Edge of Eternity

Edge of Eternity Ken Follett




Resenhas - Edge of Eternity


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14/11/2014

Fechando a saga das cinco famílias que se inicia em Queda de Gigantes e sobrevive à Primeira Guerra Mundial e à Revolução Russa, e mesmo assim assistem os horrores da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Civil Espanhola (acabei de lembrar que esqueci de recomendar assistir O Labirinto do Fauno na resenha do livro, mas assistam. Uma fantasia gótica triste que tem como pano de fundo a Guerra Civil) em Inverno do Mundo, agora é a Guerra Fria e suas consequências que servem de cenário para os descendentes de Maud, Lev, Grigori, Werner e cia. do primeiro. Agora são seus netos e filhos que tem que viver no mundo delineado pelas escolhas de seus antepassados, tanto do primeiro livro como do segundo.

Eu na verdade nem sei por onde começo a comentar esse livro. São tantos personagens interessantes, tantos acontecimentos marcantes, que fica difícil e parece injusto escolher um em favor do outro. Este começa em 1961, na Alemanha dividida em dois governos: o capitalista e democrático ocidental, e o autoritário e socialista oriental. O Muro ainda não se ergueu, mas as pessoas precisam tomar muito cuidado ao atravessar de um lado de Berlin para outro. Rebecca, filha adotiva de Carla e Werner, mora com sua família (a mãe, pai, irmãos e marido) do lado errado de Berlin, embora Werner, agora um empresário dono de uma fábrica de TVs, tenha que trabalhar do lado ocidental. Rebecca tem opinião formada sobre o governo, e sua família é famosa exatamente por causa de sua posição política. Isso é um ponto muito importante, porque vai impedir a passagem de membros dela para o lado ocidental mais para a frente. Rebecca é casada com Hans, e o casamento não é lá dos melhores, embora ela ache que o marido é bom. Na verdade, não sinto muita afinidade entre os dois. E isso vai se explicar, mas eu não vou falar o que é. Basta dizer que por causa de um ato impensado de Rebecca, a família toda vai sofrer com a polícia secreta, a Stasi. Rebecca consegue fugir quando o Muro sobe. E tenho que dizer que é angustiante ler o Muro subindo, e o desespero das pessoas que se viram de um dia para o outro numa cidade dividida, famílias e amigos sendo forçados a se separarem por causa do Muro. Ken Follett descreveu com muita habilidade esta parte. Um detalhe que acabei de perceber. O livro é dividido em várias partes, cada uma com um título que anuncia o que vem, e o período que cobre. A primeira se chama Muro, e a última também. Olha só o cuidado: o livro começa com o Muro sendo erguido, e termina com ele caindo (ah vá! Não sabia que o Muro cai? Isso não é spoiler!). Vou falar mais disso mais tarde.

Seu irmão Walli, agora um jovem de 15 anos que sonha em ser uma estrela do rock ao estilo Beatles (Coração vermelhoCoração vermelhoCoração vermelho) e Rolling Stones, é idealista e enfrenta o governo a seu modo, cantando músicas proibidas. Walli se envolve com uma parceira musical, Karolin, mas por causa da pouca liberdade para compor e cantar as músicas que quer (ou até mesmo ouvi-las), ele decide fugir da Alemanha Oriental. E nessa fuga uma tragédia tem lugar, e ele então é perseguido para ser preso. Walli consegue fugir, vou dar esse spoilerzinho, porque ele é importante. Essa fuga vai separar Walli completamente de sua família, e isso vai ter um impacto muito grande em sua vida. Ele perde muito mais do que Rebecca ao fugir. E ele vai passar por momentos muito difíceis. Mas também passará por um lado muito bacana, realizando seu sonho de ser rock´n´roll star. E aqui, mas uma vez, Ken Follett fez um belo trabalho descrevendo o que a fama pode fazer com o indivíduo: ela pode ser a salvação, mas, mais frequentemente que não, ela é a ruína.

E quem é a salvação de Walli, em ambos os casos, é Dave Williams, seu primo, filho de Lloyd e Daisy. Dave é músico também, e logo os dois primos se entendem. E Dave tem a mesma ambição de viver da música que Walli. E vindo de uma família também politizada, Dave também tem opiniões fortes (um fato do final que ele fez é sensacional! E muito corajoso) e é também teimoso. Dave é disléxico, mas não sabe disso, nem sua família, que o vê como preguiçoso. E isso vai causar muitos atritos com Lloyd. Dave é uma lufada de ar, com sua personalidade leve e otimismo. Sua irmã, Evie, é uma atriz e também muito engajada politicamente. É forte, independente e faz o que quer, incluindo uma performance da loucura de Ofélia, em Hamlet, nua, aos 15 anos. Evie tem uma queda por Jasper Murray, filho de Eva Murray, a judia que Daisy acolheu me sua casa no anterior. E por isso, Jasper, um pobretão sem perspectivas, mas que se acha a última Bono de chocolate do pacote, vive com os Williams, mas é mesmo um parasita de primeira. É oportunista, e não poupa ninguém, desde que ele leve vantagem. Jasper acaba se tornando um jornalista investigativo importante, e seu mau-caráter acaba se desfazendo quando ele presencia o assassinato de Martin Luther King (daqui a pouco alo mais) e de passar um ano lutando pelos americanos no Vietnã.

E falando em Martin Luther King, vamos para o núcleo que luta pelos direitos civis nos EUA. George Jakes, filho de Greg Peshkov, e primo de Dave, é um jovem que presencia em primeira mão a luta pelos direitos civis e a dessegregação nos EUA. George é o filho que Greg teve com Jacky, que mesmo com idade mais avançada, continua sagaz. George é bastardo, não reconhecido oficialmente, mas que todo mundo sabe. Afinal, Greg, seu pai, é congressista. E por isso mesmo George acaba enveredando pela política. Ele estudou em Harvard, e se formou advogado, mas abriu mão de uma carreira em uma firma grande de Washington para ingressar na equipe de Bobby Kennedy, irmão de John F. Ele sabe que na verdade ele é mais um cargo decorativo, só para mostrar para o mundo que o governo Kennedy aceita afro-descendentes. Mas mesmo assim, ele vai tentar fazer o melhor com seu cargo para tentar garantir direitos iguais a afro-descendentes nos EUA. Ele presencia o assassinato de John F. Kennedy, e isso tem um grande impacto em sua carreira, bem como outras coisas que ele passou em sua luta contra a segregação. George é idealista no começo, e sendo criado no norte liberal, não tem uma ideia muit0 clara do que é realmente a segregação racial no sul, até que ele mesmo sofre com isso. George é racional, e provavelmente o personagem mais estável do livro. A seu lado está Maria, uma bela negra que viaja com ele desde o começo, e que além de lutar contra a segregação, também acaba se tornando uma feminista engajada. Mas ela não é falível, e comete umas besteiradas durante a história. E também preciso destacar Verena, uma mestiça filha de um ator negro e uma atriz de teatro branca. Verena é volúvel e um tanto deslumbrada. Mas tem papel importante na luta contra a segregação, trabalhando ao lado do reverendo Martin Luther King.

E na Rússia temos os primos de George, Dimka e sua irmã gêmea Tania. Tania trabalha para o TASS, a imprensa oficial do governo, mas secretamente investiga o próprio governo , denunciando os abusos do regime comunista. E por isso acaba sendo transferida para Cuba, onde presencia de perto a Crise dos Mísseis. Já Dimka trabalha como assessor de Khrushchev, e tem uma visão mais romaceada do comunismo, acreditando que o sistema funciona, mas que pode sofrer alguns ajustes (oh, sweet summer child!). Mas ele vai ter suas convicções abaladas mais tarde, e isso vai fazer com que ele veja o mundo de forma diferente.

O livro é muitíssimo bem escrito, os acontecimentos são explicados de forma clara e sem enrolação. Mas para mim, as partes que mais valeram a pena foram, como já disse ali em cima, o aparecimento do Muro de Berlin, mas também sua queda, narrada quase como um sonho, do ponto de vista de Walli e Rebecca, do lado ocidental, e de Lili (irmã de Walli) e Karolin do lado oriental. As pessoas não acreditavam que era o fim, depois de conviver com aquela muralha por tantos anos. Também o discurso de Martin Luther King, “Eu tenho um sonho.”

“Eu tenho um sonho que um dia esta nação se erguerá e e realizará o verdadeiro significado de sua crença: temos estas verdades como evidentes, de que todos os homens são criados iguais.” (p. 440)

Ken Follett descreve tão bem esse evento que somos transportados para aquele 28 de agosto de 1963 em Washington (leia mais aqui). É muito emocionante.

Outra passagem foi a do assassinato de Kennedy, e ver o efeito que isso teve no país, mesmo que a melhor coisa que Kennedy tenha feito foi exatamente ser morto. Veja bem, antes disso, ele estava com a popularidade bem em baixa por causa de sua falta de comprometimento maior com os direitos civis por um lado, pela Guerra no Vietnã, por outro, e pela própria política econômica na época. Mas foi ele morrer para gerar comoção, e quando o vice Lyndon Johnson assume, o país dá uma virada.

“Um tiro ecoou.
King cambaleou para trás, ergueu os braços como um homem na cruz, bateu na parede atrás dele, e caiu.” (p. 676)

Outra parte muito emocionante. O assassinato de Luther King. De novo, somos transportados para aquele 4 de abril de 1968 em Memphis, Tennessee. E parece que somos nós as vítimas do tiro.

Ken Follett fecha a trilogia do Século com chave de ouro, todas as pontas foram amarradas, todas as famílias no fim se conectam pelo casamento ou por relações distantes. Como diz Cornwell, o destino é inexorável, e neste caso aproximou inexoravelmente todos os personagens que foram apresentados em Queda de Gigantes. Para mim, este é o melhor dos três, talvez por relatar a História mais recente (gente, eu me lembro da Queda do Muro de Berlin!). Recomendo a leitura, principalmente para você que tem Che Guevara como ídolo, e que acha que a solução está no comunismo. Fica uma lição:

“Todos esses homens eram tiranos, torturadores e assassinos em massa. Stalin não havia sido excepcional, era típico dos líderes Comunistas. Qualquer regime político que permitisse que pessoas assim governassem era mau, refletiu Dimka.” (p. 970)

“E no fim, o Comunismo derrotou a si mesmo” (p. 995)

Trilha sonora

De cara, não dá para não associar Martin Luther King com Pride (in the name of love) (early morning, April four, a shot rings out, in the Memphis sky…), We didn´t start the fire, de Billy Joel, recontando todo o século XX em 4 minutos (veja a letra). Eu poderia citar várias dos Beatles, pois várias são citadas, mas vou ficar com Revolution, que não é citada, mas por motivos óbvios, e com Strawberry Fields Forever (essa com direito a reprodução do verso “Living is easy with eyes closed, Misunderstanding all you see” na p. 612), Gimme shelter, dos Rolling Stones (War, children, it´s just a shot away), Blowing in the wind, Joan Baez (que estava me Washington para a Marcha dos Direitos Civis), They stood up for love, do Live (those who stood up for love, down in spite all the hate) e Blue, da Chantal Kreviazuk (where were you, when they, wrote the news).

Se você gostou de Eternidade por um Fio, pode gostar também de:

Os Pilares da Terra – Ken Follett;
Mundo Sem Fim – Ken Follett;
Queda de Gigantes – Ken Follett;
Inverno do Mundo – Ken Follett;
1984 – George Orwell;
A Revolução dos Bichos – George Orwell.
PS: eu sei que a postagem ficou longa, mas acredite, eu tentei resumir ao máximo. É que o livro é tão complexo e tão cheio de fatos relevantes e personagens bons que fica difícil.

site: natrilhadoslivros.blogspot.com
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