Um teto todo seu

Um teto todo seu Virginia Woolf




Resenhas - Um Teto Todo Seu


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Claire Scorzi 10/02/2009

Méritos: temos um vislumbre da mulher Virginia Woolf por trás da escritora (embora saibamos que há limites para o que ela vai nos mostrar de si mesma); senso de humor afiado; uma teoria literária consistente sobre feminismo e literatura, ainda que possamos discordar dela; relances despretensiosos mas estimulantes sobre a arte de Charlotte Brontë, Emily Brontë, Jane Austen, George Eliot; e o desejo, ao término da leitura, de trabalharmos pelo surgimento da "Shakespeare feminina": todas as mulheres que escrevem deviam estar se empenhando por isso. E o livro nos dá essa vontade.
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Caroline 20/07/2014

Feminismo na sua melhor forma: culto e ponderado
Ler Virginia Woolf, apesar de requerer muita concentração, é sempre um deleite, mas falar sobre o que se leu não é das tarefas mais fáceis, pois o brilhantismo com o qual aborda os temas nos deixa atônitos, sem palavras, como se não nos restasse nada a dizer além de repetir seus pensamentos.

Um teto todo seu surgiu a partir de duas palestras, intituladas As mulheres e a ficção, que ela ministrou em uma universidade em 1928. Alterando os textos e ampliando a palestra, ela traça um panorama sobre o papel da mulher na ficção (e na sociedade). Utilizando-se da ficção, Virginia sai de cena para dar lugar a uma ensaísta, Mary Benton, que vai ao Museu Britânico colher informações sobre a produção literária feminina e o que se escrevia sobre as mulheres até então. Ao longo do livro Virginia critica, com o humor refinado que lhe é peculiar, o machismo que encontra nas prateleiras do Museu, analisa escritoras como Jane Austen, Charlotte e Emily Bronte, e até cria uma irmã para Shakespeare, tão talentosa quanto ele, e nos explica com maestria o porquê dela não ter sido tão genial quanto o irmão.

De maneira concisa e clara nos leva à sua conclusão de que para se escrever bem há que se ter um teto todo seu e 500 libras no bolso por ano, há que se ter um espaço próprio, com chave para que ninguém lhe interrompa, e uma renda fixa para que a mente esteja tranquila, livre de preocupações e, principalmente, de amargor.

Diferente da maioria das feministas, especialmente das atuais, Virginia não exalta a mulher em detrimento do homem. Para ela ambos podem escrever bons livros, desde que esqueçam seu sexo e escrevam livres disso.

"É fatal, para qualquer um que escreva, pensar no próprio sexo. É fatal ser um homem ou uma mulher pura e simplesmente. [...] E fatal não é uma figura de linguagem; pois qualquer coisa escrita sob esse preconceito consciente está fadada à morte. Deixa de ser profícua. Por mais brilhante, efetiva, poderosa e magistral que possa parecer durante um dia ou dois, vai murchar ao cair da noite." (p.146)

"A totalidade da mente precisa estar aberta para termos a sensação de que o escritor está transmitindo sua experiência com perfeita plenitude. É preciso haver liberdade, é preciso haver paz. (p.147)

Por mais que Virginia tenha escrito esse ensaio em 1929, ele, provavelmente, nunca ficará obsoleto em sua essência. É impossível não trazer seu conteúdo para os dias atuais e ver o que evoluiu, e se evoluiu. Certamente, se Virginia "acordasse" hoje e piscasse os olhos três vezes para poder crer no que via ela pediria para dormir novamente e só acordar daqui a uns outros 85 anos. Não é que o feminismo tenha andado para trás ou para frente, mas é como se ele tivesse se perdido ali no meio do caminho.

A ideia de querer que a mulher seja totalmente igual ao homem é completamente equivocada, e Virginia, bem à frente do seu tempo (e do nosso!), já dizia isso:

"Seria mil vezes uma pena se as mulheres escrevessem como os homens, ou vivessem como eles, ou se parecessem com eles, pois se dois sexos é bastante inadequado, considerando a vastidão e variedade do mundo, como faríamos com apenas um?" (p.126)

"Toda essa peleja de sexo contra sexo, de qualidade contra qualidade; todo esse clamor por superioridade e essa imputação de inferioridade pertencem ao estágio colegial da existência humana, no qual há 'lados' e é necessário que um lado derrote o outro, e é de extrema importância subir em uma plataforma para receber das mãos do próprio diretor um troféu ornamentadíssimo. Conforme amadurecem, as pessoas deixam de acreditar em lados ou em diretores ou em troféus ornamentadíssimos." (p.149)

Virginia conclui nos incentivando a escrever "todo tipo de livro, não hesitando diante de nenhum tema, por mais trivial ou vasto que seja", e espera que tenhamos dinheiro suficiente para viajar e vagar, e, claro!, para ter um teto todo nosso.

Esse livro não foi nada do que imaginei - e que audácia (leia-se tolice) minha ter tido a pretensão de imaginar seu conteúdo! Um livro fantástico, daqueles para se ter à mão na cabeceira da cama. Leitura mais que recomendada.



Mariana 20/07/2014minha estante
Resenha incrível, Caroline.


Ana Vaz 17/04/2018minha estante
Após terminar a leitura sai em busca de algo que pudesse expressar o que senti lendo esse ensaio, e me deparo com essa resenha sensacional... Obrigada!


Canaan 17/02/2020minha estante
Uau, vc leu há 6 anos. Vou começar amanhã.




Clayton 26/05/2020

As mulheres e a ficção [Minha resenha no Jornal Rascunho]
Em “Um teto todo seu”, Virginia Woolf defende a preeminência estética como emancipação feminina

Questionar, a essa altura da história da humanidade, por que a figura autoral feminina esteve quase sempre ausente da tradição literária torna-se um ato obsoleto. (Ou talvez não, bem consideradas as perspectivas que o patriarcalismo propicia a um observador interessado.) Se, então, o que realmente conta são as consequências, mais do que as causas, uma questão que se impõe é quantos talentos femininos esse patriarcalismo conseguiu destruir no decorrer dos séculos. Se porventura Shakespeare tivesse uma irmã de igual talento, não seria de se lamentar que esta estivesse relegada à obscuridade, sem nem mesmo sonhar com os louros obtidos pelo ilustre irmão?

É uma hipótese alarmante, embora válida, e a perspicácia de sua formulação cabe justamente a uma das ficcionistas mais afamadas e talentosas da literatura mundial: Virginia Woolf.

Em Um teto todo seu (em tradução de Bia Nunes de Sousa e Glauco Mattoso, num projeto gráfico bem sugestivo da editora Tordesilhas, enriquecido ainda por um posfácio de Noemi Jaffe e excertos do diário de Woolf), a escritora divaga por essas e outras veredas do pensamento, abertas pelo amplo tema “As mulheres e a ficção”, proposto a ela pelas faculdades inglesas Newnham e Girton, à guisa de palestra a suas alunas em 1928. Da revisão e condensação dos dois artigos originais resultou o livro em questão.

Pensamento abrangente
Tão fascinante quanto ler as obras de ficção de um escritor talentoso é ter a oportunidade de conhecê-lo para além das personas narrativas que assume; é palmilhar seu raciocínio, vê-lo elucubrar sobre uma questão controversa, para a qual mobiliza os argumentos mais rigorosos. Chegamos assim mais próximo do seu sistema de pensamento.

É o que ocorre em Um teto todo seu. A despeito de a escritora adotar em parte substancial da obra o pseudônimo de Mary Seton (alusão à balada Mary Hamilton, do folclore escocês), o que acompanhamos, através de um estilo muito peculiar que envolve fluxo de consciência, digressões, ensaísmo e retórica, são os pensamentos da autora e mulher Virginia Woolf.

O “ensaio” (o termo, a meu ver, não abrange esteticamente a obra) divide-se em seis partes e é concebido como uma longa reflexão de Mary Seton durante um dia. Seguimos suas sensações e pensamentos enquanto é repreendida por um bedel ao caminhar pelo gramado do campus da faculdade de Oxbridge, ou quando é enxotada da biblioteca por outro, pois “só se admitiam damas na biblioteca se acompanhadas por um estudante da universidade ou munidas de uma carta de apresentação”. Paralelas a tais interferências, as considerações de Mary em torno do tema da palestra, do ambiente primaveril e da movimentação das pessoas ao redor prosseguem com uma recalcitrância irônica. Recurso ficcional não gratuito.

Concomitante a esse plano enunciativo, onde acompanhamos a gestação da tese, entre digressões coesas e intervenções externas, temos o plano “presente”, quando Woolf dirige-se a sua plateia, instando-a a refletir. De início, o tema da palestra se revela “um prisma” através do qual muitos caminhos se tornam possíveis:

As mulheres e a ficção poderia significar (…) as mulheres e como elas são, ou as mulheres e a ficção que elas escrevem, ou poderia significar as mulheres e a ficção escrita sobre elas (…)

Esse trecho estrutura o livro em suas partes, revelando-lhe a abrangência. É, por exemplo, da opinião (e dissenso) de historiadores, de sábios como Goethe e figuras como Mussolini que trata o segundo capítulo. Se há alguma verdade no que diz respeito à problemática feminina, não são os homens que a poderão fornecer, suas visões impregnadas de narcisismo, recalque, idealização ou complacência.

Tampouco as criaturas femininas tão vivas nas peças de Shakespeare viabilizam alguma luz, em face do contraste que há entre elas e as que, sob o regime patriarcal elizabetano, viviam de tal maneira em desigualdade com os homens que a célebre hipótese da irmã do Bardo é aventada no capítulo três.

O caminho para a questão “As mulheres e a ficção” centra-se então na figura autoral feminina. Lançando mão de sua erudição e de remissões históricas, Virginia Woolf investiga, dentro da tradição literária inglesa, os inícios da relação mulher/escrita, das produções de Lady Winchilsea, de Margaret de Newcastle e outras escritoras de menor expressão, passando pelo grande quarteto Jane Austen-Emily Brönte-Charlotte Brönte-George Eliot, até chegar a Marie Carmichael.

Emancipação
Sem dúvida esta é a medula do livro, porque é dos desníveis estéticos observáveis entre as autoras que Woolf solidificará a ideia de preeminência estética como emancipação feminina; emancipação mais efetiva que “o ‘feminismo notório’ de Rebecca West”, que se aplicado à ficção e à poesia redunda em literatura ressentida, tão distante da escrita “desimpedida” de Shakespeare e Austen.

Mas há um preço a se pagar para que esta preeminência seja alcançada e o desenvolvimento espiritual da escritora se efetive, e este não poderia ser mais material: uma pensão mensal e um cômodo particular. Literatura de fibra não pode ser produzida em meio a passos intrusos, ou com uma exígua experiência mundana. Alguns podem relembrar Camões e outros infortunados escritores a quem a miséria não obstou a manifestação do gênio, porém, mesmo o menos favorecido teve acesso a uma educação basilar que, durante muito tempo, foi negada às mulheres. Em suma: das contingências mais materiais se extrai as condições que dão vazão ao trabalho espiritual do artista, como o ócio produtivo e o “enclausuramento” que escritores como Proust tornaram célebre.

E não seria, enfim, a imortalidade literária o remate ideal para a repressão social, bem como para a estreiteza literária que apequenou a escrita de tantas autoras seminais?

Eis aqui porque Virginia Woolf, através de uma escrita irônica e rigor de ideias, não incorre em sectarismo ou complacência em Um teto todo seu; mais: conseguiu marcar com tintas indeléveis seu nome no cânone mundial.

site: http://rascunho.com.br/as-mulheres-e-a-ficcao/
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Ray 22/05/2020

Totalmente necessário
Essa mulher tinha uma visão a frente do seu futuro. Esse ensaio é totalmente necessário pra quem está começando a entender o universo do feminismo. Muito bom!
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Andressa Lima 29/02/2020

Um teto todo seu
Esse é meu primeiro contato com a Virgina Woolf. Um ensaio que ela fez para uma universidade. Tem traços narrativos e poéticos(eu diria).

Por tender muito pra não-ficção, achei que talvez não fosse gostar, já que não é o meu gênero comum. Mas gostei bastante. A Virginia Woolf nos faz refletir sobre o próprio ato de escrever, sobre o q é necessário para que ocorra. Não só pelo lado emocional em si, mas o material. Por que não tivemos tantas mulheres escritoras antes do século XIX? Pq ainda temos tão poucas?

Há uma alusão constante a grandes nomes femininos da literatura. Oi irmãs Brontë, Jane Austen e George Eliot! Achei algo bem interessante... É uma leitura q eu curti ter feito
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Fer Paimel 28/06/2020

Meu primeiro contato com Virginia
Já tinha ouvido falar muito bem da Virgínia, mas até então não tinha tido a oportunidade de ler alguma de suas obras. Gostei muito desse livro, de sua pauta feminista, da sutileza de suas constatações, de sua maneira por vezes debochada, mas sempre requintada.
Apesar de o livro ter sido escrito em 1929, a temática da falta de valorização das mulheres escritoras ainda é muito presente, quase cem anos depois.
Recomendo demais, leitura rápida e fluida.
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Gleyd 14/07/2020

Reflexões sobre Mulheres e Ficção
Virginia Woolf discorre sobre fatos sobre as mulheres daquele tempo e de épocas anteriores em relação as suas vivências, como eram tratadas, ao que eram submetidas por serem mulheres e como isso afetava a posição delas em relação a ficção.

Ela fala que um bispo uma vez disse que seria "impossível a qualquer mulher no passado, presente ou futuro, ter o gênio de Shakespeare" e que concorda em parte com isso. Não pelas razões do bispo (que obviamente eram insinuar que a mulher é um ser inferior), mas porque naquela época, quando não se provia educação intelectual alguma a mulher, preparando-a somente para o casamento e a reprodução, quando a mente daquele gênero era subjulgada e subestimada, afetando assim a faísca do que um dia poderia ser a alma de uma escritora, seria impossível para uma mulher, daquela época, ter o "gênio" de Shakespeare. No que diz ao "futuro", obviamente muitas mulheres já escreveram obras a altura e até melhores que as de Shakespeare.

Assim ela disserta sobre as mulheres e a ficção, apontando como o poder aquisitivo é capaz de influenciar na mente criativa da mulher e que para que esta escreva sem amarras é necessária que tenha uma renda anual e "um teto todo seu" onde poderá escrever com a mente livre e em paz.

Os únicos pontos que não concordei totalmente com a autora foi quando falou da obra Jane Eyre de Charlotte Brontë. Ela aponta que a raiva de Charlotte diante das amarguras da vida influenciou demais o dito romance. Claro, até aí concordo. Mas parece que Woolf de certa forma, rebaixa o trabalho de Charlotte por isso. Talvez eu tenha me ofendido por Jane Eyre ser um dos classicos que mais aprecio. Ou talvez as amarguras da vida tenham influenciado a própria Virginia no momento de analisar Jane Eyre.
Outro ponto que discordei em parte foi sobre mentes femininas e masculinas, como mulheres escrevem obras mais femininas e homens mais masculinas. Se um gênero for totalmente contra o outro, claro que isso tranparecerá em seu trabalho, mas sem essas amarras muitos livros podem ser lidos sem que digamos "quem escreveu isso, com certeza, foi uma mulher" ou "quem escreveu isso, com certeza, foi um homem". Mas outra vez, a época em que viveu Virginia podr ter influenciado nesta visão.

Enfim, livro muito bom, levanta questões importantíssimas, recomendo muito para quem quiser se aprofundar não só na relação entre mulheres e ficção, mas também na luta das mulheres para conseguir ter sua voz ouvida e valorizada.
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Paula 24/04/2014

As mulheres e a ficção.
Quando recebeu a encomenda de proferir uma palestra sobre as mulheres e a ficção em duas faculdades frequentadas por mulheres dentro da Universidade de Cambridge, em 1928, Virginia Woolf fez uma reflexão sobre o que é necessário a uma mulher para que ela escreva ficção. Com seu estilo refinado e irônico, num texto cheio de digressões, Virginia deixa claro que, para escrever ficção ou poesia, uma mulher precisa de quinhentas libras por ano e um teto todo seu, de preferência, com tranca na porta. Um espaço que desde sempre foi negado às mulheres que, por conta disso, não puderam produzir tantas obras literárias como os homens sempre fizeram.

Refletindo sobre os espaços da Universidade permitidos aos homens e às mulheres e sobre a diferença nas refeições oferecidas em ambas, Virginia faz uma análise da conquista desse espaço, observando que os homens sempre cuidaram dos negócios e buscaram ganhar mais e mais dinheiro, tendo sido possível para eles investir muito na construção de Universidades para seus filhos. No caso das mulheres, a opressão do casamento e o fato de só bem mais tarde elas terem conquistado o direito de gerenciarem seu próprio dinheiro foram determinantes para que não tivessem acesso às mesmas estruturas, pois não herdaram de suas mães as mesmas condições que os filhos homens herdaram de seus pais. Cada espaço em uma universidade foi conquistado com muito custo e todas essas dificuldades interferiram significativamente em sua produção literária, já que ela depende diretamente do acesso à educação e ao conhecimento.

Na tentativa de compreender essa raiva que os homens demonstravam em relação às mulheres, claramente identificável pela violência, pela opressão e por diminuí-las diante de suas ações, Virginia busca na vasta literatura escrita por homens sobre as mulheres uma resposta plausível e, diante das mais absurdas afirmações que ela encontra nesses livros, a autora afirma que a raiva que os homens sentem em relação a qualquer crítica ou pensamento próprio vindos de uma mulher deve-se ao fato de que as mulheres são para os homens um espelho no qual eles se veem com o dobro do tamanho, o que sempre serviu para reafirmar sua confiança e autoestima, além de estimular significativamente seu pensamento criativo.

"É possível que, quando o professor insistiu de forma um pouco enfática na inferioridade das mulheres, ele estivesse preocupado não com a inferioridade delas, mas com sua própria superioridade". (Woolf, 2014, p. 53)

"Era um protesto contra a violação do poder de acreditar em si mesmo. As mulheres têm servido há séculos como espelhos, com poderes mágicos e deliciosos de refletir a figura do homem com o dobro de seu tamanho". (Woolf, 2014, p.54)

Analisando também alguns dos romances escritos por mulheres na literatura inglesa, ela observa que quase sempre as mulheres eram mostradas dentro de suas relações com os homens e poucas foram as que tentaram romper com o pré-estabelecido. Virginia reafirma sua tese sobre a necessidade das mulheres de ter um espaço todo seu e, principalmente, condições financeiras para sobreviver e poder escrever, "pois a liberdade intelectual depende de coisas materiais" (Woolf, 2014, pág. 151). A falta de registro sobre a vida dessas mulheres que escreveram no passado só demonstra o total anonimato e a ausência de condições propícias à produção intelectual. A autora comenta que, para qualquer artista, há dificuldades que precisam ser enfrentadas para produzir sua arte, sendo eles os mais suscetíveis às críticas ou à indiferença, mas que para as mulheres essas dificuldades foram infinitamente maiores. O desencorajamento que recebiam de seus próprios pais e a descrença em sua capacidade criativa por toda parte, inclusive de outras mulheres da época, sem dúvida afetaram a produção dessas escritoras.

Com as oportunidades surgidas após as guerras, as mulheres encontraram um pequeno espaço para ganhar algum dinheiro com sua escrita e também fazendo traduções. A partir do momento que foram remuneradas para isso, apesar de continuarem sendo bastante criticadas por sua vontade de escrever, elas deram os primeiros passos para garantir o direito de pensarem por conta própria, de escreverem sua história. A literatura, que Virginia descreve de forma bem poética, é o espaço de liberdade pelo qual se deve lutar:

"A literatura está aberta a todos. Recuso-me a permitir que você, mesmo que seja um bedel, me negue o acesso ao gramado. Tranque as bibliotecas, se quiser; mas não há portões, nem fechaduras, nem cadeados com os quais você conseguirá trancar a liberdade do meu pensamento". (Woolf, 2014, p. 109)

É enfatizando o esforço no pensamento próprio, e a atitude de se escrever como uma mulher, "mas como uma mulher que se esquecera de que era mulher" (Woolf, 2014, p.133) é que Virginia pede que as mulheres não desistam de lutar pelo seu espaço na literatura, em uma declaração de amor à leitura e sua capacidade de tornar o mundo um lugar melhor a partir do que lemos e pensamos. A autora deixa clara a necessidade de maior participação das mulheres não apenas na literatura, mas nas demais áreas do conhecimento, demonstrando que há uma escritora em nós, como houve em muitas mulheres que foram silenciadas por uma opressão patriarcal desde sempre, mas que depende do esforço de cada uma lutar para dar voz à sua história.

Tudo o que eu disser aqui sobre o encantamento que a escrita da Virginia Woolf causou em mim será pouco para dizer o quanto eu gostei desse livro, o quanto ele é essencial. Enquanto devorava as páginas de Um Teto Todo Seu eu me perguntava como era possível não ter lido este livro até agora. Como ninguém me obrigou a ler este livro? E é por isso que serei enfática na recomendação: parem o que quer que seja que estejam lendo e leiam Um teto todo seu. Há quase cem anos atrás Virginia Woolf fez algo muito importante por todas nós, mulheres, numa das reflexões mais brilhantes que eu já li. Há no texto de Virginia Woolf uma paixão que nos sacode do lugar comum e desperta em nós a escritora que há muito tempo, desde o início dos tempos, foi sempre silenciada. Que este livro alcance mais e mais mulheres, é o que eu desejo de todo coração.

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. São Paulo: Tordesilhas, 2014. Tradução: Bia Nunes de Sousa.

site: http://pipanaosabevoar.blogspot.com.br/2014/04/um-teto-todo-seu.html
Carol 29/09/2015minha estante
Resenha incrível! Me deu vontade de começar a ler os livros da Virginia Woolf o mais rápido possível.




Phelipe Guilherme Maciel 03/10/2019

Recomendo que leiam físico e escutem o maravilhoso trabalho do U Book na narração do audiolivro.
Um livro importantíssimo que não apenas as mulheres, todos devem ler. Woolf cita em seu livro grandes nomes femininos na literatura e imagina a dificuldade que foi para elas serem quem foram, e o quanto mais poderiam ter contribuído à humanidade, não fosse o machismo que enfrentaram em sua época. Ela cria a teoria que se você der um teto (um espaço) só para a mulher, totalmente da mulher, (pois elas vivem sendo inconvenientemente atrapalhadas sem ter momentos apenas delas), e 500 libras anuais (liberdade financeira, no caso), elas poderiam fazer coisas fantásticas. Disserta sobre como seria se Shakespeare tivesse uma irmã em seu tempo, se ela poderia ter escrito as coisas maravilhosas atribuídas a ele, alude ao fato de que a literatura feminina sempre é menosprezada como algo fútil e menor, e como as personagens femininas são fúteis ou subservientes, servindo apenas de par amoroso, sem qualquer densidade nos grandes romances, entre tantas outras coisas. Que livro delicioso
Vinny Britto 22/10/2019minha estante
Nunca li nada dela. Esse seria um bom início para mim?


Phelipe Guilherme Maciel 22/10/2019minha estante
Vinny, eu nunca tinha lido nada da Virginia Woolf também. Foi um excelente início para mim. Existe uma narração fabulosa desse livro no UBook, aplicativo de audiobooks, que vira e mexe fica gratuito. Talvez seja uma boa porta de entrada para ela.




Gabi 23/05/2020

Um teto todo seu
Achei a leitura um pouco arrastada em algumas partes, porém um livro importante para nos estimular a refletir sobre algumas desigualdades veladas que existem entre homens e mulheres por conta do machismo estrutural na nossa sociedade.
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Carolina 05/02/2020

"Enrolation"!
Então, acho que a autora poderia ter ido direto ao ponto desde o início! Entendo a necessidade de contextualizar o "lugar" da mulher na sociedade, porém achei que ficou um pouco excessivo... ainda assim, gostei da leitura, já que os debates finais valem muito a pena e são bastante agregadores ao feminismo.
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Bruna | @livrosdebruna 14/06/2020

Top 5 dos livros
Além da importância da Virginia na literatura, esse livro é imprescindível ler.
A escritora usa muito a técnica de fluxo de consciência e por isso nas primeiras 20 páginas a leitura pode ser um pouco confusa, depois disso, a maneira que Virginia disseca o tema "mulheres na ficção" é fantástico.
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Lucy 23/05/2020

Perfeito
Nunca pensei que uma conferência pudesse ser tão interessante, mas Woolf pode e consegue tudo nesse livro.

Com profundidade e empatia, ela analisa o patriarcado com o sarcasmo que ele merece.

Demonstra como os sistemas econômicos, sociais e culturais se sustentam na limitação dos espaços, da atuação e da criatividade das mulheres.

E ja no início do século XX ela criticava esse modelo, apontava a necessidade de lutar e a potência que viria com essas conquistas
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Tamis 06/06/2020

Virginia Wolf me dá forças
É estimulador a forma da escrita da autora. Uma narrativa simples e estruturada em percepções críticas e modernas. Nos faz perceber a interatividade do patriarcado na difícil tarefa de se fazer ,nós mulheres, a concluir qualquer atividade. Sempre somos interrompidas e ainda sim, resistimos aos nossos anseios e desejos de concluir o que quisermos fazer.
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Rafaella @blogancoraliteraria 15/02/2020

Maravilhoso
Discurso Feminista maravilhoso, vale super a pena ler, muito atual.
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