O Deus que Intervém

O Deus que Intervém Francis Schaeffer




Resenhas - O Deus que Intervém


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Jabesmar 13/10/2016

"O Deus que intervém não existe"
Mauro Meister

Recentemente foi divulgado no Brasil um texto trazendo a expressão que "o Deus que intervém não existe", defendendo um Deus que lamenta, se solidariza, mas não intervém no curso da história. Essa é mais uma investida do teísmo aberto com ares tupiniquins, trazida por pensadores brasileiros que têm recebido fama e acolhida em muitas revistas evangélicas e circuitos de palestras.

O "Deus que intervém" (tradução do título de um livro de Francis Schaeffer para o português, "The God Who Is There") é o Deus da Bíblia e só posso supor que o deus do teísmo aberto não é o Deus da Bíblia. Fico pensando que esse deus é um outro deus e não o Deus que ao longo da história mostrou-se, ao intervir, o Senhor dela, apesar da visível dor humana que tanto nos marca. O problema do deus do teísmo aberto é a sua incapacidade de intervir.

Mas, segundo a Escritura, a intervenção de Deus, no que podemos conhecer dela, começa na criação, ainda que tenha nos amado antes da própria fundação do mundo. A partir de então, não parou de intervir, seja falando, agindo, alterando, mudando, fazendo tudo o que condiz com os seus propósitos eternos. Se a Escritura é de fato a Palavra de Deus, sua revelação, então o Deus que intervém existe e foi o Deus de Jó (homem que sofreu profundamente para aprender quem Deus é e que, finalmente, pode ver a Deus. Mesmo tendo sofrido, viu a graça do Deus que intervém restaurando-lhe).

O Deus da Bíblia é o Deus que é todo amor e justiça, verdade e misericórdia. É o Deus que ama e que é ofendido pelo pecado humano, ao contrário da caricatura criada pelo teísmo aberto, e que pode estar impregnada na mente de muitas pessoas. Aliás, o pecado é a grande ofensa contra Deus e não há como ler a Escritura sem perceber isto. É interessante notar que os teólogos do teísmo aberto tentam usar a Bíblia para provar o improvável por meio dela: o deus que intervém não existe.

Aliás, há uma ironia aqui. O livro de Schaeffer que teve o título traduzido como "O Deus que intervém" literalmente chama-se "O Deus que está lá", o que não faria tanto sentido na língua portuguesa. Schaeffer escreveu o livro com este nome exatamente para mostrar que na cultura do final do século 20, influenciada pelos muitos anos do desenvolvimento científico e cultural do ocidente, Deus tornou-se uma construção ideológica e não o Deus da Bíblia. O Deus que intervém e revelou-se em Jesus Cristo foi transformado pelo racionalismo humanista em um deus impotente, facilmente substituído pela capacidade humana.

Na sequência de sua famosa trilogia, Schaeffer escreveu "He Is There And He Is Not Silent" ("Ele Está Lá e Não Está Calado"), traduzido no Brasil como "O Deus que se revela", exatamente para mostrar que este Deus todo poderoso, o El-Shaddai, sempre controlou a história e se revela, trazendo esperança ao homem. O livro de Schaeffer trata a respeito deste Deus, fazendo uma defesa da epistemologia do cristianismo histórico e bíblico, de "como podemos vir a saber e como podemos saber que sabemos". O deus do teísmo aberto aparentemente se revela só no sofrimento; é fraco, incapaz de alterar qualquer coisa na história. Quando esse deus vê o sofrimento e a tragédia humana, como os acontecimentos recentes das mortes em Ilha Grande, Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, só pode chorar, sem fazer nada. A meu ver, é a “Morte da Razão” tentar defender um deus como esse (o terceiro livro na trilogia de Schaeffer).

O Deus da Bíblia é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó; o Deus de Moisés, Davi, Isaías e Jeremias; o Deus de milhares que foram levados para o cativeiro, anonimamente, sofrendo e, ao mesmo tempo, consolados pela sua presença e certeza de que os traria de volta (senão eles mesmos, os seus filhos, porque ele disse que os traria); o Deus de Daniel, um cativo “de elite” que, ao perceber que havia chegado a hora que Deus disse que iria intervir, orou reconhecendo os seus pecados e os de seu povo e rogando que Deus agisse de acordo com sua eterna aliança (Dn 9). Se o sofrimento do povo de Israel na ida para o cativeiro não foi para cumprir os propósitos de Deus, vamos ter que arrancar a metade dos escritos dos profetas da Bíblia (Isaías, Jeremias, Habacuque etc.). Mas o Deus que intervém ordena a sua bênção para sempre (Sl 133). Bênção esta iniciada na ordem Edênica (Gn 1.28) e alcançada em Cristo, sempre para cumprir o seu eterno propósito.

O deus do teísmo aberto não passa de uma imagem construída por homens e, como caricatura, é uma péssima obra de arte. Mas, o Deus da Bíblia já enviou a sua imagem perfeita (Hb 1.3) para que conhecêssemos o perdão dos pecados, a sua intervenção na história e, finalmente, a redenção de todos os seus eleitos. Assim como fez no passado, continua a intervir hoje, pois ele sempre foi, é, e será o mesmo Deus, queiram os homens ou não.

O deus do teísmo aberto não é o Deus da Bíblia e não é o Deus daqueles que de fato creem nela. O eterno propósito desse deus é chorar com os homens. Pobre deus, pobres homens que acreditam nele.

Para saber mais sobre o teísmo aberto, recomendo o livro de John Frame "Não há outro Deus" (Cultura Cristã) e também o artigo na “Fides Reformata”, “A teologia relacional: suas conexões com o teísmo aberto e implicações para a igreja contemporânea” (Valdeci Santos).


Este artigo foi publicado originalmente no blog O Tempora, O Mores

• Mauro Meister é professor de Antigo Testamento e Coordenador do programa de Mestrado em Divindade do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper

Fonte: Link abaixo:


site: http://tempora-mores.blogspot.com.br/2010/01/o-deus-que-intervem-nao-existe.html
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Lucio 01/08/2016

Um Popularizador da Apologética Pressuposicional - o método existencial de Schaeffer.
ESTRUTURA

Percebemos uma estrutura em três movimentos. Ele começa com uma leitura que ele faz da cultura ocidental de seus dias. Para tal, faz um levantamento histórico do pensamento, começando pela filosofia até chegar à teologia. Acredita que Hegel tenha influenciado o pensamento ocidental a ponto de fazê-lo abrir mão do conceito de verdade, da lógica. Além disso, considerando o mundo de uma perspectiva racionalista o homem deparou-se com um mundo frio, estéril, sem valor, propósito ou sentido. Como isso é impraticável, optou pelo misticismo. Tudo isso começou na filosofia e foi descendo para todas as atividades culturais humanas até alcançar a teologia, no que o autor chama de Teologia Moderna.
Mas, então, Schaeffer apresenta sua apologética na proposta de demonstrar a insuficiência do homem para explicar as questões fundamentais da vida. Seu método consiste em mostrar ao homem que sua visão de mundo não-cristã é carregada de pressupostos que ele não leva realmente a sério. A realidade externa e interna conflitam-se com os pressupostos do pensamento ímpio. Este é um mundo e um homem criados por Deus, pelo mesmo Deus que se revela nas Escrituras. Assim, é de se esperar que as visões de mundo não-bíblica se choquem com a realidade. Todavia, os homens não são, nunca, coerentes com suas cosmovisões pagãs e, por isso, vivem em relativo conforto. O apologista deve pressioná-las, amorosamente, para que vejam-se perdidas e necessitadas de ajuda. É então que surgirá a oferta do Evangelho.
Schaeffer dá pequenas amostrar de como a cosmovisão cristã explica questões que outras cosmovisões não explicam - o teste da abrangência' de Ronald Nash - e, por fim, diz que temos que viver à luz das verdades cristãs para que nossa recomendação surta efeito. Ou seja, a apologética de Schaeffer é existencial e prática. Ao dizermos que os outros não podem viver à luz de seus pressupostos, devemos mostrar que vivemos à luz dos nossos. Se não o fizermos, na prática estaremos negando o que dizemos na teoria.

AVALIAÇÃO

A primeira porção é muitíssimo parecida com o que está presente no livro 'Como Viveremos?' do mesmo autor e, por isso, não nos pareceu tão empolgante. Explora a influência do hegelianismo e kierkegaardianismo em todos os âmbitos da cultura que passou a ser relativista e mística.
O segundo momento foi o ponto alto do livro. Uma apologética existencial e que apela ao 'teste da prática' que aponta Ronald Nash é apresentada quando propõe que apontemos a impraticabilidade das conclusões últimas dos pressupostos não-bíblicos.
Schaeffer peca por certa simplicidade em vários pontos - principalmente na última parte. Ele não pareceu um exímio teólogo e, em algumas vezes, pareceu muito próximo do pensamento arminiano.

REFERENCIAL TEÓRICO

É interessante ver sua cultura em relação à cultura geral, às artes, música, teatro e literatura. Ele também parece ter uma boa noção do que dizem alguns importantes filósofos clássicos como Hegel, Heidegger, Sartre e Camus. Sua interpretação de Kierkegaard não é das melhores. Mesmo assim, é demonstra uma erudição considerável.
Seu referencial teórico é claramente de influência kuyperiana. Salienta o aspecto dos pressupostos - um dos pontos negativos da obra, pois não prova que todas as visões de mundo são carregadas de pressuposições, detendo-se em alegar e partir disso para erigir suas reflexões - bem como propõe um diálogo cultural e científico (no sentido mais abrangente), lato.

INDICAÇÃO

Acreditamos que sua utilidade esteja justamente em popularizar uma metodologia filosófica e apologética presente em filósofos muito mais robustos como Van Til, Clark e Dooyeweerd. É útil para quem já está familiarizado com a apologética pressuposicional ao oferecer novas ilustrações. Mas seu real valor é na simplificação e popularização do que os pensadores de maior monta têm produzido. Quem conhece esses nomes mencionados acima não encontrará novidades no pensamento de Schaeffer.
Tercio.Bastos 01/08/2016minha estante
Excelente, resenha. Embora n tenha lido o livro, me motivou a investir mais em Clark e Van Till rs


Lucio 02/08/2016minha estante
Obrigado, Tercio! Mas eu diria que, antes de ir para Clark e Van Til, conheça bem Kant. No mínimo. :)
Abraços! ^^


Tercio.Bastos 03/08/2016minha estante
Ok, irmao. Obrigado.




Murruga 09/02/2011

O Evangelho para o homem de hoje
Este não é o primeiro livro de Schaeffer que leio, porém, sem sobra de dúvidas, é o que se apresentou como o mais relevante e instigante para a minha cosmovisão cristã.

Scheaffer começa mostrando que a concepção lógica clássica de verdade, baseada na antítese, tem perdido lugar no pensamento moderno e que, através de construções teóricas iniciadas no próprio homem, os atuantes pensadores do século XX têm se enveredado em teorias e universos absurdos. Ao fazer uma rota que passa da filosofia, passando pela arte, pela comunicação de massa e chegando na teologia, o autor mostra como a tentativa frustante de desvencilhar o racional do real faz com que o homem peregrine em uma dualidade anti-lógica entre racional e não-racional sendo que a esfera não-racional do pensamento humano, além da realidade lógica, é a única esperança de validação humana para o homem que vive na linha do absurdo.
Com isso, Francis Scheaffer demonstra as falhas filosóficas de pensamento dos existencialistas, dos misticos e da teologia liberal, chegando à conclusão de que somente a cosmovisão cristã ortodoxa é capaz de dar respostas racionais e paupáveis ao homem atual e que tal resposta deve ser dada de maneira bíblica e pessoal.

Afirmando ser o Deus bíblico a única divindade existente, INFINITA e PESSOAL dentre as outras divindades orientais e ocidentais, Schaeffer salienta a historicidade e a interação humanidade-divindade como um ponto único do Cristianismo que valoriza e "desmaquiniza" o ser humano, dando ao homem a possibilidade real de viver em relacionamento com a sua própria humanidade, pautando-se na "imagem e semelhança" que possue do seu Criador para alcançar o sentido real de sua existência.

Com clareza e muita erudição, o autor demonstra como funciona a apologética pressuposicional e nos mostra como é importante que a mensagem do evangelho seja pregada de forma a alcançar as mentes e os corações daqueles que "detem a verdade pela injustiça". Demonstra também como as pessoas desse século são incapazes de viver logicamente conforme suas próprias pressuposições e que somente a exposição total do homem à sua verdadeira condição de depravação moral e de separação de Deus explicam sua solidão e o absurdo da sua existência.

Termino com as palavras do próprio Schaeffer:
"É necessário que não esqueçamos nunca que a primeira parte do evangelho não é: "Aceite Cristo como seu Salvador", mas: "Deus existe".
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