Getúlio 3 (1945 - 1954)

Getúlio 3 (1945 - 1954) Lira Neto




Resenhas - Getúlio 1945 - 1954


11 encontrados | exibindo 1 a 11


Luis 15/10/2014

A História escrita com tinta de sangue.
Não faz nem meia hora que terminei a leitura do seminal Getúlio,1945-1954- Da volta pela consagração popular ao suicídio (Companhia das Letras, 2014). O impacto do terceiro tomo da obra hercúlea do jornalista Lira Neto é imenso. Ao revisitar a trajetória do mítico Presidente sob a forma de uma biografia à imagem e semelhança dos trabalhos jornalísticos definitivos, como os assinados por Fernando Morais e Ruy Castro, o escritor cearense , embora ainda com muita estrada pela frente, já justificou com sobras a entronização do seu nome no panteão dos grandes ensaístas.
A edição traz surpresas mesmo para aqueles já familiarizados com a historiografia do período. Pode-se citar como exemplo, a intensa articulação do próprio Getúlio nos longos períodos de retiro em São Borja entre 45 e 50. Até então, a impressão, pelo menos no meu caso, era de que o ex-Ditador havia sido envolvido no esteio dos acontecimentos, como uma espécie de passageiro no ônibus do queremismo pilotado por seus correligionários. Na verdade foi justamente o contrário.
Durante todo o seu longo retiro, interrompido por ocasionais retomadas do mandato de Senador pelo Rio Grande do Sul e pela participação nas campanhas de 1947, Vargas seguiu sendo protagonista de uma intensa confabulação política, num jogo permanente de avanços, recuos e dissimulações que tanto marcaram o seu estilo por 15 anos à frente do Catete. Nessa lógica acabou sendo o ausente mais presente da vida pública nacional do período, sendo inclusive responsável direto pela reviravolta no cenário eleitoral de 46, ao recomendar o voto em Eurico Gaspar Dutra, derrotando o flagrante favoritismo do Brigadeiro Eduardo Gomes (Vote no Brigadeiro que é bonito e solteiro). E por falar no adversário do Marechal, Lira desencava a deliciosa história, embora já parcialmente conhecida, de que o popular doce foi inventado durante a campanha e batizado em referência a Eduardo Gomes, embora a razão seja controversa : O Brigadeiro teria sido ferido nas partes baixas durante o episódio dos 18 do Forte, em 1922. Como se sabe, a receita de brigadeiro não leva ovos, daí a homenagem...
Voltando ao tema principal, um dos gols de placa do livro foi a utilização da farta correspondência entre Alzira Vargas e Getúlio. Por sinal, a filha do Presidente revela-se uma figura de interesse histórico notável, legítima herdeira da aguda sabedoria política do pai. Alzira atuou como conselheira, interlocutora e destacou-se nas negociações que antecederam a candidatura Getulista. Não dá para entender os últimos anos da vida pública de Vargas sem passar por Alzira. Nesse sentido, caberia inclusive uma biografia à parte.
Também é esclarecida a colcha de alianças que juntou Getúlio a Ademar de Barros, governador de São Paulo (do célebre slogan, Rouba, mas faz). Para entender a parceria, Lira Neto destrincha os dois processos eleitorais de 1947 que tiveram a participação de Getúlio. Em ambos os casos, os candidatos apoiados por Ademar ganharam em detrimento dos aliados ao PTB, mesmo com a participação de Getúlio na campanha. Ali, o líder trabalhista viu que ganhar São Paulo era essencial às suas pretensões de voltar ao Catete.
A corrida eleitoral de 1950, a mais intensa que o pais já vira até então, é descrita de forma empolgante, ressaltando a grande e , até então inédita, participação popular, tendo no páreo além de Getúlio, Cristiano Machado pelo PSD (que deu origem ao verbo cristianizar, quando o partido abandona o seu candidato oficial, no caso, Cristiano foi sacrificado em favor de Vargas) e de, mais uma vez, Eduardo Gomes, pela UDN.
Mas a joia da coroa é mesmo o relato dos dramáticos lances do segundo governo, vivido praticamente em estado de crise permanente, em especial, os trágicos episódios de agosto de 54.
O livro , embora não chegue à qualquer conclusão que desminta a história oficial, não omite as polêmicas sobre o atentado da Tonelero, o tiro de misericórdia no governo. Há depoimentos de testemunhas que colocam em dúvida o ferimento sofrido por Lacerda e até mesmo a autoria dos disparos que mataram o Major Ruben Vaz. Por outro lado, todo o frenesi da caçada aos responsáveis liderados pelo IPM instalado pela Aeronáutica, culminando com a detenção do Anjo negro, Gregório Fortunato, é narrado em ritmo de thriller.
O texto vai crescendo em tensão até chegar à madrugada de 24 de agosto, com a lendária reunião ministerial, convocada às pressas após o ultimato das forças armadas pela renúncia de Getúlio. A descrição coloca o leitor na sala onde o destino do governo, e por extensão do Presidente, se desenhou. De início à portas fechadas com seus ministros ( a exceção foi Vicente Rao, ausente da cidade) , a reunião ganhou em dramaticidade quando Alzira Vargas a invadiu, trazendo em seu encalço familiares e assessores. Não se contentando em ouvir as ponderações de cada um, ela coloca contra a parede os ministros militares, invocando a resistência. Tancredo Neves , sentado à esquerda do Presidente, Osvaldo Aranha, à direita, foram dos poucos que encaparam a tese. Getúlio, supostamente o maior interessado, parecia alheio a tudo. Já havia tomado a sua decisão.
Com o acirramento dos ânimos, o cansado Presidente resolve encerrar a reunião acatando a solução dada pelo genro , Amaral Peixoto : o pedido de licença enquanto as investigações não terminassem. Às 4:20 da manhã Getúlio se retira para os seus aposentos e deixa a tarefa de redigir a nota de licença para Tancredo Neves, Alzira e alguns outros auxiliares. No livro não consta, mas outras fontes indicam que o Presidente saiu sob aplausos. Seriam os últimos de sua vida.
Por volta das seis da manhã, dois oficiais vão ao Palácio convocar Bejo Vargas para depor no IPM do Galeão. Logo depois, chega a noticia de que os Generais não concordam com a licença. Querem a renúncia. Ás 8:35 da manhã, o tiro.
Lira Neto não entra no mérito da autoria da carta testamento, não custa lembrar que à essa altura várias cópias já circulavam pela cidade ( o que facilitou sua rápida difusão pelas rádios), além daquela encontrada à cabeceira do morto. Todas datilografadas. Getúlio não batia à máquina. Hoje, aceita-se que a carta teve co-autoria de José Soares Maciel Filho, que provavelmente a datilografou. O fato é que um assessor de Getúlio, cerca de 10 dias antes do suicídio, já havia encontrado entre os escritos do Presidente , trechos que depois seriam parte do famoso texto, dando a clara dimensão de que o ato não foi fruto de um momento de desespero, antes, foi uma ação política, pensada e, apesar de trágica, fria. Como quase toda a atuação de Getúlio na vida pública.
Independentemente de qualquer coisa, a Carta Testamento é o maior documento político da história do Brasil e, se não inteiramente escrita por seu signatário, traz em cada parágrafo a tinta banhada no sangue do velho caudilho gaúcho.
Arsenio Meira 16/10/2014minha estante
Resenha bacaníssima, Luis!
Valeu.


Luis 18/10/2014minha estante
Obrigado mais uma vez Arsenio. Forte abraço.


pc 24/06/2016minha estante
Excelente resenha, Luís.
Ao terminar esse livro e espiar umas resenhas no skoob, tive a felicidade de encontrar sua resenha com o comentário do saudoso Arsenio Meira. Poucas pessoas se dão ao trabalho de escrever boas resenhas como vc e o Arsenio.
Parabéns!




Albuquerque 21/11/2014

Fim da linha...
Com este livro, Lira Neto encerra sua consistente biografia de Getúlio Vargas. A compilação da colossal documentação resultou em uma obra muito boa, que elucida vários aspectos da personalidade do homem que marcou nossa História republicana. Com certeza vale muito a pena ler todos os três volumes!
São trabalhos como esse que tornam a História cada vez mais popular entre nós brasileiros. O modo simples de escrever, típico dos jornalistas, tem o poder de cativar qualquer leitor. Nós, estudantes e professores de História, muitas vezes criticamos o trabalho de não historiadores que se aventuram no nosso ramo. Mas devemos levar em conta que a escrita tem várias vertentes, e que a História pode e deve extrapolar os meios acadêmicos.
E agora vou buscar outro livro interessante. Um grande abraço a todos!
comentários(0)comente



yuri29 16/11/2018

O poente de Getúlio.
Por fim, terminou! Confesso que estava protelando a leitura deste último volume. Meus afazeres como professor, geralmente, tomam meu tempo nos meses finais do ano. Contudo, hoje, dia 16 de novembro de 2018, coloquei como meta o término desta leitura. O fiz em basicamente duas horas e meia. De fato, é uma obra ímpar no mercado. Foram raras as vezes que me deparei com uma biografia com tamanha riqueza de detalhes. Lira Neto conseguiu cativar minha atenção. Em inúmeras ocasiões, imaginei-me no Catete ao lado de Getúlio, imaginando o que poderia estar passando na cabeça deste homem.

A trilogia de Lira Neto suscitou-me um desejo um tanto quanto forte de conhecer suas outras obras. Levando em conta que se trata de um jornalista, suas outras obras têm o potencial de serem tão boas quanto esta trilogia. Posso estar errado? De fato posso. No entanto, creio que irei pagar para ver.

Em suma, recomendo a leitura da trilogia. é uma leitura obrigatória para os amantes da história do Brasil.
comentários(0)comente



Bruno Di Giaimo 19/10/2014

Getúlio Vargas é dissecado por Lira Neto
Um retrato incrível da última década e meia de vida de uma das figuras mais importantes e polêmicas da política brasileira. Os sentimentos, os ataques sofridos pelo estadista por uma imprensa totalmente voraz e parcial de uma época.

O autor dessa trilogia, Lira Neto, buscou em documentos em grande parte inéditos, fatos e histórias que o ajudassem a ser escrever uma biografia exímia e cheia de fatos e informações novas, que chamam a atenção para muitas das práticas que hoje são adotadas.

Chama a atenção de um leitor voraz de livros e textos históricos brasileiros que o Clube Militar já vinha planejando durante muito tempo um golpe militar. Isso se dá desde a época dos 18 do Forte, até a deposição de Getúlio do Catete. Castello Branco, inclusive, aparece nesta época.

Por fim, venho recomendar a leitura de grande parte da bibliografia exposta nas últimas páginas do livro. Muitos deles podem te ajudar a formar, além de toda a informação sobre a época, uma opinião política e sobre a imprensa brasileira atual.
comentários(0)comente



Eduardo 15/04/2015

Muito bom... naquela época era, mais ou menos, como agora... Um excelente documento histórico.
comentários(0)comente



Fernanda Pompermayer 30/05/2015

Com o livro Getúlio: da volta pela consagração popular ao suicídio (1945-1954) encerra-se a trilogia sobre a vida do mais célebre estadista brasileiro, escrita por Lira Neto. No segundo volume (Getúlio: do governo provisório a ditadura do Estado Novo (1930-1945), o autor descreve o apogeu da experiência política de Getúlio Vargas: as conquistas produtivas e econômicas do país, a idolatria da classe operária pelo líder trabalhista, sua diplomacia quase sempre ambígua com que administrava os embates políticos. Vai até a sua deposição e a reclusão em São Borja (RS), de onde continuou a interferir nos rumos da política brasileira.
Em 1945 Getúlio retorna ao poder, pela primeira vez de forma democrática, por eleição direta e com esmagadora maioria de votos. Mas sem maioria no Congresso, o que manteve o seu mandato sobre o fio da navalha até o suicídio, quando saiu da vida “para entrar na história”.
Em entrevista recente Lira Neto afirmou não encontrar paralelo entre a figura de Getúlio Vargas e outros nomes da política brasileira. A trajetória dele foi em tudo singular, amado e venerado por uns, odiado e repudiado por outros.
Após um ciclo de cinco anos de apurada pesquisa, servindo-se de informações até então inéditas compiladas por Alzira Vargas, filha, confidente e secretária particular de Getúlio, Lira Neto nos entrega outra pérola da literatura histórica brasileira. Abalizado pela experiência feita, no final do livro ele analisa e tenta resumir as visões antagônicas e viscerais sobre Getúlio Vargas.
“Para muitos ele foi o grande responsável pela modernização do Brasil, ao pôr em prática um modelo nacional-desenvolvimentista capaz de direcionar, em pouco mais de duas décadas, um país agrário para o rumo efetivo da industrialização. Sob essa mesma perspectiva, a vasta legislação trabalhista, ao reconhecer como legítimas as reivindicações dos operários e demais trabalhadores urbanos, instituiu o necessário equilíbrio na relação entre patrões e empregados, superando os resquícios da escravocracia mais arcaica. A Petrobrás, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Eletrobrás e a CLT seriam as heranças mais eloquentes do getulismo, fenômeno que teria conseguido estabelecer as bases de uma aliança singular entre capital e trabalho, possibilitando a própria gênese do capitalismo no Brasil.
Para outros, contudo, o chamado populismo varguista seria a expressão mais pronta e acabada do uso das massas como instrumento de dominação política. A incorporação dos trabalhadores e das classes médias no cenário nacional teria sido apenas uma forma de legitimar o líder autoritário e personalista, dando sustentação a um projeto de poder autocrático e incompatível com a verdadeira democracia. Daí o desdém atávico de Getúlio pelo sistema representativo, pelo parlamento e – após rasgar duas Constituições e evitar assinar a terceira – pelo ordenamento constitucional.
Amado e odiado com simultânea veemência, venerado e satanizado com idêntico ardor, Getúlio segue a dividir opiniões, provocar contendas, gerar reações passionais. Por certo, o melhor caminho para compreendê-lo, em perspectiva histórica, não é o da devoção sincera ou o da negação irrestrita. Em algum ponto equidistante entre uma e outra margem, entre a adoração e o repúdio, deve estar a melhor maneira de se perceber e decifrar o mito”. (pp. 350-351)
Seja qual for a perspectiva, há uma certeza: não dá para entender o Brasil de hoje sem conhecer Getúlio Dornelles Vargas.


site: Resenha publicada por mim na revista Cidade Nova, outubro 2014 (www.cidadenova.org.br)
comentários(0)comente



Cheiro de Livro 20/02/2016

GETÚLIO (1945 A 1954)
Um presidente chega ao poder prometendo beneficio aos trabalhadores e o combate a inflação, nos meses seguintes vê seu próprio partido e aliados o abandonar em questões importantes no congresso. A inflação não diminui, greves começam a pipocar pelo país. Os jornais todos os dias falam e crise e corrupção. A oposição pede o impeachment sem uma base legal muito sólida mas com o discurso de que o presidente não tem mais condições de governar. Conhece esse cenário? Não, não estou falando do segundo mandato da presidente Dilma, esse é o cenário do terceiro e último volume da biografia de Getúlio Vargas escrita por Lira Neto.
O terceiro volume mostra o período de 5 anos em que Vargas ficou fora do poder, o mandato do presidente Dutra; como ele ganhou a eleição de 1950 e toda a crise dos quatro anos em que permaneceu no poder. Como os dois outros livros esse conta não apenas o que acontece com Getúlio mas também todas as tramas políticas importantes que aconteciam concomitantemente, faz um panorama de uma época, é um pequena aula de história do Brasil.
Comecei essa jornada de ler uma trilogia sobre Getúlio porque tenho muita dificuldade de entender a idolatria a um homem que foi um ditador sanguinário e mesmo assim ainda aparece em propagandas de partidos políticos até hoje. Tenho que dizer que meu conceito não mudou, não deveríamos idolatrar um ditador. Tendo dito isso, é inegável que ele era um grande politico, um ótimo articulador e que certos ganhos obtidos em seus governos continuam até hoje. Mesmo esse legado bom não pode esconder todo o mal que ele perpetrou, as tantas pessoas que perseguiu, as tantas que foram torturadas, a censura imposta pelo Estado Novo e as duas constituições que rasgou e a que se negou a assinar.
Getúlio não é um herói que lutou pelos trabalhadores, é um politico que pegou em armas para derrubar um governo que não atendia a seus interesses, tomou o poder e de lá só saiu deposto. Voltou, como ele disse, “nos braços do povo”, mas parecia não ter mais o mesmo vigor, não sabia bem lidar com um legislativo hostil e viu sua popularidade minguar e sua governabilidade ir pelo ralo. Isolou-se e fez o inimaginável, “saio da vida para entrar na história”. Adiou em dez anos um golpe militar com o ato.
Os últimos capítulos do livros são todos dedicados a agosto de 1954, talvez os mais dramáticos dias da nossa história republicana. Do atentado a Carlos Lacerda na Rua Toneleiro ao suicídio são paginas eletrizantes, são momentos que beiram ao inacreditável, tem um clima de filme de suspense mesmo que eu saiba o desfecho. Terminei o livro com uma vontade enorme de ler mais sobre o Lacerda, o Brigadeiro Eduardo Gomes, de saber mais sobre o governo do Café Filho, enfim saber mais sobre a nossa história, entender melhor como chegamos aqui e porque estamos repetindo os mesmos cenários. A trilogia biográfica escrita por Lira Neto deveria ser leitura obrigatória. (Getúlio 1 e Getúlio 2)

site: http://cheirodelivro.com/getulio-1945-a-1954/
comentários(0)comente



Silvinha.Teles 21/07/2016

Getulio III
Terceiro livro da bibliografia, o melhor, o mais emocionante. Não pude evitar as lágrimas, mas uma pergunta não foi respondida: Getúlio, foi um herói ou um esperto vilão?
Márcia Naur 22/07/2016minha estante
Estou muito curiosa para ler essa trilogia. :=)


Silvinha.Teles 24/07/2016minha estante
É longa, mas muito interessante.


Márcia Naur 24/07/2016minha estante
:=)


Giselle.Pessoa 23/09/2016minha estante
Toda trilogia é muito bem escrita. Fica muito aparente que o autor possui uma simpatia muito grande por Getúlio Vargas, o que eu mesma tenho e muita.
Esse último livro durante a leitura você sente inúmeras emoções, do choro, ao espanto, a dúvidas sobre os motivos serem egoistas ou não......
Livro Maravilhoso


Diogo 03/05/2020minha estante
maniqueísmo




Giliane.Rosa 04/10/2016

Deixará saudades ...
Enfim, acabou ... Foram praticamente três meses mergulhada na vida de Getúlio Vargas.
Esta trilogia é incrível! Cheia de detalhes e muito bem escrita, faz a leitura ser leve e agradável, e ao mesmo tempo interessante.
Amei saber mais sobre a história de meu país, na voz deste personagem enigmático que foi Getúlio!
comentários(0)comente



Lucas 27/03/2017

Parte final de uma colossal aula de história
O jornalista (e agora grande biógrafo e pesquisador) Lira Neto encerra a sua trilogia sobre a vida de Getúlio Vargas com uma obra à altura das duas anteriores: um livro mais enxuto, que transborda a tensão, o drama, o conflito e, essencialmente, o cansaço que o histórico líder gaúcho sofreu em seus últimos 9 anos de vida.
Após uma humilhante deposição do poder em 1945, em um golpe comandado, entre outros, pelo militar Eurico Gaspar Dutra que assumiu o governo após uma eleição direta, Vargas partiu para um auto-exílio em sua amada cidade de São Borja, na fronteira gaúcha com a Argentina. Amado pelo povo e odiado pela mídia, ele, mesmo à distância, possuía enorme influência na política nacional, reagrupando líderes e assumindo compromissos. Lira Neto lança luz ao "novo Getúlio" que surgia, menos pujante, mais frágil física e até psicologicamente, mas ainda contraditório e muito habilidoso na arte do poder.
A história de todo esse tenso fim de vida é conhecida minimamente pelos brasileiros. É sabido de antemão que Getúlio vem a se suicidar em 1954 (após uma volta triunfal e democrática ao poder), em meio a fortes pressões (muitas das quais justas) da oposição e da mídia, controlada por grupos contrários ao presidente. Sua força, nesse contexto, residia nas ruas: justa ou não, a razão da continuidade do seu segundo governo era o povo, em meio a toda essa ebulição política. Este período final da vida do líder caudilho é o mais conhecido de sua história pessoal, daí a dificuldade prévia que o futuro leitor imagina de Lira Neto tornar a narrativa ainda interessante.
Para alegria dos amantes de documentários e biografias, o autor não só consegue manter esse ritmo apaixonante que o caracterizou nos primeiros livros como transpassa nas entrelinhas o drama pessoal de Getúlio. Se essa parte da vida do líder é a mais conhecida, Lira Neto debruça-se nos detalhes que formaram todo o contexto político da época: a postura de Vargas nos momentos mais tensos, várias versões do que realmente pode ter ocorrido no Atentado da Rua Tonelero, evento decisivo ao suicídio e que não é muito difundido na história, a intensificação da relação do exilado e depois presidente com a sua filha Alzira (tacitamente, ela era o braço direito de Getúlio durante o "retiro"), o relacionamento dele com a sua guarda pessoal, entre outros aspectos não tão divulgados e até mesmo desconhecidos daqueles tempos até então são relatados com minúcia. O autor, em resumo, pormenoriza brilhantemente todos os fatos que levaram Vargas ao poder e os que causaram a sua consentida queda.
Alzira Vargas, filha do meio de Getúlio com a esposa Darci Vargas, é a "coadjuvante de luxo" nessa obra. Seu papel de interlocutora e até conselheira do pai é genialmente retratado pelas dezenas de cartas trocadas entre eles de 1945 a 1950 (Alzira permaneceu no Rio de Janeiro enquanto o pai estava afastado da vida pública). Sua habilidade única de leitura de cenários, de elaborar conjecturas e de julgar corretamente aliados e adversários fazem dela uma versão feminina perfeita do presidente. O autor soube com maestria explorar esse material pouco conhecido, que está no acervo do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. As correspondências entre eles eram repletas de metáforas práticas que resumiam bem o cenário político da época, sendo o grande destaque da primeira metade do livro.
No sentido prático, a obra retrata com muita propriedade o peso da mídia no ambiente político nacional. O fim da ditadura Vargas trouxe consigo o término da censura, muito forte especialmente no meio impresso. Com isso, praticamente toda a imprensa carioca era contrária a Getúlio: antes e durante o seu segundo mandato, foi estarrecedor o bombardeio de críticas, personificadas na figura de Carlos Lacerda, jornalista que se tornou deputado e talvez o maior oposicionista de um governo na história da política brasileira. Sua verve, eloquência e ótima capacidade oratória faziam de suas aparições, seja na tribuna do Palácio Tiradentes (então sede do legislativo nacional), seja em editoriais do seu jornal (Tribuna da Imprensa) verdadeiros espetáculos midiáticos. No entanto, Lira Neto deixa muito claro na obra que muitas dos questionamentos de Lacerda eram consistentes, não condenando enfaticamente o teor de suas críticas. Isto tudo acaba trazendo uma grande reflexão ao ambiente político atual, cujos questionamentos a respeito de uma mídia livre e isenta são comuns: nenhum tipo de aparente "ufanismo" em qualquer ramo jornalístico atual chega perto da contundência e até deselegância com que a imprensa da época lidava com um governo problemático, mas com grande apelo popular.
A grande conquista de Lira Neto com estes três livros não reside no detalhamento, no ângulo por vezes romanceado na descrição de certos fatos ou simplesmente no contar a história da vida do maior político brasileiro do século XX. Sua grande vitória foi transformar uma pomposa biografia em um "pequeno curso didático" de parte da história democrática nacional, realçando o fim da República Velha, que provocou imensas alterações na política nacional, trazendo um sentido maior de unidade ao Brasil. A isenção de seus relatos permite que até mesmo quem nunca tenha admirado o ilustre gaúcho de São Borja leia toda a trilogia sem se incomodar ou cansar. E o que torna isso tudo ainda mais incrível é que o autor não tratou de endeusar ou demonizar a figura de Vargas. Os livros fornecem apenas insumos para o leitor defender ou acusar as práticas getulistas.
Demagogo ou "pai dos pobres", hábil ou "mãe dos ricos", independente de opinião, algo é incontestável: Getúlio Vargas foi o maior político da história da República brasileira. Sua ações nem sempre eram as ideais, mas diante de tudo o que foi exposto por Lira Neto, duas coisas devem defini-lo eternamente: o respeito e o amor à pátria.
comentários(0)comente



GIPA_RJ 14/01/2018

Biografia impecavel
E com este livro 3 fechei está brilhante biografia que me abriu a visão para esta importante é desconhecida época da história brasileira : uma época de Brasil mais pobre e menos corrupto , onde carreira política e enriquecimento não tinham necessariamente nada a ver.
Fui reconhecendo ao longo da narrativa , que nada tem a ver com os chatos livros de história , personagens que só conhecia do nome de ruas cariocas.
Getúlio foi um político muito inspirado e espertíssimo no bom sentido , mas não conseguiu acertar a mão no último mandato . Ficou claro o motivo do suicidio e da célebre frase : "saio desta vida para entrar para a história.
Leiam.
Diogo 03/05/2020minha estante
"menos corrupto"? tu leu mesmo os livros? Getúlio fraudou as eleições presidenciais do Rio Grande do Sul, irmão Viriato criminoso contumaz e assassino impune, patrimonialismo em estado bruto, uso do aparato estatal enquanto meio de favorecimento privado e familiar... era outra época, mas dizer que era menos corrupto?




11 encontrados | exibindo 1 a 11