O cavalo de lata

O cavalo de lata Janice Steinberg




Resenhas - O cavalo de lata


2 encontrados | exibindo 1 a 2


Manuella 23/12/2014

O que une uma família e faz de uma casa um verdadeiro lar são os laços de afeto. Ainda que ocorram desentendimentos ou afastamentos, quando há amor forma-se um elo indissolúvel. Uma mulher em busca de sua irmã gêmea é o mote do livro O Cavalo de Lata (Rocco, 352 páginas), de Janice Steinberg, uma narrativa sensível do cotidiano de uma família comum, que guarda segredos e expõe conflitos.

Aos oitenta anos, Elaine Greenstein é uma aposentada que teve muito sucesso na carreira como advogada e está prestes a sair de sua confortável casa para uma instituição para idosos. Separando documentos da vida profissional, encontra caixas há muito esquecidas, recheadas de recortes da vida simples de sua família na comunidade judaica de Boyle Heights, em Los Angeles. Entre fotos e cartas antigas, depara-se com alguns folhetos sobre Bárbara, a irmã gêmea que fugiu de casa aos dezoito anos, abalando toda a família. As lembranças voltam fortemente num misto de dor, saudade e mágoa, além de muitas, muitas perguntas.

Elaine e Bárbara competiam, coisa comum entre irmãs. Apesar de muito ligadas, tinham personalidades opostas. E é nessa diferença que ambas se revelam, suscitando a ideia de que precisavam se libertar uma da outra para que tivessem suas próprias identidades. E foi isso que Bárbara teve a coragem de fazer: fugiu para encontrar sua liberdade, deixando tudo para trás. Elaine enxergava na irmã uma alma independente, uma mulher forte, bonita e sedutora, bem diferente de sua natureza introspectiva e dedicada aos estudos, alimentando o sonho de chegar à universidade. Sentia-se sempre em segundo plano, uma cópia sem graça comparada à presença ensolarada de Bárbara.

"Eu compreendia, é claro, que a minha irmã gêmea e eu tínhamos personalidades diferentes, e já fazia muito tempo que havíamos definido diferentes interesses e amigos. Entretanto, nossas vidas eram tão interligadas (...). Mas na briga que acabáramos de ter (...) eu tinha sentido vestígios dos nossos eus adultos declarando quem era cada uma de nós, bem lá no fundo. (...) Outra coisa também tinha mudado. Eu tinha enfrentado Bárbara. Encontrara palavras que a tinham feito fugir da discussão. Essa experiência foi estimulante mas perturbadora."

Agarrada ao propósito de descobrir o destino da irmã mais de sessenta anos depois, Elaine começa sua busca pelas respostas que sempre a atormentaram: por que Bárbara fugiu e nunca mais procurou a família? Que teria feito da vida? Ainda pensaria nela?

"Será que ela alguma vez voltou seu pensamento para Los Angeles e imaginou como eu estaria? Ou sempre ocupei um lugar muito mais secundário na vida dela do que ela na minha? Talvez nenhum lugar? Estou prestes a conhecer a resposta para esta pergunta. Eu não quero saber. Não quero me arriscar a descobrir que não significo nada para ela."

Agora Elaine precisará contar com a experiência dos anos de lutas e conquistas nos tribunais para lidar com seus medos. Enquanto planeja os próximos passos em direção ao paradeiro da irmã, duas décadas são revisitadas através de suas memórias. Volta ao passado conturbado para juntar os pedacinhos de sua vida ao lado da indecifrável Bárbara, conseguindo, enfim, compreender a menina que fora um dia e que tentava encontrar seu lugar no mundo. E que o construiu sozinha.

"Bem, eu não sou mais uma criança, tremendo de medo no alto de um escorrega. Se disser a Josh que quero dar meia-volta agora, ninguém vai zombar de mim por ter me acovardado. Eu só queria não me sentir tanto como essa criança, minhas pernas bambas, minhas mãos e pés incapazes de obedecer as minhas ordens." (p. 323)

A narrativa intercala as décadas de 1920 e 1930 com o tempo presente. O texto é de um saudosismo comovente, a protagonista esmiúça os problemas da vida familiar e seus sentimentos ambivalentes de admiração e inveja em relação à irmã. A preferência da mãe por Bárbara (uma mágoa permanente), a influência da tia Pearl na formação das meninas, o avô Zaide e suas histórias, o amigo Danny e o amor dividido pelas gêmeas.

A autora acerta em cheio ao lapidar a pedra bruta do dia a dia familiar, revelando sua preciosidade. Quando disseca as personagens e apresenta ao leitor os sentimentos que carregam, os pensamentos que não ousam revelar, tornando-as tão humanas, temos a impressão que estamos ali, participando de seu mundinho particular. O pai, o avô, as irmãs mais novas e a tia de Elaine e Bárbara são encantadores, mas devo ressaltar a mãe das meninas, que deixa de ser coadjuvante em muitos momentos para roubar a cena com sua personalidade indomável e misteriosa.

Outro ponto relevante do livro são os momentos históricos que marcam a vida da comunidade, como o antissemitismo se espalhando pela Europa e a tensão antes da Segunda Grande Guerra, quando o jovem Danny, amigo e amor de ambas as irmãs, alista-se para lutar. Através desse personagem a autora discorre sobre o sionismo (movimento pela criação do Estado de Israel), além da vida do povo judeu na América.

A necessidade de reencontrar aquela que fora sua metade no ventre materno faz de Elaine uma personagem obstinada. Em alguns momentos me perguntei se não seria mais um capricho por sentir-se abandonada que uma verdadeira preocupação com o destino da irmã. Mas ela surpreende... até revelar-se grandiosa.

O Cavalo de Lata é um livro profundo nas questões humanas, nas implicações das escolhas feitas para o bem ou por omissão (não diria o mal). Além de esclarecedora (do ponto de vista histórico), esta leitura é terna e melancólica quando revisita o passado e abre uma caixinha de lembranças inestimáveis. Sobretudo é uma obra que, pela intensidade dos fatos, prende o leitor, que caminha lado a lado com Elaine na esperança do reencontro com Bárbara e no desejo de respostas. Porque a separação não implica o esquecimento. O amor que une as duas irmãs é um elo forte demais que se impõe ante as divergências.

Link do Livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/409469ED464650-o-cavalo-de-lata
Recadinho da autora: https://www.youtube.com/watch?v=CaGs79INbE4

Resenha publicada no blog Ler para Divertir:
http://www.lerparadivertir.com/2014/12/o-cavalo-de-lata-janice-steinberg.html
Keila 12/01/2015minha estante
Manuh depois da excelente indicação de " A invenção das Asas" irei ler "O Cavalo de lata" como te disse já havia visto o livro diversas vezes na prateleira da livraria , mas hesitava , depois da sua resenha fui lá e comprei, agora já está programado para próxima leitura.Voltarei aqui para contar minhas impressões. Abraço ^.^




Gisele 19/06/2019

Sem desculpas!
O livro segue um rumo legal, mas eu não consegui entender o raciocínio egoista de alguns personagens.
comentários(0)comente



2 encontrados | exibindo 1 a 2