O corpo em que nasci

O corpo em que nasci Guadalupe Nettel




Resenhas - O corpo em que nasci


5 encontrados | exibindo 1 a 5


Luana 02/05/2020

Vale a pena
Uma história que de inicio não te prende tanto assim mas ao decorrer da narrativa você simplesmente se apaixona pela personagem e compreende o que ela sente e aceita os sentimentos dela (e muitas vezes o seu também)! É envolvente. Deem uma chance para ele, vocês irão se surpreender. É lindo. Emocionante. E tocante.
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Laiz 10/02/2020

- amei o estilo de escrever meio diário, meio sessão de terapia
- como ela não usa nomes pros personagens da família acho que deixa a identificação com a história mais fácil
- não tem como deixar de se identificar com várias passagens da infância e pré-adolescência da narradora, a escrita é maravilhosa!!!!
- aprendi várias palavras novas a que eu mais gostei foi pusilânime que lá na minha terra significa FROUXO
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Rodrigo 23/10/2018

O CORPO EM QUE NASCI
Bom. Um pouco autobiografia, um pouco ficção, a história de uma garota mexicana durante as décadas de 70 e 80, sua percepção de mundo, e suas nóias decorrentes de um grande sentimento de inadequação.
Leitura bem agradável, apesar de um final meio largado.
Recomendo
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Aline T.K.M. - @aline_tkm 12/05/2014

Merece ser lido em algum momento da vida
Ela nasceu com uma mancha branca na córnea direita que tornava sua visão borrada e lhe dava aspecto estrábico. O uso de curativos sobre o olho foi um verdadeiro suplício que marcou a primeira infância da menina mexicana.

Tida por si mesma como uma espécie de Gregor Samsa, a autora e protagonista deste relato autobiográfico é estranha aos demais e a si própria. Em O corpo em que nasci, Guadalupe Nettel narra sua infância e juventude de maneira muito direta, inserida em uma vida marcada por contradições e pela baixa estima de si mesma.

Vida repleta também de descobertas. Do próprio corpo, quando criança, nas escadas de serviço do prédio em que vivia; mais adiante, do amor e das relações com o sexo oposto. De diferentes culturas e classes sociais na escola, durante os anos vividos em Aix-en-Provence, no sul da França, onde conheceu outros estrangeiros – vários deles mantidos “à margem” pelos franceses. Do submundo dos boêmios e artistas, em contraste com a juventude burguesa do liceu franco-mexicano que frequentou ao retornar ao México.


Sendo ela mesma uma freak, sua prosa busca nos aproximar de outros outsiders, a quem aprendemos a admirar – eles são, de fato, mais interessantes do que toda a massa dita “normal”. Dotada de uma personalidade forte, mas algo introspectiva e até antissocial, a protagonista revela detalhes que, de tão preciosos, ganham aspecto quase lírico na mente do leitor. Como, por exemplo, a existência de pessoas que adquirem importância vital em algum momento de nossas vidas, ainda que nunca cheguem a tomar conhecimento disso. (Tomei aqui a liberdade de dizer “nossas” porque esse tipo de evento não é raro em minha vida, e imagino que não deva ser na de vocês.)

Filha de pais bastante liberais, a convivência forçada com o conservadorismo da avó não contribuiu para amenizar a distância da mãe e a falta de notícias do pai. A senhora – estava mais para uma velha saída do século XIX, segundo Guadalupe – exercia distinções de gênero entre a menina e o irmão de forma até impiedosa.

Durante a infância nos anos 70 e a juventude na década de 80, a narradora enfrentou o desafio de aprender a aceitar a si mesma quando os demais pareciam não aceitá-la. A época considerada dourada para a maioria foi para ela uma jornada – pontuada por descobertas, mudanças e incertezas – rumo ao autoconhecimento e à reconciliação consigo mesma.

Por conter referências que vão desde García Márquez até Almodóvar, passando por The Cure e Luis Buñuel; pela prosa irresistível; ou simplesmente por se tratar de um livro impossível de largar: O corpo em que nasci merece ser lido em algum momento da vida – o quanto antes, se possível.

O corpo em que nasci faz parte da coleção OTRA LÍNGUA, lançada em 2013 pela Editora Rocco e que traz autores que compartilham a mesma língua: o espanhol latino-americano.

LEIA PORQUE...
A prosa conquista pela sinceridade, ainda que, segundo a própria autora, as interpretações sejam inevitáveis. Rico em cada aspecto e detalhe.

Para aqueles que dirão “ah, mas não curto biografia...”, este aqui tem ares de ficção - baseada, claro, na vida da escritora.

DA EXPERIÊNCIA...
Lembra quando falei que Águas-fortes cariocas foi o melhor que li da coleção Otra Língua até agora? Então, O corpo em que nasci superou! E digo mais: este pequeno de duzentas e poucas páginas já entrou para os meus três favoritos do ano (salvo se acontecer algo estrondoso e caírem livros muito, muito extraordinários em minhas mãos).

FEZ PENSAR EM...
“A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada”. O conto, do Gabriel García Márquez, é lido e apreciado às escondidas pela protagonista, que encontra nele um pouco de si.


site: http://livrolab.blogspot.com
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Renata (@renatac.arruda) 28/01/2014

Guadalupe Samsa
01. A mexicana Guadalupe Nettel não poderia ter escolhido melhor título à sua autobiografia ficcional: O Corpo Em Que Nasci traz o relato cru e sóbrio sobre a infância e a adolescência de uma mulher que passou os primeiros anos de sua vida marcada por um problema em seu olho que a obrigava a usar um tampão no olho bom com o objetivo de desenvolver o doente. Olhando a vida em borrões até o cair da noite, quando podia tirar o curativo da vista boa, a menina pequena teve que crescer sendo o alvo da estranheza de desconhecidos e chacotas dos amigos da escola. Aprendeu a se refugiar na literatura.

02. Seus contos quando criança eram aventuras protagonizadas pelos mesmo colegas que enxergava como algozes, alguns deles sofrendo mortes trágicas. Era sua maneira de se defender das provocações e esperando enfrentar represálias, se surpreendeu com o efeito contrário: os colegas ficaram emocionados e passaram a pedir para serem incluídos em seus contos. "Assim foi como pouco a pouco eu conquistei um lugar na escola. Não tinha deixado de ser marginal, mas essa marginalidade já não era opressiva." (p.22)

03. Crescendo durante os anos 70, a narradora cresce em um ambiente comunista e liberal, criada em um bairro de classe média da Cidade do México por pais que viviam intensamente as tendências do seu tempo e introduziam precocemente temas adultos à vida dos filhos. Uma das suas lembranças é ter visto os pais de duas irmãs, amigas de sua infância, transando na cozinha de casa - o que para todos naquela família era bastante natural; para eles, deveriam ceder aos impulsos do sexo no local e hora que desejassem. Já adulta, a observação que faz é cáustica: "não me estranharia descobrir que uma delas agora se encontra internada em uma clínica psiquiátrica e tampouco que outra tenha virado uma safada" (p.31).

04. Uma das maneiras que sua mãe encontrou para abordar temas como menstruação e gravidez foi adaptar clássicos infantis e a versão da história da Bela Adormecida que Guadalupe reproduz é memorável. Curiosa, a menina passou a querer saber mais sobre reprodução e sexo, ao que recebeu a resposta de que nem todo sexo é feito com intenções reprodutivas mas também por prazer, "como comer chocolates". "Comer chocolates! Com uma resposta assim, o mais provável era que uma menina desejasse fechar-se esta manhã mesmo no banheiro do colégio com o primeiro homem que encontrasse em seu caminho. Por que não lhes ocorreu responder, doutora Sazlavski, que as relações sexuais se têm por amor e que são uma forma alternativa de demonstrá-lo? Talvez teria sido um pouco mais preciso e menos inquietante, não lhe parece?" (p.28). Com a mesma coragem e espírito desafiador que já demonstrara ao escrever seus contos, a narradora resolve criar um jornal mural e logo na primeira edição aborda as questões reprodutivas - que não vem a ser bem aceitas pelos pais mais conservadores de seus colegas.

05. Durante o mesmo período a narradora experimenta mais duas descobertas a respeito do corpo (seu e das mulheres em geral): descobre por acaso os prazeres da masturbação (que, intuía, devia ser praticada sozinha) ao descer o corrimão da escada do prédio, e ainda toma conhecimento precocemente dos abusos sexuais sofridos por uma vizinha, deduzindo que além de prazer, o sexo "também poderia ser a maneira de machucar de forma muito profunda e definitiva a outra pessoa". Guadalupe testemunha as mudanças ocorridas no modo de ser e se vestir da menina, cuja família acaba se mudando para longe depois de algum tempo.

06. Em determinado momento os pais resolvem adotar o casamento aberto, em voga na época, baseados em duvidosas analogias com o capitalismo e a propriedade privada e Guadalupe e Lucas, seu irmão, passam a ver entrar e sair de casa vários "amigos" dos pais, de quem jamais voltam a ouvir falar. Fica convicta de que este foi o motivo para o fim do relacionamento. Vivendo no que passa a chamar de dois "territórios" distintos, se divide entre a vida amena com o pai e o ambiente controlado da mãe, até ver o pai partir para os Estados Unidos e ficar muito tempo sem saber seu paradeiro. A mãe, resolve ir estudar na França e deixa os filhos com a avó durante os meses em que se assenta no país estrangeiro. Com a avó, a então pré-adolescente volta no tempo: passa a conhecer os preconceitos de gênero, as ideias antiquadas de que é papel da mulher servir, limpar, se comportar e até mesmo suas roupas sofrem a intervenção dos atrasos da mentalidade da avó.

07. Com a ausência dos pais e a presença tirana da avó, Guadalupe sente-se cada vez mais introvertida e triste, deixando até de escrever. Refugia-se na leitura escondida da biblioteca da mãe, no futebol que joga com os vizinhos na quadra e na vizinha Ximena com quem não troca uma palavra, mas que lhe oferece sensação de apoio quando as duas se olham tristes pelas suas janelas ou quando Guadalupe a observa pintar.

08. Aqui, a narradora vivencia uma experiência traumática, que mais uma vez se relaciona ao corpo: um dia, sua amiga Ximena não está na janela. Vendo fogo, Guadalupe corre pedindo para a vó ligar para os bombeiros e os acontecimentos a seguir são trágicos: Ximena nunca mais irá aparecer na janela para compactuarem da solidão - a menina, esquizofrênica, acaba se suicidando incendiando o próprio corpo.

09. Passando pela puberdade e sem a presença dos pais, Guadalupe fica ainda mais taciturna e canaliza toda a sua energia para o futebol, onde sente-se viva. Mas até esta atividade fica ameaçada para ela quando seus seios começam a crescer: sendo a única jogadora em um grupo de meninos, começa a sentir na pele a responsabilidade quando passa a perceber a sensibilidade nos mamilos ao tentar matar uma bola no peito. "Senti medo", diz a narradora, "se isso acontecesse no meio de um jogo oficial, de imediato começariam a chover as vaias, coisas como 'Tetas, fora de campo!', que já tinha escutado em outras ocasiões, sem nenhum outro motivo a não ser minha presença" (p.94).

09. Com gosto pela literatura, entre vários autores a menina descobre Kafka e seu A Metamorfose e a comparação com o inseto gigante é inevitável: Guadalupe passa a se ver como uma espécie de Gregor Samsa, uma coincidência - que no relato funciona como uma rima textual - com o apelido de "baratinha" que sua mãe a chamava quando pequena. Talvez aqui seja o momento em que o tema da identidade e da busca em se sentir confortável dentro do próprio corpo seja melhor sintetizado e ao me deparar com a citação a Samsa não pude deixar de soltar uma risada de compreensão: a despeito das intenções originais de seu criador, Gregor Samsa é um dos personagens que melhor antecipa o sentimento de toda uma geração, dos marginalizados àqueles que se sentem mais uma peça de xadrez. A passagem é bela:

leia mais no Prosa Espontânea:

site: http://mardemarmore.blogspot.com.br/2014/01/o-corpo-em-que-nasci-guadalupe-nettel.html
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