantes? Que planejamento é esse, afinal, que ele engendrou para reunir os dois nobres, sabendo que “um sexto integrante” estaria presente? Como sabia? Não se fala em magia ou premonição até aqui, na história, para corroborar essa possibilidade. Aliás, como Catriana sabia que os familiares de Sandre se reuniriam naquela determinada sala, onde tem um aposento secreto, naquele determinado horário? Como saberia que estariam lá, no exato dia?

Bem, com o decorrer da trama vemos que não é bem assim, mas há pessoas envolvidas que não poderiam ter concordado com coisa toda... O descarte de Tomasso, logo no início é um desperdício de bons personagens, sendo que Guy Gavriel Kay não pode se dar a esse luxo, como vemos no decorrer da trama. Chega a parecer que propor um personagem gay não passa de um mero afago ao público LGBT. E o incesto que avassala as existências de Dianora e do irmão, depois (ótimos personagens que acabam por ser introduzidos)? Para que serviu? O autor parece querer chocar e tirar o leitor de sua zona de conforto, mas não consegue incutir valor a esses argumentos. Na verdade, parece que falta planejamento. Planejamento ruim é a palavra de ordem aqui.

A obra, hora editada pela Saída de Emergência, traz um posfácio à edição brasileira que muito elucida esse certo “descontrole” que noto nas páginas de Tigana. Fiz questão de lê-lo antes e depois de terminada a leitura. Fica claro a intenção de fazer uma história com os contornos medievais italianos. Fica também clara a intenção de mostrar como certos “líderes” usam a prática de tentar “mudar a história” com gestos surpreendentes. O autor cita uma fotografia tirada na Tchecoslováquia, quando da Primavera de Praga, uma revolução massacrada pelo regime soviético, no ano de 1968. Ele cita uma fotografia, com dirigentes comunistas, que após a revolução tem um de seus retratados apagado da foto e substituído por uma planta (!), numa rudimentar manipulação fotográfica, numa época anterior ao advento do Photoshop. Apagar uma pessoa seria então um gesto maior que simplesmente matá-la. Essa prática de manipular fotografias era contudo muito utilizada por Stalin, em seu cruel regime que reduziu a União Soviética a um continente surreal no mundo. Fotos desse tipo há aos montes. Procure no Google para saber mais.

Num trecho anterior, o autor diz que antes de começar a escrever Tigana, a única imagem que tinha em mente era uma reunião realizada às escondidas, numa cabana de caça, no meio de uma floresta, que tinha uma pessoa a mais, do ponto de vista dos presentes, sentada numa janela. Exatamente a cena retratada no final daquelas oitenta páginas iniciais do livro. Ora, o livro todo foi escrito para arcabouçar essa cena? Sim, foi. Isso e mais a ideia central de que alguém (ou, no caso, um povo inteiro), pode ser apagado da história pela simples vontade de um tirano. O esforço do autor para tornar o livro um objeto coeso e único tropeça continuamente nas intermináveis reflexões dos personagens sobre a perda de identidade dos indivíduos que nasceram em Tigana, no expurgo de uma história, com o simples esquecimento de uma nome, ato da magia vingativa de Brandin. Por que raios o autor foi meter isso tudo numa obra de fantasia, fica no reino no insondável. A intenção pode ter sido boa, mas o ditado já dizia que “o inferno está cheio de boas intenções”.

A mim, parece, que Guy Gavriel Kay não alcançou os objetivos a que se propunha. Temos um livro amarrado, no sentido de que não deslancha, desamarrado, no sentido de ter muitas pontas soltas (que prometem ser elucidadas no próximo volume da série, parece), e personagens complexos demais, que acabam, por si só, retirando a história do foco e restringindo-a a si mesmos. Tigana é um livro de personagens, com uma temática absurdamente densa ao redor de si, com poucos diálogos e sem a desenvoltura da boa fantasia. Como disse antes, inserir a obra na literatura fantástica é estranho, parece até um descuido. Ficaria melhor como uma metáfora, mais a George Orwell, do que ocupando o lado esquerdo de obras como O Senhor dos Anéis, de Tolkien, ou A saga da Espada de Shannara, de Terry Brooks, essas sim, fantasias legítimas.

site: www.meninadabahia.com.br
Ana Vidal 25/05/2016minha estante
comecei a ler hj e estou odiando. leitura difícil e rebuscada. vc tem q pensar MUITO pra poder entender a estória. sorte q o livro me custou R$ 5,00 kkkkkkkkkkk




Michele Bowkunowicz 10/12/2014

"Tigana" é a história de uma península, Palma, com nove províncias que foi dominada pelo país vizinho Ygrath e seus dois tiranos magos, Brandin, Rei de Ygrath e Alberico, um senhor da guerra do império de Barbadior. Apenas Senzio, uma das províncias, não está sob domínio de Ygrath, mas por consequência, eles tem que pagar tributos.........

Leia mais em meu blog Lost Girly Girl

site: http://www.lostgirlygirl.com/2014/11/resenha-477-tigana-guy-gavriel-kay.html
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Carol 19/10/2014

Fantasia de qualidade
Emocionante e inteligente, o roteiro se desenvolve revelando fatos e personagens sem uma ordem linear e fazendo com que aos poucos o leitor junte o quebra-cabeça que forma o pano de fundo para a história. Uma ótima leitura.
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neo 09/09/2014

Eu me sinto até culpada ao dar uma estrela a esse livro. Certo, certo, não é exatamente culpada, já que acho sim que Tigana mereça essa nota, mas, talvez, um tanto errada. Praticamente todo mundo adorou ler Tigana (é só dar uma olhada no número de resenhas positivas e comparar com o de negativas, já que essas, aliás, quase não existem) e, bem, eu odiei. Talvez a culpa seja, em parte, minha; estou numa maré de azar para livros esse ano e Tigana meio que era a grande aposta de 2014, uma tentativa de elevar a qualidade das minhas leituras. Não funcionou. Tigana piorou tudo, sendo bem sincera.

Meu problema com esse livro começou com os personagens. Faz um bom tempo que não discordo tanto com as resenhas de sites que sigo quando se trata de personagens complexos em livros de fantasia, principalmente porque, para muitos, essa é justamente uma das melhores coisas sobre Tigana. Mas para mim os personagens apresentados e construídos (hm) pelo autor não poderiam ser mais unidimensionais e previsíveis nem se tentassem. Catriana é a básica garota ruiva com um temperamento ruim a quem o autor tentou dar um pouco de profundidade e originalidade (falhou miseravelmente, devo dizer) ao acrescentar um pouco sobre seu passado à história. Alessan é o típico príncipe exilado lutando para recuperar seu lar perdido, Alberico é o já manjado vilão egoísta e sem escrúpulos e Dianora é possivelmente a personagem mais sem sal (ou lógica) de todo o livro. E o protagonista é basicamente uma casca. Os únicos que apresentaram alguma possibilidade de serem bons foram Tomasso e Brandin, e mesmo esses dois não funcionaram para mim. E, devo dizer também, Devin possui a motivação mais fraca que já vi. Entendo Alessan e Baerd serem tão obcecados com recuperar o nome de Tigana porque eles presenciaram a coisa toda, eles sentiram a perda da pátria deles na pele. Devin (e Catriana, de certo modo) não passou pelo que eles passaram, e nada irá me convencer ("isso é uma questão de se identificar com seu lar, de conexão com o lugar" não cola comigo no caso do Devin, me desculpem) de que a lâmina na alma dele é justificável.

Pois bem, meu problema continuou com o modo com que o sexo foi tratado no livro. Não foi pela quantidade (eu sempre me senti meio de escanteio, já que li As Crônicas de Gelo e Fogo e em nenhum momento me senti afetada de modo negativo - ou positivo - pelo sexo presente na série, então, sério, não foi pela quantidade mesmo), mas sim pelo modo. Nunca vi um jeito tão piegas e melodramático de descrever sexo e juro que nunca revirei tanto os olhos enquanto lia cenas desse tipo. Cheguei ao ponto de literalmente pular parágrafos para me salvar um pouco das descrições absurdas usadas pelo autor, e isso é algo que realmente abomino fazer. Mas foi necessário para manter minha sanidade.

Em um debate vi certa vez alguém dizer que o sexo era descrito desse modo por causa do elemento latino na narrativa (para quem não sabe a Palma é inspirada na Itália) e isso me deixou com uma pulga atrás da orelha. Isso não é, afinal, o estereótipo de que latinos = sexo sendo perpetuado? Nós somos latinos, obviamente, então paremos um momento para refletir se isso é realmente tudo o que queremos que seja relacionado a nós em livros, filmes e outros meios de narração de história. Sério.

Outra coisa que me incomodou bastante foi o modo com que as mulheres foram representadas. Super apoio mulheres como seres sexuais e etc, etc, etc, mas os motivos para mulher na cena + homem na cena = sexo nesse livro me pareceram meio bizarras. (Pequeno spoiler!) Catriana tem sua primeira vez com um cara que ela mal conhecia dentro de uma espécie de armário para tentar impedi-lo de ouvir uma conversa (!!!!!), Dianora passa anos e anos sem matar o cara que arruinou sua vida porque ele é bom de cama (não, isso não é amor, minha gente) e praticamente todas as mulheres do livro são sexualizadas de algum modo. Eu não teria problema nenhum com isso se não fosse algo tão na cara feito para que os homens somente (é meio difícil ser uma garota e ler fantasia de vez em quando, já que boa parte dos autores parece se esquecer de que nós existimos). Não é a mulher ser sexual por ela mesma, é ela ser sexual porque os homens gostam e hashtag eu não estou aqui pra isso.

Por último, o livro não tem clímax. Sim, eu sei que a obra original foi dividida em dois volumes aqui no Brasil, mas Tigana - A Lâmina na Alma continua sem clímax do mesmo jeito. Foi um erro da editora, obviamente, mas no momento em que um livro é publicado ele está sujeito a receber críticas relacionadas ao conteúdo que chega ao leitor. E o conteúdo que chegou até mim não tem nem rastro de clímax, infelizmente.

Em conclusão, sim eu odiei praticamente todos os aspectos de Tigana. Não, vou, porém, chegar ao ponto de dizer que ninguém deve ler esse livro, já que muitas (e quando digo muitas realmente enfatizo o muitas) pessoas adoraram a história, então quem sabe você que está lendo essa resenha agora não goste também. Ou seja, é sempre uma boa ideia ler para ter sua própria opinião.

site: http://lynxvlaurent.blogspot.com.br/
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