O que não existe mais

O que não existe mais Krishna Monteiro




Resenhas - O que não existe mais


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Amy 20/02/2015

Introdução

Em O que não existe mais, a memória é tema central de uma série de contos (sete) que provocam reflexões e um misto de sentimentos em comum. Uma trama que gera identificação e que aos poucos os questionamentos e reflexões brotam de sua mente.

Eu como leitora assídua de contos e fanática pela temática e os estudos psicológicos, nada mais prazeroso e encantador do que encontrar um livro de um estreante na literatura e que tem muito a dizer.

Sobre Krishna Monteiro

Krishna Monteiro nasceu em 1973, em Santo Antonio da Platina, no Paraná, e esteve rodeado de livros desde pequeno. Depois de graduar-se em economia e obter um mestrado em ciências políticas, optou por entrar na carreira diplomática, em 2008. Foi editor de textos literários da revista Juca – diplomacia e humanidades, publicada anualmente pelo Itamaraty, e cocriador do blog Jovens Diplomatas. Em 2010, tornou-se vice-chefe de missão da embaixada brasileira no Sudão. Morando pela primeira vez em terras estrangeiras, foi tomado por lembranças de outras paisagens e cenas de infância escondidas na memória, e começou a escrever contos, em parte inspirados em sua própria história, em parte inventados, que resultaram no livro O que não existe mais. Atualmente, é Cônsul Adjunto do Brasil em Londres.O que não existe mais é sua estreia como escritor.

Narrativa

Não é uma narrativa para iniciantes, confesso. O uso de uma narrativa requintada e repleta de palavras que não se costuma ouvir e nem ler com frequência. A leitura promove uma série de reflexões, sendo elas a própria existência, a memória, o passado, ausência, lucidez, ilusão… tudo que envolve o imaginário.

O destaque do livro vai para os contos Quando dormires, cantarei e Monte Castelo, ambos bem inusitados e criativos.

Diagramação

O trabalho feito pela editora Tordesilhas, está muito bom. A edição está impecável, a leitura é confortável e a organização também foi muito bem elaborada.

Considerações Finais

O que não existe mais é uma leitura fluída, enriquecedora e muito bem colocada em suas argumentações. Eu como fã de livros de contos, desejo sorte ao autor, pois seu primeiro passo foi um grande acerto. Um estreante da literatura nacional que devemos ficar de olho, pois tem o frescor e as palavras afiadas pra nos encantar e refletir.

site: http://il-macchiato.com/?p=13358
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House of Chick 27/02/2015

São poucas as pessoas que podem se dar conta de quanto as ausências, as faltas e os vazios são mais presentes em nossas vidas do que as presenças, os preenchimentos e as pessoas. Nos marcamos mais com a morte do que com a vida, nos entristecemos mais com a separação do que com o convívio, afinal que tipo de seres somos nós que apenas nos alimentamos de falta e não de presença? O fato é que "o que não existe mais, quase sempre, é o que subsiste; aquilo cuja não existência se torna praticamente insuportável para quem vive do que existe...", essa frase vem do prefácio escrito por Noemi Jaffe do último livro que li, O que não existe Mais, do autor Krishna Monteiro, publicado pela editora Tordesilhas.

O livro é composto por sete contos onde a falta é o fio condutor. Monteiro tem uma narrativa que por diversas vezes beira o surrealismo, como em um sonho onde os fatos se ligam de forma caótica e carregada de significados que se escondem nos mais remotos cantos de nossa mente, e apenas fazem sentido quando nos debruçamos sobre eles. A poética é outra característica de sua escrita que não perde a oportunidade de refletir e aprofundar uma simples descrição.

O primeiro conto trabalha com o luto de um filho, ele se vê na casa onde seu pai morava e percebe que este está mais vivo do que nunca. O conto trabalha a percepção do lugar do pai na sua vida e do porque este morto na verdade encontrasse tão vivo quanto antes de sua morte. A narrativa é feita em segunda pessoa, característica rara, já que o filho conta para o próprio pai sobre a relação deles como em um jogo de esconde - esconde em sua casa.

O próximo conto feito em primeira pessoa talvez seja o mais viagem, e abre margem para mais de uma interpretação. É um homem que ouve o chamado de um médico e o segue por algumas desventuras. A pergunta que fica é: seria o protagonista um personagem dos escritos do médico? Ou na verdade trata-se de uma metáfora da cura que o médico empreende no paciente? O encadeamento de ideias é confuso, o que não permite um fácil reconhecimento da proposta da narrativa.

O terceiro conto é o mais entediante, embora até seja criativo pois trata-se de uma história feita em terceira pessoa sobre uma rinha de galos, sob a ótica do galo que ao mesmo tempo em que luta se lembra das memórias de sua vida anterior em sua casa. Embora no último conto este seja retomado, eu não compreendi muito bem o propósito do mesmo.

O que segue é original porque embora narrado em primeira pessoa, o narrador ao contrário do que costuma-se não é um humano, mas sim um cachorro, que só nos damos conta com o passar das palavras. Ele nos apresenta a sua dona, que parece estar doente e transcreve o momento de sua morte sob sua ótica, ou seja, de forma fragmentada e limitada, em pequenos pedaços.

O quinto conto nos transporta para uma pequena cidade do Rio Grande do Sul, onde o narrador nos apresenta as memórias de sua infância junto ao avô que o apresentou ao mundo, criando memórias que o marcariam e determinariam os rumos de sua vida adulta. Camada após camada, o avô se demora em suas experiências na segunda guerra. Ao mesmo tempo em que percebemos o papel da briga familiar da mãe e da avó que determina os rumos dessa relação. Este é o conto mais long, é divido em cinco partes.

Seguimos com o próximo em sua breves três páginas, onde o narrador aconselha alguém que está prestes a se suicidar a largar sua arma e viver a vida. O sétimo e último conto também trabalha com memórias de alguém que quando jovem ouvia histórias de uma senhora repleta de costumes e crenças. Esta senhora amarra dois contos anteriores, já que é ela quem fala do pai com o filho no Sul, e dos galos de sua casa. Isso foi uma estratégia inteligente e interessante, que nos faz pensar se ela não foi a responsável pelos demais contos também.

O que não existe mais é um livro de contos denso, escrito de forma mais intricada e não é acessível para quem não desenvolveu vocabulário ou sublimação. Nos proporciona muitos momentos de reflexão interna e confusão, mas vale sua leitura para quem quer ir além da zona comum e se sentir em um quadro de Salvador Dalí!

http://goo.gl/a2YXvs

site: Confira esta e outras resenhas no blog: www.houseofchick.com
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Leonardo 17/02/2016

O que não existe mais
Volta e meia recebo propostas de envio de livros por parte de escritores iniciantes ou de agentes literários de escritores iniciantes. Volta e meia aceito essas propostas e me comprometo a ler e a resenhar esses livros. O que me leva a embarcar nesta aventura de ler livros totalmente desconhecidos e que ainda não passaram pelo crivo do mercado e da crítica literária? Uma inclinação natural que tenho pela literatura brasileira contemporânea, como já escrevi por aqui e falei no canal. O pendor que tenho para a escrita acaba me levando também a querer saber o que e como escrevem os novos autores brasileiros que conseguem sua (normalmente) primeira publicação.

Como supõe este parágrafo introdutório, O que não existe mais, de Krishna Monteiro, chegou às minhas mãos por meio do expediente citado. Demorei bastante a ler porque havia uma enorme fila de grandes livros (OS Miseráveis e Moby Dick, apenas para citar dois) e fui empurrando com a barriga, sempre arranjando outro livro para ler antes. Até que a consciência pesou (afinal eu havia me comprometido) e investi algum tempo neste pequeno volume de contos escrito pelo diplomata Krishna Monteiro, que segundo a orelha do livro é atualmente cônsul adjunto do Brasil em Londres.

São oito contos em 107 páginas, todos orbitando o tema do primeiro conto, que também dá nome ao livro: o que não existe mais. São páginas cheias de saudade, de memórias mais amargas que doces, de um gosto às vezes sutil, às vezes mais pronunciado de arrependimento e remorso.

Sim, esta era a sensação que eu tinha à medida que lia e este foi o gosto que ficou ao final da leitura. Agradeci intimamente por terem sido apenas oito contos, porque a tristeza presente nas páginas vai se acumulando e ao final você se sente um tanto esgotado.

O primeiro conto, O que não existe mais, começa assim:

“Na primeira vez que te vi depois de tua morte, tu estavas na sala, de pé em frente à minha estante e aos meus livros.”

É um conto que mistura sonho, devaneio, memórias, saudades que um filho sente pelo pai. Há algo de pendente na relação entre os dois, alguma situação não pacificada, e esta sempre foi uma sensação que me incomodou bastante, porque vivo buscando não sofrer com remorso, sempre tentando deixar todas as situações às claras, bem resolvidas, especialmente no que diz respeito aos meus familiares mais próximos.

O segundo conto, As encruzilhadas do doutor Rosa, é ainda mais onírico e surreal e foi, para mim, ligeiramente inquietante, e não num sentido positivo. Já o terceiro conto, Quando dormires, cantarei, é um dos mais criativos e, apesar de o leitmotiv se manter, a originalidade ao misturar dois narradores de espécies distintas faz com que a história seja das mais interessantes.

O quarto conto, Um âmbito cerrado como um sonho, é outro conto bem surreal, que deixa a nítida impressão de ter sido composto a partir de um sonho cuja trama foi anotada às pressas tão logo o autor se viu desperto. Aqui, mais uma vez o personagem central é um bicho.

Monte Castelo é o conto mais longo do livro e, apesar de sofrer de uma “crise de identidade”, acabou sendo o conto de que mais gostei. Um homem recorda a sua infância, as viagens para a casa de seus avós, os passeios com seu avô, a intimidade silenciosa entre os dois, o convívio dificílimo entre sua mãe e sua avó, as crescentes brigas, o rompimento, as tentativas de reconciliação. Em meio a essas lembranças, ele tenta reconstruir o perfil de seu avô e aí entra o problema da crise de identidade: um dos capítulos do conto simplesmente esquece a narrativa da memória da infância e volta anos no tempo para o período em que o avô lutou na Segunda Guerra Mundial. Um conto deve contar uma história, mesmo que haja múltiplas camadas. Não há espaço para mudanças bruscas, tudo é muito ligeiro, muito curto. Ao viajar para a Europa, o conto sofreu uma desagradável quebra no ritmo. Apesar disso, como falei, foi o conto que mais gostei, por conta dos outros capítulos, que são mais pé no chão que os outros contos do livro. O onírico, o surreal não estão presentes aqui. São memórias não lineares, mas o autor conseguiu me convencer de que um garoto, muitos anos atrás, viveu tudo aquilo.

Sudário é um conto de duas páginas, e nem sei se é exatamente um conto. Parece mais ser um desabafo nascido a partir de uma cena de suicídio, um exercício (muito bem sucedido) de argumentação e de visualização.

Alma em corpo atravessada fecha o livro e mais uma vez a estrutura onírica se faz presente. São memórias muito fragmentadas de uma velha, talvez uma avó, talvez uma mãe, que contava histórias de maneira quase ritualística à beira de um fogão de lenha.

É importante ressaltar que o que dá o caráter onírico/surreal aos contos, mais que a estrutura, é a prosa de Krishna Monteiro. Ele escreve muito bem, numa prosa que me remeteu a algumas passagens do difícil Lavoura Arcaica. O que não existe mais não é, portanto, um livrinho de contos para se ler enquanto ouve música ou enquanto se está distraído, apenas para passar o tempo. Se você fizer isso, terá que fazer como eu, que tive que reler alguns dos contos para saber o que eu realmente tinha lido. A prosa de Monteiro exige atenção e dedicação, e claramente a mensagem que ele quer passar por meio dela é muitas vezes mais importante que a narrativa per si.

Termino com as últimas palavras do livro, que mostram a habilidade do autor com as palavras e dá pistas do que ele pretende com seus contos:

“Amanhã, quando findar esta sessão, quando vocês que compõem minha audiência forem embora, fecharem a porta e estas páginas, escreverei; tomarei nota; darei sequência à luta herdada; apoiado por volumes, livros; absorto como os que exploram pergaminhos; como uma ave que levanta, bate as asas e alça o peito, canta e renasce; como uma pele dura e descarnada, esfolada como um veio que se escava e do qual se extrai a seiva que nos nutre.”

site: http://catalisecritica.wordpress.com
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raposisses 03/12/2016

entre a memória e o que é real (ou não)
"o que não existe mais" é um livro pequeno: de 100 páginas, com sete contos. Assim, logo que me vi com o livro em mãos, imediatamente pensei "ótimo, essa vai ser uma leitura rápida, posso sentar e terminar o livro inteiro de uma só vez". Fui muito inocente, mas pelo menos a ilusão foi quebrada logo, já na primeira página: essa não é uma coleção de contos para ser devorada rapidamente, como uma leitura leve de domingo. Esses são contos que demandam a atenção, e até mesmo uma certa insistência por parte do leitor, para serem decifrados.

Como a sinopse diz, "o que não existe mais" é um livro sobre a memória e solidão. Mais especificamente, sobre tentar capturar a memória, em vão. Todos os personagens dos contos perseguem o passado, tentam revivê-lo, conectá-lo a seu presente, sem sucesso. "o que não existe mais" não poderia ser um título melhor para esses contos, que são todos sobre tentar agarrar-se a algo que não mais existe, ou nunca existiu.

Os setes contos são sobre: um filho que é perseguido pelas memórias sobre seu pai morto, um encontro do protagonista com Guimarães Rosa em uma encruzilhada, um galo de briga que intercala seu presente no ringe com seu passado, um gato acompanhando os últimos momentos de sua dona, a evolução da relação entre um neto e seu avô, uma pequena reflexão onde o autor conversa diretamente com o leitor, e, finalmente, uma senhora contadora de histórias que persegue seu último conto. Todas essas histórias contém protagonistas à procura de algo, em um desespero quase frenético. É um desespero pela conexão - seja a conexão com o outro, ou com si mesmo -, que nunca será concretizada.

Esse tema da busca se reflete na escrita, tão insólita quanto as memórias que os personagens procuram. Em certos momentos o estilo de escrita me passou um sentimento quase alucinógeno. A transição entre presente e passado era as vezes tão sutil, ou confusa, que não sabia se o que estava lendo era uma memória ou se estava acontecendo "de verdade", o que provavelmente era a intensão: na busca frenética pela memória, e na tentativa de conectar o que é "memória" ao o que é "real", ambos acabam se fundindo, e os personagens não terminam com memórias "verdadeiras", mas sim com uma realidade cade vez mais irreal.

Essa não é uma coleção de contos que pode ser lida casualmente, sem atenção. O autor obscurece, camufla, desconversa, passa rápido por tópicos que são obviamente importantes para os personagens; mas nada é feito sem propósito, e a escrita, talvez difícil no começo, é essencial para a atmosfera dos contos.

Dos sete, meus contos favoritos foram (para a surpresa de absolutamente ninguém) o sobre Guimarães Rosa, e o contado pelo ponto de vista do gato. O que eu menos gostei acabou sendo o conto sobre o neto e seu avô, o que me surpreendeu, porque achei que foi o conto mais direto do livro, estilisticamente falando; mas apesar de um pouco confusa no começo, a escrita realmente me conquistou (por algum motivo quero chamar o estilo de escrita do autor de impressionista, mas não tenho conhecimento artístico - ou de teoria literária - o suficiente para expandir essa comparação, além de só comentar que foi o sentimento com o qual o livro me deixou, haha).

"o que não existe mais" é uma coleção de contos pequena em número de páginas, mas gigante em ideias. Sua nominação para o Jabuti 2016 é mais do que merecida, e é uma ótima escolha para leitores que, como eu, estão sempre à procura de novas descobertas literárias nacionais.

site: raposisses.wordpress.com
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Carolina DC 15/03/2015

Delicado e reflexivo!
" O que não existe mais" é um livro com uma temática delicada, que através dos sete contos presentes, fala sobre diversos temas envolvendo a saudade, a perda, as lembranças e a solidão.
Os contos são narrados em primeira e em terceira pessoa. "O que não existe mais", conto que dá o nome ao livro, fala sobre a perda do pai; "As encruzilhadas do Doutor Rosa" também é narrado em primeira pessoa e é um texto mais reflexivo, que permite ao leitor interpretar de diversas formas seu conteúdo; "Quando dormires, cantarei" tem uma perspectiva inusitada e abrange o tema memórias; "Um âmbito cerrado como um sonho" também apresenta uma perspectiva inusitada. A autora abordou nesses dois contos citados anteriormente a visão de um animal para a história (um galo e um cão). Em "Monte Castelo", o narrador fala de sua infância e do importante papel desempenhado por seu avô; em "O Sudário" discute um tema muito delicado: o suicídio e em "Alma em corpo atravessada", último conto do livro, temos uma senhora que é contadora de histórias, mas que a idade torna-se um fator determinante na história.
A escrita de Krishna Monteiro é deliciosa. Ela consegue um equilíbrio entre a reflexão e os sentimentos em seus contos e a escolha da ordem dos contos não é aleatória.
Em relação à revisão, diagramação e layout foi realizado um excelente trabalho. A capa é simples, mas ao mesmo tempo combina perfeitamente com o conteúdo do livro.

site: http://www.viajenaleitura.com.br/
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ricardo_22 25/03/2015

Resenha para a São Paulo Review
Ao olhar para a capa do livro de contos O que não existe mais (Tordesilhas, 2015), de Krishna Monteiro, é provável que se tenha uma ideia diversa do que de fato se encontrará em suas páginas. Não que seja possível chegar a uma conclusão exata, mas há aí a união de um título poético e uma capa relativamente simples.

Em um primeiro momento, é possível se espantar com a escrita de Monteiro. Não por ser um tanto complexa, tampouco por ser incomum para o que podemos considerar padrão num mundo em que grande parte das pessoas busca facilidades e fluidez. O espanto se deve exatamente pelo fato de estarmos acostumados a um estilo que se preocupa muito mais com futilidades do que com o que vale a pena.

A cada novo texto, o autor não está explorando apenas um enredo qualquer, mas sim o que existe de mais profundo dentro de cada narrador. Desta forma, a sensação de aproximação e identificação com as personagens acaba acontecendo naturalmente.

Dos sete contos, em pelo menos dois, identifiquei-me a ponto de colocar-me no lugar do protagonista. Um dos casos é exatamente o conto que abre e dá título ao livro. Ao trabalhar com o luto, o autor está na verdade retratando sentimentos que todos nós enfrentamos ou enfrentaremos em algum momento de nossa trajetória.

É bem verdade que existem contos que exigem grande atenção. Até mesmo uma provável releitura. É o caso de “As encruzilhadas do doutor Rosa”. No entanto, a maioria pode ser vista como original e isso faz toda diferença. É o caso de “Quando dormires, cantarei” e “Um âmbito cerrado como um sonho”, dois exemplos que ressaltam o poder criativo de Krishna Monteiro ao dar voz aos mais improváveis tipos de narradores: um galo de briga e um gato.

O que não existe mais talvez seja um livro para poucas pessoas. Mas é para todos os leitores. Seus contos nos levam aos mais diversos tipos de reflexão, desde o relacionamento com o próximo até o modo como encaramos determinados temas, como o suicídio em “O sudário”. Só é necessário estar preparado para o que o livro pode oferecer e, mais do que isso, saber o exato momento de encarar cada conto. Se não hoje, amanhã ou quem sabe depois. Mas é bom encará-los!

site: http://saopauloreview.com.br/2015/03/25/resenha-o-que-nao-existe-mais/
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Aline T.K.M. | @aline_tkm 11/04/2015

Sensível
Sensível. É assim que eu definiria O que não existe mais, livro de estreia do brasileiro Krishna Monteiro, que já atuou em outras áreas e segue carreira diplomática.

Nos sete contos que compõem o livro, nos deparamos com a solidão, as lembranças, as ausências. Um galo de briga que rememora seus dias no momento de um combate, um filho perante as memórias – a presença ausente – do pai falecido, uma senhora que contava histórias no sítio, a relação entre um neto e seu avô – antigo soltado que lutou na Itália na Segunda Guerra.

A figura do narrador varia e surpreende – em um dos contos temos um galo de briga como narrador personagem –, oferecendo ao leitor uma perspectiva sempre singular dos fatos relatados. Contudo, a impressão que se tem é de que os contos se entrelaçam uns aos outros; embora de forma implícita, notamos personagens unidos por alguma relação ou, ainda, que coabitam um mesmo espaço.

A atmosfera melancólica se faz presente do início ao fim, revelando-se companhia perfeita para o texto pungente e marcado por um tom poético gostoso de ler. Como disse lá no início, a sensibilidade é o sentimento que domina a narrativa, acompanhada pela constatação do efêmero, de que tudo um dia desvanece. Cada um dos contos, de uma ou de outra maneira, remete a tais sentimentos.

Apesar de diminuto, O que não existe mais não é aquele livro que se lê numa sentada. Introspectivo, requer atenção, reflexão e um momento dedicado à devida apreciação do teor poético presente nas linhas. Tampouco é uma leitura que se sai recomendando por aí, sem critérios; mas é, sim, ideal para aqueles momentos bem específicos em que tudo de que precisamos é um livro que nos fale diretamente à alma.

LEIA PORQUE...
Bastante poético; para os leitores que gostam de saborear lentamente cada trecho, e depois perder-se em pensamentos. E, sobretudo, para os que não precisam de um texto extremamente ágil para manter-se focados.

DA EXPERIÊNCIA...
Forma e conteúdo muito belos. Porém confesso que, vez ou outra, a lentidão de alguns momentos me obrigava a retornar algumas páginas – e até a ler determinado conto uma segunda vez. Não me encantou, apesar da beleza e do valor inquestionável da narrativa.

FEZ PENSAR EM...
“Viagem na Família”, poema de Carlos Drummond de Andrade que aparecem em epígrafe no conto que dá título ao livro:

No deserto de Itabira
a sombra de meu pai
tomou-me pela mão.
Tanto tempo perdido.
Porém nada dizia.
Não era dia nem noite.
Suspiro? Voo de pássaro?
Porém nada dizia.


site: http://livrolab.blogspot.com
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Alexandre Kovacs / Mundo de K 03/06/2015

Krishna Monteiro - O que não existe mais
Editora Tordesilhas - 112 páginas - Prefácio de Noemi Jaffe - Lançamento: Fevereiro 2015.

Já disse uma vez o poeta Manoel de Barros que "as coisas que não existem são mais bonitas" (poema Mundo Pequeno), pois o jovem autor estreante Krishna Monteiro nos ensina agora uma coisa que já deveríamos saber também, que a lembrança deixada pelas coisas e pessoas que já não existem permanece existindo e se renovando em nossa memória. O tema e a capa desta edição podem induzir uma ideia de simplicidade, no entanto a criatividade na construção dos sete contos que compõem este livro chama a atenção pela ousadia, exigindo atenção redobrada para perceber as sutilezas entre o que é revelado e, principalmente, não revelado pelo autor em um jogo de descobertas que provoca todo o tempo a imaginação do leitor.

O primeiro conto que empresta o título ao livro explora a vertente mais óbvia da ausência — a dor e o desajuste de um filho diante da morte do pai. O sentimento de perda e a lembrança estão ainda tão presentes que o filho questiona a realidade e chega a pensar que ele sim é o morto, enquanto o pai permanece vivo. Quem já passou por uma experiência de perda familiar vai se identificar de alguma forma.

Mas é em "Quando dormires, cantarei" que Krishna Monteiro encanta pela coragem ao fazer do seu narrador um galo de briga lutando pela vida em plena rinha, enquanto relembra toda a sua vida até aquele momento. A narrativa vai intercalando os momentos de dramaticidade da luta mortal com as lembranças do galo, no seu entendimento parcial do mundo e da humanidade covarde que é capaz de promover uma atividade como aquela. É preciso muita técnica para um escritor arriscar um conto como este.

"Monte Castelo" é uma bela história de amizade entre neto e avô que se afastam por desentendimentos familiares, mas permanecem ligados pelas memórias que o avô transmitiu ao neto do famoso combate com a participação dos pracinhas brasileiros na Segunda Grande Guerra. A epígrafe, citação de Clarice Lispector, adverte para os riscos da lembrança: "Escrever é tantas vezes lembrar do que nunca existiu."

Krishna Monteiro nasceu em 1973, no Paraná. Graduou-se em economia e fez mestrado em ciências políticas. Depois de uma breve passagem pelo jornalismo, em 2008 ingressou na carreira diplomática. Entre os anos de 2010 e 2012 trabalhou com vice-chefe de missão da embaixada brasileira no Sudão. Atualmente é cônsul adjunto do Brasil em Londres.
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Aguinaldo 18/10/2015

o que não existe mais
Nos sete contos reunidos neste pequeno volume Krishna Monteiro sabe mostrar seu domínio da linguagem e uma imaginação realmente poderosa. Numa história ele dá voz a um homem em coma ("As encruzilhadas do doutor Rosa"); noutra a um galo de rinha ("Quando dormires, cantarei"); noutra a um cão ("Um âmbito cerrado como um sonho"); noutra ainda a consciência de um suicida ("O sudário"). Nas demais o narrador é alguém mais crível, verossímil, familiar: um jovem angustiado com as memórias de seu pai ("O que não existe mais", que dá nome ao livro); um rapaz que conta o amor e as memórias compartidas de um avô (em "Monte Castelo", o mais longo dos contos do livro) ou um outro rapaz que descreve um mundo que desmorona e brota das lembranças de sua avó ("Alma em corpo atravessada"). As dúvidas de todos os narradores são metafísicas, pouco contato têm com a vida prática, com os problemas do cotidiano. De fato Krishna Monteiro escreve bem, mas os contos parecem artificiais demais, impessoais demais, exercícios estilísticos ou divertimentos de alguém que aprendeu a usar uma técnica e não sabe exatamente o que fazer com ela. Mas não são assim todos os livros de estréia? Talvez seja o caso de acompanhar o que irá oferecer no futuro esse habilidoso autor de nome improvável.
[início: 13/07/2015 - fim: 15/07/2015]
"O que não existe mais", Krishna Monteiro, São Paulo: editora Tordesilhas, 1a. edição 92015), brochura 14x19 cm., 110 págs., ISBN: 978-85-8419-027-0

site: http://guinamedici.blogspot.com.br/2015/07/o-que-nao-existe-mais.html
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Maria - Blog Pétalas de Liberdade 19/07/2016

O que não existe mais
"'Pode ser que ela o acolha, pode ser que o mate', Conceição dizia. 'Trata-se do filho de outra mãe, ninguém sabe quais serão suas penas.'" (página 37, conto "Quando dormires, cantarei")

"O que não existe mais" é um pequeno livro composto por sete contos, alguns maiores, outros menores, todos falando sobre algo que não existe mais, algo que ficou no passado, na memória, lembranças e saudades. O primeiro conto é o que dá nome ao livro, mostra um filho atormentando após a morte do pai. O terceiro, "Quando dormires, cantarei", traz como protagonista um galo, algo que eu nunca tinha visto antes, e Krishna Monteiro continua surpreendendo no próximo conto, "Um âmbito cerrado como um sonho", onde um gato é o narrador. E aí vem "Monte Castelo", o maior texto do livro e o meu preferido, onde um neto relembra sua história com o avô, um figura importante em sua vida e talvez a única boa relação daquela família.

"Daqui, posso vê-la fechar suas páginas, tampar a caneta, beber um gole da taça a ela oferecida, contemplar o imenso mundo à sua volta e, finalmente, falar, compartilhar segredos, embalada pela sinfonia de cantos e vozes que paira em torno das quatro sentadas à mesa." (página 54, conto "Um âmbito cerrado como um sonho")

A escrita de Krishna Monteiro é bela, isso é inegável! Ele parece ter escolhido com cuidado as palavras que iria usar. O autor usa bastante do irreal, do fantasioso em seus contos, e talvez por isso algumas das histórias tenham trechos incompreensíveis para alguns leitores (grupo em que me incluo), significados que só seriam claros para o autor e seus personagens, mas esses personagens fazem parte do que não existe mais, do que ficou só na lembrança. É como se alguém estivesse nos contando uma história que aconteceu há muito tempo, mas não nos fornecesse todas as informações, e tivéssemos que nos conformar com o dito, mesmo com lacunas.

"Mal sabia ele que, transmutando aos meus olhos os cães em inimigos, ele sem querer escrevia o primeiro ato de minha longa guerra particular com o mundo, da qual ele próprio, tempos mais tarde, também participaria." (página 61, conto "Monte Castelo")

A editora Tordesilhas fez um bom trabalho com a obra: a edição é um pouco menor na altura, a capa é muito bonita (e foi o que inicialmente me fez querer ler o livro), as páginas são amareladas e porosas, as margens, letras e espaçamento tem um bom tamanho, e não me lembro de ter encontrado erros de revisão.

Enfim, fica o meu agradecimento à agência literária Oasys Cultural por ter enviado o exemplar para resenha no blog, e a recomendação para que vocês leiam "O que não existe mais" e conheçam a escrita linda do Krishna Monteiro; certamente algum dos contos vai encantá-los, e talvez vocês encontrem significados diferentes dos que encontrei e possamos conversar sobre eles.

site: http://petalasdeliberdade.blogspot.com.br/2016/07/resenha-livro-o-que-nao-existe-mais.html
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vortexcultural 07/08/2016

Por Thiago Augusto Corrêa
Como narrativa de menor fôlego em comparação a um romance, a análise de um conto pode se tornar delicada quando há a necessidade de inseri-lo em um contexto maior através de uma obra literária. O conto atrai o leitor de maneira diversa a de uma narrativa longa e, devido a necessidade de um mesmo livro conter contos diversos, a análise de uma obra de contos pode ser mais difícil devido a unidade temática. Como diversas leituras distintas se apresentam em um mesmo livro, cabe ao leitor se preparar para diferentes narrativas para absorvê-las em totalidade. De qualquer maneira, há grandes livros de contos que não atingem seu ápice completo devido a oscilação de qualidade interna.

A unicidade narrativa é um dos destaques de O Que Não Existe Mais, primeiro livro de contos do jornalista e diplomata Krishna Monteiro, lançado pela Tordesilhas no início do ano passado. Formado por sete narrativas breves, o livro tem prefácio assinado pela crítica Noemi Joffe, a qual desenvolve uma linha temática semelhante ao tema que abarca a obra.

É um tempo anterior e passado a referência primordial que atravessa a composição poética das narrativas. Exceto por um dos contos, todos se iniciam com uma citação, desenvolvendo um preâmbulo da história a ser lida. A narrativa de Monteiro é fluída e bem composta, movimentada por gatilhos emocionais que atingem o leitor pela sensibilidade. No conto de abertura, cujo nome é homônimo ao livro, é a memória a base para o diálogo entre um filho e um pai morto. Lembranças suficientemente fortes para recompor a trajetória do pai pelo tecido memorialístico. Em linguagem formal que mantém a segunda pessoa de tratamento, a qual demonstra o respeito do filho pelo pai, a ausência invade a narrativa.

Leia a crítica completa no Vortex Cultural.

site: http://www.vortexcultural.com.br/literatura/resenha-o-que-nao-existe-mais-krishna-monteiro/
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Blog De Bem Com a Leitura 08/11/2016

Um livro com contos de diversos temas e em cada um deles podemos perceber a linguagem poética e profunda. O conto que dá título ao livro, O Que Não Existe Mais, é o primeiro e aborda um tema que pode ser inquietante ou curioso para alguns, mas também pode ser fascinante para outros, depende da opinião de cada um. Um filho foge da lembrança de seu pai, que o persegue pela casa.
"Não me agradava a família inteira reunida no círculo em torno de tua presença, o cortejo em que nós, crianças, nos espremíamos até o terreiro, onde tu, pressionando todo o peso dos joelhos sobre a garganta do animal, cortava centímetro a centímetro por entre a lã branca, vertendo o jorro de sangue na vasilha que todos nós dividiríamos, boca a boca, ombro a ombro, mão a mão."

Os demais contos também abordam temas fortes mas de maneira bem diferente desse primeiro. Podemos encontrar textos mais reflexivos ou mais sentimentais e em dois contos quem narra são dois animais, um galo e um gato. Nesses, nós temos um olhar completamente diferente para determinadas situações, relatos que não imaginaríamos se vistos por nós mesmos.
"Conceição arrancava as penas, lançando-as ao ar. A luz as atravessava antes que elas pousassem; ele reconhece sua cor, sua textura, procura a palavra exata para nomeá-las e de repente diz para dentro de si: Madrepérola."
"Minhas unhas saltam, escapo deslizando pelo assoalho e, antes dela respirar mais uma vez, estou sobre a escrivaninha, oculto entre os livros, o tinteiro, os papéis, farejando à distância sua angústia."

Na obra, também encontramos situação que podem ser bem conhecidas para alguns leitores, ou a maioria, que são as brigas familiares entre parentes que se amam mas que estão sempre discutindo. O que não falta em todos os contos é simbologia, o autor faz um bom uso dela mas pode ser que em alguns momentos fique um pouco confuso para quem não estiver atento ao que estiver lendo.

Leia mais no link http://vocedebemcomaleitura.blogspot.com.br/2016/11/resenha-o-que-nao-existe-mais.html

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Leitora Inquieta 30/01/2017

O que não existe mais
Adoro livros que falam sobre questões existenciais. E essas questões, muitas vezes tão comuns, podem ser retratadas de diversas maneiras e escritas para públicos variados. A vida, o sentido dessa vida, a morte, a repercussão desse deixar de existir, a família e seu papel na construção da nossa personalidade, o ser o que se é... Tudo isso me interessa. São temas comumente encontrado em romances, fantasias, distopias, ficções ou livros de terror. A literatura e a arte de maneira geral costumam transformar o comum em belo.

O que não existe mais, livro de estreia de Krishna Monteiro, permite que o leitor entre em contato com diversos desses temas, distribuídos em sete contos. A principio o leitor pode imaginar que cada uma dessas histórias, por se passar em tempos distintos, com ambientações diversas e narradores muito diferentes entre si, falará cada uma sobre um determinado assunto. De certa forma falam, mas penso que a essência de todos os contos é basicamente a mesma: a dor, a falta, a ausência, a saudade... Tudo aquilo que fica quando algo ou alguém se vai.

A unicidade da escrita, poética, sensível e cheia de significados, pode assustar o leitor acostumado a narrativas mais simples ou diretivas. E essa escrita única atrelada à viagem existencial que o livro propõe ao leitor, mesmo que de maneira inconsciente, transforma esse livro diminuto – no que diz respeito ao tamanho físico - em uma obra por vezes difícil de ler. Isso porque, quem, afinal, gosta de encarar a certeza da finitude? Quem aprecia ter escancarada a dor da ausência daquele que se foi, aquela dor que a gente tenta encobrir com sorrisos nem sempre sinceros? Quem acha fácil perceber que tudo aquilo que não foi, poderia ter sido, se tivéssemos feito algo diferente? Que acha fácil dar o último adeus, seja a alguém querido ou a si mesmo? Poucas pessoas, acredito.

Cada narrador alcança o leitor de alguma maneira, seja esse narrador um filho, avô, neto, gato, galo; cada conto cumpre seu propósito de tocar o leitor – uns mais fortemente que outros – e promover um estado de introspecção reflexiva que pode tanto doer quanto ser libertadora. O que não existe mais é um livro para se ler devagar, quando o tempo não é exigente e o coração está aberto. É um livro que indico para quem não se importa em vivenciar esse tipo de imersão nos sentimentos. Para quem gosta de textos mais filosóficos e densos, mas com beleza singular.


site: http://www.leitorasinquietas.com.br/2017/01/resenha-o-que-nao-existe-mais.html
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Léo 26/04/2017

Profundo e extremo. Um livro encantador.
Assim que o livro foi indicado para leitura, já pude perceber o valor de seu conteúdo para o mundo atual pois seu título sugestivo faz o futuro leitor considerar tantas vertentes para a palpitante sociedade mundial que o prazer em ler a obra cresce instantaneamente. Ao iniciar a peregrinação nas letras de Krishna e suas ilustres figuras, pude entender toda a atmosfera envolvente e contagiante que transborda literariedade por todos os seus prismas. Os contos O que não existe mais (que intitula o livro) e Monte Castelo, são os destaques dessa obra que apresenta ao leitor, sete contos lindíssimos e muito agradáveis para se ler, refletir e sentir.

Esse mesmo ar literário poético encontrado nos arranjos literários do autor, já poderia também ser sentido nas palavras que preenchem o espaço dorsal da parte exterior do material. Ali, a pequena imperatividade em conotação graciosa e harmônica, encanta o leitor e reverbera um instante muito importante antes mesmo da leitura de seu âmago ser iniciada. O autor, ainda, tão vivaz quanto o poeta a escrever, lança para fora toda a subjetividade de um título literário à sua obra, onde a própria imagem já fala por si só. Logo, as memórias se acendem e o sentimento se renova a cada olhar, a cada imagem trazida de longe, refeitas com perfeição em uma nova interpretação do real no fictício. Krishna Monteiro embate a amargura do presente com velhas recordações que revivem instantes importantes, dramáticos, substanciais e até ambíguos. O sentimento de dor, de perda... a saudade que fere, que mora ao lado, que existe mesmo depois que 'Tu' não exista mais.

O narrador, tão melancólico e saudosista, que expulsa seus sentimentos em forma de palavras alinhadas nas entrelinhas de uma jornada inteira, que mesmo depois da falta da existência, continua o ato de existir, a inteirar-se de uma jornada a qual muitos leitores sensíveis, casmurros, que sentem a necessidade de buscar ao longe, o distante tão perto de si. Encontra-se o próprio autor em cada pedaço de conto, em cada trecho lido, em cada situação experimentada.

A narrativa frenética e sedutora, cala o leitor, remete-o para o núcleo das histórias, permite-o alcançar personagens, autor, fatos, ambientes e emoções. Há muito, o site não encontrava uma obra contemporânea tão fiel à nossa literatura nacional clássica, semelhança encontrada ao ler: ''Levanto-me, colho em minhas mãos essa luz... Ao fim da escada, parado defronte ao espelho, certifico-me de que tu, de que teu olhar, não mais habita os limites daquela moldura... talvez sejas eu o morto e sejas tu o vivo, que eu não mais exista e tu sim...''. Certamente, para tais palavras grafadas que constituem a obra em si, faltam outras palavras, estas meritórias, para definir com perfeição a qualidade e a grandiosidade da obra. Vê-se o velho amado "Tu"; um médico que chama; o campo, o cheiro noturno do sereno, a voz que reclama... personagens, elementos e lembranças vivas pela eternidade.

As idéias dos detalhes em expressões rebuscadas dão à escrita de Monteiro a beleza única capaz de engenhar todos os contos com facilidade e sensibilidade. O verdadeiro poeta que escreve relembra, ressuscita, sente, comunica, transborda-se para o próximo em busca apenas de reviver o que não existe mais, que por sinal continua a viver mesmo em suas mais profundas ideologias e lembranças. O mesmo pacto que sela o acordo de João Guimarães Rosa nas encruzilhadas da vida, reveste as marcas de admiração do leitor pelo poeta saudosista, à sua viagem pelo íntimo dos narradores descobrindo as suas fraquezas, dúvidas, melodias, nitidez... ''Agarro-me às rédeas e ao dorso que treme e toma impulso entre minhas pernas... A seus pés, cidades e reinos germinam... Aponto em direção ao vale. Minha mão direita estendendo-se para além de mim e de nós, pousa sobre o semblante daqueles rios e planícies...''

Em O QUE NÃO EXISTE MAIS expressa-se também a visão diferenciada de um personagem inusitado; joga-se as expressões, os trejeitos, os atos, aquilo que forma o instante. As poucas falas nas narrativas deixa claro a necessidade de se contar os sentimentos, as sensações. Elas se assemelham e, em instantes, se entrelaçam, trazendo de volta temáticas como o amor pela vida e por sua continuidade, a necessidade da luta pela sobrevivência, a certeza do fim, a permanência daquilo que, em algum momento, um dia, já foi o presente. O autor desenha, como em um quadro perfeito e em cores, os instantes apagados, a felicidade em branco e preto, imortalizando a mente, ferramenta capaz de desprender a figura até o mais distante pensamento. A imagem do avô que em meio a época de conflitos da guerra dá a ternura ao neto que o ama é, sem dúvida, um dos momentos mais belos e profundos das narrativas. O trecho ''Ansiava por mostrar a ele os retratos que fizera de minha casa, de minha escola, das mudas de árvores acolhidas no jardim. E dele próprio, velho, sozinho, curvado sobre a cômoda...'' marca um desses instantes. Assim como ''Muitas vezes, conversávamos. Noutras, nos sentíamos perfeitamente à vontade nos silêncios, e talvez seja por isso que até hoje a ausência de qualquer som me conforte. O silêncio. Sempre o busquei.'' dá ao narrador a marca de solidão, muito encontrada comumente nos escritos dos poetas mudos.

Realmente é de se admitir que a harmonia das palavras beira a chegada ao Paraíso e mostra ao leitor uma sensação única e, por vezes, inenarrável, inexplicável, de voltar a um passado nunca visto, e ter a certeza de tê-lo vivenciado em alguma etapa da vida. É possível sentir, ouvir, ver e admirar, fitando os olhos, sem piscar, a beleza e ternura reencontrada em pequenos gestos. O que falta para o mundo hoje é exatamente o que não existe mais... essa ânsia pela beleza da rememoração; essa vontade de não deixar se perder no espaço criado pelo passado — entre ele e o presente —, os medos, os desejos, as emoções, o amor, a paixão, o choro, os motivos verdadeiros, a vergonha na ponta da língua, e esperança do velho ou mancebo; essa vontade de não deixar se perder, em nenhum momento, o dom de ser humano, de contagiar com aquilo que, para alguns, não presta mais ou nunca importou...; essa vontade de fazer o bem, de explorá-lo em sua magnitude, de largar a arma e pôr o revólver no chão...

O autor, com todo o seu talento e tato — literário e humano —, contagia ao contar O QUE NÃO EXISTE MAIS. Ler a obra, ainda que em poucas horas, é entender a beleza e importância da renovação das lembranças em forma poética, sensível. Depois da leitura, certamente, O QUE NÃO EXISTE MAIS ainda existirá nos timbres cognitivos do leitor mais apreciador do mundo das sensações e das lembranças.

''Foi a época em que aprendi a codificar a fala numa caligrafia desenhada, lenta. Levava horas para preencher uma folha, que minha mãe colocava sem ler num envelope e despachava no correio... eu, orgulhoso de meu novo dom, sofria menos do que se poderia imaginar, pois era dele a voz trazida pelas cartas que chegavam todo mês... havia sempre um envelope menor, colorido, que minha mãe me entregava para que eu lesse só, sem interferência. Naquela guerra, ao menos em seu início, pouparam-se os inocentes.''

site: www.marcasliterarias.com.br
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RUDY 04/11/2017

RESUMO SINÓPTICO/ANÁLISE TÉCNICA
O livro traz sete contos que aparentemente não tem conexão uns com os outros, entretanto, trazem sentimentos similares: um passado de nostalgia e lembranças amargas; sentimentos de perda, grande melancolia, arrependimento e remorso.

CONTOS:

O QUE NÃO EXISTE MAIS – Pai falecido que assombra o filho através de suas lembranças e do gosto pelos livros.

AS ENCRUZILHADAS DO DOUTOR ROSA – Fala sobre querer algo e se deixar levar pelo desejo, é uma homenagem a Guimarães Rosa.

QUANDO DORMIRES, CANTAREI – As desventuras e sensibilidade de um galo de briga.

UM ÂMBITO CERRADO COMO UM SONHO – Um sonho dentro de outro narrado pelo gato.

MONTE CASTELO – Relata desentendimento entre o neto e o avô que se amam e vivem discordando.

O SUDÁRIO – Conto mais curto e mais profundo, traz analogias sobre o suicídio e a libertação dos pensamentos negativos que rodam a mente humana.

ALMA EM CORPO ATRAVESSADA – tem relação com o galo, uma contadora de histórias que mostra a dificuldade do ofício literário, já que mistura realidade e ficção e traz analogia com as vontades de deixar o legado para quem lê.


Devo dizer que o livro embora seja curto, é profundo e intenso; exige atenção, concentração e dedicação na leitura, para que não se perca os detalhes descritos nas entrelinhas que demonstram todo sentido da perda que causa o vazio, traz uma tristeza devido as lembranças e memórias melancólicas, por se saber que não existirão mais tais lembranças em nossas vidas.



O leitor pode ou não se identificar, já que alguns contos, mesmo ficcionais, trazem situações cotidianas e de relação familiar, brigas, discussões, devaneios, relacionados a pessoas que se amam. O livro tem um sentido mais amplificado e profundo, diante das mensagens subliminares descritos pelo autor e trazem um sentimento de tristeza, uma melancolia póstuma após a leitura e grande reflexão sobre tais mensagens.



As interpretações são feitas de acordo com as experiências individuais, podendo assim, trazer várias vertentes emocionais e todas trazem de alguma forma, certo entendimento interior. E não é um livro de fácil leitura, porém é um livro delicado, sensível e de certa forma poético que toca fundo as almas mais sensíveis e sensibilizadas pelas vicissitudes que a vida traz.

É um livro para ser degustado aos poucos, de reflexão profunda e sentimentos profundos, entranhados na alma...

site: http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/2017/06/resenha-40-o-que-nao-existe-mais.html
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